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quinta-feira, 19 de maio de 2016

Amiga da Cruz - III

Conclusão dos posts anteriores
Gravíssimo ataque do coração
Dona Lucilia carregou sua cruz até o fim, passando por toda espécie de circunstâncias verdadeiramente penosas.
Por exemplo, uma coisa de que me lembro: uns sete anos antes de mamãe morrer, eu estava em Buenos Aires, onde tinha ido fazer uma série de conferências. Por diversas razões, essa minha estadia em Buenos Aires tinha sido muito penosa.
Afinal, chegou o último dia e eu disse para os meus companheiros: “Agora vamos jantar num bom restaurante francês que há em Buenos Aires, dando assim um fecho à viagem e podermos respirar, antes de voltarmos para o Brasil.” E assim fizemos.
Quando voltei ao hotel, me diz o porteiro: “Há um telegrama para o senhor, de São Paulo.” Abro a correspondência, é um telegrama de minha irmã: “Mamãe mal à morte, com ataque de coração violentíssimo! Procuramos de todas as maneiras telefonar a você, mas os telefones de São Paulo a Buenos Aires, depois de tantas horas, estão interrompidos. Venha logo para pegá-la ainda com vida!”
Podem imaginar minha aflição! Passei a noite em claro, tentei telefonar através do telefone do Exército argentino, para ver se conseguia ligação com o Exército brasileiro, mas não foi possível. Não havia aviões que partissem bem cedo de Buenos Aires para São Paulo. Então consegui um avião pequeno, particular, que às cinco horas da manhã levantava voo até Montevidéu, onde eu tomaria um avião muito mais rápido que me levasse diretamente a São Paulo. Foi o que eu fiz, em meio a uma pressão de alma tremenda, e com o pavor da chegada a São Paulo.
Pouco depois de pousar o avião, vejo um de meus amigos que me faz um sinal com o braço, indicando estar tudo bem. Ao desembarcar, minha primeira pergunta foi: “Como vai mamãe?” Ele me disse: “Ela teve um ataque muito forte do coração, mas já melhorou, está passando bem, conversando normalmente. Os médicos estão pasmos do que houve com ela. Mas o senhor não se assuste, porque exatamente na hora do senhor chegar a seu apartamento, da casa do vizinho estará partindo um enterro. E nós temíamos que o senhor, chegando, pensasse ser o enterro dela. O senhor não se assuste, pois vai encontrá-la bem!”
Agora vem o que interessa, pois se refere a ela. Um ataque gravíssimo do coração não passa assim rapidamente. Cheguei, encontrei-a na cama, conversando com minha irmã, minha sobrinha, pessoas da família. Não a beijei porque eu estava resfriadíssimo, mas enfim troquei toda espécie de carícias com ela. E fiquei sentado ali, continuando a conversa. Anoiteceu, e ela dormiu bem à noite.
Mamãe melhorou tão rapidamente, que algum tempo depois eu vi o médico dela chegar para fazer um exame; auscultou seu coração e afirmou: “Mas não é possível! O coração dela está tão bom, que eu diria ser outra pessoa!” Percebia-se, pela serenidade dela, a resignação diante da morte. Ela viu bem que estava para morrer, mas concebeu a morte com total resignação. Era essa a posição dela perante a morte.
Por estar habituada a ver o pior e a enfrentar o sofrimento com doçura, porque Deus assim queria, ela levou uma vida mais longa do que muitas outras pessoas. E levou-a com uma doçura e uma bondade de quem era realmente amiga da cruz!
E devo dizer que isso me ajudou enormemente a aprender a sofrer.

Plinio Correa de Oliveira – Extraído de conferência de 11/2/1990

domingo, 15 de maio de 2016

Amiga da Cruz - II

Continuação do post anterior
O sentido católico da vida
Este é o sentido católico da vida. Por essa razão, em todas as nossas sedes eu gosto de pôr a cruz preta, seca, onde não está nem sequer o Crucificado, mas é a cruz pela cruz, com os instrumentos da Paixão nela pregados, para nos convencer de que devemos tomar a vida assim. E por mais desagradáveis, penosas — e às vezes dramáticas — que sejam as coisas que nos aconteçam, devemos ter paciência e prosseguir energicamente, sem nenhuma dúvida, sem nenhum espanto, porque é o sentido da vida.
E as pessoas que, com ar muito alegre, querem nos iludir dizendo que a vida delas não é assim, mentem. Porque todo mundo tem que sofrer muito nesta vida. A vida é um vale de lágrimas, e a expressão diz muito: um vale. Para o vale confluem todos os cursos de água dos montes. E, portanto, todos os montes que cercam o vale da vida, são montes dos quais descem lágrimas, ou seja, a dor. A expressão é de São Bernardo: “vale de lágrimas”. Está na “Salve Rainha”, cujo autor foi ele.
Devemos compreender que isso é assim, e que quanto mais quisermos fugir da cruz, mais nós vamos carregando uma cruz pesada. E que o único jeito de levarmos bem a vida é termos a resignação com a nossa cruz. Custe o que custar, seja o que for, é preciso aceitar o que veio, e tocar para a frente! Nossa Senhora nos dará forças, e se for de seu desejo Ela resolve o caso.
E nesse sentido, é bom até nem gemer muito para os outros ouvirem. Mas suportar a cruz com uma naturalidade tal, que os outros nem suspeitem que a cruz esteja presente. Mas carregar a cruz é a nossa obrigação.

Continua no próximo post.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Comemoração do aniversário de Dona Lucilia...

