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sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Dama paulista de outrora

Ao nos descrever o temperamento e a forma de ser de sua mãe, Dr. Plinio salienta o afeto e a delicadeza de alma com que ela se relacionava, e a atitude que tomava perante a vida: um sentir-se a todo momento na presença de Deus para, no fim da existência terrena, apresentar-se ao Criador com todos os sacrifícios aceitos e a Ele oferecidos.
Para melhor se compreender a personalidade de mamãe, é preciso tomar em consideração ter sido ela, fundamentalmente, uma senhora do século XIX, como aquele tempo entendia o modo de ser que uma senhora devia manifestar. O que em nada desmerece as características das damas nascidas nessa quadra histórica, pois a excelsa Santa Teresinha do Menino Jesus, nos seus escritos, na sua conduta antes de se tornar carmelita, e mesmo depois de ter ingressado no convento, portou-se em tudo como uma moça francesa do século XIX. As poesias da santa, os cânticos compostos por ela, seus desenhos e sua linguagem, eram próprios da jovem dos idos de 1880, assim como o pai dela, Sr. Martin, percebe-se pelas suas fotografias, era o típico Monsieur daquela época.
Donde, o ponto de partida para se entender mamãe é situá-la como uma senhora nascida e formada, na sua mocidade, no século XIX.
Invulgar maturidade de espírito
Essa característica, somada a outras peculiaridades, faziam dela uma pessoa cuja mentalidade dir-se-ia muito anterior à da sua geração. Por exemplo, no convívio doméstico, Dona Lucilia conversava com a mãe dela quase como se fossem da mesma idade. Por outro lado, em relação à irmã seis anos mais nova, tratavam-se como se entre elas houvesse um valo divisório. Quer dizer, mamãe demonstrava possuir mais afinidade com as coisas e pessoas do tempo de minha avó — portanto, na flor do século XIX — do que com as de sua época ou pouco mais novas.
Um fato ilustra bem essa situação. Nas primeiras décadas do século XX, muitas mulheres começaram a aderir à moda de cortar os cabelos, deixando-os bem curtos, junto ao queixo. Algumas parentes de mamãe, inclusive suas irmãs mais novas, logo adotaram o penteado em voga. Dona Lucilia, porém, nunca cortou os cabelos, e faleceu usando os cabelos compridos, como era típico das senhoras do século anterior.
Basta analisar, aliás, fotografias dela tiradas quando tinha seus 35 anos, e posteriores, para se perceber tratar-se de uma pessoa da Belle Époque, que atingira uma maturidade de espírito maior do que o comum das mulheres de sua geração.
Características da antiga dama paulista
Poder-se-ia então perguntar como se apresentava uma senhora da aristocracia paulista do século XIX, como era mamãe.
Eu diria que era uma senhora afeita, de maneira acentuada, ao âmbito doméstico. Passava a maior parte de seu tempo em casa, gostava de cuidar das coisas do lar, ausentandose poucas vezes para acompanhar as filhas. Duas ou três vezes por ano assistia a algum espetáculo de gala, especialmente quando atores estrangeiros encenavam peças no Teatro Municipal.
A par desses eventos, a vida social consistia em visitas a amigos e parentes, nos moldes de outrora. Chegava-se à casa, tocava-se a campainha, a governanta ou outra ajudante aparecia:
— Pois não?
— Dona fulana está?
— Ah, sim, por favor, entre. Vou avisar que a senhora a espera.
A anfitriã se fazia aguardar durante alguns minutos de estilo, e então surgia, afável e acolhedora.
— Ah! Bom dia! Como vai a senhora? Quanto gosto em recebê-la!
— Vou bem, e a senhora, como está? E os seus filhos, como vão?
Sentavam-se, e durante duas ou três horas desenrolava-se aquela conversa de visitas, entretenidas para elas e — devo dizê-lo — bem menos para os filhos e acompanhantes...
Seja como for, mamãe recebia e fazia tais visitas, agradava-se com elas e à noite, durante o jantar, prolongava aquela satisfação comentando tais e tais aspectos, esse ou aquele fato aventado durante o encontro da manhã ou da tarde.
Assim era ela, o seu ambiente, o tempo no qual nasceu e cresceu, e cujas influências marcaram sua vida.

Agora, cumpre assinalar também o papel de uma senhora com essas características, dentro do convívio doméstico. Ela devia demonstrar uma forma de inteligência por onde compreendesse os imponderáveis do caráter, do temperamento, da tradição, da missão e do estilo da sua família. Compreendendo isso, era-lhe dado representar nesse conjunto, com sutileza, o equilíbrio afetivo. Esse era o papel da senhora.
Continua no próximo post

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Onde está a mãe...

