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quinta-feira, 25 de maio de 2017

Descrição de Dona Lucilia

Há nela uma calma, uma espécie de estar à margem do fluxo da vida, da trepidação, da torcida. Isto é, uma manifestação fora da efervescência e da torcida e uma elevação de alma para aprofundar-se. A importância que isto tem no recolhimento, condição prévia para a reflexão! A alma recolhida é aquela que, quando não está com os outros, não está só, está com seu mundo interior, pensando. Não é separar-se do convívio para pensar, mas é, neste convívio, conviver com os outros.
Uma coisa que estava muito nela, era o respeito e a confiança no superior a qualquer título. A ideia que ela fazia dos pais era algo mitificado, com um respeito e uma confiança extraordinários. Nunca notei nela sinal de tristeza porque outro tivesse mais.
Muitas vezes alegre e nunca se lamentando com sua própria situação. Era muito mais dela a comunicação de uma graça do que a obtenção de uma graça, o que equivale ao vitral com a luz. Isto nos é transmitido como existia nela e como ela via.
A pessoa quando se aproximava dela tomava toda esta doçura, que é a atmosfera da alma daquela que ama Aquele que é mais do que ela. Sabia tornar se doce, o que era venerável. A gente se aproximando dela, sua doçura fecundava e convidava. Basta ver o Quadrinho. Uma pessoa tendo uma tal intimidade, que uma mocinha de 15 anos poderia ter uma prosa com ela, se assim quisesse. Ela era dotada da capacidade de ver em tudo a imagem e semelhança de Deus.

Plinio Corrêa de Oliveira

sábado, 20 de maio de 2017

Eixo e modelo de todo verdadeiro afeto

Conclusão dos posts anteriores
Esteio temperamental e afetivo de nossas almas
Toda criatura humana que tem um pouco de bom senso compreende não haver afeto humano que não decepcione. Mas nem por isso se vinga, fica amarga, agressiva, deprimida; porque, se é verdade que nós, ao fazer bem aos outros, não somos pagos como teríamos direito, é certo que Nosso Senhor paga. Porque o bem que nós fazemos aos outros é feito a Ele, e principalmente, por Ele. De maneira que Jesus toma em todo devido valor o nosso afeto, recompensa um milhão por um, nos cumula torrencialmente do afeto d’Ele, e o que os outros tenham ou não tenham feito de nossa bondade é secundário.
Isso é o que cura de todo calvinismo; fica-se outro quando se toma isso em consideração. Sobretudo quando se concebe, ao lado ou abaixo do Coração de Jesus, o Coração Imaculado de Maria. Nosso Senhor é Pai, Nossa Senhora é Mãe, e tem essas ternuras, essas condescendências, esse superávit de bondade que o coração materno possui.
Ninguém pode nos amar mais do que Nosso Senhor. Maria Santíssima, portanto, não nos ama mais do que Nosso Senhor. Mas certas formas de amor, que são próprias da mãe, Ele quis mostrar que tem, dando-nos a Mãe d’Ele, para que n’Ela nós víssemos o que há a mais n’Ele que não se pode ver.
Então, os Sagrados Corações de Jesus e Maria são o esteio temperamental e afetivo de nossas almas. 

Plinio Corrêa de Oliveira – Extraído de conferência de 12/12/1984

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Eixo e modelo de todo verdadeiro afeto

Continuação dp post anterior
Mentalidade hollywoodiana: busca do interesse e do prazer
Dª Lucilia com o neto
É exatamente o que começou a ser contestado no mundo, logo depois de eu ter iniciado a conhecê-la, não com aquele conhecimento instintivo que uma criança tem de sua mãe, mas quando, como filho, comecei a analisar, a admirar e a querê-la bem.
O sistema hollywoodiano de viver é a negação de tudo isso, porque ele importa em uma vida apressada, de corre-corre atrás do interesse e do prazer, onde não há tempo nem desejo de deter a atenção em valores dessa ordem, e uma vida que se detém nesses valores parece fracassada e balofa. A alegria saracoteante deve dominar toda a existência, e o homem precisa ter um otimismo egoístico, na contínua esperança de que vai conseguir tudo aquilo que ele deseja para si.
A outra pessoa com que o indivíduo se relaciona desempenha um magro papel dentro disso. Ele quer ter um automóvel, uma casa, um avião, quer fazer viagens, enfim, divertir-se; e todo esse afeto fica à margem, nas franjas da vida, importando cada vez menos, enquanto o egoísmo vai tomando conta da existência.
E o verdadeiro afeto tem qualquer coisa de tristonho, porque as condições desta vida levam a compreender que devemos uns aos outros uma estima, a qual entende bem que o outro sofre e nós sofremos também, e que temos de nos ajudar a carregar o peso da vida. O saracoteio hollywoodiano não comporta isso.
Quando analisamos a imagem do Coração de Jesus, vemos uma postura muito digna, em que Nosso Senhor Se dá inteiro e mostra seu Coração. E notamos qualquer coisa de triste n’Ele, como quem prevê a hipótese de não ser correspondido, de receber uma ingratidão, ou tem em conta uma ingratidão que recebeu, mas perdoa e convida para um novo ato de bondade, de confiança. É o que está expresso.
Comparemos isso com o perpétuo saracoteio, o pula-pula e a alegria contínua de Hollywood, e compreenderemos que há um abismo de diferença entre as duas mentalidades!

