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sábado, 20 de maio de 2017

Eixo e modelo de todo verdadeiro afeto

Conclusão dos posts anteriores
Esteio temperamental e afetivo de nossas almas
Toda criatura humana que tem um pouco de bom senso compreende não haver afeto humano que não decepcione. Mas nem por isso se vinga, fica amarga, agressiva, deprimida; porque, se é verdade que nós, ao fazer bem aos outros, não somos pagos como teríamos direito, é certo que Nosso Senhor paga. Porque o bem que nós fazemos aos outros é feito a Ele, e principalmente, por Ele. De maneira que Jesus toma em todo devido valor o nosso afeto, recompensa um milhão por um, nos cumula torrencialmente do afeto d’Ele, e o que os outros tenham ou não tenham feito de nossa bondade é secundário.
Isso é o que cura de todo calvinismo; fica-se outro quando se toma isso em consideração. Sobretudo quando se concebe, ao lado ou abaixo do Coração de Jesus, o Coração Imaculado de Maria. Nosso Senhor é Pai, Nossa Senhora é Mãe, e tem essas ternuras, essas condescendências, esse superávit de bondade que o coração materno possui.
Ninguém pode nos amar mais do que Nosso Senhor. Maria Santíssima, portanto, não nos ama mais do que Nosso Senhor. Mas certas formas de amor, que são próprias da mãe, Ele quis mostrar que tem, dando-nos a Mãe d’Ele, para que n’Ela nós víssemos o que há a mais n’Ele que não se pode ver.
Então, os Sagrados Corações de Jesus e Maria são o esteio temperamental e afetivo de nossas almas. 

Plinio Corrêa de Oliveira – Extraído de conferência de 12/12/1984

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Eixo e modelo de todo verdadeiro afeto

Continuação dp post anterior
Mentalidade hollywoodiana: busca do interesse e do prazer
Dª Lucilia com o neto
É exatamente o que começou a ser contestado no mundo, logo depois de eu ter iniciado a conhecê-la, não com aquele conhecimento instintivo que uma criança tem de sua mãe, mas quando, como filho, comecei a analisar, a admirar e a querê-la bem.
O sistema hollywoodiano de viver é a negação de tudo isso, porque ele importa em uma vida apressada, de corre-corre atrás do interesse e do prazer, onde não há tempo nem desejo de deter a atenção em valores dessa ordem, e uma vida que se detém nesses valores parece fracassada e balofa. A alegria saracoteante deve dominar toda a existência, e o homem precisa ter um otimismo egoístico, na contínua esperança de que vai conseguir tudo aquilo que ele deseja para si.
A outra pessoa com que o indivíduo se relaciona desempenha um magro papel dentro disso. Ele quer ter um automóvel, uma casa, um avião, quer fazer viagens, enfim, divertir-se; e todo esse afeto fica à margem, nas franjas da vida, importando cada vez menos, enquanto o egoísmo vai tomando conta da existência.
E o verdadeiro afeto tem qualquer coisa de tristonho, porque as condições desta vida levam a compreender que devemos uns aos outros uma estima, a qual entende bem que o outro sofre e nós sofremos também, e que temos de nos ajudar a carregar o peso da vida. O saracoteio hollywoodiano não comporta isso.
Quando analisamos a imagem do Coração de Jesus, vemos uma postura muito digna, em que Nosso Senhor Se dá inteiro e mostra seu Coração. E notamos qualquer coisa de triste n’Ele, como quem prevê a hipótese de não ser correspondido, de receber uma ingratidão, ou tem em conta uma ingratidão que recebeu, mas perdoa e convida para um novo ato de bondade, de confiança. É o que está expresso.
Comparemos isso com o perpétuo saracoteio, o pula-pula e a alegria contínua de Hollywood, e compreenderemos que há um abismo de diferença entre as duas mentalidades!