Continuação do post anterior
“Plinio bleibt bei Mutter”
Naturalmente, eu a vi inúmeras vezes nesse estado de espírito elevado. E em tais momentos ela não era de falar muito: respondia bem às perguntas que lhe fazíamos, atendia-nos de maneira natural, mas percebia-se que sua cabeça estava posta em outra coisa. Seja como for, agradava-me de modo especial estar junto a mamãe nessas horas, e aquele estado de espírito dela, de alguma maneira se comunicava a mim. Então, era uma cena clássica: as crianças todas da família reunidas no jardim da casa da avó, brincando e correndo de um lado para outro sob a vigilância de suas respectivas governantas.
A nossa, Fräulein Matilde, responsável por minha irmã, uma prima e eu, de vez em quando se aproximava para se certificar de que estávamos todos ali. E dava-se o fato que ela depois comentava com mamãe, e Dona Lucilia se comprazia em repetir (até na mais avançada ancianidade, ela se deliciava em recordar): com frequência, a Fräulein notava que eu abandonava os folguedos da criançada e sumia do jardim.
“Onde foi parar o Plinio?”, perguntava-se, e se punha a me procurar pela casa. Invariavelmente, eu estava bleiben bei Mutter, isto é, eu tinha fugido para ficar perto de mamãe. Então, das outras vezes, quando a Fräulein percebia a minha ausência, não se preocupava. Dirigia-se tranqüilamente a algum dos ajudantes da casa e perguntava: “Onde está Dona Lucilia?”. A resposta indicaria o lugar do meu refúgio. Ela se aproximava da sala em questão, e de longe já ouvia minha conversa com mamãe. Claro, ela entendia muito bem que não devia separar o filho de junto da mãe, e sabia que Dona Lucilia não gostaria que ela me dissesse: “Venha cá, volte para o brinquedo!”
Pelo contrário, mamãe repetia com imensa satisfação o dito da Fräulein Matilde: “Plinio bleibt bei Mutter” — “o Plinio fica onde está a mãe”. Eu escapava do corre-corre dos meninos e ia para junto de Dona Lucilia. Como é natural, as crianças não gostavam muito de que eu fugisse, e dali a pouco começavam a gritar por mim. Então a Fräulein voltava para onde estávamos e comunicava: “Dona Lucilia, o pessoal está chamando o Plinio”. Com muito afeto, mamãe me beijava e me dizia: “Filhão, vá lá, desça e brinque com os seus amigos. Estão chamando você.”
Eu retribuía o beijo, dava um suspiro e descia. Mas, na primeira ocasião...

Plinio Correa de Oliveira - Extraído de conferência em 9/5/1993

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Atraente elevação de alma traente elevação de alma

No acervo de suas reminiscências do convívio com sua extremosa mãe, Dr. Plinio colhe, uma vez mais, lembranças das manifestações de elevação de alma com as quais Dona Lucilia pontuava o quotidiano doméstico, e que tanto o atraíam, desde a mais remota infância, a estar sempre onde ela estivesse...
Em outras ocasiões já me foi dado recordar como, no contato com mamãe, eu percebia que o pensamento dela pairava, de modo habitual, em considerações elevadas, de ordem espiritual, postas na meditação das coisas divinas e das realidades sobrenaturais. Pensamentos que transcendiam, portanto, o comesinho e o terreno do dia-adia. Sem deixar de ser, porém, uma dona de casa e mãe de família, vivendo a sua existência doméstica e, pois, atenta aos afazeres concretos que sua condição lhe exigia.
Desejosa de atrair os outros à mesma elevação de alma
Mas, a propósito do concreto, ela se achava constantemente num estado de alma mais elevado, desejando que os outros do seu ambiente também subissem àquelas cogitações, a fim de participarem da alegria que a riqueza desses pensamentos lhe proporcionava.
A esses patamares do espírito, mamãe ascendia com muita suavidade, de maneira natural, tranquila, sem esforço, e com uma estabilidade completa naquilo que ela via e naquilo que alcançava com essas reflexões. Além disso, com muita bondade e desejo de me atrair — a mim, ainda menino — para aquelas altas considerações. Nessa vontade de me comunicar suas expansões de alma eu compreendia que mamãe tinha essa visão superior das coisas, entendendo-as de modo diferente do que as pessoas em geral entendiam.
O gosto pelo estilo francês
Por exemplo, com a paz, a serenidade e a elevação de vistas que lhe eram características, Dona Lucilia se deliciava com as manifestações do espírito francês e com os produtos do requinte e charme alcançados por esse povo. Não era em nada por prazer mundano, e sim porque o mundo francês era para ela um imenso cabochon, uma pedra preciosa cujos reluzimentos se devia admirar. E nessa admiração ela nos
convidava a nós, seus filhos, a igualmente apreciarmos e tomarmos gosto pelo estilo francês, como expressão do melhor que o talento humano até então havia engendrado.
Lembro-me, nesse sentido, de nossa viagem à França, em 1912, quando minha irmã e eu éramos muito pequenos, e mamãe procurava nos insinuar esse gosto através dos comentários que fazia, dos presentes que nos comprava ou das iguarias que nos levava para saborear em boas casas de chá. Tudo isso nos convidava a subir naqueles patamares onde ela passeava seus pensamentos.

Continua no próximo post