Mamãe tinha certeza absoluta de que eu compareceria para comemorar o aniversário dela. Morávamos na mesma casa, e ademais ela sabia bem o quanto eu a queria e, portanto, era certíssimo que estaria presente.
Ela poderia ter um certo receio de que, levado por preocupações do escritório, eu chegasse tarde, mas não começaria a refeição comemorativa do seu aniversário sem minha presença. Os convidados já sabiam disso, e não insistiam. Embora ficasse às vezes um pouco preocupada, ela não me dizia nada para não me contrariar.
O que havia de minha parte nessa ocasião era algo que pareceria impossível fazer, mas cabia numa circunstância assim: um redobramento de carinho. O carinho mesclado com um pouco de brincadeira que eu fazia com ela sobre um ponto ou outro, e que ela sabia muito bem ser gracejo. Por exemplo, já contei que frequentemente — acho que devido a essa temperatura aqui de São Paulo —, quando a osculava, eu sentia no meu rosto a ponta do nariz dela ligeiramente fria; então eu perguntava: “Como é, está com muito frio no nariz?”; são brincadeirinhas que se fazem para dar um pouquinho de alegria à vida de família.
...e o de Dr. Plinio
Ela festejava muito mais o meu aniversário do que o dela, mas isso não dependia de mim. O meu aniversário era comemorado no almoço e no jantar, com um menu redobrado; enquanto no aniversário dela havia só uma ceia em que compareciam os parentes mais chegados.
Para mim ela sempre mandava fazer um pombinho, porque quando estávamos na Alemanha, no hotel de uma estação de águas medicinais, chamada Wiesbaden, serviam pombinhos com certa frequência. E quando vinha esse prato à mesa, eu, sempre muito interessado em assuntos gastronômicos, já percebia de longe e dizia em voz alta, batendo palmas: “Mamãe, pombinhos!”
Dona Lucilia fazia-me sinal para não fazer barulho numa sala de jantar de um hotel solene. Basta dizer que nessa grande sala de jantar havia um ambiente, separado por um cortinado, com uma mesa montada para o Kaiser e pessoas da corte. Quando o Kaiser chegava, corriam as cortinas, tocavam o hino da Alemanha, batiam palmas, o Monarca agradecia, sentava-se e depois o almoço corria.
Mas, apesar da atenção dos empregados sempre voltada para a ideia de que, nos períodos de férias, o Kaiser poderia aparecer de uma hora para outra, o copeiro ficava muito contente quando tinha pombinhos porque gostava de ver a minha reação. Ele procurou traduzir a palavra pombinhos por “pimbinchen”. Não existe em alemão nem em português essa palavra; é uma mescla de subalemão e de nulo-português... E ele mostrava de longe o prato para mim e dizia: “Pimbinchen!”, e eu ficava muito contente.
Então, quando chegava o meu aniversário, ela mandava comprar “pimbinchens” na feira e os preparava segundo uma receita especial, e ficava uma coisa muito gostosa. Colocava três ou quatro “pimbinchens”, além de uma sobremesa. Tudo adequado. E quando vinham os pombinhos, ela dizia: “Filhão, seus ‘pimbinchens’.” E eu, às vezes, manifestava maior alegria para contentá-la também.
Isso era a nossa despretensiosa vida comum, mas que para mim consistia um tesouro com valor sem nome!
No tocante ao aniversário dela, Rosée se incumbia do presente, porque eram, em geral, artigos de senhora, dos quais eu não tinha a menor ideia. Eu combinava com minha irmã, acertávamos as contas e ela fazia a compra. De maneira que, às vezes, eu nem tomava conhecimento do que tinha sido dado. Mamãe sabia que isso era assim.
Evidentemente, fazíamos mais orações um pelo outro, mas não dialogando. São coisas do modo de ser paulista antigo. Isso não quer dizer que seja o ideal, mas também não acho reprimível; creio ser um modo de proceder que poderia ser melhor, mas estava bem.

Plinio Correa de Oliveira – Extraído de conferência de 22/4/1993

domingo, 15 de junho de 2014

Como um atraente caleidoscópio...

Em meados de fevereiro de 1968, um amigo de Dr. Plinio, argentino, de passagem por São Paulo teve também ocasião de conhecer Dª Lucilia de perto. Assim recorda ele o feliz encontro:
“Eu estava no hall de entrada do apartamento de Dr. Plinio, aguardando uma oportunidade para poder cumprimentá-lo. Percebi então que, na sala de jantar, estava Dª Lucilia em companhia de outro jovem.
“Passados poucos minutos, este veio me dizer que Dª Lucilia me chamava. Sentada à mesa, tomava seu costumeiro chá. Haviam-lhe dito que eu pertencia ao ‘Clubinho’ de Dr. Plinio em Buenos Aires, e que naquela cidade ele era muito admirado e querido. Dona Lucilia me recebeu com extrema bondade. Seu trato era de uma classe, de uma finura e de uma afabilidade extraordinárias.
“Que ele vá... e volte logo!”
“Dirigiu-me umas palavras amáveis:
“— Eu gosto muito de seu país — começou ela, para me pôr à vontade.
“Em seguida convidou-me a acompanhá-los no chá. Agradeci, respondendo que já havia tomado lanche. Ela, com muita suavidade, insistiu:
“— O senhor sabe? Um visitante sempre nos proporciona maior prazer quando aceita sentar-se conosco à mesa. Assim, espero que o senhor não me privará do gosto de sua companhia...
“Era impossível eximir-se de um convite feito com tão nobre benevolência. Ela chamou então a empregada, dizendo-lhe que trouxesse outra xícara e talheres para mim. Quando me ofereceu um pedaço de torta, novamente agradeci, e disse que apenas tomaria chá. Com sua afetuosa gentileza, Dª Lucilia me respondeu:
“— Ora, o senhor que é tão moço deve gostar muito de doces, como todos os de sua idade... É uma torta simples e caseira, mas o senhor me dará alegria servindo-se dela.
“O outro jovem, que estava sentado à esquerda de Dª Lucilia, disse-lhe que eu convidara Dr. Plinio para proferir uma série de conferências públicas em Buenos Aires, pois muitos de meus compatriotas desejavam ouvi-lo. Dr. Plinio, porém, respondera que, naquele momento, não lhe era possível atender ao meu pedido.
“Com muita finura, ela me agradeceu pelo convite, deixando transparecer o comprazimento que este lhe causava. A seguir, perguntou-nos por que seu filho dissera não lhe ser possível ir a Buenos Aires.
“Aquele mesmo jovem respondeu:
“— Ah! Certamente porque não quer deixar a senhora sozinha.
“Então Dª Lucilia se voltou para o rapaz, dizendo-lhe com muita ênfase:
“— Ora, se é para o bem da Religião, ele não deve se prender por minha causa. É melhor que ele vá...
“E, dirigindo-se a mim, mudando a entoação de voz, com um sorriso gracioso acrescentou:
“— E que volte logo!
“Pouco depois chegou Dr. Plinio, dirigindo a Dª Lucilia um daqueles seus gracejos cheios de carinho, que a deixavam visivelmente agradada. Era admirável o modo transbordantemente afetuoso e animador com que Dr. Plinio tratava sua mãe. Recordo-me que, em certa ocasião, ele lhe perguntou:
“— Como está a senhora?
“— Agora bem — respondeu Dª Lucilia, como que insinuando, com um timbre de voz especial: Agora que estou com você, estou bem...”.