E Dona Lucilia pegou o fim dessa escola do afeto, da qual era discípula ardentíssima. Logo depois dela veio a escola do contrário.
Continua no próximo post.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Eixo e modelo de todo verdadeiro afeto

O afeto de Dona Lucilia para com os outros tinha como modelo o Sagrado Coração de Jesus, e o corolário desse afeto era a abnegação. Bem o contrário da mentalidade hollywoodiana, que se caracteriza pelo otimismo egoístico.
Na concepção de Dona Lucilia sobre as relações psicológicas, humanas, o termo final do relacionamento era o afeto. E o afeto tinha uma importância enorme, no modo dela conceber a vida.
Afeto cheio de admiração, renúncia de si mesmo
Mamãe considerava que quando as pessoas se conhecem e encontram uma verdadeira e séria afinidade, isso desfecha num afeto mútuo. E, portanto, para o processo mental de uma criatura humana em face da outra, seja qual for a natureza das relações — pai, filho, marido, mulher, irmão, irmã, amigo —, o desfecho é se contemplarem e, na consideração da semelhança ou da afinidade, terem um afeto.
E esse afeto representava algo que dava substância e calor à vida, e se simbolizava no coração. Donde a devoção ao Sagrado Coração de Jesus era o afeto de Deus pelos homens, e convidava ao afeto dos homens para com Deus.
Mas não era um afeto boboca, de querer bem sem consequência; era um afeto cheio de admiração, com entusiasmo, analítico, que examina o que quer e se transforma em dedicação, em abnegação.
Mamãe era muitíssimo abnegada. O corolário do afeto era a abnegação, a renúncia de si mesmo a favor da pessoa a quem se quer bem.
E muito razoavelmente, muito catolicamente, ela via na devoção ao Sagrado Coração de Jesus, Rei e centro de todos os corações, o próprio eixo e o modelo perfeito de todo afeto.

Ou seja, querer bem é como o Coração de Jesus ama cada um de nós; querê-Lo bem é amá-Lo com um amor que é o símile — guardadas as proporções — do amor que Ele tem a nós. E nisso está a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, a qual realiza, assim, o processo, o périplo, o circuito inteiro da alma humana.
Continua no próximo post.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Lucilia Corrêa de Oliveira (foto)


Eu não sei como é que essas duas atitudes [distinção e desafio] se fundiam nesse momento no espírito dela, mas ela toma ar de quase ligeiro desafio. Dir-se-ia que ela, pouco antes, esteve discutindo com alguém, e que ela sustenta o que ela disse: aquilo é aquilo.

Plinio Corrêa de Oliveira – 19/01/1994

terça-feira, 18 de abril de 2017

Mentalidade anti-igualitária V

Conclusão dos posts anteriores
…e com a antiga cozinheira
Dona Lucilia teve uma cozinheira negra chamada Belmira que, por razões não conhecidas por mim — eu era menino e acompanhava essas coisas sem prestar atenção —, saiu de nossa casa e tomou emprego com outra família. Certa ocasião mamãe vinha a pé da Igreja do Sagrado Coração de Jesus e, na esquina de casa, encontrou-se com a Belmira que ia para outro lugar.
Por interesse pela sua antiga cozinheira, minha mãe parou e conversou um instantinho com a Belmira. Lembro-me de uma pessoa da família fazer esta censura:
— Mas como?! Parar na rua para falar com uma empregada, não tem propósito!
Mamãe respondeu:
— Não vejo problema algum. Eu faço mesmo, e é assim que deve ser.
Era a mesma pessoa altamente respeitadora da família imperial!
Senso de justiça e amor ao próximo
Esse respeito supõe, antes de tudo, uma atenção séria posta nas pessoas para ver o que é cada uma, qual sua posição, o que vale e por que vale, dando-lhe o mérito adequado e aquilo que lhe é próprio. Por caridade, por bondade, conceder às vezes um pouquinho mais do que pareceria estritamente justo, mas sem perturbar a boa disposição hierárquica.
De outro lado, supõe também muita objetividade para não querer colocar-se numa posição que não tem, nem imaginar ser o que não é. Isso requer um senso de justiça e um amor ao próximo, tão característicos da Religião Católica. Nela, esse amor ao próximo se exprimia pelo gosto, pelo prazer com que ela tributava esse respeito, vendo o que Deus concedeu a cada um e alegre de que tenha sido dado.
Eu definiria isso como uma mentalidade anti-igualitária de ponta a ponta. Uma civilização onde todos tivessem essa mentalidade seria uma civilização de muita harmonia, de muito acordo, de muito respeito e de muito afeto.

