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quarta-feira, 31 de maio de 2017

Bondade e intransigência

Minha mãe era de uma bondade que eu não saberia explicar. Inclusive na hora de perdoar, ela manifestava sempre uma indulgência, uma suavidade, nunca uma reclamação porque algo a tivesse atingido. Em suas repreensões não entrava a reivindicação de um direito próprio, mas a defesa de um princípio do qual seu espírito estava imbuído. E embora não soubesse explicitar os princípios, ela os possuía.
Por isso, suas repreensões não resultavam de uma irritação pessoal, mas de um princípio ofendido — inclusive o princípio da autoridade materna — mas sempre com tanta bondade, tanta paciência tanto perdão no que dizia respeito a si, que mesmo que se fizesse o pior contra ela, ela o suportava sem dizer palavra.
Por outro lado, que severidade em suas repreensões! Que seriedade no olhar! Que compenetração de que se tratava de fazer prevalecer um princípio! Que convicção de que se não conformasse minha vida com aqueles princípios, eu valeria muito menos para ela, porque em mim ela via mais o filho que deveria amar os princípios do que alguém que lhe deveria querer bem!
Ademais, quanta sabedoria no que dizia! Embora a voz fosse grave, a bondade nunca estava ausente. Sua intransigência para comigo estava sempre mesclada com a bondade.
Certa vez, no apogeu de minha vida escolar — eu nunca fui o primeiro de minha aula — voltei do Colégio São Luiz, após a festa da distribuição de prêmios, com quatro medalhas no peito. Naquele tempos ingênuos, os meninos vinham pela rua ostentando as suas medalhas, e assim vinha eu com minha roupa à marinheira. Quando mamãe me abriu a porta, afagou-me muito; foi uma alegria!

No ano seguinte, eu voltei com três medalhas. Abrindo a porta, ela me viu e disse: “Só três?” — E acrescentou intransigente: “Como é que você decaiu, o que aconteceu para você decair?” Mas tudo isso misturado com tanto afeto, tanta bondade e tanto carinho, que para mim foi uma preparação para compreender o que era a misericórdia de Nossa Senhora. Outro tanto poderiam os senhores dizer de suas mães.
Plinio Corrêa de Oliveira

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Mãe verdadeiramente católica IV

Conclusão dos posts anteriores
O sorriso e a carícia da Mãe do Bom Conselho
O arquétipo de mãe é Nossa Senhora. Portanto, entre a Santíssima Virgem e todas as boas mães há uma espécie de nexo, por onde, a partir do momento em que Nossa Senhora ficou Mãe, tenho a impressão de que a condição de mãe recebeu um acréscimo que não vem da natureza, mas do sobrenatural, nobilitando-a no universo inteiro. E que todas as mães que conservam alguma dignidade — dentro da tradição católica do ser mãe — tiveram, têm e terão até o fim do mundo uma espécie de superávit além da graça comum, algo mais especial para serem mães inteiramente como devem ser, na linha do que a Mãe de Deus foi. Assim como, pela Encarnação do Verbo, todos os seres humanos adquiriram uma dignidade maior.
O que vou dizer nunca li em teólogo algum — e estou pronto a dobrar a língua, com alegria, diante do ensinamento da Igreja —, mas tenho a impressão de que, a partir do momento em que Nosso Senhor Jesus Cristo nasceu, as realezas se tornaram mais sagradas, a condição de professor se tornou mais elevada, a de militar mais heroica. E toda a vida humana recebeu um acréscimo sobrenatural, que começou a perder quando a Revolução estalou.
Essa hipótese me agrada enormemente.
Então, quem foi mais exímia mãe tem um nexo especial com Nosso Senhor Jesus Cristo e com Nossa Senhora. E quanto mais extraordinariamente tenha sido mãe — num sentido simbólico, mas também vivo da palavra —, essa participação com o Coração materno de Maria lucrou alguma coisa. E isto era muito intenso em Dona Lucilia.
A respeito da imagem de Nossa Senhora de Genazzano, sempre tive a seguinte ideia: O que ali está pintado, exprimindo as relações de Nosso Senhor com Nossa Senhora, é uma espécie de consonância e de intimidade tais que Eles nem precisavam falar. Estavam sempre meditando e consonando numa mesma direção. Ela O carrega e Ele se deixa carregar por Ela, com uma naturalidade que representa o amor da Mãe e do Filho de um modo admirável, arquetípico.
É assim que a Mãe perfeita ama o Filho Divino. E todo o amor de filho para mãe e de mãe para filho, de algum modo se repete dessa forma, em graus diferentes. Porque, a partir do momento em que Ela se tornou Mãe, houve esse aperfeiçoamento.
Lembro-me bem do sorriso e da carícia de Mater Boni Consilii quando recebi aquela comunicação, em 1967. Depois daquele fato, passou-me pela mente esta ideia: Como o amor de mamãe é parecido com o d’Ela, embora com diferenças de grau insondáveis!”

