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sábado, 29 de agosto de 2015

O bom convívio está fundamentado no respeito mútuo

Plinio Correa de Oliveira evoca um exemplo que marcou profundamente sua formação: o convívio entre Dona Lucilia e seu esposo.
O fundamento do bom convívio está em que as pessoas se respeitem mutuamente. Quando não se respeitam, o convívio não se mantém bom, acaba azedando. Mesmo sendo tão novos, respeitem-se, e os senhores começarão a achar que os outros são interessantes. Quando os senhores não se respeitam a si próprios e não respeitam o outro, acabam desgastando aquela companhia e ficam fartos daquele ambiente.
Um ambiente austero, que não tem as pagodeiras imundas deste século, mas exige de cada pessoa pensamento, reflexão, domínio sobre os defeitos de sua própria natureza, castidade; esse ambiente se torna agradável na medida em que todos se respeitem. Se começarem a brincadeira e os apelidos, o nível do ambiente acaba abaixando; daí a pouco todos estão se achando cacetes, brigando uns com os outros e, terceiro passo, começam a olhar para a porta de saída, com a ilusão de que naquele mundo lá fora as pessoas se tratam melhor. Os senhores sabem que não é verdade, mas as pessoas se iludem.
O trato entre Dona Lucilia e seu esposo
Lembro-me de meu falecido pai e do relacionamento dele com minha mãe. Eu nunca os vi brigarem, nem terem algo de parecido com uma briga. Ele a tratava normalmente como todo o marido trata a esposa: você. Portanto, dizia para ela “Lucilia, você”; e ela a ele “João Paulo, você”. Mas às vezes, quando entravam em desacordo sobre um ponto qualquer, ele a tratava de senhora e afirmava: “Senhora, isto não é assim.” Era o máximo do fogo. Resultado: a companhia entre eles e o trato eram os mais calmos e os mais agradáveis que possam haver.
Às vezes, eu chegava em casa e encontrava os dois velhinhos deixando escorrer o tempo, à espera da morte que viria mais cedo ou mais tarde. Graças a Deus veio tarde para ambos: ele morreu com oitenta e quatro anos e ela com noventa e dois. Aquele tempo escorria devagar, mas tranquilo, mais ou menos como a areia de uma ampulheta.
Os antigos marcavam o tempo com ampulheta. O tempo que levava para que aquela quantidade de areia passasse da bola de cima para a de baixo, era a duração de um exame oral nas faculdades; depois passou para a vida de família. Ainda não havia relógio, e a ampulheta servia para marcar o tempo.
O relógio de parede ou o colocado num móvel faz um certo tique-taque. A areia seca, branquinha da praia, colocada numa ampulheta de cristal, escorre sem fazer barulho, silenciosamente. Assim corria o tempo na Rua Alagoas 350, primeiro andar, quando só os dois estavam em casa.
Quando moço e, portanto, com muito mais vida, eu tendia a falar alto. Os dois tinham ouvidos ruins, eu falava alto para eles me ouvirem e a casa tomava outra vida. O telefone começava a tocar, eram pessoas que estavam a minha procura, eu tinha que atender, vinha gente para conversar comigo, a casa se movimentava. Quando eu saía era como se a vida parasse, e uma ampulheta silenciosa fosse a única coisa a marcar o tempo que transcorria. Por que isso era assim? Eles se respeitavam. Então, compreendamos bem que onde as pessoas se respeitam tudo entra nos eixos.
 Plinio Correa de Oliveira – Extraído de conferência de 24/9/1994 