E Dona Lucilia pegou o fim dessa escola do afeto, da qual era discípula ardentíssima. Logo depois dela veio a escola do contrário.
Continua no próximo post.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Eixo e modelo de todo verdadeiro afeto

O afeto de Dona Lucilia para com os outros tinha como modelo o Sagrado Coração de Jesus, e o corolário desse afeto era a abnegação. Bem o contrário da mentalidade hollywoodiana, que se caracteriza pelo otimismo egoístico.
Na concepção de Dona Lucilia sobre as relações psicológicas, humanas, o termo final do relacionamento era o afeto. E o afeto tinha uma importância enorme, no modo dela conceber a vida.
Afeto cheio de admiração, renúncia de si mesmo
Mamãe considerava que quando as pessoas se conhecem e encontram uma verdadeira e séria afinidade, isso desfecha num afeto mútuo. E, portanto, para o processo mental de uma criatura humana em face da outra, seja qual for a natureza das relações — pai, filho, marido, mulher, irmão, irmã, amigo —, o desfecho é se contemplarem e, na consideração da semelhança ou da afinidade, terem um afeto.
E esse afeto representava algo que dava substância e calor à vida, e se simbolizava no coração. Donde a devoção ao Sagrado Coração de Jesus era o afeto de Deus pelos homens, e convidava ao afeto dos homens para com Deus.
Mas não era um afeto boboca, de querer bem sem consequência; era um afeto cheio de admiração, com entusiasmo, analítico, que examina o que quer e se transforma em dedicação, em abnegação.
Mamãe era muitíssimo abnegada. O corolário do afeto era a abnegação, a renúncia de si mesmo a favor da pessoa a quem se quer bem.
E muito razoavelmente, muito catolicamente, ela via na devoção ao Sagrado Coração de Jesus, Rei e centro de todos os corações, o próprio eixo e o modelo perfeito de todo afeto.

Ou seja, querer bem é como o Coração de Jesus ama cada um de nós; querê-Lo bem é amá-Lo com um amor que é o símile — guardadas as proporções — do amor que Ele tem a nós. E nisso está a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, a qual realiza, assim, o processo, o périplo, o circuito inteiro da alma humana.
Continua no próximo post.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Lucilia Corrêa de Oliveira (foto)


Eu não sei como é que essas duas atitudes [distinção e desafio] se fundiam nesse momento no espírito dela, mas ela toma ar de quase ligeiro desafio. Dir-se-ia que ela, pouco antes, esteve discutindo com alguém, e que ela sustenta o que ela disse: aquilo é aquilo.

Plinio Corrêa de Oliveira – 19/01/1994

terça-feira, 18 de abril de 2017

Mentalidade anti-igualitária V

Conclusão dos posts anteriores
…e com a antiga cozinheira
Dona Lucilia teve uma cozinheira negra chamada Belmira que, por razões não conhecidas por mim — eu era menino e acompanhava essas coisas sem prestar atenção —, saiu de nossa casa e tomou emprego com outra família. Certa ocasião mamãe vinha a pé da Igreja do Sagrado Coração de Jesus e, na esquina de casa, encontrou-se com a Belmira que ia para outro lugar.
Por interesse pela sua antiga cozinheira, minha mãe parou e conversou um instantinho com a Belmira. Lembro-me de uma pessoa da família fazer esta censura:
— Mas como?! Parar na rua para falar com uma empregada, não tem propósito!
Mamãe respondeu:
— Não vejo problema algum. Eu faço mesmo, e é assim que deve ser.
Era a mesma pessoa altamente respeitadora da família imperial!
Senso de justiça e amor ao próximo
Esse respeito supõe, antes de tudo, uma atenção séria posta nas pessoas para ver o que é cada uma, qual sua posição, o que vale e por que vale, dando-lhe o mérito adequado e aquilo que lhe é próprio. Por caridade, por bondade, conceder às vezes um pouquinho mais do que pareceria estritamente justo, mas sem perturbar a boa disposição hierárquica.
De outro lado, supõe também muita objetividade para não querer colocar-se numa posição que não tem, nem imaginar ser o que não é. Isso requer um senso de justiça e um amor ao próximo, tão característicos da Religião Católica. Nela, esse amor ao próximo se exprimia pelo gosto, pelo prazer com que ela tributava esse respeito, vendo o que Deus concedeu a cada um e alegre de que tenha sido dado.
Eu definiria isso como uma mentalidade anti-igualitária de ponta a ponta. Uma civilização onde todos tivessem essa mentalidade seria uma civilização de muita harmonia, de muito acordo, de muito respeito e de muito afeto.

