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segunda-feira, 1 de maio de 2017
terça-feira, 18 de abril de 2017
Mentalidade anti-igualitária V
Conclusão dos posts anteriores
…e com a antiga
cozinheira
Dona
Lucilia teve uma cozinheira negra chamada Belmira que, por razões não conhecidas
por mim — eu era menino e acompanhava essas coisas sem prestar atenção —, saiu
de nossa casa e tomou emprego com outra família. Certa ocasião mamãe vinha a pé
da Igreja do Sagrado Coração de Jesus e, na esquina de casa, encontrou-se com a
Belmira que ia para outro lugar.
Por
interesse pela sua antiga cozinheira, minha mãe parou e conversou um instantinho
com a Belmira. Lembro-me de uma pessoa da família fazer esta censura:
—
Mas como?! Parar na rua para falar com uma empregada, não tem propósito!
Mamãe
respondeu:
—
Não vejo problema algum. Eu faço mesmo, e é assim que deve ser.
Era
a mesma pessoa altamente respeitadora da família imperial!
Senso de justiça
e amor ao próximo
Esse
respeito supõe, antes de tudo, uma atenção séria posta nas pessoas para ver o
que é cada uma, qual sua posição, o que vale e por que vale, dando-lhe o mérito
adequado e aquilo que lhe é próprio. Por caridade, por bondade, conceder às
vezes um pouquinho mais do que pareceria estritamente justo, mas sem perturbar
a boa disposição hierárquica.
De
outro lado, supõe também muita objetividade para não querer colocar-se numa posição
que não tem, nem imaginar ser o que não é. Isso requer um senso de justiça e um
amor ao próximo, tão característicos da Religião Católica. Nela, esse amor ao
próximo se exprimia pelo gosto, pelo prazer com que ela tributava esse
respeito, vendo o que Deus concedeu a cada um e alegre de que tenha sido dado.
Eu
definiria isso como uma mentalidade anti-igualitária de ponta a ponta. Uma
civilização onde todos tivessem essa mentalidade seria uma civilização de muita
harmonia, de muito acordo, de muito respeito e de muito afeto.
Plinio
Corrêa de Oliveira – extraído de conferência de 12/4/1988
quarta-feira, 12 de abril de 2017
Mentalidade anti-igualitária IV
Continuação do post anterior
Relacionamento
com a família imperial…
Voltando
ao modo de Dona Lucilia manifestar o respeito, menciono seu trato com aqueles
que lhes eram superiores. Por exemplo, seu relacionamento com a família
imperial do Brasil.
Mamãe
nos contava como a Princesa Isabel conhecera sua mãe e ela, em Paris, e como a
nobre senhora convidou-as para um lanche em sua residência, em Boulogne-sur-Seine.
Narrava todos os pormenores da visita para se compreender a correspondência que
a Princesa manteve com minha avó e com a família, até morrer.
Vem-me
à memória também este fato: Eu era menino, e Dom Pedro Henrique — uns meses
mais moço que eu — veio para o Brasil, pela primeira vez depois do exílio.
Os
costumes do tempo eram completamente diferentes dos de hoje. Dom Pedro Henrique
ia embarcar de volta para a Europa com a mãe dele, uma irmã e um irmão que
morreu, e nós precisávamos ir até a estação ferroviária para nos despedir,
antes de partirem de trem para o porto de Santos.
Como
minha irmã e eu tínhamos tido muito mais contatos com eles do que as outras
crianças da família, devíamos oferecer-lhes uma lembrança qualquer.
Recordo-me
da preocupação de mamãe em encontrar uma lembrança original, que não fosse, por
exemplo, um objeto que se acha em Paris muito melhor. Então o que encontrar
aqui para se oferecer como presente, e que não houvesse algo semelhante na
França?
Minha
mãe excogitou, então, de dar para cada uma das três crianças caixas de madeira
brasileira preciosa e perfumada, ornadas com certos tipos de cipós muito
decorativos que, cortados ou envernizados ou encerados, ficam muito bonitos.
Ela indicou como deveriam ser as caixas e os ornatos, foi ao Liceu de Artes e
Ofícios de São Paulo e encomendou os objetos, explicando que não podiam ser
iguais: a caixa para a menina tinha de ser mais delicada; para os meninos. mais
forte, etc. Com todo esmero, porque eles eram quem eram.