Plinio Corrêa de Oliveira – Extraído de conferência de 15/8/1987

sábado, 2 de julho de 2016

Mãe verdadeiramente católica III

Continuação do post anterior
O falecimento de seu pai
Dr. Antônio Ribeiro dos Santos
Pai de Dona Lucilia
Um episódio muito doloroso para ela foi a morte do pai.
Ele viajara a negócios para Santos. Certa manhã, estando em uma loja no centro da cidade, teve um desmaio. O dono do estabelecimento deitou-o sobre o balcão, mas ele já estava desacordado. Levaram-no para a casa de um amigo que morava ali perto.
Ao lado do quarto onde ele se encontrava deitado, estavam várias pessoas conversando, porque a essas alturas começaram a chegar muitos conhecidos. Em certo momento ouviram-no chamar: “Gabriel, Gabriel!”, tratava-se de seu filho mais velho. Este entrou e perguntou-lhe: “Papai, o que o senhor quer?” Ele fez um sinal de que estava indisposto, e morreu.
Mamãe não estava em Santos, mas em São Paulo. No dia seguinte, o trem com o cadáver subiu para São Paulo para ser feito o enterro.
Ela me contava que estava numa casa, a pouca distância da residência de vovô, esta situada na Alameda Barão de Limeira, onde depois passei grande parte de minha vida. Ela se aprontou para sair com meu pai e um tio que tentaram conduzi-la, pela distância de meio quarteirão, até a casa onde se encontrava o corpo de meu avô. Mas ela não conseguia andar, tal era seu estado de emoção e tristeza.
Então esse tio disse a papai: “João Paulo, você veja, não é possível levarmos Lucilia até a casa do pai dela, ela não anda! Vamos levá-la de volta para sua residência porque é inútil continuarmos!”
Papai perguntou para ela: “Você quer voltar para casa?”

Mamãe fez um sinal afirmativo, como quem diz: “Não há remédio, eu volto.” Ela nem teve coragem de ver o cadáver do pai. Foi um choque tremendo!
Continua...

domingo, 26 de junho de 2016

Mãe verdadeiramente católica II

Continuação do post anterior
Na fotografia em que olha para o calendário, ela toma essa posição para comprazer quem a está fotografando, porque já estava com a catarata tão adiantada que via muito pouco, a ponto de nem se preocupar mais em usar óculos.
Eu não quis sujeitá-la, nessa idade, a uma operação de catarata, que para ela poderia ser traumática. Julguei melhor deixar assim.
Nota-se, em meio a tudo isso, muita segurança.
As flores lhe eram bem mais visíveis.
Nessa foto em que olha para as flores, percebe-se que Dona Lucilia está tomada por uma tristeza e até um certo desacordo com algo. Parece lembrar-se de alguma coisa mal feita que a desagradou, e ela ainda se encontra no choque de uma luta, a qual, como de costume, era alguma contenda que não lhe saiu melhor, ou seja, a outra parte não cedeu o que ela queria.
Essas fotografias me consolam. Elas nunca teriam sido possíveis se não fosse aquela crise de diabetes que eu sofri. Porque, estando em convalescença, as pessoas vinham falar comigo e se conseguiu tirar essas fotos.
As pessoas não fazem ideia de quanto eu a queria bem. Era uma miscelânea de muitíssimo afeto e de muito respeito. O respeito que eu tinha a ela era enorme!
Imaginem um jato de luz que bate de frente e inunda um objeto. Assim era o meu afeto por ela. Eu a queria intensamente bem! Não havia em mim intensidade maior possível para querer uma mera criatura humana, depois de Nossa Senhora. E eu lhe manifestava torrencialmente; agradava-a, dizia-lhe coisas amáveis. O tempo inteiro em que eu estava com mamãe, era como se fosse um sino tocando em louvor dela. Não parava!
Meu pai, às vezes, ficava meio enciumado. E então ele lhe dizia, imitando o sotaque português e em tom de brincadeira: “Não te derretas!”
Mas eu percebia que papai queria que eu dissesse alguma coisa para ele. Eu o tratava muito bem, com muita atenção e cortesia. Mas a diferença era enorme! E uma vez ele disse: “É... aqui em casa, papai é tratado muito bem, muito direito… Mas o entusiasmo todo é por mamãe, não é?”
Dona Lucilia tinha um cunhado que ela queria salvar a todo custo. E ela ouvia-me conversar assuntos relativos à Fé com meus amigos, e prestava muita atenção em tudo quanto eu dizia.
Às vezes ela perguntava: “Por que vocês não dizem isto para Fulano?”

Ela julgava, talvez equivocadamente, que ouvindo aquilo o cunhado seria “bombardeado” para o Céu.
Continua...

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Comemoração do aniversário de Dona Lucilia...

Mamãe tinha certeza absoluta de que eu compareceria para comemorar o aniversário dela. Morávamos na mesma casa, e ademais ela sabia bem o quanto eu a queria e, portanto, era certíssimo que estaria presente.
Ela poderia ter um certo receio de que, levado por preocupações do escritório, eu chegasse tarde, mas não começaria a refeição comemorativa do seu aniversário sem minha presença. Os convidados já sabiam disso, e não insistiam. Embora ficasse às vezes um pouco preocupada, ela não me dizia nada para não me contrariar.
O que havia de minha parte nessa ocasião era algo que pareceria impossível fazer, mas cabia numa circunstância assim: um redobramento de carinho. O carinho mesclado com um pouco de brincadeira que eu fazia com ela sobre um ponto ou outro, e que ela sabia muito bem ser gracejo. Por exemplo, já contei que frequentemente — acho que devido a essa temperatura aqui de São Paulo —, quando a osculava, eu sentia no meu rosto a ponta do nariz dela ligeiramente fria; então eu perguntava: “Como é, está com muito frio no nariz?”; são brincadeirinhas que se fazem para dar um pouquinho de alegria à vida de família.
...e o de Dr. Plinio
Ela festejava muito mais o meu aniversário do que o dela, mas isso não dependia de mim. O meu aniversário era comemorado no almoço e no jantar, com um menu redobrado; enquanto no aniversário dela havia só uma ceia em que compareciam os parentes mais chegados.
Para mim ela sempre mandava fazer um pombinho, porque quando estávamos na Alemanha, no hotel de uma estação de águas medicinais, chamada Wiesbaden, serviam pombinhos com certa frequência. E quando vinha esse prato à mesa, eu, sempre muito interessado em assuntos gastronômicos, já percebia de longe e dizia em voz alta, batendo palmas: “Mamãe, pombinhos!”
Dona Lucilia fazia-me sinal para não fazer barulho numa sala de jantar de um hotel solene. Basta dizer que nessa grande sala de jantar havia um ambiente, separado por um cortinado, com uma mesa montada para o Kaiser e pessoas da corte. Quando o Kaiser chegava, corriam as cortinas, tocavam o hino da Alemanha, batiam palmas, o Monarca agradecia, sentava-se e depois o almoço corria.
Mas, apesar da atenção dos empregados sempre voltada para a ideia de que, nos períodos de férias, o Kaiser poderia aparecer de uma hora para outra, o copeiro ficava muito contente quando tinha pombinhos porque gostava de ver a minha reação. Ele procurou traduzir a palavra pombinhos por “pimbinchen”. Não existe em alemão nem em português essa palavra; é uma mescla de subalemão e de nulo-português... E ele mostrava de longe o prato para mim e dizia: “Pimbinchen!”, e eu ficava muito contente.
Então, quando chegava o meu aniversário, ela mandava comprar “pimbinchens” na feira e os preparava segundo uma receita especial, e ficava uma coisa muito gostosa. Colocava três ou quatro “pimbinchens”, além de uma sobremesa. Tudo adequado. E quando vinham os pombinhos, ela dizia: “Filhão, seus ‘pimbinchens’.” E eu, às vezes, manifestava maior alegria para contentá-la também.
Isso era a nossa despretensiosa vida comum, mas que para mim consistia um tesouro com valor sem nome!
No tocante ao aniversário dela, Rosée se incumbia do presente, porque eram, em geral, artigos de senhora, dos quais eu não tinha a menor ideia. Eu combinava com minha irmã, acertávamos as contas e ela fazia a compra. De maneira que, às vezes, eu nem tomava conhecimento do que tinha sido dado. Mamãe sabia que isso era assim.
Evidentemente, fazíamos mais orações um pelo outro, mas não dialogando. São coisas do modo de ser paulista antigo. Isso não quer dizer que seja o ideal, mas também não acho reprimível; creio ser um modo de proceder que poderia ser melhor, mas estava bem.