Plinio Corrêa de Oliveira – extraído de conferência de 12/4/1988

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Mentalidade anti-igualitária IV

Continuação do post anterior
Relacionamento com a família imperial…
Voltando ao modo de Dona Lucilia manifestar o respeito, menciono seu trato com aqueles que lhes eram superiores. Por exemplo, seu relacionamento com a família imperial do Brasil.
Mamãe nos contava como a Princesa Isabel conhecera sua mãe e ela, em Paris, e como a nobre senhora convidou-as para um lanche em sua residência, em Boulogne-sur-Seine. Narrava todos os pormenores da visita para se compreender a correspondência que a Princesa manteve com minha avó e com a família, até morrer.
Vem-me à memória também este fato: Eu era menino, e Dom Pedro Henrique — uns meses mais moço que eu — veio para o Brasil, pela primeira vez depois do exílio.
Os costumes do tempo eram completamente diferentes dos de hoje. Dom Pedro Henrique ia embarcar de volta para a Europa com a mãe dele, uma irmã e um irmão que morreu, e nós precisávamos ir até a estação ferroviária para nos despedir, antes de partirem de trem para o porto de Santos.
Como minha irmã e eu tínhamos tido muito mais contatos com eles do que as outras crianças da família, devíamos oferecer-lhes uma lembrança qualquer.
Recordo-me da preocupação de mamãe em encontrar uma lembrança original, que não fosse, por exemplo, um objeto que se acha em Paris muito melhor. Então o que encontrar aqui para se oferecer como presente, e que não houvesse algo semelhante na França?
Minha mãe excogitou, então, de dar para cada uma das três crianças caixas de madeira brasileira preciosa e perfumada, ornadas com certos tipos de cipós muito decorativos que, cortados ou envernizados ou encerados, ficam muito bonitos. Ela indicou como deveriam ser as caixas e os ornatos, foi ao Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo e encomendou os objetos, explicando que não podiam ser iguais: a caixa para a menina tinha de ser mais delicada; para os meninos. mais forte, etc. Com todo esmero, porque eles eram quem eram.
Depois, mandou comprar numa bonbonnière francesa que havia em São Paulo o que havia de melhor de bombons para colocar dentro das caixas, e ela mesma orientou a criada corno embrulhar os presentes em papel de seda e amarrar com fio dourado. Em seguida, explicou à minha irmã e a mim como nos aproximar da janela do trem onde eles estavam, e com que palavras entregar-lhes os presentes. Era o respeito pelos superiores!

Esse respeito ela manifestava com gosto, pois tinha alegria em respeitar. Essa cadeia de respeito ia desde um mendigo até uma princesa imperial.
Continua no próximo post

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Mentalidade anti-igualitária III

