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terça-feira, 18 de abril de 2017

Mentalidade anti-igualitária V

Conclusão dos posts anteriores
…e com a antiga cozinheira
Dona Lucilia teve uma cozinheira negra chamada Belmira que, por razões não conhecidas por mim — eu era menino e acompanhava essas coisas sem prestar atenção —, saiu de nossa casa e tomou emprego com outra família. Certa ocasião mamãe vinha a pé da Igreja do Sagrado Coração de Jesus e, na esquina de casa, encontrou-se com a Belmira que ia para outro lugar.
Por interesse pela sua antiga cozinheira, minha mãe parou e conversou um instantinho com a Belmira. Lembro-me de uma pessoa da família fazer esta censura:
— Mas como?! Parar na rua para falar com uma empregada, não tem propósito!
Mamãe respondeu:
— Não vejo problema algum. Eu faço mesmo, e é assim que deve ser.
Era a mesma pessoa altamente respeitadora da família imperial!
Senso de justiça e amor ao próximo
Esse respeito supõe, antes de tudo, uma atenção séria posta nas pessoas para ver o que é cada uma, qual sua posição, o que vale e por que vale, dando-lhe o mérito adequado e aquilo que lhe é próprio. Por caridade, por bondade, conceder às vezes um pouquinho mais do que pareceria estritamente justo, mas sem perturbar a boa disposição hierárquica.
De outro lado, supõe também muita objetividade para não querer colocar-se numa posição que não tem, nem imaginar ser o que não é. Isso requer um senso de justiça e um amor ao próximo, tão característicos da Religião Católica. Nela, esse amor ao próximo se exprimia pelo gosto, pelo prazer com que ela tributava esse respeito, vendo o que Deus concedeu a cada um e alegre de que tenha sido dado.
Eu definiria isso como uma mentalidade anti-igualitária de ponta a ponta. Uma civilização onde todos tivessem essa mentalidade seria uma civilização de muita harmonia, de muito acordo, de muito respeito e de muito afeto.

Plinio Corrêa de Oliveira – extraído de conferência de 12/4/1988

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Mentalidade anti-igualitária IV

Continuação do post anterior
Relacionamento com a família imperial…
Voltando ao modo de Dona Lucilia manifestar o respeito, menciono seu trato com aqueles que lhes eram superiores. Por exemplo, seu relacionamento com a família imperial do Brasil.
Mamãe nos contava como a Princesa Isabel conhecera sua mãe e ela, em Paris, e como a nobre senhora convidou-as para um lanche em sua residência, em Boulogne-sur-Seine. Narrava todos os pormenores da visita para se compreender a correspondência que a Princesa manteve com minha avó e com a família, até morrer.
Vem-me à memória também este fato: Eu era menino, e Dom Pedro Henrique — uns meses mais moço que eu — veio para o Brasil, pela primeira vez depois do exílio.
Os costumes do tempo eram completamente diferentes dos de hoje. Dom Pedro Henrique ia embarcar de volta para a Europa com a mãe dele, uma irmã e um irmão que morreu, e nós precisávamos ir até a estação ferroviária para nos despedir, antes de partirem de trem para o porto de Santos.
Como minha irmã e eu tínhamos tido muito mais contatos com eles do que as outras crianças da família, devíamos oferecer-lhes uma lembrança qualquer.
Recordo-me da preocupação de mamãe em encontrar uma lembrança original, que não fosse, por exemplo, um objeto que se acha em Paris muito melhor. Então o que encontrar aqui para se oferecer como presente, e que não houvesse algo semelhante na França?
Minha mãe excogitou, então, de dar para cada uma das três crianças caixas de madeira brasileira preciosa e perfumada, ornadas com certos tipos de cipós muito decorativos que, cortados ou envernizados ou encerados, ficam muito bonitos. Ela indicou como deveriam ser as caixas e os ornatos, foi ao Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo e encomendou os objetos, explicando que não podiam ser iguais: a caixa para a menina tinha de ser mais delicada; para os meninos. mais forte, etc. Com todo esmero, porque eles eram quem eram.
Depois, mandou comprar numa bonbonnière francesa que havia em São Paulo o que havia de melhor de bombons para colocar dentro das caixas, e ela mesma orientou a criada corno embrulhar os presentes em papel de seda e amarrar com fio dourado. Em seguida, explicou à minha irmã e a mim como nos aproximar da janela do trem onde eles estavam, e com que palavras entregar-lhes os presentes. Era o respeito pelos superiores!