E assim, também para esse jovem argentino, foi Dª Lucilia “uma surpresa e um encanto de alma”...
Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João Clá Dias

sábado, 7 de junho de 2014

Angustiante tranquilidade

Continuação do post anterior
Enquanto os dias de hospital iam se escoando, no “1º andar” não faltaram motivos de aflição a Dª Lucilia. Fora-lhe ocultada a ida de Dr. Plinio para aquele centro médico. Ela percebia, pois, intrigada, que à intensa movimentação dos dias anteriores sucedia-se uma repentina e perplexitante tranqüilidade. Que teria acontecido a seu filho? Há muito não a visitava. Teria viajado? Ou uma grave doença se abatera sobre ele? Será que a morte o havia colhido?
Em razão de tais apreensões, suportadas no silêncio, cada vez mais a dor se ia tornando sua companheira, nos últimos lampejos de sua sofrida existência.
Felizmente, Dr. Plinio não demorou a voltar. A expressiva estampa da Mãe do Bom Conselho, que lhe fora oferecida no hospital, terá também despertado a atenção de Dª Lucilia. Não só pelo fato de seu filho a ter colocado em lugar de destaque no quarto dele, como sobretudo pela comunicatividade materna da fisionomia de Nossa Senhora e pela figura infinitamente régia e filial do Divino Infante.
O desvelo materno fê-la sonhar a realidade
Com vistas a minorar o sofrimento de sua mãe, Dr. Plinio continuou a ocultar-lhe o que se passara. Entretanto, era mister inventar uma história, a fim de responder às aflitas interrogações maternas, e explicar por que tinha ele o pé direito enfaixado, ficando tanto tempo recostado. Ocorreu a uma das empregadas, numa hora de aperto, dizer a Dª Lucilia que Dr. Plinio, passeando pelos caminhos pedregosos da fazenda de uns amigos, torcera o pé, e devia por prescrição médica permanecer em prolongado repouso.
Coração de mãe não se engana! Certa noite Dª Lucilia, em meio a um pesadelo a propósito da enfermidade de seu filho, viu o pé direito dele sofrer séria amputação. A partir desse momento se convenceu de que esta era a realidade. Portanto, algo muito mais grave do que o relato feito pela empregada. Quem encontraria argumentos para tranquilizá-la? Tarefa nada fácil... Inúmeras foram as ocasiões, até a hora da morte, nas quais Dª Lucilia se referiu às cenas daquele sonho como retratando algo que efetivamente acontecera. Embora tão idosa, o desvelo materno fê-la descobrir o que não lhe fora dito, apesar de os circunstantes continuarem a encobrir a realidade com véus otimistas...

Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João Clá Dias

domingo, 1 de junho de 2014

Se eu morrer, não o digam a mamãe

“Devo recomendar que, se eu morrer, não o digam a mamãe?”
Às apreensões com a saúde acrescentaram-se, para Dr. Plinio, perplexidades de alma: “O que dizer a mamãe se, por exemplo, eu tivesse que amputar uma parte de meu pé direito? Devo recomendar que, se eu morrer, não o digam a mamãe? Seria lícito nada dizerem a ela, a fim de lhe poupar um grande choque emocional?”
Mas, nesse caso, as pessoas que com ela tratavam ver-se-iam obrigadas a entrar pelas vias da mentira, para lhe ocultar a tragédia. Sofrendo Dª Lucilia de uma leve diminuição de lucidez, própria à ancianidade, teria direito de conhecer a verdade inteira? Por outro lado, se a Divina Providência quisesse prová-la, seria legítimo poupar-lhe essa borrasca?
Entre as inúmeras cogitações que então povoavam a alma de Dr. Plinio, constituíam estas últimas uma tremenda provação.
Por sua vez, aquela que era o objeto dessas preocupações estaria, provavelmente, passando por outras aflições. Em vista do inusitado movimento em sua residência, o maternal e afetuoso coração dela notava a situação anormal em que se achava Dr. Plinio. Por que tantas pessoas desconhecidas a frequentar o apartamento? Qual a razão das numerosas chamadas telefônicas? Eram perguntas que se iam acumulando nos horizontes já cansados e aflitos de Dª Lucilia. Tanto mais que, encontrando-se na contingência de fazer uso de uma cadeira de rodas, via-se coarctada em seu desejo de atender a todas as conveniências de seu querido filho.
De outro lado, não se podia exigir das empregadas de casa a perfeição da virtude da caridade. Elas ali estavam simplesmente para servir, pois para tal haviam sido contratadas. Assim, quando Dª Lucilia lhes pedia explicações a respeito do que se estava passando, cada uma dava a resposta que espontaneamente lhe vinha à mente, sem maiores cuidados.
Tais circunstâncias, acrescidas às intuições do coração de mãe, aumentavam o sofrimento de Dª Lucilia.
Deus qui ponit pondus...
Inicialmente, os médicos fizeram curativos no pé direito de Dr. Plinio no próprio “1º andar”. Depois julgaram que o melhor seria chamar um especialista, o qual, logo após examinar o enfermo, concluiu ser necessária uma urgente cirurgia para debelar a grave infecção. Naquela mesma noite, com os devidos cuidados, Dr. Plinio foi transladado ao Hospital Sírio-Libanês, onde o médico executou eximiamente a operação. O paciente ainda permaneceria alguns dias no hospital.
Às vezes, as graças mais insignes nos são dadas em meio aos males que, com a permissão da Providência, sobre nós se abatem: Deus qui ponit pondus, supponit manum — “Deus ampara com a mão a quem permite que seja provado”. Assim, em 16 de dezembro, Dr. Plinio recebeu de um amigo, vindo de Roma, um quadro de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano. Ele próprio descreveria depois, com palavras impregnadas de filial e amorosa gratidão à Santíssima Virgem, esse episódio de transcendente significado para sua vida espiritual.