Continuação do post anterior
Mútuo respeito que dever haver entre professores
Abro um parêntese para verem o mecanismo curioso, a fundamentação desse respeito.
Tomem, por exemplo, professores universitários de um país onde haja universidades sérias, em que o título de professor universitário suponha necessariamente estudos profundos, difíceis, que representam — em certo sentido muito elástico da palavra — um “martírio” para a alma, embora sejam também um regalo para o espírito. Como fruto desses estudos, formam-se depois gerações inteiras de profissionais. Esses professores universitários devem, portanto, tratar-se com respeito.
Professores primários devem se tratar com respeito também? Sim, mas com matizes diversos. Os professores universitários devem reverenciar-se um ao outro, mais do que os professores primários entre si.
Qual é o fundamento desse respeito? É que o professor exerce certa jurisdição e certo poder sobre os alunos. Mais do que desempenhar um poder de mando, ele exerce a influência intelectual, cultural, que vale mais do que o poder de mandar, por exemplo, fechar uma janela da sala de aula.
Contribuir para modelar a alma de alguém, dando um determinado traço à sua mentalidade, é muito alto e nobre. Principalmente quando se trata de modelar em esferas mais altas do conhecimento, do pensamento, da Ciência, das Letras, das Artes: e, sobretudo, quando orientado para Deus Nosso Senhor, porque sem Deus tudo isso é nocivo ou não vale nada.
Então, porque os professores universitários modelam assim as almas, eles têm uma função intrinsecamente elevada. Nessa elevação entra também um ato de respeito para com o aluno, pois é tomando em muita consideração quanto vale um aluno que se dá valor à tarefa de modelar sua alma.
Por sua vez, um aluno universitário vale intrinsecamente mais do que um aluno primário, porque aquele é como a planta em eclosão, enquanto este é ainda sementinha que se acaba de lançar ao solo. Ora, a planta desenvolvida vale mais do que a semente. Por este aspecto, vale mais ser professor universitário do que primário.
Entretanto, debaixo de certo ponto de vista, o professor primário exerce mais influência sobre seus alunos do que o professor universitário.
Portanto, eles devem se respeitar mais em função da elevada missão que exercem e do valor dos alunos que modelam.
Por essa razão compreende-se o mútuo respeito. Se eles se tratarem corn desrespeito, baixam o tom e rebaixam o aluno. Quando se apresentarem para lecionar na sala de aula, alguma coisa filtra dessa baixa consideração em que eles se têm.

Relacionamento com a família imperial…
Continua no próximo post

sábado, 1 de abril de 2017

Mentalidade anti-igualitária II

Continuação do post anterior
“Aceite esta medalha de Nossa Senhora das Graças!”
Na atitude de mamãe entrava fundamentalmente um respeito à dignidade humana e, eventualmente, à dignidade de católico do mendigo.
Não há dúvida de que, se o indivíduo demonstrasse ser um ímpio, a atitude dela mudava. Se ela julgasse haver alguma perspectiva de converter o homem, ela faria de tudo para convertê-lo. Mas se visse que era um desses como que inconversíveis, ela o atenderia e trataria bem, na medida em que não lhe facilitasse fazer propaganda da impiedade dele. Ao se despedirem, diria a ele: “O senhor quer fazer-me um favor? Aceite também esta medalha de Nossa Senhora das Graças, e use em lembrança desta velha senhora que lhe quer bem!”
Este é o modo cristão pelo qual ela, catolicamente, praticava o respeito ao inferior, respeitando nele a sua própria natureza, e reverenciando, desta maneira, o Verbo de Deus que Se fez carne e habitou entre nós.

Essa forma de respeitar pode-se aplicar ainda mais facilmente à pessoa de uma mesma categoria.
Continua no próximo post