Depois,
mandou comprar numa bonbonnière francesa que havia em São Paulo o que havia de
melhor de bombons para colocar dentro das caixas, e ela mesma orientou a criada
corno embrulhar os presentes em papel de seda e amarrar com fio dourado. Em
seguida, explicou à minha irmã e a mim como nos aproximar da janela do trem
onde eles estavam, e com que palavras entregar-lhes os presentes. Era o
respeito pelos superiores!
Esse
respeito ela manifestava com gosto, pois tinha alegria em respeitar. Essa
cadeia de respeito ia desde um mendigo até uma princesa imperial.
Continua no próximo post
quinta-feira, 6 de abril de 2017
Mentalidade anti-igualitária III
Continuação do post anterior
Mútuo respeito
que dever haver entre professores
Abro
um parêntese para verem o mecanismo curioso, a fundamentação desse respeito.
Tomem,
por exemplo, professores universitários de um país onde haja universidades
sérias, em que o título de professor universitário suponha necessariamente
estudos profundos, difíceis, que representam — em certo sentido muito elástico
da palavra — um “martírio” para a alma, embora sejam também um regalo para o
espírito. Como fruto desses estudos, formam-se depois gerações inteiras de
profissionais. Esses professores universitários devem, portanto, tratar-se com
respeito.
Professores
primários devem se tratar com respeito também? Sim, mas com matizes diversos.
Os professores universitários devem reverenciar-se um ao outro, mais do que os
professores primários entre si.
Qual
é o fundamento desse respeito? É que o professor exerce certa jurisdição e
certo poder sobre os alunos. Mais do que desempenhar um poder de mando, ele
exerce a influência intelectual, cultural, que vale mais do que o poder de
mandar, por exemplo, fechar uma janela da sala de aula.
Contribuir
para modelar a alma de alguém, dando um determinado traço à sua mentalidade, é
muito alto e nobre. Principalmente quando se trata de modelar em esferas mais
altas do conhecimento, do pensamento, da Ciência, das Letras, das Artes: e,
sobretudo, quando orientado para Deus Nosso Senhor, porque sem Deus tudo isso é
nocivo ou não vale nada.
Então,
porque os professores universitários modelam assim as almas, eles têm uma
função intrinsecamente elevada. Nessa elevação entra também um ato de respeito
para com o aluno, pois é tomando em muita consideração quanto vale um aluno que
se dá valor à tarefa de modelar sua alma.
Por
sua vez, um aluno universitário vale intrinsecamente mais do que um aluno
primário, porque aquele é como a planta em eclosão, enquanto este é ainda
sementinha que se acaba de lançar ao solo. Ora, a planta desenvolvida vale mais
do que a semente. Por este aspecto, vale mais ser professor universitário do
que primário.
Entretanto,
debaixo de certo ponto de vista, o professor primário exerce mais influência
sobre seus alunos do que o professor universitário.
Portanto,
eles devem se respeitar mais em função da elevada missão que exercem e do valor
dos alunos que modelam.
Por
essa razão compreende-se o mútuo respeito. Se eles se tratarem corn desrespeito,
baixam o tom e rebaixam o aluno. Quando se apresentarem para lecionar na sala
de aula, alguma coisa filtra dessa baixa consideração em que eles se têm.
Relacionamento
com a família imperial…
Continua no próximo post
sábado, 1 de abril de 2017
Mentalidade anti-igualitária II
Continuação do post anterior
“Aceite esta medalha de Nossa Senhora das Graças!”
Na
atitude de mamãe entrava fundamentalmente um respeito à dignidade humana e,
eventualmente, à dignidade de católico do mendigo.
Não
há dúvida de que, se o indivíduo demonstrasse ser um ímpio, a atitude dela
mudava. Se ela julgasse haver alguma perspectiva de converter o homem, ela
faria de tudo para convertê-lo. Mas se visse que era um desses como
que inconversíveis, ela o atenderia e trataria bem, na medida em que não lhe
facilitasse fazer propaganda da impiedade dele. Ao se despedirem, diria a ele:
“O senhor quer fazer-me um favor? Aceite também esta medalha de Nossa Senhora
das Graças, e use em lembrança desta velha senhora que lhe quer bem!”
Este
é o modo cristão pelo qual ela, catolicamente, praticava o respeito ao
inferior, respeitando nele a sua própria natureza, e reverenciando, desta
maneira, o Verbo de Deus que Se fez carne e habitou entre nós.
Essa
forma de respeitar pode-se aplicar ainda mais facilmente à pessoa de uma mesma
categoria.