sábado, 3 de janeiro de 2015

Imponderáveis de uma presença

Para Dr. Plinio, um ambiente não é marcado apenas pela influência tangível daquilo que o compõe, mas também — e às vezes, sobretudo — pela ação de algo impalpável que nele paira. Por exemplo, a lembrança da figura de alguém que ali viveu por longos anos. Nesse sentido, descreve-nos a atmosfera de sua casa, intensamente marcada pela suave e anterior presença de sua mãe.
 Mais de uma vez me têm dirigido o compreensível pedido de falar sobre o modo de ser de mamãe, e como ela impregnava de sua presença o ambiente em que se encontrava.
Na tentativa de definir essa influência, que eu penso feita de imponderáveis, procurarei descrever como a sinto na minha casa.
“Residência de Dona Lucilia Corrêa de Oliveira”
Antes de tudo, devo dizer que, até hoje, não sinto a casa como sendo minha, a não ser porque é a de mamãe. Pois, na verdade, a impressão e tenho em todos os momentos é de que o apartamento é dela. A tal ponto que, se eu pudesse, orientaria para que atendessem o telefone dizendo: “Residência de Dona Lucilia Corrêa de Oliveira”. Só não procedo dessa forma porque seria um tanto extravagante, mas esse desejo exprime bem essa sensação da presença de mamãe ali.
Trata-se, então, de explicitar o sentimento que esses imponderáveis nos proporcionam no ambiente do 1º Andar da Rua Alagoas, onde ela morou por tantos anos. Note-se, portanto, não me refiro a um elogio dos móveis nem da ordenação ou da decoração do lugar. Falarei dos imponderáveis.
Atmosfera banhada de contemplação
Sinto que, entrando na casa, é-se cercado por uma atmosfera bem diversa da que se respira fora, até mesmo na escada que dá acesso ao elevador. Transpõe-se a porta do apartamento e nos parece respirar outros ares.
Essa atmosfera diferente se me apresenta, curiosamente, um tanto imóvel. Não da imobilidade da coisa morta nem figée, mas seria algo semelhante à quietude da contemplação, o estar parado da pessoa que reza compenetradamente e, por isso, não se movimenta. Numa posição, portanto, ordenada, refletindo, não a carência, mas a excelência de vida. Não é a casa de um falecido, onde se sentem ecos vazios em todos os cômodos. Pelo contrário, tem-se a impressão de que o lar é habitado por alguém, e nele pulsam sensações próprias de um lugar onde há vida.
Sempre envolta numa certa penumbra
Outro aspecto a ser ressaltado é o fato de ser uma casa que, apesar de suas janelas de tamanho comum, nunca recebe a luz do sol inteira, mas se acha sempre envolta numa certa penumbra. E mesmo nas salas onde a incidência dos raios solares se verifica mais duradoura, há qualquer coisa nessa luz que a torna atenuada, tamisada, um pouco diluída, de modo que seu brilho não nos fere.
Ali dentro, os sons repercutem, mas também alguma coisa os ameniza, regula a tonalidade deles. Assim, dir-se-ia que a casa como que não permite a uma pessoa, por exemplo, na sala de jantar, gritar por alguém que se encontra no quarto do fundo. Se o fizesse, daria a impressão de estar dilacerando os espaços intermediários, em vez de simplesmente os estar preenchendo com a voz.
É como sinto esses imponderáveis.
Convite a uma repousante reflexão
Por esses aspectos, trata-se de uma casa que convida à reflexão atenta, mas repousante. Ela descansa quem ali medita. De sorte que, naquele ambiente, a pessoa pode se entregar ao exercício de uma previsão que chegue até o extremo do desfavorável na construção de suas hipóteses, mas, ao mesmo tempo, com muita confiança e com a certeza do auxílio do Céu. Pode tomar deliberações fortíssimas, mas estas não extenuam quem delibera. As decisões se estabelecem e saem do coração da pessoa mais ou menos como pode sair um facho luminoso de uma luz sem extenuá-la. Em suma, é um ambiente muito propício ao descanso.
Essa seria a atmosfera da casa de Dona Lucilia, vista de um lado.
Sob a égide do Coração de Jesus
Considerada de outro lado, o ambiente todo se explica e se define pela presença da imagem do Sagrado Coração de Jesus, que está no quarto de mamãe e que parece O habitante por excelência da casa: tranqüilo, sereno, digno, nobre, afável, convidativo.
E para não deixar de lado um pormenor interessante, a cadeira de balanço que mamãe usava compõe muito adequadamente essa atmosfera de imponderáveis. A tal ponto que, em diversas ocasiões, quando eu mesmo faço uso dessa cadeira, tenho a sensação de uma maior intimidade com Dona Lucilia. E é de notar que ela não era a única a se sentar na cadeira, pois outras pessoas da família também o faziam. Mas, ela se vinculou de tal modo à pessoa de mamãe, e nos traz tanto sua figura à nossa lembrança, que não é possível considerá-la senão como “a cadeira de Dona Lucilia”.
Mais uma vez, são os imponderáveis...