Plinio Correa de Oliveira – Extraído de conferência de 22/4/1993

sábado, 10 de outubro de 2015

A elevação de alma de Dona Lucilia II

Continuação do post anterior
Uma graça que lhe fazia ver um horizonte pleno de sublimidade
Mas o que era esse lumen?
Evidentemente era algo de substância, de fundo religioso, mas como uma senhora o concebe, não, portanto, teologicamente expresso. Tratava-se de uma graça que produzia efeitos na fisionomia dela, fazendo-lhe ver um horizonte longínquo, cheio de sublimidade e, ao mesmo tempo, exigindo dor e dando afabilidade. E que lhe permitia relacionar muito as coisas, de maneira a achar bonitas, agradáveis, belas, quando eram criadas por Deus.
Ela era muito pormenorizada em tudo. Por exemplo, ao comentar o franzido das pétalas de um cravo e como era diferente de outra, mostrando a bonita variedade que isso possuía. Eu não me lembro em concreto que ela tenha falado isso sobre os cravos, mas seus comentários eram nessa clave.
Assim mamãe via todas as coisas da natureza. Ela era mais sensível à natureza do que eu, e menos sensível à arte do que eu. Isso se explica porque, no fundo, vejo na arte um fenômeno de opinião pública, e isso ela pegava de um modo muito vago, incompleto, como era vocação dela, tão ligada à minha, mas era outra. É compreensível, e até absolutamente natural.
Tomem, por exemplo, uma fotografia dela tirada em Paris, à maneira daquele tempo, sentada num banco de madeira laqueado de branco, muito pouco bonito. Ela sabia que estava sendo fotografada e tomou uma atitude conveniente, como se fazia naquela época.
Percebe-se que ela está prestando atenção, mas seu olhar está noutra cogitação, que era continuamente a consideração de altos horizontes e uma interpretação da humanidade, da vida, portanto, dos próximos dela, em função de uma desilusão que vinha crescendo. De minha parte, fiz o possível para que não houvesse essa desilusão a meu respeito. Um de seus maiores sofrimentos era ver as devastações que a ausência desse lumen produzia nas almas.
Modo como Dona Lucilia rezava
No convívio com mamãe, eu recebi muito disso; e ela devia ver em mim, mas dava manifestações mínimas. Demonstrava muito carinho, mas palavras faladas, não.
Não me consta que mamãe me tenha feito um elogio a ninguém. As cartas dela transbordam de afeto e de carinho altamente elogioso, de maneira implícita; dizem muito como ela me quer bem, mas não fundamenta a razão do querer bem.
Quando ela afirmou “eu só tenho a você, mas você eu tenho inteiramente”, não era um elogio, mas uma manifestação de afeto; e isso ocorria a toda hora, mas era diferente de um elogio.
Presenciei muitas vezes mamãe rezar. Nunca a vi orar com fisionomia romântica, sonhadora, sorrindo para a imagem... Nada disso, absolutamente. Mas ela sempre estava muito recolhida, muito respeitosa. O afeto transbordava dela, especialmente quando estava de pé, rezando próximo à imagem do Sagrado Coração de Jesus, no salão azul.
O olhar dela era de uma grande elevação, mas, por assim dizer, nunca paramos para nos olhar um ao outro, a não ser uma vez ou outra, quase mais por gracejo, instantaneamente, uma coisa muito fugaz.
Mas eu peregrinei muito nesse olhar, como uma ave voa no céu!

