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domingo, 29 de junho de 2014

“Que bênção existe nesta casa!”

Outro aspecto que saltava aos olhos de quem tratasse com Dª Lucilia era sua capacidade de passar de um estado de espírito a outro sem solavancos, com suavidade. Essa ordenação lhe permitia transformar em virtude qualidades de alma meramente naturais. Por exemplo, sua acentuada meiguice.
Quando estava sozinha, a impressão que causava era de uma doçura toda feita de resignação. Sua presença era repassada de elevação, de um quê de tristeza cristã, de perdão sem limites, de uma soledade que não era o vazio. Fisicamente Dª Lucilia podia estar só, porém a sala onde ela se encontrasse era toda penetrada pela irradiação de sua bondade.
Muitas pessoas dotadas de sensibilidade à graça sobrenatural notavam tal ação de presença. Característico é o fato ocorrido com um sacerdote que foi levar a Sagrada Eucaristia a Dr. Plinio, então impossibilitado de sair de casa. Logo ao entrar no hall do apartamento, olhando para todos os lados, indagou:
— Quem mora aqui?
E antes mesmo de alguém responder, exclamou:
— Que bênção existe nesta casa!
Em nada se equivocara aquele ministro de Deus. Possuindo o tirocínio do trato com as almas, soube imediatamente perceber o quanto o lar de Dª Lucilia estava carregado de imponderáveis bons, provenientes, em larga medida, das elevadas cogitações dela.

(Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de João Clá Dias)

sábado, 28 de junho de 2014

Que dignidade!

Apesar da avançada idade, Dª Lucilia jamais abandonou o hábito de rezar o Rosário todas as tardes. Realizava esse importante ato sentada em sua cadeira de rodas, na sala de jantar, enquanto contemplava a copa das árvores da Praça Buenos Aires e se beneficiava dos últimos raios de sol que penetravam pela janela. Eram lindos crepúsculos, como dificilmente ocorrem na cinzenta megalópole que é a São Paulo de hoje. Aqueles entardeceres se harmonizavam admiravelmente com a alma tão brasileira de Dª Lucilia.
Quem teve a ventura de observá-la através das frestas do brise-bise 1 existente na porta do “Salão Azul”, não podia deixar de nela reconhecer um verdadeiro monumento! Não era possível separar a nobreza da religiosidade naquela senhora de 91 anos. Quando se fala de suas virtudes, fala-se necessariamente de nobreza, e vice-versa. Aliás, havia nela algo a mais do que nobreza: Dª Lucilia possuía uma alma augusta.
Ela se punha numa atitude tão ereta, tão composta, e rezava com tanta piedade e devoção que a cena era de comover.
Certo dia, enquanto desfiava o Rosário, ela precisou usar o lenço. “Nessa ocasião — relata um jovem que a observava — pudemos constatar quanto sua respeitabilidade se evidenciava até nos ínfimos gestos”. Sem perceber que estava sendo analisada, ela depôs o terço sobre o vestido, marcando cuidadosamente a dezena em que suspendera a oração, a fim de retomá-la no ponto exato. Tomou então o lenço, utilizando-o com discrição e perfeita compostura. Depois dobrou-o lentamente, guardou-o e continuou a prece.
“Que dignidade!” — foi a exclamação muda que naturalmente brotou no interior de quem teve a graça de assim, de modo furtivo, conhecer Dª Lucilia mais de perto.

Esta atitude dela, como tantas outras, dava oportunidade para se perceber a irradiação da diáfana e envolvente luminosidade de sua alma, um dos encantos de sua benigna e acolhedora presença.
1 Leve cortina translúcida, utilizada para vedar a inteira transparência de janelas ou portas com vidros.