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quarta-feira, 31 de maio de 2017

Bondade e intransigência

Minha mãe era de uma bondade que eu não saberia explicar. Inclusive na hora de perdoar, ela manifestava sempre uma indulgência, uma suavidade, nunca uma reclamação porque algo a tivesse atingido. Em suas repreensões não entrava a reivindicação de um direito próprio, mas a defesa de um princípio do qual seu espírito estava imbuído. E embora não soubesse explicitar os princípios, ela os possuía.
Por isso, suas repreensões não resultavam de uma irritação pessoal, mas de um princípio ofendido — inclusive o princípio da autoridade materna — mas sempre com tanta bondade, tanta paciência tanto perdão no que dizia respeito a si, que mesmo que se fizesse o pior contra ela, ela o suportava sem dizer palavra.
Por outro lado, que severidade em suas repreensões! Que seriedade no olhar! Que compenetração de que se tratava de fazer prevalecer um princípio! Que convicção de que se não conformasse minha vida com aqueles princípios, eu valeria muito menos para ela, porque em mim ela via mais o filho que deveria amar os princípios do que alguém que lhe deveria querer bem!
Ademais, quanta sabedoria no que dizia! Embora a voz fosse grave, a bondade nunca estava ausente. Sua intransigência para comigo estava sempre mesclada com a bondade.
Certa vez, no apogeu de minha vida escolar — eu nunca fui o primeiro de minha aula — voltei do Colégio São Luiz, após a festa da distribuição de prêmios, com quatro medalhas no peito. Naquele tempos ingênuos, os meninos vinham pela rua ostentando as suas medalhas, e assim vinha eu com minha roupa à marinheira. Quando mamãe me abriu a porta, afagou-me muito; foi uma alegria!

No ano seguinte, eu voltei com três medalhas. Abrindo a porta, ela me viu e disse: “Só três?” — E acrescentou intransigente: “Como é que você decaiu, o que aconteceu para você decair?” Mas tudo isso misturado com tanto afeto, tanta bondade e tanto carinho, que para mim foi uma preparação para compreender o que era a misericórdia de Nossa Senhora. Outro tanto poderiam os senhores dizer de suas mães.
Plinio Corrêa de Oliveira

sábado, 20 de maio de 2017

Eixo e modelo de todo verdadeiro afeto

Conclusão dos posts anteriores
Esteio temperamental e afetivo de nossas almas
Toda criatura humana que tem um pouco de bom senso compreende não haver afeto humano que não decepcione. Mas nem por isso se vinga, fica amarga, agressiva, deprimida; porque, se é verdade que nós, ao fazer bem aos outros, não somos pagos como teríamos direito, é certo que Nosso Senhor paga. Porque o bem que nós fazemos aos outros é feito a Ele, e principalmente, por Ele. De maneira que Jesus toma em todo devido valor o nosso afeto, recompensa um milhão por um, nos cumula torrencialmente do afeto d’Ele, e o que os outros tenham ou não tenham feito de nossa bondade é secundário.
Isso é o que cura de todo calvinismo; fica-se outro quando se toma isso em consideração. Sobretudo quando se concebe, ao lado ou abaixo do Coração de Jesus, o Coração Imaculado de Maria. Nosso Senhor é Pai, Nossa Senhora é Mãe, e tem essas ternuras, essas condescendências, esse superávit de bondade que o coração materno possui.
Ninguém pode nos amar mais do que Nosso Senhor. Maria Santíssima, portanto, não nos ama mais do que Nosso Senhor. Mas certas formas de amor, que são próprias da mãe, Ele quis mostrar que tem, dando-nos a Mãe d’Ele, para que n’Ela nós víssemos o que há a mais n’Ele que não se pode ver.
Então, os Sagrados Corações de Jesus e Maria são o esteio temperamental e afetivo de nossas almas. 

Plinio Corrêa de Oliveira – Extraído de conferência de 12/12/1984

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Eixo e modelo de todo verdadeiro afeto