Plinio Correa de Oliveira – Extraído de conferência de 2/5/1981

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Homenagem à Lucília Correa de Oliveira

Com as vistas postas no benefício espiritual que estas tocantes recordações poderão propiciar às almas de nossos leitores, rendemos uma homenagem à Dona Lucilia neste 47º ano de seu passamento.
Plinio Correa de Oliveira tributou a Dona Lucilia entranhado amor de filho, tendo-a como exemplo de alma cristã e como apoio no quotidiano de seu apostolado.
Naquela manhã de 21 de abril de 1968, após fazer um grande Sinal da Cruz, Dona Lucilia — como mais tarde diria alguém — “saía com majestade de uma vida que soube levar com honra”. Conservou em seus últimos instantes a mesma serenidade com que, durante nove décadas, arrostara muitos sofrimentos, sem surpresa nem inconformidade.
Para Dr. Plinio, a despedida não significou propriamente um adeus, pois a sentiu sempre presente junto a si, conforme ele mesmo se comprazia em frisar:
“Na hora do corpo de mamãe deixar a casa em direção ao cemitério, comecei a sentir que o apartamento estava todo impregnado da presença dela, como se ainda estivesse lá. Essa ação de presença suave, essa forma de tranqüilidade post mortem que ela me comunicou, dentro da existência e das condições comuns do dia-a-dia, tudo tão normal, tão corrente, tão autêntico, representa para mim uma fonte de contínua alegria.
“Eu peregrinei dentro do olhar dela, feito de doçura, desde os meus primeiros olhares de criança recém-nascida, até o derradeiro olhar do último ‘boa noite’, depois do qual não nos vimos mais em vida. Eu, que tanto amei essa doçura, que tanto fiz dela um gáudio, uma razão de bem-estar para minha vida, sinto-a pairar ainda a todo momento na casa, que é dela, não minha.
“Dona Lucilia se foi, mas nunca deixei de sentir sua presença junto a mim, como a sentia quando era viva. E, devo dizer, durante o nosso convívio terreno, esse sentimento se enriquecia por uma peculiar consonância entre o espírito de mamãe e a atmosfera da igreja do Coração de Jesus. Não posso me esquecer de quando, durante a Missa ou uma visita ao Santíssimo Sacramento, ajoelhava-me ao lado dela e, observando-a, notava como se embebia daquela atmosfera da igreja, quase como se fosse uma segunda natureza.
“De tal maneira que, ao retornarmos à casa, um ambiente digno, porém sem a espiritualidade própria ao edifício sagrado, eu pensava: ‘É pena que minha casa não possa ser como a igreja’. Contudo, ao ver mamãe caminhar de um lado para outro, eu me dava conta: ‘Bem, mas é como se um raio de luz da igreja reluzisse por aqui...’
“E é interessante que, quando eu precisava me ausentar em viagens curtas ou longas, separando-me de Dona Lucilia, consolava-me a ideia de que a lembrança dela e a do ambiente da Igreja do Sagrado Coração de Jesus me acompanhariam. E que assim eu conservaria na minha memória uma espécie de presença dela, tão grata, tão afim comigo, que não representaria para mim propriamente uma separação.
“Nesse caso, o provérbio francês tão adequado — partir, c’est mourir un peu 1 — não se aplicava. Partir era apenas tomar distância. E no outro extremo da distância estava ela e, sobretudo, a Igreja do Sagrado Coração de Jesus...”2

1) Partir é morrer um pouco.
2) Conferências em 7/5/1977, 21/4/1981 e 22/4/1983.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Dama paulista de outrora

Ao nos descrever o temperamento e a forma de ser de sua mãe, Dr. Plinio salienta o afeto e a delicadeza de alma com que ela se relacionava, e a atitude que tomava perante a vida: um sentir-se a todo momento na presença de Deus para, no fim da existência terrena, apresentar-se ao Criador com todos os sacrifícios aceitos e a Ele oferecidos.
Para melhor se compreender a personalidade de mamãe, é preciso tomar em consideração ter sido ela, fundamentalmente, uma senhora do século XIX, como aquele tempo entendia o modo de ser que uma senhora devia manifestar. O que em nada desmerece as características das damas nascidas nessa quadra histórica, pois a excelsa Santa Teresinha do Menino Jesus, nos seus escritos, na sua conduta antes de se tornar carmelita, e mesmo depois de ter ingressado no convento, portou-se em tudo como uma moça francesa do século XIX. As poesias da santa, os cânticos compostos por ela, seus desenhos e sua linguagem, eram próprios da jovem dos idos de 1880, assim como o pai dela, Sr. Martin, percebe-se pelas suas fotografias, era o típico Monsieur daquela época.
Donde, o ponto de partida para se entender mamãe é situá-la como uma senhora nascida e formada, na sua mocidade, no século XIX.
Invulgar maturidade de espírito
Essa característica, somada a outras peculiaridades, faziam dela uma pessoa cuja mentalidade dir-se-ia muito anterior à da sua geração. Por exemplo, no convívio doméstico, Dona Lucilia conversava com a mãe dela quase como se fossem da mesma idade. Por outro lado, em relação à irmã seis anos mais nova, tratavam-se como se entre elas houvesse um valo divisório. Quer dizer, mamãe demonstrava possuir mais afinidade com as coisas e pessoas do tempo de minha avó — portanto, na flor do século XIX — do que com as de sua época ou pouco mais novas.
Um fato ilustra bem essa situação. Nas primeiras décadas do século XX, muitas mulheres começaram a aderir à moda de cortar os cabelos, deixando-os bem curtos, junto ao queixo. Algumas parentes de mamãe, inclusive suas irmãs mais novas, logo adotaram o penteado em voga. Dona Lucilia, porém, nunca cortou os cabelos, e faleceu usando os cabelos compridos, como era típico das senhoras do século anterior.
Basta analisar, aliás, fotografias dela tiradas quando tinha seus 35 anos, e posteriores, para se perceber tratar-se de uma pessoa da Belle Époque, que atingira uma maturidade de espírito maior do que o comum das mulheres de sua geração.
Características da antiga dama paulista
Poder-se-ia então perguntar como se apresentava uma senhora da aristocracia paulista do século XIX, como era mamãe.
Eu diria que era uma senhora afeita, de maneira acentuada, ao âmbito doméstico. Passava a maior parte de seu tempo em casa, gostava de cuidar das coisas do lar, ausentandose poucas vezes para acompanhar as filhas. Duas ou três vezes por ano assistia a algum espetáculo de gala, especialmente quando atores estrangeiros encenavam peças no Teatro Municipal.
A par desses eventos, a vida social consistia em visitas a amigos e parentes, nos moldes de outrora. Chegava-se à casa, tocava-se a campainha, a governanta ou outra ajudante aparecia:
— Pois não?
— Dona fulana está?
— Ah, sim, por favor, entre. Vou avisar que a senhora a espera.
A anfitriã se fazia aguardar durante alguns minutos de estilo, e então surgia, afável e acolhedora.
— Ah! Bom dia! Como vai a senhora? Quanto gosto em recebê-la!
— Vou bem, e a senhora, como está? E os seus filhos, como vão?
Sentavam-se, e durante duas ou três horas desenrolava-se aquela conversa de visitas, entretenidas para elas e — devo dizê-lo — bem menos para os filhos e acompanhantes...
Seja como for, mamãe recebia e fazia tais visitas, agradava-se com elas e à noite, durante o jantar, prolongava aquela satisfação comentando tais e tais aspectos, esse ou aquele fato aventado durante o encontro da manhã ou da tarde.
Assim era ela, o seu ambiente, o tempo no qual nasceu e cresceu, e cujas influências marcaram sua vida.