Esse respeito ela manifestava com gosto, pois tinha alegria em respeitar. Essa cadeia de respeito ia desde um mendigo até uma princesa imperial.
Continua no próximo post

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Mentalidade anti-igualitária III

Continuação do post anterior
Mútuo respeito que dever haver entre professores
Abro um parêntese para verem o mecanismo curioso, a fundamentação desse respeito.
Tomem, por exemplo, professores universitários de um país onde haja universidades sérias, em que o título de professor universitário suponha necessariamente estudos profundos, difíceis, que representam — em certo sentido muito elástico da palavra — um “martírio” para a alma, embora sejam também um regalo para o espírito. Como fruto desses estudos, formam-se depois gerações inteiras de profissionais. Esses professores universitários devem, portanto, tratar-se com respeito.
Professores primários devem se tratar com respeito também? Sim, mas com matizes diversos. Os professores universitários devem reverenciar-se um ao outro, mais do que os professores primários entre si.
Qual é o fundamento desse respeito? É que o professor exerce certa jurisdição e certo poder sobre os alunos. Mais do que desempenhar um poder de mando, ele exerce a influência intelectual, cultural, que vale mais do que o poder de mandar, por exemplo, fechar uma janela da sala de aula.
Contribuir para modelar a alma de alguém, dando um determinado traço à sua mentalidade, é muito alto e nobre. Principalmente quando se trata de modelar em esferas mais altas do conhecimento, do pensamento, da Ciência, das Letras, das Artes: e, sobretudo, quando orientado para Deus Nosso Senhor, porque sem Deus tudo isso é nocivo ou não vale nada.
Então, porque os professores universitários modelam assim as almas, eles têm uma função intrinsecamente elevada. Nessa elevação entra também um ato de respeito para com o aluno, pois é tomando em muita consideração quanto vale um aluno que se dá valor à tarefa de modelar sua alma.
Por sua vez, um aluno universitário vale intrinsecamente mais do que um aluno primário, porque aquele é como a planta em eclosão, enquanto este é ainda sementinha que se acaba de lançar ao solo. Ora, a planta desenvolvida vale mais do que a semente. Por este aspecto, vale mais ser professor universitário do que primário.
Entretanto, debaixo de certo ponto de vista, o professor primário exerce mais influência sobre seus alunos do que o professor universitário.
Portanto, eles devem se respeitar mais em função da elevada missão que exercem e do valor dos alunos que modelam.
Por essa razão compreende-se o mútuo respeito. Se eles se tratarem corn desrespeito, baixam o tom e rebaixam o aluno. Quando se apresentarem para lecionar na sala de aula, alguma coisa filtra dessa baixa consideração em que eles se têm.

Relacionamento com a família imperial…
Continua no próximo post

sábado, 1 de abril de 2017

Mentalidade anti-igualitária II

Continuação do post anterior
“Aceite esta medalha de Nossa Senhora das Graças!”
Na atitude de mamãe entrava fundamentalmente um respeito à dignidade humana e, eventualmente, à dignidade de católico do mendigo.
Não há dúvida de que, se o indivíduo demonstrasse ser um ímpio, a atitude dela mudava. Se ela julgasse haver alguma perspectiva de converter o homem, ela faria de tudo para convertê-lo. Mas se visse que era um desses como que inconversíveis, ela o atenderia e trataria bem, na medida em que não lhe facilitasse fazer propaganda da impiedade dele. Ao se despedirem, diria a ele: “O senhor quer fazer-me um favor? Aceite também esta medalha de Nossa Senhora das Graças, e use em lembrança desta velha senhora que lhe quer bem!”
Este é o modo cristão pelo qual ela, catolicamente, praticava o respeito ao inferior, respeitando nele a sua própria natureza, e reverenciando, desta maneira, o Verbo de Deus que Se fez carne e habitou entre nós.