Plinio Correa de Oliveira – Extraído de conferência em 21/4/1977

domingo, 29 de junho de 2014

“Que bênção existe nesta casa!”

Outro aspecto que saltava aos olhos de quem tratasse com Dª Lucilia era sua capacidade de passar de um estado de espírito a outro sem solavancos, com suavidade. Essa ordenação lhe permitia transformar em virtude qualidades de alma meramente naturais. Por exemplo, sua acentuada meiguice.
Quando estava sozinha, a impressão que causava era de uma doçura toda feita de resignação. Sua presença era repassada de elevação, de um quê de tristeza cristã, de perdão sem limites, de uma soledade que não era o vazio. Fisicamente Dª Lucilia podia estar só, porém a sala onde ela se encontrasse era toda penetrada pela irradiação de sua bondade.
Muitas pessoas dotadas de sensibilidade à graça sobrenatural notavam tal ação de presença. Característico é o fato ocorrido com um sacerdote que foi levar a Sagrada Eucaristia a Dr. Plinio, então impossibilitado de sair de casa. Logo ao entrar no hall do apartamento, olhando para todos os lados, indagou:
— Quem mora aqui?
E antes mesmo de alguém responder, exclamou:
— Que bênção existe nesta casa!
Em nada se equivocara aquele ministro de Deus. Possuindo o tirocínio do trato com as almas, soube imediatamente perceber o quanto o lar de Dª Lucilia estava carregado de imponderáveis bons, provenientes, em larga medida, das elevadas cogitações dela.

(Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de João Clá Dias)

sábado, 16 de novembro de 2013

“Casa de Dona Lucilia Corrêa de Oliveira”