Agora, cumpre assinalar também o papel de uma senhora com essas características, dentro do convívio doméstico. Ela devia demonstrar uma forma de inteligência por onde compreendesse os imponderáveis do caráter, do temperamento, da tradição, da missão e do estilo da sua família. Compreendendo isso, era-lhe dado representar nesse conjunto, com sutileza, o equilíbrio afetivo. Esse era o papel da senhora.
Continua no próximo post

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Onde está a mãe...

Continuação do post anterior
“Plinio bleibt bei Mutter”
Naturalmente, eu a vi inúmeras vezes nesse estado de espírito elevado. E em tais momentos ela não era de falar muito: respondia bem às perguntas que lhe fazíamos, atendia-nos de maneira natural, mas percebia-se que sua cabeça estava posta em outra coisa. Seja como for, agradava-me de modo especial estar junto a mamãe nessas horas, e aquele estado de espírito dela, de alguma maneira se comunicava a mim. Então, era uma cena clássica: as crianças todas da família reunidas no jardim da casa da avó, brincando e correndo de um lado para outro sob a vigilância de suas respectivas governantas.
A nossa, Fräulein Matilde, responsável por minha irmã, uma prima e eu, de vez em quando se aproximava para se certificar de que estávamos todos ali. E dava-se o fato que ela depois comentava com mamãe, e Dona Lucilia se comprazia em repetir (até na mais avançada ancianidade, ela se deliciava em recordar): com frequência, a Fräulein notava que eu abandonava os folguedos da criançada e sumia do jardim.
“Onde foi parar o Plinio?”, perguntava-se, e se punha a me procurar pela casa. Invariavelmente, eu estava bleiben bei Mutter, isto é, eu tinha fugido para ficar perto de mamãe. Então, das outras vezes, quando a Fräulein percebia a minha ausência, não se preocupava. Dirigia-se tranqüilamente a algum dos ajudantes da casa e perguntava: “Onde está Dona Lucilia?”. A resposta indicaria o lugar do meu refúgio. Ela se aproximava da sala em questão, e de longe já ouvia minha conversa com mamãe. Claro, ela entendia muito bem que não devia separar o filho de junto da mãe, e sabia que Dona Lucilia não gostaria que ela me dissesse: “Venha cá, volte para o brinquedo!”
Pelo contrário, mamãe repetia com imensa satisfação o dito da Fräulein Matilde: “Plinio bleibt bei Mutter” — “o Plinio fica onde está a mãe”. Eu escapava do corre-corre dos meninos e ia para junto de Dona Lucilia. Como é natural, as crianças não gostavam muito de que eu fugisse, e dali a pouco começavam a gritar por mim. Então a Fräulein voltava para onde estávamos e comunicava: “Dona Lucilia, o pessoal está chamando o Plinio”. Com muito afeto, mamãe me beijava e me dizia: “Filhão, vá lá, desça e brinque com os seus amigos. Estão chamando você.”
Eu retribuía o beijo, dava um suspiro e descia. Mas, na primeira ocasião...

Plinio Correa de Oliveira - Extraído de conferência em 9/5/1993

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Atraente elevação de alma traente elevação de alma

No acervo de suas reminiscências do convívio com sua extremosa mãe, Dr. Plinio colhe, uma vez mais, lembranças das manifestações de elevação de alma com as quais Dona Lucilia pontuava o quotidiano doméstico, e que tanto o atraíam, desde a mais remota infância, a estar sempre onde ela estivesse...
Em outras ocasiões já me foi dado recordar como, no contato com mamãe, eu percebia que o pensamento dela pairava, de modo habitual, em considerações elevadas, de ordem espiritual, postas na meditação das coisas divinas e das realidades sobrenaturais. Pensamentos que transcendiam, portanto, o comesinho e o terreno do dia-adia. Sem deixar de ser, porém, uma dona de casa e mãe de família, vivendo a sua existência doméstica e, pois, atenta aos afazeres concretos que sua condição lhe exigia.
Desejosa de atrair os outros à mesma elevação de alma
Mas, a propósito do concreto, ela se achava constantemente num estado de alma mais elevado, desejando que os outros do seu ambiente também subissem àquelas cogitações, a fim de participarem da alegria que a riqueza desses pensamentos lhe proporcionava.
A esses patamares do espírito, mamãe ascendia com muita suavidade, de maneira natural, tranquila, sem esforço, e com uma estabilidade completa naquilo que ela via e naquilo que alcançava com essas reflexões. Além disso, com muita bondade e desejo de me atrair — a mim, ainda menino — para aquelas altas considerações. Nessa vontade de me comunicar suas expansões de alma eu compreendia que mamãe tinha essa visão superior das coisas, entendendo-as de modo diferente do que as pessoas em geral entendiam.
O gosto pelo estilo francês
Por exemplo, com a paz, a serenidade e a elevação de vistas que lhe eram características, Dona Lucilia se deliciava com as manifestações do espírito francês e com os produtos do requinte e charme alcançados por esse povo. Não era em nada por prazer mundano, e sim porque o mundo francês era para ela um imenso cabochon, uma pedra preciosa cujos reluzimentos se devia admirar. E nessa admiração ela nos
convidava a nós, seus filhos, a igualmente apreciarmos e tomarmos gosto pelo estilo francês, como expressão do melhor que o talento humano até então havia engendrado.
Lembro-me, nesse sentido, de nossa viagem à França, em 1912, quando minha irmã e eu éramos muito pequenos, e mamãe procurava nos insinuar esse gosto através dos comentários que fazia, dos presentes que nos comprava ou das iguarias que nos levava para saborear em boas casas de chá. Tudo isso nos convidava a subir naqueles patamares onde ela passeava seus pensamentos.