Continua no próximo post

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Na extrema ancianidade, uma grande provação

Lucilia Correa de Oliveira aos 91 anos
A mais dura prova da existência de Dª Lucilia, a Providência a reservara para seus derradeiros meses de vida. A ancianidade acrisolara sua caridade, e a resignação em sua alma atingira o auge. Encontrava-se ela a cinco meses de seu juízo particular. Os sofrimentos, as lutas precedentes, em nada fizeram diminuir o alto equilíbrio que sua fidelidade à graça batismal generosamente lhe conferira. Muito pelo contrário, tornaram-na ainda mais unida a Deus. No ápice de sua vida espiritual, ela se convertera em um belo escrínio de tradições cristãs dos antigos tempos, provocando irresistível encanto nas almas daqueles que, nessa ocasião, tiveram a felicidade de a conhecer mais de perto.
As provações não conhecem idade, e se apresentam implacáveis até no fim de uma longa vida. Diz o Eclesiástico (40, 1): “Grande preocupação foi imposta a todos os homens, e um pesado jugo carrega sobre os filhos de Adão, desde o dia em que eles saem do ventre de sua mãe, até o dia da sua sepultura (em que eles entram) no seio da mãe comum de todos”. Assim o Espírito Santo, inspirando ao escritor sagrado tão belas palavras, deixa-nos entrever algo desse sublime mistério, ao qual não se subtraiu Dª Lucilia. Com efeito, já quase no limiar da eternidade, verse-ia ela exposta a uma penosa circunstância.
Um vendaval se abate sobre Dr. Plinio
Plinio Correa de Oliveira - 5 novembro 1967
Em fins de 1967 uma forte crise de diabetes acometeu Dr. Plinio. Apesar de terem procurado ocultar o fato a Dª Lucilia , esta teve clara idéia, por sua aguda intuição materna, de que algo de muito grave acontecia ao “filho querido de seu coração”.
No dia 5 de novembro daquele ano Dr. Plinio participou de uma solene celebração litúrgica na Catedral de São Paulo, comparecendo ao ato em posição de muito destaque. As cenas que então se desenrolaram, tanto no interior do templo quanto nas suas escadarias, foram filmadas pelo famoso cineasta Primo Carbonari, cujo noticiário era exibido em todos os cinemas do Brasil.
Poucos dias depois, Dr. Plinio foi convidado, com mais alguns amigos, a assistir à avant-première desse documentário. Ao ver-se a si mesmo na tela, teve uma reação de espanto por verificar — dado seu alto tino psicológico — quanto o próprio vigor físico estava minado por alguma grave enfermidade. No dia 1º de dezembro, cancelou sua costumeira conferência semanal, saindo de casa somente à tarde, para ir ao Santuário do Sagrado Coração de Jesus. Ao descer do automóvel, causou surpresa ao ser visto caminhar com o auxílio de bengala e calçando no pé direito um leve chinelo. Tinha a fisionomia muito abatida. Entretanto, com sua invariável finura, em nada deixava transparecer, aos que o cumprimentavam, seu mal-estar físico.
No dia seguinte não encontrou forças para sair de casa a fim de cumprir o preceito dominical, sendo-lhe levada a Sagrada Comunhão. Segundo o relato de uma pessoa que teve a oportunidade de estar com ele de manhã e à tarde, era impressionante notar, ao cumprimentá-lo, a elevada temperatura de sua mão. Nos dias subseqüentes, a febre ultrapassaria a casa dos trinta e nove graus. Apesar disto, Dr. Plinio mantinha inalterável amenidade, nobreza e distinção de trato, tal qual aprendera de Dª Lucilia.
Narrações feitas por ele próprio, tempos depois, revelaram a grande provação que enfrentava nessa ocasião:
“Quando me apareceu esta espécie de abscesso, imediatamente me lembrei do pensamento que tivera assistindo ao filme. Parecia-me que algo de absurdo se realizava. Vi-me obrigado a passar alguns dias em casa, envidando, porém, todos os esforços para que mamãe nada percebesse. Minha penosa deambulação era feita com o auxílio de alguns apoios. Lembro-me que uma vez mamãe estava sentada à mesa, à minha espera, e eu, ao passar pelo hall, escorreguei e caí. Minha febre já estava altíssima. Uma antiga empregada, não compreendendo que eu levasse meu desvelo por mamãe ao ponto de esconder minha doença, a fim de lhe poupar preocupações, disse-me num tom de acidez:
“— Qual é o problema? Por que o senhor não lhe conta de uma vez o que o senhor tem?
“Manifestando desagrado respondi:
“— Você não percebe que eu não quero aborrecê-la?
“— Mas até esse ponto?
“— Até esse ponto! Quem gradua isto sou eu — retruquei.
“Tendo-me levantado, dirigi-me à sala onde estava mamãe, enquanto pensava: O que eu pressentia se está realizando. Estou com uma grave enfermidade, serei obrigado a chamar médicos, que me apresentarão um terrível diagnóstico...”
De fato, no dia seguinte, segunda-feira, bem cedo, Dr. Plinio recorreu aos médicos e viu-se introduzido num túnel, à primeira vista, sem saída. Os resultados dos exames de laboratório revelaram uma forte crise de diabetes. Foi-lhe determinado repouso absoluto, regime alimentar restrito, remédios e controle glicêmico para rapidamente serem debelados os distúrbios orgânicos produzidos pela enfermidade. Entretanto, restava um problema não menos trágico: uma gangrena em seu pé direito.
Em face de tal quadro, Dr. Plinio pensou: “Minha previsão se confirmou. Um vendaval se abaterá sobre mim, e mamãe ainda vai morrer por estes dias...”
Se o coração de um filho pode às vezes ser acometido por intuições, o que se dirá do discernimento materno? É certo que Dª Lucilia percebeu estar-se passando algo de estranho com Dr. Plinio.