Continuação dp post anterior
Mentalidade hollywoodiana: busca do interesse e do prazer
Dª Lucilia com o neto
É exatamente o que começou a ser contestado no mundo, logo depois de eu ter iniciado a conhecê-la, não com aquele conhecimento instintivo que uma criança tem de sua mãe, mas quando, como filho, comecei a analisar, a admirar e a querê-la bem.
O sistema hollywoodiano de viver é a negação de tudo isso, porque ele importa em uma vida apressada, de corre-corre atrás do interesse e do prazer, onde não há tempo nem desejo de deter a atenção em valores dessa ordem, e uma vida que se detém nesses valores parece fracassada e balofa. A alegria saracoteante deve dominar toda a existência, e o homem precisa ter um otimismo egoístico, na contínua esperança de que vai conseguir tudo aquilo que ele deseja para si.
A outra pessoa com que o indivíduo se relaciona desempenha um magro papel dentro disso. Ele quer ter um automóvel, uma casa, um avião, quer fazer viagens, enfim, divertir-se; e todo esse afeto fica à margem, nas franjas da vida, importando cada vez menos, enquanto o egoísmo vai tomando conta da existência.
E o verdadeiro afeto tem qualquer coisa de tristonho, porque as condições desta vida levam a compreender que devemos uns aos outros uma estima, a qual entende bem que o outro sofre e nós sofremos também, e que temos de nos ajudar a carregar o peso da vida. O saracoteio hollywoodiano não comporta isso.
Quando analisamos a imagem do Coração de Jesus, vemos uma postura muito digna, em que Nosso Senhor Se dá inteiro e mostra seu Coração. E notamos qualquer coisa de triste n’Ele, como quem prevê a hipótese de não ser correspondido, de receber uma ingratidão, ou tem em conta uma ingratidão que recebeu, mas perdoa e convida para um novo ato de bondade, de confiança. É o que está expresso.
Comparemos isso com o perpétuo saracoteio, o pula-pula e a alegria contínua de Hollywood, e compreenderemos que há um abismo de diferença entre as duas mentalidades!

E Dona Lucilia pegou o fim dessa escola do afeto, da qual era discípula ardentíssima. Logo depois dela veio a escola do contrário.
Continua no próximo post.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Eixo e modelo de todo verdadeiro afeto

O afeto de Dona Lucilia para com os outros tinha como modelo o Sagrado Coração de Jesus, e o corolário desse afeto era a abnegação. Bem o contrário da mentalidade hollywoodiana, que se caracteriza pelo otimismo egoístico.
Na concepção de Dona Lucilia sobre as relações psicológicas, humanas, o termo final do relacionamento era o afeto. E o afeto tinha uma importância enorme, no modo dela conceber a vida.
Afeto cheio de admiração, renúncia de si mesmo
Mamãe considerava que quando as pessoas se conhecem e encontram uma verdadeira e séria afinidade, isso desfecha num afeto mútuo. E, portanto, para o processo mental de uma criatura humana em face da outra, seja qual for a natureza das relações — pai, filho, marido, mulher, irmão, irmã, amigo —, o desfecho é se contemplarem e, na consideração da semelhança ou da afinidade, terem um afeto.
E esse afeto representava algo que dava substância e calor à vida, e se simbolizava no coração. Donde a devoção ao Sagrado Coração de Jesus era o afeto de Deus pelos homens, e convidava ao afeto dos homens para com Deus.
Mas não era um afeto boboca, de querer bem sem consequência; era um afeto cheio de admiração, com entusiasmo, analítico, que examina o que quer e se transforma em dedicação, em abnegação.
Mamãe era muitíssimo abnegada. O corolário do afeto era a abnegação, a renúncia de si mesmo a favor da pessoa a quem se quer bem.
E muito razoavelmente, muito catolicamente, ela via na devoção ao Sagrado Coração de Jesus, Rei e centro de todos os corações, o próprio eixo e o modelo perfeito de todo afeto.

Ou seja, querer bem é como o Coração de Jesus ama cada um de nós; querê-Lo bem é amá-Lo com um amor que é o símile — guardadas as proporções — do amor que Ele tem a nós. E nisso está a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, a qual realiza, assim, o processo, o périplo, o circuito inteiro da alma humana.
Continua no próximo post.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Mentalidade anti-igualitária V

Conclusão dos posts anteriores
…e com a antiga cozinheira
Dona Lucilia teve uma cozinheira negra chamada Belmira que, por razões não conhecidas por mim — eu era menino e acompanhava essas coisas sem prestar atenção —, saiu de nossa casa e tomou emprego com outra família. Certa ocasião mamãe vinha a pé da Igreja do Sagrado Coração de Jesus e, na esquina de casa, encontrou-se com a Belmira que ia para outro lugar.
Por interesse pela sua antiga cozinheira, minha mãe parou e conversou um instantinho com a Belmira. Lembro-me de uma pessoa da família fazer esta censura:
— Mas como?! Parar na rua para falar com uma empregada, não tem propósito!
Mamãe respondeu:
— Não vejo problema algum. Eu faço mesmo, e é assim que deve ser.
Era a mesma pessoa altamente respeitadora da família imperial!
Senso de justiça e amor ao próximo
Esse respeito supõe, antes de tudo, uma atenção séria posta nas pessoas para ver o que é cada uma, qual sua posição, o que vale e por que vale, dando-lhe o mérito adequado e aquilo que lhe é próprio. Por caridade, por bondade, conceder às vezes um pouquinho mais do que pareceria estritamente justo, mas sem perturbar a boa disposição hierárquica.
De outro lado, supõe também muita objetividade para não querer colocar-se numa posição que não tem, nem imaginar ser o que não é. Isso requer um senso de justiça e um amor ao próximo, tão característicos da Religião Católica. Nela, esse amor ao próximo se exprimia pelo gosto, pelo prazer com que ela tributava esse respeito, vendo o que Deus concedeu a cada um e alegre de que tenha sido dado.
Eu definiria isso como uma mentalidade anti-igualitária de ponta a ponta. Uma civilização onde todos tivessem essa mentalidade seria uma civilização de muita harmonia, de muito acordo, de muito respeito e de muito afeto.