segunda-feira, 27 de março de 2017

Mentalidade anti-igualitária

Dona Lucilia tinha grande respeito pelas pessoas superiores a ela. E também muita consideração pelos inferiores, respeitando neles a sua própria natureza, e reverenciando, desta maneira, o Verbo de Deus que Se fez carne e habitou entre nós.
Quando contemplamos o Quadrinho, vemos que Dona Lucilia estava no fim de sua vida. Ela não sabia disso, mas alguns meses depois ela morreria, estando por completar 92 anos de idade. É uma belíssima idade!
Alegria em ajudar um mendigo
No Quadrinho a lucidez dela aparece inteiramente, e encontramos algo naquela atitude, naquele olhar, naquele modo de analisar as coisas, por onde se aparecesse diante dela um mendigo, o mais pobre, o mais carente de educação e de categoria, ela jamais faria a seguinte reflexão: “Como esse sujeito é nada, como eu sou mais do que ele! Não era próprio que ele estivesse na minha presença.”
É evidente que a alma dela voava para esta outra posição: “Coitado, ele é uma criatura humana como eu, é batizado, foi resgatado pelo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, e Nossa Senhora o tem como filho. Olhe como ele está precisando de um auxílio! Tenho pena dele e vou ajudá-lo!”
Não seria uma postura igualitária, como quem dissesse: “Esse mendigo é igual a mim, vem cá, dá-me um aperto de mão!” Não. Ele é um mendigo, mas uma criatura humana e um filho de Deus; e enquanto tal, por certo aspecto, é igual a mim. Então, embora ele permaneça na sua posição de mendigo, vou prestar-lhe todo o auxílio que eu puder. Se me for possível dar-lhe dinheiro, emprego, instalação para ele se lavar e  arranjar, roupa, de maneira que ele saia daqui outro, farei isso na hora e com muita alegria. Embora essa roupa não fosse a de um ministro e sim de um homem do povo, mas digna e distinta, própria de uma pessoa de condição modesta: mas esta eu daria para ele.
Isso seria para Dona Lucilia um regalo. Porém, prazer maior seria se ela pudesse dar o mesmo para toda a família do mendigo. E naquela noite o mendigo e sua família jantariam vestidos, cobertos, à vontade, com o dia seguinte garantido, com trabalho para todos. Seria uma satisfação, e mamãe contaria isso para todo mundo, não para mostrar que ela fez, mas para manifestar a alegria que ela e os beneficiados tiveram, o que eles disseram, etc.
Dir-se-ia que na primeira atitude hipotética — que Dona Lucilia não tomaria — ela demonstraria muito respeito a si porque estaria olhando para o mendigo com superioridade. Mas este seria um respeito superficial porque, substancialmente, ela é uma criatura humana e todo o resto são acidentes. O mendigo é uma criatura humana também e, embora os acidentes sejam desiguais, a natureza é a mesma. Assim sendo, ela não se respeita desprezando sua própria natureza.
A este propósito na Escritura há uma frase que, quando li, me agradou muito: “Não desprezes a tua própria carne…”
“Aceite esta medalha de Nossa Senhora das Graças!”
Na atitude de mamãe entrava fundamentalmente um respeito à dignidade humana e, eventualmente, à dignidade de católico do mendigo.
Não há dúvida de que, se o indivíduo demonstrasse ser um ímpio, a atitude dela mudava. Se ela julgasse haver alguma perspectiva de converter o homem, ela faria de tudo para convertê-lo. Mas se visse que era um desses como que inconversíveis, ela o atenderia e trataria bem, na medida em que não lhe facilitasse fazer propaganda da impiedade dele. Ao se despedirem, diria a ele: “O senhor quer fazer-me um favor? Aceite também esta medalha de Nossa Senhora das Graças, e use em lembrança desta velha senhora que lhe quer bem!”
Este é o modo cristão pelo qual ela, catolicamente, praticava o respeito ao inferior, respeitando nele a sua própria natureza, e reverenciando, desta maneira, o Verbo de Deus que Se fez carne e habitou entre nós.

Essa forma de respeitar pode-se aplicar ainda mais facilmente à pessoa de uma mesma categoria.
Continua no próximo post