Feliz e pobre Dª Lucilia! Lucraria a companhia diária de seu filho até o dia 21 de abril seguinte, data em que ela compareceria diante de Deus para ser julgada. 

domingo, 18 de maio de 2014

Os funerais das recordações

Mesa de toilette de Dona Lucilia
Certo dia Dª Lucilia permaneceu em seu quarto por longo tempo, remexendo papéis guardados numa gaveta da mesa de toilette. Sem ela perceber, Dr. Plinio a observava. Com dificuldade, devido à catarata, examinava cada um dos papéis, reunia-os melancolicamente e em seguida os rasgava. Tendo tomado como regra nunca desgostá-la, Dr. Plinio nada fez para impedir aquela destruição.
Tratava-se de escritos diversos, muitos dos quais Dª Lucilia conservara a vida inteira. Pressentindo que em breve entregaria a alma a Deus, ela mesma quis pôr em ordem seus pertences. Era uma ação ditada pelo desejo de não dar trabalho a outros após seu falecimento, e por uma lealdade e firmeza de alma, certamente resultante de uma reflexão como esta: “A morte se aproxima e, vista de frente, a conduta razoável é esta”.
Assim, procedia aos funerais de suas recordações, antes de suas próprias exéquias.
Dias depois de ela ter morrido, verificou-se que havia deixado apenas o essencial. Dr. Plinio então notou que sua mãe jogara fora muitos papéis que ele teria gostado imensamente de conservar, como, por exemplo, várias agendas nas quais ela anotava, com escrupulosa precisão, as despesas da casa, contas feitas com esmero, e quantas outras lembranças...

Desfazer-se tranquilamente de todos aqueles papéis cujo teor talvez nos fizesse conhecer outros aspectos de sua bela alma era, da parte dela, um sinal da serenidade com que ia transpor os umbrais da eternidade.
Transcrito, com adaptações do livro “Dona Lucilia”, de Mons. João S. Clá Dias

sábado, 14 de dezembro de 2013

Um amor quase religioso...

Continuação do post anterior. 
Devido aos atrasos do correio, passaram-se quase três semanas sem chegarem missivas de Dr. Plinio. Por fim, no dia 18 de julho, o carteiro trouxe o tão esperado envio. Assim que Dª Lucilia o recebeu, todas as cordas de sua alma vibraram de intensa alegria. Com seu passo ágil dirigiu-se à escrivaninha e com uma espátula abriu cuidadosamente o envelope. Depois procurou o lugar mais luminoso da sala, e lá sentou-se tranquila, a fim de ler a carta do “filhão” para a “querida manguinha”:
Roma, 10 de julho de 52.
Luzinha querida.
São 3,30 da manhã. Estive tão ocupado estes dias, que resolvi ficar trabalhando até agora, para escrever relatórios, notas de viagem, cartas, etc. E como o serviço ainda está pelo meio, deliberei passar a noite em claro, e ir comungar às 5 horas.
Tal seria que em meio a tanto trabalho não houvesse um pouco de tempo para escrever a minha Manguinha do coração, para lhe dizer que sinto umas saudades immmmmmmmmmmmmmmensas dela!
Devo partir para Barcelona entre 15 e 17. O Pessoal do 6º andar tem meu endereço na Espanha. A resposta a esta carta deverá ser enviada para lá.
Como de costume, minha querida, desejo saber tudo a seu respeito: saúde, rezas, horários, e quero também saber se a Sra. tem tido algumas saudades de mim.
Roma está de um calor canicular. Um dia destes fez 40 à sombra! À noite, a temperatura melhora. É a hora humana de Roma. Ainda hoje, terminado o jantar, fiz minhas orações todas... num carro puxado a cavalo, como no tempo em que a Lú era mocinha, e que me levou, sozinho, a passear pelo Pincio. Quando se passa o dia inteiro com gente, a solidão é uma deliciosa necessidade. Faz me lembrar a frase de São Bernardo: oh beata solitudo, oh sola beatitudo!
E como vai o maravilhoso apartamento, do qual sinto tantas saudades? O que é que a Rosa andou quebrando? Mande dizê-lo, porque fico apreensivo.
Minha querida, quero ainda dizer uma palavra a Papai. Para a Senhora, amor meu do fundo do coração, todo o afeto, todo o respeito, mil milhões de beijos e de saudades do filho que lhe pede a bênção
Plinio
Certamente penalizaram a Dª Lucilia as diversas dificuldades que seu filho vinha encontrando na capital italiana. Entretanto, com a alma inundada de gáudio por receber tão carinhosas palavras, ficou mais aliviada ao saber que ele passava bem de saúde. Após atenta leitura da carta, Dª Lucilia põe-se a escrever naquele mesmo dia uma resposta, cuja conclusão o cansaço da noite a obrigaria a protelar para o dia seguinte.
18-VII-1952
Filho querido de meu coração!
Passei dezesete dias sem receber cartas tuas, tendo tido algumas ligeiras notícias através dos rapazes do sexto, que teu pai ou Adolphinho me traziam. Graças a Deus, recebi afinal, com grande alegria, tua última do dia dez deste. Meu filho, que saudades, quantas saudades de ti querido! Rosée e Zili têm procurado distrair-me, levando-me a ballets, bons concertos, alguns cinemas; têm vindo com freqüência, Maria Alice também, mas como sabes, “como sempre”, onde vai meu coração, vai você dentro..... Como deves saber, tenho comungado e rezado muito para que o Divino Espírito Santo (a quem fiz uma promessa) te guie e inspire, e Nossa Senhora Auxiliadora te proteja e auxilie.
Fui com teu pai à novena no dia dezesseis na igreja do Carmo, rezar por ti, e lá estive com os teus amigos, que me fizeram muitas saudades.
Rosée, Antônio, Maria Alice e Eduardo jantaram ontem aqui. Foi muito sentida tua ausência. Fiz o que pude e penso que foi tudo bem; pelo menos, foi o que me disseram, mas é preciso descontar a amabilidade de praxe. Quanto ao estouvamento da Rosa, não passou felizmente, do arrebentamento dos cordões das venezianas das salas, desarranjos da enceradeira e electrolux, e quebra do vidro na parte traseira do quadro do hall; já está tudo arranjado, felizmente.
Peço-te mais uma vez para que não te esqueças de mandar dizer uma missa e acender uma vela por intenção de Rosée, no altar de Nossa Senhora da Begoña em “Valladolid”, penso.
Se fores a Portugal, toma algumas informações sobre os nossos parentes do Porto. Têm um título qualquer, e moram perto da igreja dos Salesianos, pelo menos foi o que me disse o Padre salesiano, Dr. Esteves dos Santos.
Quanto tempo te demoras aí na Espanha? Voltas ainda a Roma antes de ir a Paris? Escreva-me logo, e sempre que puderes. Leio, leio e releio tanto tuas cartas!
Bem... até a próxima carta! Que Deus te guarde, te abençoe, e te acompanhe.
Muitos e muitos beijos e abraços de tua mamãe tão saudosa e extremosa,
Lucilia.
“Onde vai meu coração, vai você dentro”... É essa atitude de amor, quase se diria religioso, uma constante em Dª Lucilia, pois mais do que um filho comum, ela via no conjunto das qualidades de Dr. Plinio as harmonias de um órgão, para cuja construção ela, com mãos de artista, havia contribuído.
(Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons.João S. Clá Dias)