Continua no próximo post

domingo, 19 de outubro de 2014

“Minha Lady Perfection”

Dr. Plinio chamava carinhosamente sua mãe por esse epíteto, pelo desejo dela de tudo fazer com perfeição, “mamãe procurava fazer tudo do melhor modo que lhe fosse possível, com cuidado e dedicação, seguindo o exemplo d’Aquele que disse: sede perfeitos...” Vejamos as palavras de seu filho, Plinio Correa de Oliveira.
Como já tive ocasião de comentar, mamãe manifestava constantemente uma certa tendência para o que há de mais alto, belo e delicado. Assim, por exemplo, quando eu chegava da rua, à noite, e ia cumprimentá-la, a encontrava junto à imagem do Sagrado Coração de Jesus ou no seu quarto, esperando-me para uma “palavrinha”. Ora, no período de tempo que antecedia a minha chegada, tendo ela terminado suas orações e afazeres domésticos, no que mamãe pensava?
Elevação ao tratar de assuntos corriqueiros
Não saberia dizer com exatidão, mas eu notava que o espírito dela se desprendia de altas regiões do pensamento para me acolher e conversar comigo. Naquele colóquio, ficava-me uma impressão semelhante à que teria uma pessoa a qual, após ter passeado no cimo de uma montanha onde houvessem árvores floridas e perfumadas, descesse de lá e percebesse que todos os seus trajes estavam impregnados do aroma daquelas flores. Assim também eu tinha a sensação de que todo o espírito de mamãe ficava embebido do perfume das coisas em que ela tinha pensado.
É preciso salientar que eu não me apresentava para essas conversas com ela tendo alguma intenção prévia . Minha disposição era a de ser o Plinio, seu filho, inteiramente espontâneo, dizendo-lhe o que me apetecesse no momento. Ainda que se tratasse de coisas insignificantes, qualquer fato corriqueiro do dia-a-dia que me tivesse acontecido. E eu notava que mamãe procurava entrar naquele assunto banal com a mesma elevação com que, até há pouco, dedicara suas cogitações a temas mais altos . Ela imergia naquele pequeno episódio e como que o iluminava com sua nobreza de espírito.
Então se interessava pelo par de sapatos novos que eu tinha comprado, pelos meus trabalhos no escritório, pela minha consulta ao dentista e por outros fatos de menor importância que, no meu entender, deixavam de ser triviais pelo modo como ela os considerava.
Esmero no escolher presentes para os filhos
O mesmo se poderia dizer do modo pelo qual ela cuidava dos assuntos de casa, conferindo-lhes aquela sua nota característica de bondade e delicadeza de alma.
Por exemplo, quando preparava os presentes de Natal para os dois filhos, em geral brinquedos comprados nas melhores lojas do gênero então existentes em São Paulo. Até atingirmos certa idade, mamãe costumava pedir à nossa governanta, Fräulein Mathilde, que nos levasse a essas lojas e nos fizesse escolher os nossos brinquedos favoritos, dizendo-nos em seguida: “Agora rezem a São Nicolau, e peçam a ele que lhes traga esses presentes”.
Claro, crianças que éramos, acreditávamos naquela afetuosa combinação, e nos dirigíamos à loja de brinquedos contentes e ansiosos, esperando que São Nicolau nos fosse favorável . No dia de Natal, nossa alegria era completa ao vermos que tínhamos sido atendidos…
Mas, além desses presentes, mamãe se comprazia em confeccionar, ela mesma, outros brinquedos para nós, especialmente para minha irmã, pelo fato de ser mais fácil elaborar algo que agrade a uma menina. Lembro-me, por exemplo, de vê-la trabalhar num enfeite para abajur que era uma espécie de guirlanda formada por figuras femininas de mãos dadas, como se fossem várias meninas dançando ao som de uma música em torno, digamos, de um chafariz.

Essas silhuetas eram inspiradas em gravuras que mamãe colecionara de revistas brasileiras ou de figurinos franceses. Depois de as recortar e colar, ela ainda as pintava com purpurina, dando relevos dourados e outros adornos. Por fim, decorava o abajur e dava de presente à filha. Aquilo lhe tomara tempo e empenho, às vezes até altas horas da noite, mas era de admirar a perfeição e o cuidado com que mamãe se entregava à tarefa. E, a meu ver, o melhor dessa perfeição estava no fato de que, com o passar do tempo, as figuras perdiam aderência no abajur, se descolavam, caíam, e o objeto tornava-se feio. Dona Lucilia então se desfazia de tudo: “Acabou-se, não tem mais beleza, e a perfeição agora consiste em pensar noutra coisa. Isso fica para o passado. Pensemos no futuro.”
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quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Profundo senso do dever