quarta-feira, 30 de março de 2016

Transbordamento de bondade IV

Conclusão dos posts anteriores
"Catena aurea" de intermediações
Não me espanta nem um pouco, portanto, que ao pedir graças por intercessão dela, as pessoas sejam atendidas dessa maneira. Foi o próprio modo de ser dela, a vida inteira.
Há um princípio de São Bernardo, que diz: “De Maria nunquam satis”. Nunca basta, a respeito de Nossa Senhora. É o único princípio em que eu timbro em ser estrito até o último ponto possível e imaginável. Quer dizer, qualquer forma de devoção à Virgem Santíssima que se tenha adquirido, seja a que título ou de que maneira for, não se diminui nunca!
Contudo, em que proporção se deve pedir a Dona Lucilia, em que proporção se deve pedir a Nossa Senhora?
A meu ver, a resposta varia muito de acordo com a pessoa. Eu, por exemplo, peço enormemente a Nossa Senhora, mais do que a mamãe, porque me habituei a isso e “de Maria nunquam satis”.
Creio que o recurso a ela deve ser visto como o de todas as outras devoções, que não são a Nossa Senhora ou a Nosso Senhor Jesus Cristo, naturalmente. Todas as devoções são consideradas em função da mediação universal de Maria Santíssima.
A Doutrina Católica ensina que qualquer santo no Céu — por exemplo, Santo Antônio de Pádua ou Santa Teresinha do Menino Jesus — que obtenha uma graça de Deus para nós, foi porque pediu por meio de Nossa Senhora. A fortiori, as almas que a Igreja não canonizou, mas se tem certeza de serem amadas por Deus, estão nessas condições. Podemos pedir, e se obtivermos, devemos agradecer, certos de que foi por meio de Nossa Senhora que essa alma nos conseguiu esse favor; do contrário, ela não obteria nada.
Entretanto, pode ser que, por desígnios da Providência, nossa atenção mais assídua esteja concentrada, de imediato, nessa alma, mas sempre com esse fundo de quadro que, aliás, repete-se em relação a Nosso Senhor Jesus Cristo, porque Ele é o único mediador entre o Padre Eterno e os homens. Nossa Senhora obtém porque pede por intermédio d’Ele. Se Ela pedisse desligada d’Ele — muito mais, a fortiori, do que no caso d’Ela conosco — não obteria nada. Há, portanto, uma espécie de catena aurea 2 de intermediações.

Plinio Correa de Oliveira - Extraído de conferência de 30/1/1982

quinta-feira, 24 de março de 2016

Transbordamento de bondade III (cont)

Continuação dos posts anteriores
Presentes dados a Dr. Plinio
Todo ano, por ocasião de meu aniversário, Natal, Ano Bom, mamãe me dava um presentinho, mas não muito caro, porque eu tinha pouco dinheiro para dar-lhe e ela vivia de uma rendazinha que eu lhe concedia. Mas ela comprava o melhor que podia. Dona Lucilia era desse gênero de pessoas que achava que as coisas tendem ao eterno, e não se dava bem ideia de como os gostos mudam. Em vez de confiar a Rosée a compra de uma gravata, ela confiava a papai, porque na família ele era tido, em moço, como se vestindo muito bem. Então permaneceu aquela ideia: João Paulo veste-se bem.
Naturalmente, os tempos passaram, as modas mudaram, mas papai comprava gravatas ao gosto do tempo dele, sem o esmero que caracterizava mamãe. Mas ela julgava que estava muito bem comprada, porque “João Paulo veste-se bem”. Há muita gente que envelhece assim, com esses paradigmas fixos.
Naquele tempo, qualquer gravata — mesmo que não fosse de muito boa qualidade — vinha coberta por uma folha de seda, dentro de uma caixa.
Não sei por que, mas em vez de escrever num cartãozinho, ela o fazia nesse papel de seda. Era o hábito. Eu respeitava seu modo de fazer, porque neste entravam os pormenores mais miúdos de uma personalidade que, para mim, no caso dela, tinha um sabor, de maneira que eu deixava fazer e fingia que achava tudo inteiramente normal.
E uns anos antes de ela começar a perder a lucidez — ficou com a lucidez meio trincada, bem prejudicada nos dois últimos anos da vida —, ela teve catarata e via mal. E depois não dominava bem os braços; para uma pessoa velha, ela os dominava normalmente. Certo dia eu passei à tufão pelo corredor de meu apartamento e a vi sentadinha junto à minha escrivaninha — ela julgava que eu me encontrava fora de casa e estava, então, me preparando a surpresa de aniversário, porque em cada vez uma gravata, um abajur ou outro objeto assim era uma surpresa.
E ela estava sentadinha ali, vendo mal, escrevendo ainda com aquelas penas de aço que se molham no tinteiro e depois se escreve. Caneta tinteiro ela nunca usou. E escrevendo umas palavras que eram, em geral: “Ao filhão querido, muitos beijos e abraços”, ou algo semelhante, sem nenhuma pretensão, mas com um cuidado, um esforço, uma coisa enorme! Ela toda estava empenhada em que aquilo saísse bem feito. Eu fingi que não notei — creio que ela nem me viu passar — e fui embora. Depois guardei a caixa.