Plinio Corrêa de Oliveira – extraído de conferência de 12/4/1988

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Mentalidade anti-igualitária IV

Continuação do post anterior
Relacionamento com a família imperial…
Voltando ao modo de Dona Lucilia manifestar o respeito, menciono seu trato com aqueles que lhes eram superiores. Por exemplo, seu relacionamento com a família imperial do Brasil.
Mamãe nos contava como a Princesa Isabel conhecera sua mãe e ela, em Paris, e como a nobre senhora convidou-as para um lanche em sua residência, em Boulogne-sur-Seine. Narrava todos os pormenores da visita para se compreender a correspondência que a Princesa manteve com minha avó e com a família, até morrer.
Vem-me à memória também este fato: Eu era menino, e Dom Pedro Henrique — uns meses mais moço que eu — veio para o Brasil, pela primeira vez depois do exílio.
Os costumes do tempo eram completamente diferentes dos de hoje. Dom Pedro Henrique ia embarcar de volta para a Europa com a mãe dele, uma irmã e um irmão que morreu, e nós precisávamos ir até a estação ferroviária para nos despedir, antes de partirem de trem para o porto de Santos.
Como minha irmã e eu tínhamos tido muito mais contatos com eles do que as outras crianças da família, devíamos oferecer-lhes uma lembrança qualquer.
Recordo-me da preocupação de mamãe em encontrar uma lembrança original, que não fosse, por exemplo, um objeto que se acha em Paris muito melhor. Então o que encontrar aqui para se oferecer como presente, e que não houvesse algo semelhante na França?
Minha mãe excogitou, então, de dar para cada uma das três crianças caixas de madeira brasileira preciosa e perfumada, ornadas com certos tipos de cipós muito decorativos que, cortados ou envernizados ou encerados, ficam muito bonitos. Ela indicou como deveriam ser as caixas e os ornatos, foi ao Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo e encomendou os objetos, explicando que não podiam ser iguais: a caixa para a menina tinha de ser mais delicada; para os meninos. mais forte, etc. Com todo esmero, porque eles eram quem eram.
Depois, mandou comprar numa bonbonnière francesa que havia em São Paulo o que havia de melhor de bombons para colocar dentro das caixas, e ela mesma orientou a criada corno embrulhar os presentes em papel de seda e amarrar com fio dourado. Em seguida, explicou à minha irmã e a mim como nos aproximar da janela do trem onde eles estavam, e com que palavras entregar-lhes os presentes. Era o respeito pelos superiores!

Esse respeito ela manifestava com gosto, pois tinha alegria em respeitar. Essa cadeia de respeito ia desde um mendigo até uma princesa imperial.
Continua no próximo post

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Mentalidade anti-igualitária III

Continuação do post anterior
Mútuo respeito que dever haver entre professores
Abro um parêntese para verem o mecanismo curioso, a fundamentação desse respeito.
Tomem, por exemplo, professores universitários de um país onde haja universidades sérias, em que o título de professor universitário suponha necessariamente estudos profundos, difíceis, que representam — em certo sentido muito elástico da palavra — um “martírio” para a alma, embora sejam também um regalo para o espírito. Como fruto desses estudos, formam-se depois gerações inteiras de profissionais. Esses professores universitários devem, portanto, tratar-se com respeito.
Professores primários devem se tratar com respeito também? Sim, mas com matizes diversos. Os professores universitários devem reverenciar-se um ao outro, mais do que os professores primários entre si.
Qual é o fundamento desse respeito? É que o professor exerce certa jurisdição e certo poder sobre os alunos. Mais do que desempenhar um poder de mando, ele exerce a influência intelectual, cultural, que vale mais do que o poder de mandar, por exemplo, fechar uma janela da sala de aula.
Contribuir para modelar a alma de alguém, dando um determinado traço à sua mentalidade, é muito alto e nobre. Principalmente quando se trata de modelar em esferas mais altas do conhecimento, do pensamento, da Ciência, das Letras, das Artes: e, sobretudo, quando orientado para Deus Nosso Senhor, porque sem Deus tudo isso é nocivo ou não vale nada.
Então, porque os professores universitários modelam assim as almas, eles têm uma função intrinsecamente elevada. Nessa elevação entra também um ato de respeito para com o aluno, pois é tomando em muita consideração quanto vale um aluno que se dá valor à tarefa de modelar sua alma.
Por sua vez, um aluno universitário vale intrinsecamente mais do que um aluno primário, porque aquele é como a planta em eclosão, enquanto este é ainda sementinha que se acaba de lançar ao solo. Ora, a planta desenvolvida vale mais do que a semente. Por este aspecto, vale mais ser professor universitário do que primário.
Entretanto, debaixo de certo ponto de vista, o professor primário exerce mais influência sobre seus alunos do que o professor universitário.
Portanto, eles devem se respeitar mais em função da elevada missão que exercem e do valor dos alunos que modelam.
Por essa razão compreende-se o mútuo respeito. Se eles se tratarem corn desrespeito, baixam o tom e rebaixam o aluno. Quando se apresentarem para lecionar na sala de aula, alguma coisa filtra dessa baixa consideração em que eles se têm.