Plinio Corrêa de Oliveira – extraído de conferência de 12/4/1988

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Mentalidade anti-igualitária IV

Continuação do post anterior
Relacionamento com a família imperial…
Voltando ao modo de Dona Lucilia manifestar o respeito, menciono seu trato com aqueles que lhes eram superiores. Por exemplo, seu relacionamento com a família imperial do Brasil.
Mamãe nos contava como a Princesa Isabel conhecera sua mãe e ela, em Paris, e como a nobre senhora convidou-as para um lanche em sua residência, em Boulogne-sur-Seine. Narrava todos os pormenores da visita para se compreender a correspondência que a Princesa manteve com minha avó e com a família, até morrer.
Vem-me à memória também este fato: Eu era menino, e Dom Pedro Henrique — uns meses mais moço que eu — veio para o Brasil, pela primeira vez depois do exílio.
Os costumes do tempo eram completamente diferentes dos de hoje. Dom Pedro Henrique ia embarcar de volta para a Europa com a mãe dele, uma irmã e um irmão que morreu, e nós precisávamos ir até a estação ferroviária para nos despedir, antes de partirem de trem para o porto de Santos.
Como minha irmã e eu tínhamos tido muito mais contatos com eles do que as outras crianças da família, devíamos oferecer-lhes uma lembrança qualquer.
Recordo-me da preocupação de mamãe em encontrar uma lembrança original, que não fosse, por exemplo, um objeto que se acha em Paris muito melhor. Então o que encontrar aqui para se oferecer como presente, e que não houvesse algo semelhante na França?
Minha mãe excogitou, então, de dar para cada uma das três crianças caixas de madeira brasileira preciosa e perfumada, ornadas com certos tipos de cipós muito decorativos que, cortados ou envernizados ou encerados, ficam muito bonitos. Ela indicou como deveriam ser as caixas e os ornatos, foi ao Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo e encomendou os objetos, explicando que não podiam ser iguais: a caixa para a menina tinha de ser mais delicada; para os meninos. mais forte, etc. Com todo esmero, porque eles eram quem eram.
Depois, mandou comprar numa bonbonnière francesa que havia em São Paulo o que havia de melhor de bombons para colocar dentro das caixas, e ela mesma orientou a criada corno embrulhar os presentes em papel de seda e amarrar com fio dourado. Em seguida, explicou à minha irmã e a mim como nos aproximar da janela do trem onde eles estavam, e com que palavras entregar-lhes os presentes. Era o respeito pelos superiores!

Esse respeito ela manifestava com gosto, pois tinha alegria em respeitar. Essa cadeia de respeito ia desde um mendigo até uma princesa imperial.
Continua no próximo post

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Mentalidade anti-igualitária III

Continuação do post anterior
Mútuo respeito que dever haver entre professores
Abro um parêntese para verem o mecanismo curioso, a fundamentação desse respeito.
Tomem, por exemplo, professores universitários de um país onde haja universidades sérias, em que o título de professor universitário suponha necessariamente estudos profundos, difíceis, que representam — em certo sentido muito elástico da palavra — um “martírio” para a alma, embora sejam também um regalo para o espírito. Como fruto desses estudos, formam-se depois gerações inteiras de profissionais. Esses professores universitários devem, portanto, tratar-se com respeito.
Professores primários devem se tratar com respeito também? Sim, mas com matizes diversos. Os professores universitários devem reverenciar-se um ao outro, mais do que os professores primários entre si.
Qual é o fundamento desse respeito? É que o professor exerce certa jurisdição e certo poder sobre os alunos. Mais do que desempenhar um poder de mando, ele exerce a influência intelectual, cultural, que vale mais do que o poder de mandar, por exemplo, fechar uma janela da sala de aula.
Contribuir para modelar a alma de alguém, dando um determinado traço à sua mentalidade, é muito alto e nobre. Principalmente quando se trata de modelar em esferas mais altas do conhecimento, do pensamento, da Ciência, das Letras, das Artes: e, sobretudo, quando orientado para Deus Nosso Senhor, porque sem Deus tudo isso é nocivo ou não vale nada.
Então, porque os professores universitários modelam assim as almas, eles têm uma função intrinsecamente elevada. Nessa elevação entra também um ato de respeito para com o aluno, pois é tomando em muita consideração quanto vale um aluno que se dá valor à tarefa de modelar sua alma.
Por sua vez, um aluno universitário vale intrinsecamente mais do que um aluno primário, porque aquele é como a planta em eclosão, enquanto este é ainda sementinha que se acaba de lançar ao solo. Ora, a planta desenvolvida vale mais do que a semente. Por este aspecto, vale mais ser professor universitário do que primário.
Entretanto, debaixo de certo ponto de vista, o professor primário exerce mais influência sobre seus alunos do que o professor universitário.
Portanto, eles devem se respeitar mais em função da elevada missão que exercem e do valor dos alunos que modelam.
Por essa razão compreende-se o mútuo respeito. Se eles se tratarem corn desrespeito, baixam o tom e rebaixam o aluno. Quando se apresentarem para lecionar na sala de aula, alguma coisa filtra dessa baixa consideração em que eles se têm.