Era esse o esmero com que ela fazia qualquer coisa pequena, e até pobre. Com um cuidado que era esse carinho envolvente como uma campânula, que abrange por inteiro e constituía a nota característica do afeto materno dela.
Continua

sábado, 19 de março de 2016

Transbordamento de bondade II (cont)

Continuação do post anterior
Música de conselhos, gestos e afagos
Plinio, Ilka e Rosée
Por exemplo, na hora do lanche que se tomava na própria sala de jantar; era raro servirem-no em bandeja no local onde a pessoa estava. E eu era muito assíduo a todas as refeições, não faltava a uma delas, e com um apetite fenomenal!
Em geral a sala de jantar nessas casas antigas era o living. Além da mesa e das cadeiras, comportava ternos de couro e outras coisas. E mamãe lá estava, com minha avó e alguma outra pessoa da família. Os adultos não tomavam lanche ou se serviam muito pouco dele. Ela, às vezes, tomava, mas muito pouco. Os mais moços sempre tomavam lanche, sobretudo minha prima, que era um bom garfo, e eu. Minha irmã, pouco.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Transbordamento de bondade (cont)

Desejo de conviver com seu filho, mesmo que fosse por um instante
Exceto em ocasiões como aniversários etc., os agrados dela eram como em todas as outras famílias. De manhã eu beijava a mão, depois o rosto de mamãe; e à noite, antes de dormir, também. Só isso.
Quando éramos crianças, minha prima, minha irmã e eu tínhamos a Fräulein1 e estudávamos em um recinto, no andar superior da casa, que servia como sala de estudos e de brinquedo. Tendo eu ficado mais velho e a Fräulein sido despedida, pus uma mesa de estudos no escritório de papai; e mamãe, de vez em quando, entrava.
E o entrar — até o primeiro ou segundo ano da faculdade isso não desapareceu, embora tenha se atenuado — era meio para ver se eu não estava perdendo meu tempo fazendo qualquer bobagem, que a criança faz para não estudar, ou se estava estudando mesmo.
Ela não propriamente disfarçava, mas tinha tanta vontade de agradar e ficava tão contente de ter esta oportunidade natural, que entrava transbordando de carinho. Eu fechava a porta do escritório de papai — que em geral ficava trabalhando na cidade — não a chave, mas só com o trinco. Mamãe abria o trinco de um modo inteiramente diferente do meu. Ela o fazia devagarzinho, entrava e me dizia alguma coisa da miúda vida cotidiana, por exemplo: “Filhão, você já tomou seu lanche?” Ou então:
“Filhão, como caiu a temperatura!” Era tão carinhosa e de tal maneira se percebia que ela queria me ouvir falar, conviver comigo naquele instantinho, que era uma coisa extraordinária!
Mamãe era muito ciosa do meu tempo, mas com uma restrição: se eu fazia algum aceno para ela sentar-se e conversarmos um pouco, não recusava. Falávamos então sobre o tempo, exames, coisas muito respeitáveis, etc., mas ela não se impunha nunca. Isso até o fim de sua vida.
Eu não me lembro de uma só vez em que ela se sentasse junto à minha mesa de estudos só para conversar, prosear. Seria uma coisa tão natural numa mãe... Às vezes mamãe entrava e apanhava uma cadeira porque tinha alguma coisa particular para falar, contava um fato de família, tratava de algo que era necessário resolver. Mas, fora desses casos, nunca!
E sua prosinha era leve, ela ficava tão entretida, contente e agradecida que transbordava. Porém, bastava notar um pouquinho que eu estava com pressa no estudo para ela imediatamente se levantar, fingindo que não percebeu. E às vezes até ela dizia: “Filhão, sua avó está esperando em tal sala, preciso atendê-la, etc.”, ou alguma coisa assim, mas para não me deixar mal à vontade.
Vê-se, portanto, numa bagatela como essa, o requinte do esmero. Não é propriamente da polidez. Quem reduzisse isso à polidez, baixaria o alcance do que estou dizendo. É o requinte da vontade de agradar, produzindo uma sensação agradável a todo propósito.

Continua no próximo post