Relacionamento com a família imperial…
Continua no próximo post

sábado, 1 de abril de 2017

Mentalidade anti-igualitária II

Continuação do post anterior
“Aceite esta medalha de Nossa Senhora das Graças!”
Na atitude de mamãe entrava fundamentalmente um respeito à dignidade humana e, eventualmente, à dignidade de católico do mendigo.
Não há dúvida de que, se o indivíduo demonstrasse ser um ímpio, a atitude dela mudava. Se ela julgasse haver alguma perspectiva de converter o homem, ela faria de tudo para convertê-lo. Mas se visse que era um desses como que inconversíveis, ela o atenderia e trataria bem, na medida em que não lhe facilitasse fazer propaganda da impiedade dele. Ao se despedirem, diria a ele: “O senhor quer fazer-me um favor? Aceite também esta medalha de Nossa Senhora das Graças, e use em lembrança desta velha senhora que lhe quer bem!”
Este é o modo cristão pelo qual ela, catolicamente, praticava o respeito ao inferior, respeitando nele a sua própria natureza, e reverenciando, desta maneira, o Verbo de Deus que Se fez carne e habitou entre nós.

Essa forma de respeitar pode-se aplicar ainda mais facilmente à pessoa de uma mesma categoria.
Continua no próximo post

segunda-feira, 27 de março de 2017

Mentalidade anti-igualitária

Dona Lucilia tinha grande respeito pelas pessoas superiores a ela. E também muita consideração pelos inferiores, respeitando neles a sua própria natureza, e reverenciando, desta maneira, o Verbo de Deus que Se fez carne e habitou entre nós.
Quando contemplamos o Quadrinho, vemos que Dona Lucilia estava no fim de sua vida. Ela não sabia disso, mas alguns meses depois ela morreria, estando por completar 92 anos de idade. É uma belíssima idade!
Alegria em ajudar um mendigo
No Quadrinho a lucidez dela aparece inteiramente, e encontramos algo naquela atitude, naquele olhar, naquele modo de analisar as coisas, por onde se aparecesse diante dela um mendigo, o mais pobre, o mais carente de educação e de categoria, ela jamais faria a seguinte reflexão: “Como esse sujeito é nada, como eu sou mais do que ele! Não era próprio que ele estivesse na minha presença.”
É evidente que a alma dela voava para esta outra posição: “Coitado, ele é uma criatura humana como eu, é batizado, foi resgatado pelo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, e Nossa Senhora o tem como filho. Olhe como ele está precisando de um auxílio! Tenho pena dele e vou ajudá-lo!”
Não seria uma postura igualitária, como quem dissesse: “Esse mendigo é igual a mim, vem cá, dá-me um aperto de mão!” Não. Ele é um mendigo, mas uma criatura humana e um filho de Deus; e enquanto tal, por certo aspecto, é igual a mim. Então, embora ele permaneça na sua posição de mendigo, vou prestar-lhe todo o auxílio que eu puder. Se me for possível dar-lhe dinheiro, emprego, instalação para ele se lavar e  arranjar, roupa, de maneira que ele saia daqui outro, farei isso na hora e com muita alegria. Embora essa roupa não fosse a de um ministro e sim de um homem do povo, mas digna e distinta, própria de uma pessoa de condição modesta: mas esta eu daria para ele.
Isso seria para Dona Lucilia um regalo. Porém, prazer maior seria se ela pudesse dar o mesmo para toda a família do mendigo. E naquela noite o mendigo e sua família jantariam vestidos, cobertos, à vontade, com o dia seguinte garantido, com trabalho para todos. Seria uma satisfação, e mamãe contaria isso para todo mundo, não para mostrar que ela fez, mas para manifestar a alegria que ela e os beneficiados tiveram, o que eles disseram, etc.
Dir-se-ia que na primeira atitude hipotética — que Dona Lucilia não tomaria — ela demonstraria muito respeito a si porque estaria olhando para o mendigo com superioridade. Mas este seria um respeito superficial porque, substancialmente, ela é uma criatura humana e todo o resto são acidentes. O mendigo é uma criatura humana também e, embora os acidentes sejam desiguais, a natureza é a mesma. Assim sendo, ela não se respeita desprezando sua própria natureza.
A este propósito na Escritura há uma frase que, quando li, me agradou muito: “Não desprezes a tua própria carne…”
“Aceite esta medalha de Nossa Senhora das Graças!”
Na atitude de mamãe entrava fundamentalmente um respeito à dignidade humana e, eventualmente, à dignidade de católico do mendigo.
Não há dúvida de que, se o indivíduo demonstrasse ser um ímpio, a atitude dela mudava. Se ela julgasse haver alguma perspectiva de converter o homem, ela faria de tudo para convertê-lo. Mas se visse que era um desses como que inconversíveis, ela o atenderia e trataria bem, na medida em que não lhe facilitasse fazer propaganda da impiedade dele. Ao se despedirem, diria a ele: “O senhor quer fazer-me um favor? Aceite também esta medalha de Nossa Senhora das Graças, e use em lembrança desta velha senhora que lhe quer bem!”
Este é o modo cristão pelo qual ela, catolicamente, praticava o respeito ao inferior, respeitando nele a sua própria natureza, e reverenciando, desta maneira, o Verbo de Deus que Se fez carne e habitou entre nós.