Relacionamento com a família imperial…
Continua no próximo post

sábado, 1 de abril de 2017

Mentalidade anti-igualitária II

Continuação do post anterior
“Aceite esta medalha de Nossa Senhora das Graças!”
Na atitude de mamãe entrava fundamentalmente um respeito à dignidade humana e, eventualmente, à dignidade de católico do mendigo.
Não há dúvida de que, se o indivíduo demonstrasse ser um ímpio, a atitude dela mudava. Se ela julgasse haver alguma perspectiva de converter o homem, ela faria de tudo para convertê-lo. Mas se visse que era um desses como que inconversíveis, ela o atenderia e trataria bem, na medida em que não lhe facilitasse fazer propaganda da impiedade dele. Ao se despedirem, diria a ele: “O senhor quer fazer-me um favor? Aceite também esta medalha de Nossa Senhora das Graças, e use em lembrança desta velha senhora que lhe quer bem!”
Este é o modo cristão pelo qual ela, catolicamente, praticava o respeito ao inferior, respeitando nele a sua própria natureza, e reverenciando, desta maneira, o Verbo de Deus que Se fez carne e habitou entre nós.

Essa forma de respeitar pode-se aplicar ainda mais facilmente à pessoa de uma mesma categoria.
Continua no próximo post

segunda-feira, 27 de março de 2017

Mentalidade anti-igualitária

Dona Lucilia tinha grande respeito pelas pessoas superiores a ela. E também muita consideração pelos inferiores, respeitando neles a sua própria natureza, e reverenciando, desta maneira, o Verbo de Deus que Se fez carne e habitou entre nós.
Quando contemplamos o Quadrinho, vemos que Dona Lucilia estava no fim de sua vida. Ela não sabia disso, mas alguns meses depois ela morreria, estando por completar 92 anos de idade. É uma belíssima idade!
Alegria em ajudar um mendigo
No Quadrinho a lucidez dela aparece inteiramente, e encontramos algo naquela atitude, naquele olhar, naquele modo de analisar as coisas, por onde se aparecesse diante dela um mendigo, o mais pobre, o mais carente de educação e de categoria, ela jamais faria a seguinte reflexão: “Como esse sujeito é nada, como eu sou mais do que ele! Não era próprio que ele estivesse na minha presença.”
É evidente que a alma dela voava para esta outra posição: “Coitado, ele é uma criatura humana como eu, é batizado, foi resgatado pelo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, e Nossa Senhora o tem como filho. Olhe como ele está precisando de um auxílio! Tenho pena dele e vou ajudá-lo!”
Não seria uma postura igualitária, como quem dissesse: “Esse mendigo é igual a mim, vem cá, dá-me um aperto de mão!” Não. Ele é um mendigo, mas uma criatura humana e um filho de Deus; e enquanto tal, por certo aspecto, é igual a mim. Então, embora ele permaneça na sua posição de mendigo, vou prestar-lhe todo o auxílio que eu puder. Se me for possível dar-lhe dinheiro, emprego, instalação para ele se lavar e  arranjar, roupa, de maneira que ele saia daqui outro, farei isso na hora e com muita alegria. Embora essa roupa não fosse a de um ministro e sim de um homem do povo, mas digna e distinta, própria de uma pessoa de condição modesta: mas esta eu daria para ele.
Isso seria para Dona Lucilia um regalo. Porém, prazer maior seria se ela pudesse dar o mesmo para toda a família do mendigo. E naquela noite o mendigo e sua família jantariam vestidos, cobertos, à vontade, com o dia seguinte garantido, com trabalho para todos. Seria uma satisfação, e mamãe contaria isso para todo mundo, não para mostrar que ela fez, mas para manifestar a alegria que ela e os beneficiados tiveram, o que eles disseram, etc.
Dir-se-ia que na primeira atitude hipotética — que Dona Lucilia não tomaria — ela demonstraria muito respeito a si porque estaria olhando para o mendigo com superioridade. Mas este seria um respeito superficial porque, substancialmente, ela é uma criatura humana e todo o resto são acidentes. O mendigo é uma criatura humana também e, embora os acidentes sejam desiguais, a natureza é a mesma. Assim sendo, ela não se respeita desprezando sua própria natureza.
A este propósito na Escritura há uma frase que, quando li, me agradou muito: “Não desprezes a tua própria carne…”
“Aceite esta medalha de Nossa Senhora das Graças!”
Na atitude de mamãe entrava fundamentalmente um respeito à dignidade humana e, eventualmente, à dignidade de católico do mendigo.
Não há dúvida de que, se o indivíduo demonstrasse ser um ímpio, a atitude dela mudava. Se ela julgasse haver alguma perspectiva de converter o homem, ela faria de tudo para convertê-lo. Mas se visse que era um desses como que inconversíveis, ela o atenderia e trataria bem, na medida em que não lhe facilitasse fazer propaganda da impiedade dele. Ao se despedirem, diria a ele: “O senhor quer fazer-me um favor? Aceite também esta medalha de Nossa Senhora das Graças, e use em lembrança desta velha senhora que lhe quer bem!”
Este é o modo cristão pelo qual ela, catolicamente, praticava o respeito ao inferior, respeitando nele a sua própria natureza, e reverenciando, desta maneira, o Verbo de Deus que Se fez carne e habitou entre nós.

