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quarta-feira, 26 de abril de 2017

Lucilia Corrêa de Oliveira (foto)


Eu não sei como é que essas duas atitudes [distinção e desafio] se fundiam nesse momento no espírito dela, mas ela toma ar de quase ligeiro desafio. Dir-se-ia que ela, pouco antes, esteve discutindo com alguém, e que ela sustenta o que ela disse: aquilo é aquilo.

Plinio Corrêa de Oliveira – 19/01/1994

domingo, 10 de abril de 2016

Intercessão de Dona Lucilia junto a Nossa Senhora II - Cont

Continuação do post anterior
O grande mérito do Quadrinho
Essas reflexões se desdobram em comentários colaterais inúmeros. Por exemplo, eu vi mais de uma vez pessoas, homens e senhoras, que, quando deitam todo empenho em fazer alguma coisa, por exemplo, algo caligraficamente bem executado, dizem: “Agora não me interrompa, porque vou fazer tal coisa.” E se eriçam para fora e se aplicam para dentro.
Não é nem um pouco o modo de mamãe se aplicar. Poder-se-ia interrompê-la em algo mais especial que estivesse fazendo, que ela era absolutamente a mesma. Interrompia, ou então dizia: “Sua mãe agora não pode atender, espere um pouquinho.” Mas um “espere um pouquinho” que convidava a ficar ali perto, junto dela.
Quando ela queria fazer as coisas bem feitas, não era com mania de perfeição, pois esta deixa a pessoa como que sem fôlego, ofegante. Dona Lucilia sempre possuía fôlego, embora se notasse que ela estava indo além de suas forças. Tudo isso tinha uma doçura que não sei descrever; é só olhando para o Quadrinho2. A conversa mantida por ela era a mais geral que se possa imaginar. Naquele tempo, as conversações numa família muito movimentada abrangiam, misturados, fatos da casa, da família, acontecimentos como, por exemplo, uma trombada que houve na rua, episódios internacionais, tudo isso ao sabor dos temas e das associações das imagens. Os assuntos vinham aflorando e, absolutamente, não era considerado desatencioso ou grosseiro mudar de tema.
Assim, também Dona Lucilia falava a respeito de tudo. Então, um gabinete que subiu na Inglaterra, uma tia doente, uma conferência que houve na Academia Francesa de Letras, ou o vagãozinho do teleférico do Pão de Açúcar que encrencou, tudo isso podia entrar em qualquer ordem dentro da conversa.

Por outro lado, ela possuía, interiormente, uma espécie de monólogo que está expresso no Quadrinho. E o grande mérito do Quadrinho é exprimir esse monólogo. Quer dizer, uma longa elucubração sobre mil e mil coisas. 
Continua no próximo post

terça-feira, 5 de abril de 2016

Intercessão de Dona Lucilia junto a Nossa Senhora

No século XIX, as pessoas tinham uma tendência de mitificar determinados parentes. Isso ocorreu com Santa Teresinha, que julgava ser santo um tio dela. E Dona Lucilia mitificou a figura de algumas pessoas de sua família. Posteriormente, verificou que a realidade muitas vezes era diferente, o que produziu nela um longo monólogo interior sobre a dureza da alma humana, quando não corresponde à graça de Deus.
No que diz respeito às devoções, há dentro da Santa Igreja uma liberdade de acordo com o movimento das almas. Por exemplo, se eu comecei uma novena a Nossa Senhora e, de repente, me ocorre de pedir a Santo Antônio de Pádua, pode ser uma prova de inconstância e, portanto, uma coisa não bem feita; mas, em certas ocasiões, pode ser que eu não faça mal, porque conheci, pelo movimento da graça, que aquilo calhava melhor.
Intercessão de Dona Lucilia junto a Nossa Senhora
No tocante ao pedido da intercessão de Dona Lucilia, uma devoção conduz à outra; ou seja, se for bem vista e bem usada, a devoção a ela leva ao afervoramento na devoção a Nossa Senhora. Se a devoção a Maria Santíssima for bem praticada, conduz, muito facilmente e sem alfândegas, ao recurso a ela. Essas coisas são livres como o ar.
Na Igreja, para tudo aquilo que não é matéria de pecado há muita liberdade, conforme os sopros da graça.
Para meu foro interno, é certo este ponto: diminuir a devoção a Nossa Senhora, nunca! Por exemplo, eu ficaria apavorado se alguém diminuísse a reza do Rosário para orar mais a mamãe. Não! Adquiriu esse hábito, deve conservá-lo até morrer! Entretanto, pode-se pedir que Dona Lucilia reze o Rosário conosco, aos pés da Santíssima Virgem.
Não significa que o papel de mamãe seja automático e que ela seria, portanto, um botão o qual, pressionado, leva postalmente um pedido a Nossa Senhora. Contudo, pode haver favores que, pedindo por meio de Dona Lucilia, nós obtemos da Mãe de Deus, e que, não rogando por esse meio, não obteríamos. Portanto, nesse caso, é uma coisa que depende de nós rogarmos a intercessão dela, porque Nossa Senhora quer essa intercessão para nos atender. Se não houvesse essa intercessão, não nos atenderia.
Tomemos como exemplo a cena que se passava após a sagração do rei da França.
A escrófula é uma doença localizada, que deixa a pele em estado muito repugnante. E o rei tocava os escrofulosos, dizendo: “Le roi te touche, Dieu te guérisse”1. E muitos saíam de lá se dizendo curados.
Imaginemos que um escrofuloso afirmasse o seguinte: “O Rei me cura pela graça de Deus. Então, muito melhor do que ser tocado pelo Rei é ser tocado pelo Santíssimo Sacramento. Logo, não quero ser tocado pelo Rei e vou comungar.” Talvez não sarasse de sua escrófula...
Embora ele tivesse razão — é muito melhor comungar do que ser tocado pelo rei —, para obter aquela cura era desígnio de Deus glorificar o monarca; e, portanto, fazer a cura apenas mediante o pedido do rei.
Vê-se, assim, como nessas mediações não há nada de automático. Nós estamos tão viciados na automação, que temos uma tendência a imaginar o automático.