Essa forma de respeitar pode-se aplicar ainda mais facilmente à pessoa de uma mesma categoria.
Continua no próximo post

terça-feira, 21 de março de 2017

Dor e seriedade ( conclusão)

Conclusão do post anterior
Atrozes ferimentos causados pela conflagração
Eu tive uma governanta austríaca que era solteira e ofereceu-se para, durante o dia, trabalhar num hospital de feridos de guerra.
Ela disse que os ferimentos eram atrozes. Por exemplo, um jovem que tinha ido para combater e voltou com um ferimento que de si não era mortal, mas ele não podia falar porque um projétil lhe arrancara o queixo. Quando ele precisava de alguma coisa, tocava uma sineta e escrevia, com letra trêmula de alguém que está gravemente doente, aquilo de que precisava. Às vezes não conseguia escrever por inteiro, deixava cair sobre a cama a caneta e o papel, e ficava esperando um momento em que um pouquinho mais de força lhe permitisse fazer o pedido.
Minha governanta contava que, pelo regulamento do hospital, as enfermeiras tinham horários determinados para descansar, porque se elas ficassem doentes também, o hospital tornava-se inoperante. As enfermeiras precisavam ter uma defesa contra a epidemia, então o hospital mandava-as repousar. Mas quando minha governanta estava descansando e se lembrava de que talvez o homem sem queixo precisasse de alguma coisa, ela se levantava às escondidas e ia verificar se ele queria algo. Quem censuraria uma atitude como essa? Só poderia aplaudir. Mas que condições de vida, que horrores, que monstruosidades!
Reflexão sobre o magnífico tema da dor
Tudo isso representava o sofrimento, e eu notava que Dona Lucilia tinha em face desses fatos uma atitude muito mais pensativa e mais séria do que as outras pessoas. Estas comentavam, como ela, as notícias que os jornais publicavam, por vezes com sensacionalismo que impressionava muito o público, é natural.
Por exemplo, acabava o almoço de domingo, todos se espalhavam pela sala de jantar e começavam a conversar sobre esses assuntos. Lembro-me até hoje de que quando um velho relógio de parede, com um bonito som, marcava duas horas da tarde, havia sempre um espírito mais leviano e superficial que dizia com uma voz que dominava a todos: “Meus caros, agora chegou a vez de nos divertirmos. Você vai para onde? E você? Vamos fazer os nossos programas.” Então, uns iam passear nos arredores da cidade, outros faziam visitas, enfim, essa vida leve dos domingos.
Eu percebia que Dona Lucilia acompanhava, mas que o espírito dela ia para a compaixão por aqueles que tinham sofrido, fazia oração por eles para Nossa Senhora aliviar ou até para evitar esse sofrimento. Mas, sobretudo, fazia a reflexão sobre o grande, o nobre, o magnífico tema da dor. E dentro deste tema, outro ainda mais bonito: o heroísmo, a coragem.
Isto ia formando a alma de um menino... 