Essa forma de respeitar pode-se aplicar ainda mais facilmente à pessoa de uma mesma categoria.
Continua no próximo post

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Incólume tabernáculo interior - final

Conclusão dos posts anteriores
Necessidade do verdadeiro afeto
Eu tive todas as doenças que em criança se possa ter, exceto varíola: mil gripes, caxumba, catapora, rubéola… Eu era um menino forte, mas apanhava essas enfermidades. Lembro-me de que, quando tive caxumba, minha avó, que era senhora do interior, quis curar a doença com um processo antigo, o qual consistia em pegar uma colher de pau, introduzi-la em não sei que óleo ou sebo quente, e aplicar na caxumba.
Mamãe, que já conhecia meu modo de ser, sentou-se na minha cama — correndo o risco de contrair a doença que ela nunca tivera — e me disse:
— Filhão, sua avó está querendo que você faça um tratamento antigo para essa sua caxumba, que está demorando tanto para curar. Se der certo, sara mais depressa e você levanta logo da cama. Você quer fazer?
E eu interroguei:
— Mas o que é? Quando ela me falou da tal colher de pau com sebo, eu disse:
— Isso nunca! Não quero essa coisa comigo. Diga para vovó que não, de nenhum modo.
Deu-me a ideia de sujeira. Aplicar em cima da caxumba — que já se me afigurava como uma coisa suja — uma colher de pau, metida num sebo qualquer, é grotesco; fica aquela sujeira em cima. Isso não!
Mamãe não insistiu e a coisa passou. Ela tinha esperança no tratamento, mas como eu não queria, e não havia um mal nisso, respeitou minha vontade.
Quem foi objeto desse afeto materno acredita que na vida é possível o afeto. Pelo contrário, quem não o teve, fica como navio sem leme, porque julga que na vida esse afeto não existe, e fica desgarrado, porque a existência perde um dos seus sentidos.
Considerando o caos no qual vamos afundando, é preciso ter uma confiança em quem, do Céu, é mãe para nós. Antes de tudo, Nossa Senhora, mas depois alguém mais próximo, em quem possamos confiar ao nos metermos nessa barafunda, onde tudo é um entremorder-se de feras dentro de uma confusão horrorosa, em que ninguém pode confiar em ninguém. Essa disposição de alma confiante é indispensável para nós, ao longo de toda a vida. 

Plinio Corrêa de Oliveira –  Extraído de conferência de 21/4/1990

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Incólume tabernáculo interior - VIII

Continuação dos posts anteriores
Um hematoma no pulso
Quando menino, meus afagos para ela eram torrenciais, mas desajeitados. E eu, para agradá-la, batia no braço dela, etc. Recordo-me de que estávamos almoçando todos em casa de minha avó, numa mesa muito grande, e mamãe portava um vestido em que a manga não chegava até o punho, deixando aparecer uma pulseira de marfim que ela usava.
De repente, alguém lhe perguntou:
— Lucilia, o que é esse hematoma que você tem aí no pulso?
Ela, um tanto ingenuamente, respondeu:
— Foi um agrado do Plinio.
Todos os convivas caíram na gargalhada. Eu, também sentado à mesa, não compreendi o que aquilo tinha de risível.