Continua no próximo post
segunda-feira, 27 de março de 2017
Mentalidade anti-igualitária
Dona Lucilia tinha grande respeito pelas
pessoas superiores a ela. E também muita consideração pelos inferiores,
respeitando neles a sua própria natureza, e reverenciando, desta maneira, o
Verbo de Deus que Se fez carne e habitou entre nós.
Quando
contemplamos o Quadrinho, vemos que Dona Lucilia estava no fim de sua vida. Ela
não sabia disso, mas alguns meses depois ela morreria, estando por completar 92
anos de idade. É uma belíssima idade!
Alegria em ajudar
um mendigo
No
Quadrinho a lucidez dela aparece inteiramente, e encontramos algo naquela
atitude, naquele olhar, naquele modo de analisar as coisas, por onde se
aparecesse diante dela um mendigo, o mais pobre, o mais carente de educação e
de categoria, ela jamais faria a seguinte reflexão: “Como esse sujeito é nada,
como eu sou mais do que ele! Não era próprio que ele estivesse na minha presença.”
É
evidente que a alma dela voava para esta outra posição: “Coitado, ele é uma
criatura humana como eu, é batizado, foi resgatado pelo Sangue de Nosso Senhor
Jesus Cristo, e Nossa Senhora o tem como filho. Olhe como ele está precisando de
um auxílio! Tenho pena dele e vou ajudá-lo!”
Não
seria uma postura igualitária, como quem dissesse: “Esse mendigo é igual a mim,
vem cá, dá-me um aperto de mão!” Não. Ele é um mendigo, mas uma criatura humana
e um filho de Deus; e enquanto tal, por certo aspecto, é igual a mim. Então,
embora ele permaneça na sua posição de mendigo, vou prestar-lhe todo o auxílio
que eu puder. Se me for possível dar-lhe dinheiro, emprego, instalação para ele
se lavar e arranjar, roupa, de maneira
que ele saia daqui outro, farei isso na hora e com muita alegria. Embora essa
roupa não fosse a de um ministro e sim de um homem do povo, mas digna e
distinta, própria de uma pessoa de condição modesta: mas esta eu daria para
ele.
Isso
seria para Dona Lucilia um regalo. Porém, prazer maior seria se ela pudesse dar
o mesmo para toda a família do mendigo. E naquela noite o mendigo e sua família
jantariam vestidos, cobertos, à vontade, com o dia seguinte garantido, com
trabalho para todos. Seria uma satisfação, e mamãe contaria isso para todo mundo,
não para mostrar que ela fez, mas para manifestar a alegria que ela e os
beneficiados tiveram, o que eles disseram, etc.
Dir-se-ia
que na primeira atitude hipotética — que Dona Lucilia não tomaria — ela
demonstraria muito respeito a si porque estaria olhando para o mendigo com superioridade.
Mas este seria um respeito superficial porque, substancialmente, ela é uma
criatura humana e todo o resto são acidentes. O mendigo é uma criatura humana
também e, embora os acidentes sejam desiguais, a natureza é a mesma. Assim
sendo, ela não se respeita desprezando sua própria natureza.
A
este propósito na Escritura há uma frase que, quando li, me agradou muito: “Não
desprezes a tua própria carne…”
“Aceite
esta medalha de Nossa Senhora das Graças!”
Na
atitude de mamãe entrava fundamentalmente um respeito à dignidade humana e,
eventualmente, à dignidade de católico do mendigo.
Não
há dúvida de que, se o indivíduo demonstrasse ser um ímpio, a atitude dela
mudava. Se ela julgasse haver alguma perspectiva de converter o homem, ela
faria de tudo para convertê-lo. Mas se visse que era um desses como
que inconversíveis, ela o atenderia e trataria bem, na medida em que não lhe facilitasse
fazer propaganda da impiedade dele. Ao se despedirem, diria a ele: “O senhor
quer fazer-me um favor? Aceite também esta medalha de Nossa Senhora das Graças,
e use em lembrança desta velha senhora que lhe quer bem!”
Este
é o modo cristão pelo qual ela, catolicamente, praticava o respeito ao inferior,
respeitando nele a sua própria natureza, e reverenciando, desta maneira, o
Verbo de Deus que Se fez carne e habitou entre nós.
Essa
forma de respeitar pode-se aplicar ainda mais facilmente à pessoa de uma mesma
categoria.
Continua no próximo post
sexta-feira, 12 de agosto de 2016
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