Plinio Corrêa de Oliveira – Extraído de conferência de 26/7/1995

quarta-feira, 15 de março de 2017

Dor e seriedade II

Continuação do post anterior
Atitudes das pessoas perante a Primeira Guerra Mundial
Pouco tempo depois desses primeiros fatos da minha infância terem se passado, arrebentou a Guerra Mundial. Entendi mais ou menos o que era essa guerra, mas tinha a noção da distância enorme que havia entre o Brasil e a Europa. Portanto, era impossível que a guerra chegasse até aqui; enquanto a Europa passava por todo aquele sofrimento, no Brasil havia a boa vida tranquila e folgada; o Brasil não entraria em guerra, e por isso as pessoas aqui gostavam de celebrar a tranquilidade brasileira. Não só apreciavam isso os brasileiros, mas os estrangeiros oriundos de países que estavam na conflagração, mas que tinham vindo para o Brasil antes da guerra. Eles tinham pais, irmãos, filhos, netos, metidos na conflagração. Isso lhes interessava, mas, sobretudo, o que eles possuíam era um bem-estar de pessoalmente não participar da guerra.
Quando chegava a tardinha, era frequente verem-se nas ruas da São Paulinho rodas formadas na calçada por famílias de imigrantes. As donas de casa faziam pratos do tempo em que viviam em seus países de origem, os homens conversavam, davam risadas, as crianças brincavam, todos se preparando para comer e depois comendo valorosamente, comentando como era bom eles não estarem na guerra.

Comecei a observar isso e percebi que havia duas atitudes perante a conflagração: uma, a daqueles a quem era, sobretudo, agradável estar longe dela; a outra, a dos que admiravam a guerra, compreendiam sua beleza. Estes últimos não podiam ir à guerra porque tinham compromissos aqui no Brasil para manter a família; se eles fossem poderiam morrer, e a família ficava abandonada. Mas acompanhavam os jornais com o espírito de lutadores: seu país avançou ou recuou, os aliados deles avançaram ou recuaram, os meios de destruição se acentuaram. Aparece o aeroplano, então o grande perigo são os voos. Depois surgem os gases asfixiantes, os bombardeios em massa das grandes cidades. E no fim, coisa talvez pior do que tudo, as epidemias que contagiavam às vezes um país inteiro e que constituíam uma tristeza, uma coisa horrível.
Continua

sábado, 4 de março de 2017

Dor e seriedade I

A seriedade causa dor, mas o pior sofrimento é o produzido pela falta de seriedade, a qual faz com que a pessoa se sinta vazia, sem ideias, sem ideais, sem vontade.
O sofrimento era algo tão ligado à vida de Dona Lucilia e a todo o ser dela, que eu em pequeno às vezes notava que ela estava sofrendo, porém não sabia por quê. Ficava olhando para ela e contemplando o sofrimento, mas sem compreender o que a fazia sofrer.
Pequenos sofrimentos que originavam um sofrimento global
Mais tarde, quando me tornei um pouco mais velho, fui compreendendo uma ou outra razão de um ou outro sofrimento. Depois, compreendi que os sofrimentos dela formavam um como que edifício. Era um conjunto de razões que a faziam sofrer e que constituíam um grande sofrimento global, o qual era o sofrimento geral da vida dela. Então comecei a ter uma ideia global do que era o sofrimento.
Quando pequeno, eu notava, sobretudo, que mamãe tinha restos de enfermidade devido àquela operação da vesícula, que ela fez na Alemanha em 1912, e percebia que tinha muita dificuldade em caminhar.
Eu notava que, às vezes, meu pai voltava cedo do escritório, passava por casa, pegava-a e saíam os dois a fazerem uma volta a pé. Ele, tendo terminado seu serviço durante o dia, contente com a tarefa, com saúde e vida, um homem muito feliz. Ela, uma pessoa na qual cada passo era uma dor, ao mesmo tempo entendia que não poderia irradiar seu sofrimento sobre o esposo, ser uma causa contínua de dores para ele. Ela deveria fingir que não estava sofrendo, ou contar sorrindo: “Hoje, como estão me doendo os pés!”, e continuar a andar, todos os dias, a extensão recomendada pelos médicos. Nunca terminar antes porque lhe estavam doendo muito, porque essa extensão era necessária para habituar os pés ao esforço adequado.
O sofrimento produz a seriedade
Então, eu percebia que mamãe tinha uma compreensão muito profunda dessa situação. Ela sentia esse sofrimento, e sentia na alma a dor que tem esta quando o corpo sofre dor física. Não é uma dor superficial, mas uma dor profunda. O corpo padece e a alma com isso sofre.
Quando voltava para casa, ela descansava, e nesse momento eu entendia tudo quanto sofrera durante o passeio, porque, sorrindo, mamãe se deitava numa espécie de divã e ficava com os pés imobilizados até que a dor passasse. Ela às vezes gemia sorrindo; então se formava uma roda de pessoas conversando coisas do dia, e por amabilidade perguntavam-lhe:
— Você está melhor, Lucilia?
— Sim, sim, estou melhorando.
Eu estava vendo que era todo o dia a mesma coisa, não acabava mais. E compreendia bem que aquilo trazia para seu espírito um reflexo, que era a seriedade, porque o sofrimento produz a seriedade.
A pior dor que o homem pode ter não é a causada pela seriedade, é a produzida pela falta de seriedade. Sentir-se não sério, vazio, sem ideias, sem ideais, sem querer nada, sem dizer algo que valha qualquer coisa, isto causa um sofrimento pior do que o pior dos sofrimentos.