— Mas Lucilia — continuou a pessoa —, onde é que se viu isso?! Ela manteve-se séria, sem azedume, e disse: 
— Não sendo o mal, Plinio pode fazer o que quiser.
Continua

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Incólume tabernáculo interior - VII

Continuação dos posts anteriores
Afagos que desfazem um penteado
Quando ela morreu, lembro-me de que chorei até em altos brados. Depois entrei para o meu quarto a fim de fazer a toilette e começar a vida. Recordo-me até de que me deitei na cama para fazer um curativo no meu pé, que tinha sofrido uma amputação. De repente, uma alegria tomou conta de mim, sem nenhum propósito, e passei o dia inteiro sereno. Triste, evidentemente, mas calmo. Eu tinha resolvido ir, no dia seguinte, a uma fazenda de amigos meus, para espairecer um pouco. Meu médico, que estava em São Paulo, resolveu tirar minha pressão para ver se, com a emoção da morte, não tinha levado algum abalo, o que seria normal. Ele mediu a pressão e notou que tinha subido de um grau só, o que é completamente irrelevante. Por causa do dia tranquilo, sereno, que passei.
Eu poderia contar cem coisas, em todas as idades.
Por exemplo, lembro-me de que quando fizeram a inauguração do Teatro Municipal em São Paulo, mamãe — como todas as senhoras da sociedade paulista— deveriam vestir-se de grande gala. Ela, então, mandou fazer um vestido fino.
Para a criança, ver a mãe vestida de gala é um acontecimento. E Rosée, muito viva e inteligente, um pouquinho mais velha do que eu, compreendeu logo que não podia abraçá-la e beijá-la sem certa proporção. O temperamento feminino é mais intuitivo para isso. Ela beijou e abraçou mamãe, com cuidado.
Depois chegou minha vez...
Mamãe usava os cabelos longos, e os tinha arrumado especialmente para aquela ocasião. Com meus agrados, comecei a desfazer todo o penteado.
Os circunstantes falavam:
— Lucilia, diga para ele parar, porque estraga seu penteado!
E ela, me afagando, dizia:
— Filhinho, etc....
Sem me dar conta, pus aquilo tudo em desordem. Ela, entretanto, não consentiu em que me fizessem cessar. E a ouvi dizer em certo momento: “Nunca farei cessar um agrado de meu filho.”

Alguém afirmará: “Não é um martírio ter que refazer um penteado.” Mas é muito desagradável. Depois, não custava nada dizer: “Meu filho, agora não...” Entretanto, o princípio foi mantido: “Nunca farei cessar um agrado de meu filho.”
Continua

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Incólume tabernáculo interior - VI

Continuação dos posts anteriores
A calma e a glória
Ela possuía uma gaveta na mesa de toilette dela, onde guardava papéis. Algum tempo antes de morrer, vi que ela andava remexendo aquilo e rasgando muitos papéis. Uns dias depois da morte dela, fomos verificar o que havia na gaveta, e vimos que ela guardou o essencial; e que fizera aquilo para não termos trabalho com os papéis dela, quando ela tivesse morrido.
Observei, então, que ela mandou jogar fora coisas que eu teria gostado enormemente de conservar. Mamãe fazia as contas da casa — era uma empresa que fornecia aos fregueses uma espécie de notas, formando um caderno com todos os dias do ano —, e escrevia, a cada dia, as despesas. Tudo isso ela jogou fora, pela preocupação de não dar trabalho a ninguém. Vemos, assim, a serenidade no transpor a morte, com a tendência ainda de dar com isso uma prova de amor e receber uma prova de amor, que era o carinho dela até onde chegava. Mas na calma, vivendo a existência de todos os dias.
De maneira que quando ela adoeceu, foi uma coisa completamente inopinada. Ao cabo de dois, três dias, estava morta.
Nesta fotografia se nota, em nível modesto, doméstico, tanto quanto uma dona de casa pode ter, a glória e a calma convivendo. A vida passou, mas ela está inteiramente tranquila , com a sensação de que aguentou tudo.
E, depois, tão afável, tão amável, tão pacífica… Mas há um pouquinho de glória do Céu que recende aí. Não existe só esse sentimento terreno de que estou falando. Há alguma coisa de celeste, que é incomparavelmente mais, e se exprimiria assim: a Providência está protegendo-a, ela tem um misterioso sentir de que não vai suceder também mais nada. Só acontecerá a morte, para a qual ela está preparada. Deixe-a vir, já está tudo em ordem.