Compreendo que uma alma aflita, conhecendo que Nossa Senhora quer que se peça determinada graça por meio de Dona Lucilia, agarre-se nela, com a convicção confusa de que, com isso, realiza o plano da Providência. Não é que ela esteja passando por cima da Providência, mas está obedecendo à Providência.
Continua...

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Harmonia e doçura

Os gestos de Dona Lucilia, o timbre de sua voz, as palavras que dizia, o modo de se dirigir a alguém etc., exprimiam a harmonia que habitava toda a pessoa dela. Em tudo ela manifestava a doçura, não apenas de um coração afetivo, compassivo e benévolo, mas que resultava dessa mesma harmonia.
Vejamos as palavras de seu filho, Plinio Correa de Oliveira pronunciadas em conferência de 2/8/1982.
Sobre meu atual relacionamento com mamãe, há uma coisa um pouco difícil de explicar. Em meu quarto de uma das Sedes de nosso Movimento, tiveram a ideia filial e, ao mesmo tempo, magnífica, de colocar a fotografia de corpo inteiro dela, tirada em Paris. Naturalmente, não passo uma só vez pelo quarto sem olhar para a fotografia. Habitualmente, quer quando esteja entrando ou saindo, quer quando fico lá dentro, ao deitar-me, contemplo-a.
“Eu a tenho presente continuamente, com todos os pormenores”
Mas uma pessoa poderia me perguntar: “O senhor sente saudades dela? Como são essas saudades?”
É uma pergunta cheia de propósito, mas difícil de responder pelo seguinte: a minha união de alma com Dona Lucilia era tão grande que, quando eu passo diante de sua fotografia, tenho a impressão de ter estado com ela há cinco minutos.
A figura dela habita de tal maneira em minha mente — a figura moral ainda mais do que a física, embora esta seja expressão da figura moral, é claro —, que a distância, mesmo entre a vida militante e a vida gloriosa no Céu, não é grande. E eu a tenho presente continuamente, com todos os pormenores, todos os detalhes e tudo o mais. De maneira que, ainda agora, passei em frente ao quadro e tive, uma vez mais, a impressão preponderante que a fotografia me causa, e pensei:
“É curioso, mas eu tinha esta impressão quando era pequenino e a via partir para um lugar, para outro, em traje de gala. Como posso explicar que eu mantenha essa mesma impressão tão viva hoje? Bem, deve ser a memória. Mas minha memória é tão pífia... não pode ser.”
O tule que ela segura nas mãos parece ser uma corporificação da harmonia
De fato, trata-se de uma coisa diferente; é o mesmo sentimento, como se experimentasse vivamente aquela sensação de doçura, não apenas de um coração afetivo, compassivo, benévolo; é uma doçura que resultava da harmonia de tudo dentro dela.
Há por detrás disso uma coisa, por assim dizer, filosófica. Ela era muito harmônica em tudo. Os gestos, o timbre de voz, o que ela dizia, o modo de se dirigir a uma pessoa; em tudo isso havia uma harmonia que, quem não a conheceu pessoalmente, não pode fazer uma ideia de como tenha sido.
Essa impressão Dona Lucilia me dava muito profundamente, e dessa harmonia decorria a doçura. Ela colocava o interlocutor, se este quisesse, dentro dessa harmonia também; e o envolvia e o penetrava de harmonia, que desarmava os maus humores, os nervosismos e todas as outras coisas análogas, deixando a pessoa inteiramente à vontade. Eu não saberia explicar bem como, mas era assim.

A meu ver, isso se exprime naquela fotografia, no todo, é verdade, mas especialmente nos gestos dos braços e no tule que ela conduz, o qual parece uma corporificação, uma condensação daquela harmonia. Dir-se-ia que mamãe pegou-a no ar, franziu um pouco e saiu o tule… E que ela andava e vivia nesse ritmo. Isso ficou de tal maneira presente na minha recordação, que é como se tivesse estado com ela cinco minutos atrás. Isso mora em mim!
Continua no próximo post.