No âmbito da vida familiar que lhe era próprio, Dona Lucilia tomava como importante dever o tornar a atmosfera doméstica tão atraente e feliz quanto fosse possível em meio às vicissitudes diárias. E procurava igualmente — recorda-nos Dr. Plinio — conduzir todas as coisas com elevação de alma e espírito católico, tendo em vista a maior glória de Deus.
Quando me lembro das análises que fiz, durante a vida de mamãe, do seu temperamento e modo de ser, vejo que o espírito dela era marcado por uma particular retidão, a qual consistia em ver sempre todas as coisas de frente. Por mais dolorosas ou promissoras que fossem, considerava-as de forma objetiva.
Calma e estabilidade face à vida
Em se tratando de sofrimentos, tomava-os como se apresentavam, com as sequelas de amarguras que podiam trazer. Por outro lado, aceitava também as alegrias como eram, sem exagerar o tamanho das vantagens que proporcionavam e compreendendo como, nesta Terra, tudo é aleatório e pode, de repente, degringolar e dar em desabamentos.
Desse estado de espírito lhe redundava muita calma e estabilidade face à vida. Mamãe não era dada a grandes ansiedades, vibrações ou, menos ainda, depressões, embora não fosse uma pessoa apática. Aliás, era de um temperamento bem diverso do meu, fleugmático por herança paterna. Ela vivia profundamente todos os acontecimentos, mas a partir de uma certa distância: havia entra ela e os fatos uma camada que os ruídos destes não conseguiam penetrar nem transpor. E mamãe, aquém dos fatos, conservava sua serenidade e seu modo de ser constante.
Recolhida e meiga em todas as circunstâncias
De maneira que, em meio ao vaivém das circunstâncias, ela se mostrava sempre na mesma posição tranqüila, recolhida e meiga. E por detrás dessa atitude tão serena, notava-se um profundo senso do dever. Ao contrário do que imaginam certos espíritos a respeito da vida — para os quais esta é um grande prazer a ser aproveitado até o fim —, mamãe não entendia que a finalidade da existência humana fosse conquistar honras e deleites o mais possível até estourar.
Não. Para ela a vida era um dever a cumprir e um esforçar-se para adquirir um feitio de alma. Claro, há prazeres no nosso quotidiano, assim como há tristezas. Trata-se até de tirar partido dos prazeres para se poder aguentar as tristezas, mas não se deve esquecer que a primeira finalidade da vida é cumprir esse dever e alcançar esse estado de espírito.
Tornava atraente a intimidade doméstica

No âmbito restrito da vida de família, ela considerava como seu dever proporcionar bem-estar, felicidade e elevação de alma ao ambiente, tornando-o atraente para o marido e os filhos, com uma afabilidade e afeto capazes de sobrepujar as más influências do mundo. Além disto, quanto aos filhos, formá-los de maneira a serem perfeitos católicos e cumprirem suas respectivas missões na Terra, habituando-os aos bons valores da tradição familiar a fim de que, por sua vez, eles os transmitissem aos próprios filhos.
Continua no próximo post

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Solicitude para com o sofrimento alheio

Numa atitude oposta à da cultuada pelo otimismo cego de certas épocas, Dona Lucilia tomava o sofrimento como um componente inelutável deste “vale de lágrimas”, a ser aceito com resignação e confiança na misericórdia divina. Conforme salienta Dr. Plinio, essa postura serena diante da dor a inclinava constantemente para a compaixão e a caridade em relação ao próximo abatido pelos reveses e infortúnios da vida.
Em sua existência quotidiana, mamãe se relacionava com os outros tendo como fundo de quadro o pressuposto de que a vida humana traz necessariamente, para todo homem, grandes sofrimentos. Em última análise, depois do pecado original, cada criatura humana está sujeita a sofrer e, portanto, não existem os grandes gozadores. O bon vivant é, na realidade, um sofredor que disfarça seu padecimento.
Pena de quem não sofresse
De outro lado, Dona Lucilia estabelecia suas relações no fato de ir à procura — com a discrição e o bom senso convenientes — do sofrimento do próximo para o ajudar. Quer dizer, evitava esse sistema infelizmente comum dos contatos de egoísmo com egoísmo, que acabam gerando mágoas mútuas.
Por causa disso, ela tinha também como pressuposto que minha vida era muito semeada de sofrimentos, e via nessa circunstância uma condição para a elevação da minha alma, assim como a de qualquer pessoa. Donde, acredito que ela teria muita pena de quem não sofresse, julgando-o de certo modo menos querido por Deus. Ou seja, segundo a visão dela, a principal solicitude da Providência Divina para com os homens não é, como sói se considerar, evitar-lhes toda dor, mas permitir-lhes um certo sofrimento proporcionado e equilibrado que os santifica.
Preocupação com as dificuldades do filho
Nesse sentido, mamãe percebia que eu me achava imerso num conjunto de lides apostólicas. Talvez não notasse até que ponto essas lutas eram simultâneas e como constituíam um verdadeiro bloqueio de provações, ameaçando soçobro completo de nossa obra, de um momento para outro. Ou, se percebia, era de maneira não muito nítida. O certo é que rezava assiduamente por mim, e por essa sua atitude temos idéia do quanto se preocupava com minha situação.
Mais especialmente, o que menos ela poderia calcular eram as dificuldades financeiras, entretanto cruciantes. Disto mamãe — pessoa de um tempo em que a vida, do ponto de vista econômico, era mais fácil — não teve sequer vislumbre, pois, com o favor de Nossa Senhora, foime possível manter a inteira regularidade de situação para ela, sustentando o teor de existência material a que estava afeita.
Quanto ao mais, ela percebia uma imensidade de sofrimentos e batalhas que eu enfrentava. E nisso ficávamos.
Apoio e entendimentos recíprocos
Referindo a esse relacionamento de Dona Lucilia, gostaria de salientar este aspecto: uma vez que ela pretendia estabelecer seus contatos sob uma base séria, achava que o trato não devia ser carrancudo, mas feito de confiança mútua, expressa, senão verbalmente, ao menos por gestos, com apoio e entendimento recíprocos, em tom de seriedade com um fundo de melancolia.
Talvez as gerações mais novas não façam idéia de como essa postura era, para muitos, fora de propósito nos últimos anos da vida de mamãe, que corresponderam a um certo período de progresso econômico no Brasil. Muitos viviam na alegria pela alegria, não querendo encarar de frente o lado penoso do dia-a-dia. Daí certa incompatibilidade com Dona Lucilia. Por exemplo, acontecendo algo triste com algum conhecido, mamãe se julgava no dever de contar para outros amigos comuns. A reação deste e daquele: “Se eu não posso remediar, não me conte nada, porque já bastam as coisas que me aborrecem”. Noutras palavras, “transmita apenas as boas notícias”...
Saudades: ornato da vida
Ainda nessa consideração do sofrimento, é interessante ponderar que, para ela, as saudades eram um ornato da vida. Lembrar das pessoas antigas, já falecidas, dos costumes que houve, do tempo que passou, dos lances difíceis e alegres da vida dos que já foram, constituía habitualmente — sem se transformar em idéia fixa — um modo de povoar a cabeça dela. Como é natural, essa peculiaridade projetava um fundo de nostalgia e de tristeza no convívio com ela, além de ser estritamente contrário aos estilos do período favorável à economia nacional, a que me referi. Para os adeptos da felicidade sem névoas, não se devia aludir à morte de algum parente, nem comentar a respeito, a não ser para inventário, pois tratava-se de esquecer qualquer elemento de tristeza
Ora, para Dona Lucilia era o contrário. Com frequência lembrava tal pessoa, tal outra, figuras que às vezes os próprios circunstantes não tinham alcançado e ela lhes fazia conhecer através da recordação deste ou daquele fato, etc. Hábito este completamente afastado pelo mundo de então. Cumpria falar do futuro, das invenções mais recentes, dos avanços da técnica, da medicina, das últimas excentricidades da moda, das músicas mais saltitantes. A História era um tanto o necrotério da vida dos homens, e em vez de se cuidar do passado, importava tratar do momento presente.
Não será difícil compreender como essa mentalidade moderna era em tudo diferente da do mundo em que Dona Lucilia viveu e formou seu espírito, tão compassivo e solícito para com a tristeza e o sofrimento do próximo.