O Sinal da Cruz que ela fez ao falecer indica bem isso. Ela se recostou, ergueu-se um pouco mais, fez o “Nome do Padre” grande e caiu morta. É a calma e a glória no Céu, no plano natural e no sobrenatural.
Continua

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Incólume tabernáculo interior - V

Dia da formatura na Faculdade do Largo São Francisco
Outro momento no qual ela passou por grande aflição foi quando cheguei quase atrasado à minha formatura na Faculdade de Direito. Aí ela fez um drama comigo que nunca fizera em outra ocasião. Chamou-me para irmos ao quarto dela, que era longe, no outro lado da casa. Entramos, era dia de formatura e pensei que ela fosse me dizer alguma coisa agradável; ela passou a chave na porta, coisa que nunca havia feito, e pôs-se de joelhos diante de mim.
Eu disse:— Mas mãezinha, o que é isso?!
Ela respondeu:
— Você não sabe o que eu sofri durante esse tempo, e você vai me prometer que nunca mais repetirá isso.
Então percebi o que era. Dei risada, ajudei-a a levantar-se.
Ela afirmou:
— Não, você não está tomando a sério o que estou dizendo e a coisa é seríssima.
— Está bem, eu prometo tudo o que a senhora quiser...
Passamos, então, à sala onde estavam as outras pessoas. Foram as duas vezes que a vi assim.
Daí essa calma que vemos nesta fotografia. É uma pessoa que viveu sua vida e tem a sensação de que os vagalhões todos vieram, mas não penetraram nem desarranjaram em nada esse tabernáculo interior, e que, portanto, a vida estava feita. Alguma coisa que nessa idade ainda viesse não era mais nada. Ela estava se preparando para o Céu.
A calma e a glória

Continua

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Incólume tabernáculo interior - IV


Dentro da vida comum de uma dona de casa, o semblante, o porte e as atitudes de Dona Lucilia manifestavam a calma e a glória de quem vencera as batalhas da existência deixando intacto o tabernáculo interior, e conseguira provar que é possível, mesmo em nossos dias, o verdadeiro afeto.
Certa ocasião — tinha eu 21 anos de idade e sentia-me muito cansado — um amigo ofereceu-me de irmos à fazenda dele, em Botucatu, para descansarmos um pouco. Chegando lá, resolvemos, como todos os rapazes fazem, andar a cavalo.
O jovem Plinio cai do cavalo
Mas o caipira que preparou os animais apertou mal a barrigueira do meu cavalo. Eu não percebi, montei e, antes mesmo de sairmos, fiz um movimento meio brusco, virei e tomei uma queda muito forte; bati com a espinha numa pedra e passei dois ou três meses andando de bengala.
Não dei maior importância à coisa. Voltei a São Paulo e mamãe também não se preocupou com o fato. Certa noite, meu amigo veio à minha casa e disse a Dona Lucilia: “Olha, estive com meu tio — era um dos melhores clínicos de São Paulo naquele tempo — e ele mandou dizer à senhora que vale a pena mandar tirar uma radiografia da espinha do Plinio, porque às vezes não há sinal de perda de imobilidade das pernas; mas, quando ele tiver 40, 50 anos, se manifesta uma lesão que pode ser muito ruim. Era melhor tirar uma radiografia.”
Ela ficou muito alarmada.
Resolvemos no dia seguinte ir a um hospital, no qual havia um parque enorme, chamado Instituto Paulista. Mamãe quis ir junto. Fomos ela, meu amigo e eu; andamos por todo aquele jardim, etc., e eu me apoiando na bengala. Depois eu quis ir à capela desse instituto, onde tinha recebido uma graça e uma consolação colossal anos atrás, e fui rezar lá. Eu nem estava pensando no negócio da espinha...
Quando afinal voltei, encontrei mamãe sentada num local perto da sala das radiografias, rezando o rosário durante todo o tempo, e com os olhos úmidos de lágrimas. Eu disse: “Mas mãezinha, o que é isso?” Ela continuou a rezar e não respondeu. Continuei:
— Mas me explique um pouco...
— Eu estou muito apreensiva, afirmou ela.
— Mas por que a senhora está apreensiva?
— Conforme for o resultado, você verá.
Daí a algum tempo veio o médico, que era conhecido nosso, com a radiografia, e disse a ela:
— Não tem nada.
Ela perguntou:
— Mas Doutor, o senhor garante que não tem nada mesmo?
Ele a tranquilizou:
— Dona Lucilia, a senhora não vai entender, mas posso mostrar um pouco nesta radiografia que está tudo perfeito.
Notei que ela teve um desafogo.