Em abril de 1952, mês em que Dª Lucilia completava 76 anos, ela, seu esposo e seu filho se instalaram no espaçoso, aprazível e acolhedor apartamento recém-comprado por este último, no 1º andar da Rua Alagoas, 350, no bairro paulistano de Higienópolis. A satisfação pelo novo lar, vemo-la expressa nas palavras que, algum tempo depois, escreveria ela a Dr. Plinio:
Com teu pai, estamos os dois agasalhadinhos na nossa “casa gostosa” que o filho querido preparou para consolo de nossa velhice.
Cenário ideal do derradeiro período de vida
A residência da Rua Alagoas como que abria nova fase na vida dela, correspondente a seus últimos dezesseis anos de existência.
As cartas de Dª Lucilia que temos contemplado são portadoras das suaves brisas de afeto doméstico e familiar que, ao longo de sua existência, não fizeram senão requintar-se e aprimorar-se. Tão preciosos documentos constituem uma das melhores manifestações da silenciosa e contínua elevação de suas virtudes.
Como nas cartas que escreveu, deixaria Dª Lucilia um testemunho imponderável de sua presença nesses aposentos e salas, onde iria transcorrer o derradeiro período de sua vida. Transformar-se-ia assim o apartamento na perfeita moldura daquele alcandorado convívio, que ali atingiria seu ápice, em especial – é óbvio – no que diz respeito ao relacionamento com o “filho querido de seu coração”.
Nesse local cada objeto teria uma história a contar, evocaria um passado próximo ou longínquo, seria portador da recordação de uma alegria ou de uma tristeza. Em tudo isso haveria de meditar Dª Lucilia em suas extensas horas de reflexão, nas quais analisaria, não raras vezes, os acontecimentos do passado e do presente, tirando consequências e fazendo deles um juízo, antes de partir para a eternidade.
Essa seria, por excelência, a casa de Dª Lucilia a qual ela marcaria de forma indelével. Como uma flor que, mesmo depois de retirada do vaso, deixasse a atmosfera impregnada do suave aroma generosamente exalado por suas pétalas, ainda hoje, tantos anos após sua morte, ao transpormos a soleira da porta temos a impressão viva de estarmos entrando em sua residência.
Abandonemos, pois, as turbulências deste século, atravessemos os umbrais do 1º andar da Rua Alagoas, e façamos uma visita “em espírito” à nova casa de Dª Lucilia, deixando-nos envolver pela atmosfera de serenidade e distinção que marca aquelas abençoadas paredes, antes de entrarmos no relato de seus últimos anos de vida.
Acompanhando um cicerone da natureza
Seguindo o peregrinar dos raios solares pelo apartamento de Dª Lucilia, logo ao amanhecer encontrá-losemos esgueirando-se entre as discretas penumbras do quarto dela. Dois oratórios — o do Sagrado Coração de Jesus e o da Imaculada Conceição — a presidir o ambiente, são como os dois extremos de um arco-íris imaginário, que sobre sua cama reluz. Daí, ora contemplava ela, manhã adentro, os Sagrados Corações de Jesus e Maria através das imagens de sua devoção, ora tecia elevadas considerações sobre os aspectos evocativos de alguns objetos: um pequeno relógio de alabastro, bronze e esmalte, presente de Dr. João Paulo; uma elegante jarra e um conjunto de toilette, de prata; ou um gracioso bibelot de porcelana que representa uma raposa, além de pequenos quadros com fotografias de familiares.
Saindo do quarto de Dª Lucilia, a primeira porta no corredor, à esquerda, nos conduz a um living, reservado por Dr. Plinio para seus pais conviverem na recordação do passado e na esperança da eternidade. A seguinte dá acesso a outro aposento: o quarto de dormir do invicto batalhador. Aí, diante de uma pequena imagem do Imaculado Coração de Maria, Dª Lucilia rezava durante o dia, e mais especialmente nas longas ausências de Dr. Plinio, implorando a Maria Santíssima que o acompanhasse.
Atentos e enlevados, prosseguimos o percurso e, em certo momento, nos detemos ao ouvirmos as melodiosas e suaves badaladas de um relógio, que bem simbolizam aquele aprazível ambiente. Atraídos, entramos num escritório de acolhedora atmosfera, banhada por discreta luz.
A digna e sóbria cadeira de balanço faz recordar as incontáveis horas nas quais Dª Lucilia, tecendo crochet ou entregando-se às suas orações, marcava com sua presença esse local. A seu lado costumava trabalhar, num sofá de couro vermelho, seu “filhão”.
Era nesse escritório que Dª Lucilia, sentada à escrivaninha de Dr. Plinio, fazia as contas de sua administração doméstica, as pequenas listas de compras do dia, ou anotava as providências e ordens que daria às empregadas. Quando queria reservar alguma quantia para uma finalidade futura, apontava numa pequena folha de papel o destino do dinheiro, e o enrolava cuidadosamente; guardavao depois numa gaveta onde se iam juntando, em perfeita ordem, os vários rolinhos.
Recolhimento, distinção e harmonia
À saída do escritório, podemos contemplar, no início da tarde, o sol que, caudaloso, penetra na sala mais nobre do apartamento. Aí, uma bela imagem do Sagrado Coração de Jesus, de alabastro branco, domina o elevado ambiente.