Plinio Correa de Oliveira – Extraído de conferência em 17/6/1982

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Em tudo conforme à Igreja - II

Continuação do post anterior
Mais ela mesma quando rezava
Aliás, cumpre dizê-lo, por mais que eu a analisasse em todas as posições e atitudes, nunca a achava ser tão ela mesma do que quando recitava suas orações. Sobretudo as que ela fazia junto às imagens do Sagrado Coração de Jesus, fosse a do oratório que tinha em seu quarto, fosse a do salão de nossa residência.
Nessas horas, tocava-me a impressão de que as qualidades de mamãe cresciam, e que se estabelecia — não me refiro a visões, revelações nem a quaisquer outras manifestações de caráter extraordinário — uma espécie de vínculo entre o Sagrado Coração de Jesus e ela, uma forma de relacionamento por onde se percebia que Nosso Senhor comunicava algo de sua bondade infinita à alma dela. Como fruto daquela entranhada devoção de Dona Lucilia a Ele, algo das inefáveis qualidades do Coração Sagrado de Jesus era-lhe transmitido, cumulavam-na, e determinava uma particular consonância entre ela e os princípios da fé católica.
Sob as vistas de um “inquisidor” afetuoso e inflexível
Nesse sentido, devo acrescentar outra consideração. Apesar de toda a minha benquerença para com ela, à medida que ficava mais velho e pelo natural desenvolvimento do meu espírito, compreendia perfeitamente que mamãe podia significar uma alta coisa na minha vida, porém não era a norma que ditava o meu existir. O que pautava minha existência era a Santa Igreja Católica Apostólica Romana, como passei a conhecê-la e a amá-la, à luz dos ensinamentos dos padres jesuítas em cujo colégio eu estudava. Estes me fizeram compreender a importância do papado, a devoção ao Vigário de Cristo, a Nossa Senhora, à Sagrada Eucaristia, etc., bem como chamavam nossa atenção para as tramas e os ataques que os adversários da Igreja urdiam contra ela.
Eu via, portanto, dois valores distintos. Primeiro, a Igreja, fonte da verdade; segundo, a Revolução, cuja ignomínia essencial era seu ódio mortal à Igreja. Por outro lado, eu considerava Dona Lucilia. E fiz essa comparação: “Aqui está minha mãe; aqui, a Santa Igreja como a conheço hoje, como me é apresentada pelos meus professores jesuítas. Em última análise, quem vale mais: a Igreja ou mamãe?”
A resposta veio incontinenti ao meu espírito: “As coisas não se dissociam. Tudo quanto há de bom em mamãe, ela recebeu da Igreja. Esta é o supremo bem, e mamãe só será realmente boa, se em tudo estiver de acordo com ela.
“Agora as qualidades de Dona Lucilia estão sujeitas ao crivo da minha análise como católico, e devo me perguntar se tudo nela é conforme à Igreja. Pois se algo não o for, eu prefiro a Igreja, fundada por Deus, a ela, uma criatura humana falível como qualquer outra. Portanto, cuidado.”
E, por assim dizer, reexaminei-a, ponto por ponto. Fazia-lhe perguntas de cunho doutrinário, para ver bem como ela pensava. Fui seu “inquisidor”, afetuoso, respeitoso, meticuloso, inflexível. Ela passou no exame com nota 100...

Plinio Correa de Oliveira – Extraído de conferências em 24/4/1982 e 12/8/1988