1 ) “Por via das dúvidas” 2 ) Estojo

sábado, 16 de novembro de 2013

“Casa de Dona Lucilia Corrêa de Oliveira”

Em abril de 1952, mês em que Dª Lucilia completava 76 anos, ela, seu esposo e seu filho se instalaram no espaçoso, aprazível e acolhedor apartamento recém-comprado por este último, no 1º andar da Rua Alagoas, 350, no bairro paulistano de Higienópolis. A satisfação pelo novo lar, vemo-la expressa nas palavras que, algum tempo depois, escreveria ela a Dr. Plinio:
Com teu pai, estamos os dois agasalhadinhos na nossa “casa gostosa” que o filho querido preparou para consolo de nossa velhice.
Cenário ideal do derradeiro período de vida
A residência da Rua Alagoas como que abria nova fase na vida dela, correspondente a seus últimos dezesseis anos de existência.
As cartas de Dª Lucilia que temos contemplado são portadoras das suaves brisas de afeto doméstico e familiar que, ao longo de sua existência, não fizeram senão requintar-se e aprimorar-se. Tão preciosos documentos constituem uma das melhores manifestações da silenciosa e contínua elevação de suas virtudes.
Como nas cartas que escreveu, deixaria Dª Lucilia um testemunho imponderável de sua presença nesses aposentos e salas, onde iria transcorrer o derradeiro período de sua vida. Transformar-se-ia assim o apartamento na perfeita moldura daquele alcandorado convívio, que ali atingiria seu ápice, em especial – é óbvio – no que diz respeito ao relacionamento com o “filho querido de seu coração”.
Nesse local cada objeto teria uma história a contar, evocaria um passado próximo ou longínquo, seria portador da recordação de uma alegria ou de uma tristeza. Em tudo isso haveria de meditar Dª Lucilia em suas extensas horas de reflexão, nas quais analisaria, não raras vezes, os acontecimentos do passado e do presente, tirando consequências e fazendo deles um juízo, antes de partir para a eternidade.
Essa seria, por excelência, a casa de Dª Lucilia a qual ela marcaria de forma indelével. Como uma flor que, mesmo depois de retirada do vaso, deixasse a atmosfera impregnada do suave aroma generosamente exalado por suas pétalas, ainda hoje, tantos anos após sua morte, ao transpormos a soleira da porta temos a impressão viva de estarmos entrando em sua residência.
Abandonemos, pois, as turbulências deste século, atravessemos os umbrais do 1º andar da Rua Alagoas, e façamos uma visita “em espírito” à nova casa de Dª Lucilia, deixando-nos envolver pela atmosfera de serenidade e distinção que marca aquelas abençoadas paredes, antes de entrarmos no relato de seus últimos anos de vida.
Acompanhando um cicerone da natureza
Seguindo o peregrinar dos raios solares pelo apartamento de Dª Lucilia, logo ao amanhecer encontrá-losemos esgueirando-se entre as discretas penumbras do quarto dela. Dois oratórios — o do Sagrado Coração de Jesus e o da Imaculada Conceição — a presidir o ambiente, são como os dois extremos de um arco-íris imaginário, que sobre sua cama reluz. Daí, ora contemplava ela, manhã adentro, os Sagrados Corações de Jesus e Maria através das imagens de sua devoção, ora tecia elevadas considerações sobre os aspectos evocativos de alguns objetos: um pequeno relógio de alabastro, bronze e esmalte, presente de Dr. João Paulo; uma elegante jarra e um conjunto de toilette, de prata; ou um gracioso bibelot de porcelana que representa uma raposa, além de pequenos quadros com fotografias de familiares.
Saindo do quarto de Dª Lucilia, a primeira porta no corredor, à esquerda, nos conduz a um living, reservado por Dr. Plinio para seus pais conviverem na recordação do passado e na esperança da eternidade. A seguinte dá acesso a outro aposento: o quarto de dormir do invicto batalhador. Aí, diante de uma pequena imagem do Imaculado Coração de Maria, Dª Lucilia rezava durante o dia, e mais especialmente nas longas ausências de Dr. Plinio, implorando a Maria Santíssima que o acompanhasse.
Atentos e enlevados, prosseguimos o percurso e, em certo momento, nos detemos ao ouvirmos as melodiosas e suaves badaladas de um relógio, que bem simbolizam aquele aprazível ambiente. Atraídos, entramos num escritório de acolhedora atmosfera, banhada por discreta luz.
A digna e sóbria cadeira de balanço faz recordar as incontáveis horas nas quais Dª Lucilia, tecendo crochet ou entregando-se às suas orações, marcava com sua presença esse local. A seu lado costumava trabalhar, num sofá de couro vermelho, seu “filhão”.
Era nesse escritório que Dª Lucilia, sentada à escrivaninha de Dr. Plinio, fazia as contas de sua administração doméstica, as pequenas listas de compras do dia, ou anotava as providências e ordens que daria às empregadas. Quando queria reservar alguma quantia para uma finalidade futura, apontava numa pequena folha de papel o destino do dinheiro, e o enrolava cuidadosamente; guardavao depois numa gaveta onde se iam juntando, em perfeita ordem, os vários rolinhos.
Recolhimento, distinção e harmonia
À saída do escritório, podemos contemplar, no início da tarde, o sol que, caudaloso, penetra na sala mais nobre do apartamento. Aí, uma bela imagem do Sagrado Coração de Jesus, de alabastro branco, domina o elevado ambiente.