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terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Incólume tabernáculo interior – III

Morte de Dona Gabriela
Dona Lucilia era inteiramente assim nas ocasiões mais aflitivas. Lembro-me de quando ela perdeu a mãe, a quem ela queria, respeitava e venerava muitíssimo. Um fatinho pode dar ideia de até onde ela levava isso.
A casa em que morávamos era dessas residências de antigamente, térreas e enormes. E a distância entre o quarto de dormir dela e o da mãe era grande. Minha avó tinha uma espécie de governanta de casa muito boa, dedicada, correta, que dormia ao seu lado. De maneira que qualquer coisa que minha avó quisesse, essa mulher atendia. Ela estava inteiramente bem atendida.
Minha mãe mandou puxar um cordão elétrico, com campainha, da cama de minha avó até a cama dela; porque a mãe dela estava velha e, no caso de urgência, podia levar certo tempo de a tal governanta chegar até o quarto de mamãe, e ela queria, tocando a campainha, ir correndo atender minha avó.
Quando a mãe dela morreu, fizeram-se as exéquias e compareceu muita gente. Cumprimenta um, recebe abraço de outro, perde-se um pouquinho a noção das coisas. Em certo momento me lembrei: mamãe onde estará? Comecei a procurá-la e não a vi. Com certeza, pensei, ela se sentiu muito abalada e foi para o seu quarto, e é possível que esteja com alguma indisposição. Fui ao quarto dela para ver. Ela estava deitada, em atitude inteiramente serena, com uma fisionomia muito triste, a posição composta e pensando.
É a tal coisa: o vagalhão não alcança!
Nunca eu vi vagalhão algum atingi-la. Em duas vezes, porém, quase a alcançou... 

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quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Lição de misericórdia

Conclusão dos posts anteriores
Afinal, meu avô chegou à residência do indivíduo, bateu na porta, entrou e encontrou esta cena: o quarto em que esse homem estava não tinha nenhum móvel, mas apenas uma cama com um colchão encostado na parede, de maneira que esta servia de cabeceira para apoiar o travesseiro.
Ele disse, arfando: “Dr. Ribeiro, muito obrigado.”
— Mas o que o senhor tem?
— Estou tuberculoso em alto grau, e às portas da morte.
Meu avô, sentado na cama dele e sujeito a contágio, tomou nota do que ele sentia para explicar ao médico, e tentaria que este fosse àquela hora da noite à casa dele; depois iria comprar os remédios numa farmácia.
Após algum tempo, meu avô retornou à casa do homem, deu-lhe todos os remédios, e mandou reservar uma passagem especial para o enfermo e sua senhora, num trem que devia ir no dia seguinte para a cidade do interior do Estado, onde ele queria morrer. Os dois embarcaram, tendo o meu avô pago tudo.
Era uma lição de misericórdia que mamãe dava, lição esta acompanhada da ideia de que quem não tem misericórdia não receberá misericórdia. E que a clemência de Deus e de Nossa Senhora, no Juízo, é reservada especialmente para os clementes.
Naturalmente, um menino, como era eu, se impressionava muito com esse fato narrado por Dona Lucilia, e as ideias sobre o Céu, o Inferno, o Juízo, a Morte, se radicavam muito no meu espírito. 

Lucilia Corrêa de Oliveira – Extraído de conferência de 11/10/1993

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Atingido por grave doença, pede auxílio em altas horas da noite



Continuação dos posts anteriores
Anos depois — eles não se viram mais —, já em São Paulo, tarde da noite, garoando, para um carro, ainda era o tempo dos carros puxados a cavalo, na porta da casa de meu avô e o cocheiro entrega um bilhete. Era daquele homem.
“Dr. Ribeiro, eu me encontro reduzido ao extremo, condenado a morrer porque estou passando muito mal, com tal doença; além do mais não tenho dinheiro para me tratar, e então quero saber se o senhor poderia vir aqui em casa, arranjar um médico para mim e me dar de presente o dinheiro necessário para eu comprar os remédios. E mais ainda, passar de carro por uma farmácia, mandar que seja aberta e conseguir os remédios. Porque se não for isso eu morro.”
Uma pessoa de minha família, que estava em casa do meu avô quando chegou esse bilhete, disse-lhe:
— Totó — meu avô chamava-se Antônio, mas no trato de casa comum era Totó — não atenda, faça esse homem agora sofrer tudo que ele quis que você padecesse. Chegou a hora de você se regozijar, a hora da justiça de Deus.
— Não, esse homem bateu à minha porta, e vou ter misericórdia para com ele; eu quero que Deus tenha misericórdia comigo quando chegar a minha vez.
— Mas você está doente, e ainda com essa garoa aí fora!
— Não tem conversa, eu vou. Cobriu-se com agasalhos, etc., e lá foi meu avô para a casa do homem, que ficava num bairro afastado.
Continua