Essa forma de respeitar pode-se aplicar ainda mais facilmente à pessoa de uma mesma categoria.
Continua no próximo post

segunda-feira, 27 de março de 2017

Mentalidade anti-igualitária

Dona Lucilia tinha grande respeito pelas pessoas superiores a ela. E também muita consideração pelos inferiores, respeitando neles a sua própria natureza, e reverenciando, desta maneira, o Verbo de Deus que Se fez carne e habitou entre nós.
Quando contemplamos o Quadrinho, vemos que Dona Lucilia estava no fim de sua vida. Ela não sabia disso, mas alguns meses depois ela morreria, estando por completar 92 anos de idade. É uma belíssima idade!
Alegria em ajudar um mendigo
No Quadrinho a lucidez dela aparece inteiramente, e encontramos algo naquela atitude, naquele olhar, naquele modo de analisar as coisas, por onde se aparecesse diante dela um mendigo, o mais pobre, o mais carente de educação e de categoria, ela jamais faria a seguinte reflexão: “Como esse sujeito é nada, como eu sou mais do que ele! Não era próprio que ele estivesse na minha presença.”
É evidente que a alma dela voava para esta outra posição: “Coitado, ele é uma criatura humana como eu, é batizado, foi resgatado pelo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, e Nossa Senhora o tem como filho. Olhe como ele está precisando de um auxílio! Tenho pena dele e vou ajudá-lo!”
Não seria uma postura igualitária, como quem dissesse: “Esse mendigo é igual a mim, vem cá, dá-me um aperto de mão!” Não. Ele é um mendigo, mas uma criatura humana e um filho de Deus; e enquanto tal, por certo aspecto, é igual a mim. Então, embora ele permaneça na sua posição de mendigo, vou prestar-lhe todo o auxílio que eu puder. Se me for possível dar-lhe dinheiro, emprego, instalação para ele se lavar e  arranjar, roupa, de maneira que ele saia daqui outro, farei isso na hora e com muita alegria. Embora essa roupa não fosse a de um ministro e sim de um homem do povo, mas digna e distinta, própria de uma pessoa de condição modesta: mas esta eu daria para ele.
Isso seria para Dona Lucilia um regalo. Porém, prazer maior seria se ela pudesse dar o mesmo para toda a família do mendigo. E naquela noite o mendigo e sua família jantariam vestidos, cobertos, à vontade, com o dia seguinte garantido, com trabalho para todos. Seria uma satisfação, e mamãe contaria isso para todo mundo, não para mostrar que ela fez, mas para manifestar a alegria que ela e os beneficiados tiveram, o que eles disseram, etc.
Dir-se-ia que na primeira atitude hipotética — que Dona Lucilia não tomaria — ela demonstraria muito respeito a si porque estaria olhando para o mendigo com superioridade. Mas este seria um respeito superficial porque, substancialmente, ela é uma criatura humana e todo o resto são acidentes. O mendigo é uma criatura humana também e, embora os acidentes sejam desiguais, a natureza é a mesma. Assim sendo, ela não se respeita desprezando sua própria natureza.
A este propósito na Escritura há uma frase que, quando li, me agradou muito: “Não desprezes a tua própria carne…”
“Aceite esta medalha de Nossa Senhora das Graças!”
Na atitude de mamãe entrava fundamentalmente um respeito à dignidade humana e, eventualmente, à dignidade de católico do mendigo.
Não há dúvida de que, se o indivíduo demonstrasse ser um ímpio, a atitude dela mudava. Se ela julgasse haver alguma perspectiva de converter o homem, ela faria de tudo para convertê-lo. Mas se visse que era um desses como que inconversíveis, ela o atenderia e trataria bem, na medida em que não lhe facilitasse fazer propaganda da impiedade dele. Ao se despedirem, diria a ele: “O senhor quer fazer-me um favor? Aceite também esta medalha de Nossa Senhora das Graças, e use em lembrança desta velha senhora que lhe quer bem!”
Este é o modo cristão pelo qual ela, catolicamente, praticava o respeito ao inferior, respeitando nele a sua própria natureza, e reverenciando, desta maneira, o Verbo de Deus que Se fez carne e habitou entre nós.

Essa forma de respeitar pode-se aplicar ainda mais facilmente à pessoa de uma mesma categoria.
Continua no próximo post