Do azul profundo do veludo do sofá e das poltronas, e do azul variado de um autêntico e imaginativo tapete persa, tirou seu nome esse solene e afável local: “Salão Azul”.
Elegante e singela, a escrivaninha de mogno que Dª Lucilia adquirira em Paris nos traz à memória suas eloquentes cartas. Sobre esse móvel, dois exóticos negrinhos de porcelana, lindamente trajados segundo o gosto veneziano do século XVIII, seguram cada qual uma cúpula de abat-jour, proporcionando agradável e acolhedora iluminação. Dos quadros de antepassados, nenhum caberia melhor, no ambiente de seriedade criado pela imagem do Sagrado Coração de Jesus, do que o da avó paterna de Dª Lucilia, que tão jovem deixou esta vida.
No outro lado do salão, encimada por um grande espelho, uma console dourada com tampo de mármore creme. Sobre este um belo vaso cor-de-rosa, que fazia os encantos de Dr. Plinio já em sua meninice.
Outros objetos, como uma gravura da duquesa de Nemours, mãe do Conde d’Eu, o gracioso bibelot de uma chinezinha e um dos lustres de bronze resgatados por Dª Lucilia ao voltar da Europa, ressaltam a distinção do lugar.
Ao lado do “Salão Azul”, quase como prolongamento dele, mas formando outro ambiente, fica a “Saleta Rosa”. Os mesmos raios de luz que acentuavam a nobreza e gravidade do “Salão Azul”, parecem agora transformar-se em sorriso e intimidade, quando incidem sobre o cor-de-rosa do tapete ou do damasco do sofá. A nota de cerimônia, nunca alheia à família, é dada especialmente pelo quadro da grande matriarca, Dª Gabriela, como também pelo evocativo vaso que fizera parte do mobiliário do Palácio Imperial. Nosso olhar se detém sobre uma peanha onde, dentro de uma redoma de cristal, um pequeno boneco representa o Dr. Gabriel José Rodrigues dos Santos. Trajado com a farda de deputado geral do Império, traz à memória um dos mais ilustres antepassados de Dª Lucilia.
Com o entardecer, os últimos raios de sol repousam sobre a prataria na sala de jantar, após o que, lentamente cedem lugar às penumbras da noite. Se algum convidado de cerimônia é esperado, a gala reluz nos cristais, pratas e porcelanas.
Por fim, ao transpormos a porta de saída, levamos conosco a lembrança da tranquila, digna e elevada atmosfera que deixamos, tão frontalmente oposta à agitação e vulgaridade da rua...
Embora aquele não seja senão um apartamento, ficamos com a impressão de termos abandonado um nobre palácio. Ao mesmo tempo, somos tomados pela sensação de havermos contemplado mil coloridos cambiantes de vitrais imaginários; ou de termos ouvido inúmeras harmonias que o silêncio e o recolhimento da residência de Dª Lucilia fazem vibrar suavemente na alma, como ressonâncias da personalidade dela...
Mas, reencontremo-la naqueles saudosos tempos.
No ambiente ideal, a dona-de-casa perfeita
A consonância de alma de Dª Lucilia com Dr. Plinio era tal que, tendo seu filho dirigido a mudança da Rua Vieira de Carvalho para o atual apartamento da Rua Alagoas, ela se sentiu atendida em suas preferências, ao ver a ordenação dos móveis e a disposição dos cômodos adequarem-se perfeitamente aos seus próprios pendores. Quanto à decoração, fê-la Dª Rosée, com o seu bem conhecido talento. E, é claro, a gosto de sua mãe.
O governo do lar ficava a cargo de Dª Lucilia, a quem Dr. Plinio considerava de fato a senhora da casa. Muitas vezes, conversando com ela, dizia-lhe afetuosamente que se não fossem suas obrigações de representatividade social, mandaria atender o telefone dizendo:
Casa de Dona Lucilia Corrêa de Oliveira”.
Dª Lucilia, apesar de sua avançada idade, continuava a exercer de modo exímio as funções de dona-de-casa, orientando diretamente os trabalhos do dia-a-dia. Mantinha o apartamento numa ordem impecável — sem nada de rígido — na qual transpareciam reflexos de sua bela alma.
Aos poucos, o peso dos anos passou a tornar cada vez mais penoso seu esforço, e ela foi deixando de lado o que já não conseguia abarcar. A oração conquistou, então, ainda maior espaço em sua vida.
Entre seus primeiros cuidados figurava sempre o do menu de Dr. Plinio. Dª Lucilia tinha um modo muito peculiar, melhor diríamos, sapiencial, de tocar os pequenos afazeres domésticos. Hoje em dia é corrente encontrarmos pessoas que se deixam absorver intensamente por suas ocupações. Como não desejam de modo algum ser interrompidas, reagem não raras vezes com acidez para afastar quem as perturbe.
Dª Lucilia era diferente. Por mais que uma tarefa exigisse atenção, nunca se deixava tomar por ela a ponto de perder o fôlego e sobretudo a serenidade. Se alguém a interrompia, não perdia a calma. Conforme o caso, apenas dizia: “Agora não posso parar, espere um pouquinho...”, como quem convida o interlocutor a ficar uns instantes ali, perto dela. Era um modo especial de agir, com uma doçura difícil de ser descrita.
Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João S. Clá Dias
À esquerda e à direita, os “negrinhos” da escrivaninha (que aparece na foto central)