Do azul profundo do veludo do sofá e das poltronas, e do azul variado de um autêntico e imaginativo tapete persa, tirou seu nome esse solene e afável local: “Salão Azul”.
Elegante e singela, a escrivaninha de mogno que Dª Lucilia adquirira em Paris nos traz à memória suas eloquentes cartas. Sobre esse móvel, dois exóticos negrinhos de porcelana, lindamente trajados segundo o gosto veneziano do século XVIII, seguram cada qual uma cúpula de abat-jour, proporcionando agradável e acolhedora iluminação. Dos quadros de antepassados, nenhum caberia melhor, no ambiente de seriedade criado pela imagem do Sagrado Coração de Jesus, do que o da avó paterna de Dª Lucilia, que tão jovem deixou esta vida.
No outro lado do salão, encimada por um grande espelho, uma console dourada com tampo de mármore creme. Sobre este um belo vaso cor-de-rosa, que fazia os encantos de Dr. Plinio já em sua meninice.
Outros objetos, como uma gravura da duquesa de Nemours, mãe do Conde d’Eu, o gracioso bibelot de uma chinezinha e um dos lustres de bronze resgatados por Dª Lucilia ao voltar da Europa, ressaltam a distinção do lugar.
Ao lado do “Salão Azul”, quase como prolongamento dele, mas formando outro ambiente, fica a “Saleta Rosa”. Os mesmos raios de luz que acentuavam a nobreza e gravidade do “Salão Azul”, parecem agora transformar-se em sorriso e intimidade, quando incidem sobre o cor-de-rosa do tapete ou do damasco do sofá. A nota de cerimônia, nunca alheia à família, é dada especialmente pelo quadro da grande matriarca, Dª Gabriela, como também pelo evocativo vaso que fizera parte do mobiliário do Palácio Imperial. Nosso olhar se detém sobre uma peanha onde, dentro de uma redoma de cristal, um pequeno boneco representa o Dr. Gabriel José Rodrigues dos Santos. Trajado com a farda de deputado geral do Império, traz à memória um dos mais ilustres antepassados de Dª Lucilia.
Com o entardecer, os últimos raios de sol repousam sobre a prataria na sala de jantar, após o que, lentamente cedem lugar às penumbras da noite. Se algum convidado de cerimônia é esperado, a gala reluz nos cristais, pratas e porcelanas.
Por fim, ao transpormos a porta de saída, levamos conosco a lembrança da tranquila, digna e elevada atmosfera que deixamos, tão frontalmente oposta à agitação e vulgaridade da rua...
Embora aquele não seja senão um apartamento, ficamos com a impressão de termos abandonado um nobre palácio. Ao mesmo tempo, somos tomados pela sensação de havermos contemplado mil coloridos cambiantes de vitrais imaginários; ou de termos ouvido inúmeras harmonias que o silêncio e o recolhimento da residência de Dª Lucilia fazem vibrar suavemente na alma, como ressonâncias da personalidade dela...
Mas, reencontremo-la naqueles saudosos tempos.
No ambiente ideal, a dona-de-casa perfeita
A consonância de alma de Dª Lucilia com Dr. Plinio era tal que, tendo seu filho dirigido a mudança da Rua Vieira de Carvalho para o atual apartamento da Rua Alagoas, ela se sentiu atendida em suas preferências, ao ver a ordenação dos móveis e a disposição dos cômodos adequarem-se perfeitamente aos seus próprios pendores. Quanto à decoração, fê-la Dª Rosée, com o seu bem conhecido talento. E, é claro, a gosto de sua mãe.
O governo do lar ficava a cargo de Dª Lucilia, a quem Dr. Plinio considerava de fato a senhora da casa. Muitas vezes, conversando com ela, dizia-lhe afetuosamente que se não fossem suas obrigações de representatividade social, mandaria atender o telefone dizendo:
Casa de Dona Lucilia Corrêa de Oliveira”.
Dª Lucilia, apesar de sua avançada idade, continuava a exercer de modo exímio as funções de dona-de-casa, orientando diretamente os trabalhos do dia-a-dia. Mantinha o apartamento numa ordem impecável — sem nada de rígido — na qual transpareciam reflexos de sua bela alma.
Aos poucos, o peso dos anos passou a tornar cada vez mais penoso seu esforço, e ela foi deixando de lado o que já não conseguia abarcar. A oração conquistou, então, ainda maior espaço em sua vida.
Entre seus primeiros cuidados figurava sempre o do menu de Dr. Plinio. Dª Lucilia tinha um modo muito peculiar, melhor diríamos, sapiencial, de tocar os pequenos afazeres domésticos. Hoje em dia é corrente encontrarmos pessoas que se deixam absorver intensamente por suas ocupações. Como não desejam de modo algum ser interrompidas, reagem não raras vezes com acidez para afastar quem as perturbe.
Dª Lucilia era diferente. Por mais que uma tarefa exigisse atenção, nunca se deixava tomar por ela a ponto de perder o fôlego e sobretudo a serenidade. Se alguém a interrompia, não perdia a calma. Conforme o caso, apenas dizia: “Agora não posso parar, espere um pouquinho...”, como quem convida o interlocutor a ficar uns instantes ali, perto dela. Era um modo especial de agir, com uma doçura difícil de ser descrita.
Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João S. Clá Dias
À esquerda e à direita, os “negrinhos” da escrivaninha (que aparece na foto central)