Um dos melhores dons que Deus pode dar a uma criança é o sofrimento. Não nos queixemos, portanto, dos sofrimentos que tenhamos tido. Pelo contrário, agradeçamos a Nossa Senhora e compreendamos que Ela, assim, nos destinou para a seriedade.
Continua no próximo post.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Lição de misericórdia

Conclusão dos posts anteriores
Afinal, meu avô chegou à residência do indivíduo, bateu na porta, entrou e encontrou esta cena: o quarto em que esse homem estava não tinha nenhum móvel, mas apenas uma cama com um colchão encostado na parede, de maneira que esta servia de cabeceira para apoiar o travesseiro.
Ele disse, arfando: “Dr. Ribeiro, muito obrigado.”
— Mas o que o senhor tem?
— Estou tuberculoso em alto grau, e às portas da morte.
Meu avô, sentado na cama dele e sujeito a contágio, tomou nota do que ele sentia para explicar ao médico, e tentaria que este fosse àquela hora da noite à casa dele; depois iria comprar os remédios numa farmácia.
Após algum tempo, meu avô retornou à casa do homem, deu-lhe todos os remédios, e mandou reservar uma passagem especial para o enfermo e sua senhora, num trem que devia ir no dia seguinte para a cidade do interior do Estado, onde ele queria morrer. Os dois embarcaram, tendo o meu avô pago tudo.
Era uma lição de misericórdia que mamãe dava, lição esta acompanhada da ideia de que quem não tem misericórdia não receberá misericórdia. E que a clemência de Deus e de Nossa Senhora, no Juízo, é reservada especialmente para os clementes.
Naturalmente, um menino, como era eu, se impressionava muito com esse fato narrado por Dona Lucilia, e as ideias sobre o Céu, o Inferno, o Juízo, a Morte, se radicavam muito no meu espírito. 

Lucilia Corrêa de Oliveira – Extraído de conferência de 11/10/1993

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Atingido por grave doença, pede auxílio em altas horas da noite



Continuação dos posts anteriores
Anos depois — eles não se viram mais —, já em São Paulo, tarde da noite, garoando, para um carro, ainda era o tempo dos carros puxados a cavalo, na porta da casa de meu avô e o cocheiro entrega um bilhete. Era daquele homem.
“Dr. Ribeiro, eu me encontro reduzido ao extremo, condenado a morrer porque estou passando muito mal, com tal doença; além do mais não tenho dinheiro para me tratar, e então quero saber se o senhor poderia vir aqui em casa, arranjar um médico para mim e me dar de presente o dinheiro necessário para eu comprar os remédios. E mais ainda, passar de carro por uma farmácia, mandar que seja aberta e conseguir os remédios. Porque se não for isso eu morro.”
Uma pessoa de minha família, que estava em casa do meu avô quando chegou esse bilhete, disse-lhe:
— Totó — meu avô chamava-se Antônio, mas no trato de casa comum era Totó — não atenda, faça esse homem agora sofrer tudo que ele quis que você padecesse. Chegou a hora de você se regozijar, a hora da justiça de Deus.
— Não, esse homem bateu à minha porta, e vou ter misericórdia para com ele; eu quero que Deus tenha misericórdia comigo quando chegar a minha vez.
— Mas você está doente, e ainda com essa garoa aí fora!
— Não tem conversa, eu vou. Cobriu-se com agasalhos, etc., e lá foi meu avô para a casa do homem, que ficava num bairro afastado.
Continua

sábado, 17 de dezembro de 2016

Dominado pelo vício da inveja

Continuação dos posts anteriores
Aí meu avô foi estudar o caso, porque os papéis todos vinham de São Paulo. E ele achou o seguinte: não estava provado que o homem era inocente, e nem que era culpado. Tratava-se de um caso nebuloso. E quando não está provado que um indivíduo é culpado, se deve soltá-lo. Uma pessoa não pode ser presa por uma suspeita.
Então meu avô compareceu como seu advogado no júri e fez a defesa dele nesses termos. Quer dizer, não declarou que era inocente — porque ainda não estava provada sua inocência —, mas disse que quando não se provou que uma pessoa era culpada de um crime, ela não podia ser condenada, nem ser, portanto, objeto de vaias, de apupos. O crime de que aquele homem era acusado não estava provado, logo se supunha que ele era inocente.
Com isso o indivíduo foi solto e já aquela noite não dormiu na cadeia, mas numa casa qualquer dele ou de outrem. E começou a levar a vida de um homem livre.
A senhora dele, que estava na cidadezinha, foi a Pirassununga visitar minha avó para agradecer toda a bondade que meu avô tinha tido, porque ela não afirmava que o marido fosse criminoso, mas reconhecia que o mau trato que ele tinha dado ao meu avô anteriormente não lhe concedia o direito de recorrer aos seus serviços. Seu esposo podia ter pedido a qualquer outro advogado que o defendesse, mas foi logo solicitar ao meu avô.
E na conversa essa senhora disse à minha avó:

“Meu esposo é um invejoso e tem uma inveja medonha do Dr. Ribeiro; quando vê o Dr. Ribeiro ter triunfos como advogado e fazer dinheiro, ele que não consegue o mesmo começa a caluniar o seu marido. Eu reconheço que é malfeito, mas ele é meu esposo; estou ligada a ele para a vida e para a morte, e tenho que seguir o caminho junto com ele.”
Continua

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Lições sobre os Novíssimos do homem

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Um homem que caluniava Dr. Antônio Ribeiro dos Santos...
Ela falava com alguma frequência da Morte, sobretudo fazendo sentir a solidão da Morte. Quer dizer, quando a pessoa estava para falecer, apesar de ter o quarto cheio de parentes, amigos, etc., há alguma coisa que a separa de todo o mundo. Ela está morrendo aos poucos e se aproximando do instante em que vai estar sozinha em face de Deus, será julgada e terá de prestar contas de sua vida; e naquela hora será precipitada no Inferno, ou mandada para o Purgatório, ou irá diretamente para o Paraíso. E mamãe exprimia isso muito bem.
Dona Lucilia contava fatos bonitos a respeito da morte. Por exemplo, o caso de um homem que fora grande inimigo do pai dela. Era um chefe político daquela zona de Pirassununga, onde ela nascera, um homem de boa família de São Paulo, mas que tinha em relação ao pai dela um ódio gratuito, sem razão.
 Várias vezes, esse homem pregou calúnias contra o meu avô, o qual teve que se defender e sempre conseguiu provar que ele estava sendo caluniado, e que o caluniador era aquele indivíduo, etc.
...é preso e pede a Dr. Antônio que o defenda
Meu avô era muito bom advogado e, estando em Pirassununga, recebeu certo dia um telegrama desse inimigo dele, que morava em São Paulo, dizendo o seguinte:
“Eu estou preso porque fui acusado de tal crime. E devo ser julgado no dia tanto perante o tribunal do júri de tal cidade — uma localidade próxima a Pirassununga. Como eu não confio em ninguém tanto quanto no senhor, peço que aceite defender-me.”
Era uma sem-vergonhice desse homem pedir, sem mais nem menos, que tivesse como advogado aquele que ele caluniou. Ele deveria começar por dizer: “Eu reconheço que tais coisas assim foram calúnias, peço perdão e misericórdia. A misericórdia consiste em consentir em me defender.” Aí estaria bem. Mas, antes desse pedido de perdão e de misericórdia, não se concebia.
Mas meu avô era um homem — segundo ela contava, porque não o conheci — muito paciente e misericordioso, e mandou telegrafar-lhe dizendo o seguinte: “Esperá-lo-ei na estação quando o senhor descer do trem, e aceito o encargo que me confia.”
Em cidadezinha do interior, máxime naquele tempo, esses fatos tinham uma importância enorme, todo mundo queria ver a notabilidade chegar, com os soldados de um lado e de outro, presa com algemas e ir para a cadeia. E era uma coisa horrível o que o povo fazia, mas se a cadeia não era longe da estação, o prisioneiro ia a pé até a prisão e com todo o povo acompanhando. E naturalmente os inimigos dele dizendo coisas horríveis, contra as quais ele não podia se defender porque estava manietado.
Quando meu avô chegou à estação para receber o homem, percebeu que o local estava cheio de inimigos do cliente dele. Então meu avô disse uma coisa mais ou menos desse gênero, falando bem alto para todas as pessoas ouvirem:
“Todos sabem que aqui chegará preso Doutor Fulano de Tal, mas nem todos têm conhecimento de que ele vem como meu cliente. E sendo meu cliente está sob a minha proteção; por causa disso qualquer ultraje feito a ele é uma ofensa contra mim. A honra dele está sob o meu amparo, e eu quero saber quem vai por esta forma me agredir.”
 O homem desceu do trem, meu avô mandou embora os soldados e passou o braço por debaixo do braço dele. Cumprimentou-o amavelmente, perguntou se tinha feito boa viagem; tudo isso na presença de todos que lá se encontravam, que ficaram pasmos, porque era conhecida a inimizade entre o réu e o advogado.

Depois disse: “Vamos então!” E começou a atravessar a multidão, que abriu fileiras, e ele foi até a cadeia, onde o homem ficou preso.
Continua.