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Lembranças de afeto e solicitudes

Dª Lucilia - década de !940
Nos primeiros meses de 1941, Dª Lucilia mudou-se mais uma vez de casa. A nova moradia, na Rua Sergipe, 401, no bairro de Higienópolis, tinha a vantagem de estar situada na mesma rua em que morava sua filha, Dª Rosée, facilitando a esta fazer-lhe companhia durante as ausências de Dr. Plinio.
Pouco após a mudança, Dª Lucilia teve de despedir uma empregada. Não demorou a aparecer à sua porta, oferecendo seus serviços, uma mulher alta, de cabelos louros, olhos azuis, falando português com certa dificuldade e com voz um pouco estridente para ouvidos brasileiros. Chamava-se Olga e era natural da Letônia, um dos países bálticos que, no início da Segunda Guerra Mundial, caíram sob o domínio da Rússia comunista.
Como é normal, Dª Lucilia lhe fez algumas perguntas, para verificar se convinha ou não admiti-la. Depois das primeiras respostas, percebeu que a pobre Olga, além de possuir várias qualidades, havia passado por não pequenas tragédias na vida, e compadeceu-se dela, resolvendo contratá-la. Diante da bondade de Dª Lucilia, Olga não hesitou em lhe pedir permissão para levar com ela sua filha única, de 7 anos. Dª Lucilia seria incapaz de exigir que uma filha ficasse separada de sua mãe, pelo que acedeu de boa vontade.
Por causa dos infortúnios que se tinham abatido sobre a infeliz Olga, Dª Lucilia tratava-a com carinho e aos poucos foi conhecendo sua longa espiral de sofrimentos, sobre os quais aplicava sempre o lenitivo de um bom conselho. Agradecida, Olga acabou nutrindo respeitosa afeição por tão excelente senhora, a quem serviu dedicadamente por mais de 20 anos.
Evocativas recordações
Temos visto como Dª Lucilia guardava ciosamente em seus arquivos caseiros diversas cartas de seus filhos. Por que motivo não chegaram todas até nós? Escolhia apenas algumas? Não sabemos. Talvez reservasse as mais carinhosas ou as que mais saudades evocassem, ou quiçá tenha emprestado algumas a outros familiares e elas se extraviaram. Curiosamente encontram-se por vezes, entre seus papéis, simples bilhetes, na aparência sem maior significado, mas ilustrativos da enlevada benquerença que lhe devotava Dr. Plinio.
Em meio às graves reflexões de um retiro espiritual, por exemplo, escreve-lhe ele estas breves palavras:
Mãezinha querida,
Graças a Deus, o retiro vai correndo bem, com excelente pregador, ótima comida e um panorama maravilhoso.
Lamento muito que a Sra. não tenha ido a Prata.
Espero estar aí 2ª cedo, para matar as saudades, que não são poucas.
Com mil beijos para a Senhora e um abraço para Papai, pede-lhe a bênção o filho muito afetuoso e respeitoso.
Plinio
Já este segundo bilhete foi enviado por Dª Lucilia a seu filho, novamente em retiro. Realizava-se este no Seminário do Verbo Divino, em Santo Amaro (São Paulo):
Filho querido,
Manda-me dizer pelo portador, se Seminário do Verbo Divino, em Santo Amaro precisas de mais açúcar, ou de mais alguma cousa. Envio-te junto um pão, e pretendo mandar-te amanhã um bolo, mas, para isso, desejo saber se estes bons e excelentes padres não se ressentirão, percebendo que estás recebendo gulodices de fora. Quanto ao açúcar, é justo que o faças, devido à escassez do mesmo.
Queres neste caso que te envie uma latinha com açúcar em pó?
Saudosa, envia-te muitos beijos e abraços, tua mãe extremosa,
Lucilia.
No verão de 1941 Dr. Plinio foi ao Rio de Janeiro, onde aproveitou o ensejo para descansar um pouco. Prometeu como sempre a sua mãe escrever-lhe, contando com pormenores a viagem. Dessa estada na Cidade Maravilhosa são as linhas que seguem:
Rio, 2-II-41
Mãezinha de meu coração,
Com muitíssimas saudades suas, venho cumprir minha promessa, enviando-lhe minha primeira carta.
O calor está muito forte, mas o passeio ainda apresenta vantagem. Já jantei no Brahma, já fui a Niterói e ao Jardim Botânico, onde apanhei para a Senhora estas plantinhas chamadas “saca-rolhas” e fiquei conhecendo a vitória régia.
Estive com o Pe. Franca, que me fez muita festa, com o D. Aquino Corrêa¹, Pe. Felix². O Sr. Cardeal e Sr. Núncio estão em Petrópolis.
Conto visitar hoje S. Francisco e S. Bento.
Como vai a Sra? E Rosée? E a Katucha? Muitos beijos a ela.
Mil e mil beijos para a Sra., do filho que muito e muito a quer do fundo do coração e lhe pede respeitosamente a bênção.

Plinio
Acesse http://donalucilia.blogspot.com/ para ler a formação que Dª Lucilia dava a seus filhos.