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terça-feira, 21 de março de 2017

Dor e seriedade ( conclusão)

Conclusão do post anterior
Atrozes ferimentos causados pela conflagração
Eu tive uma governanta austríaca que era solteira e ofereceu-se para, durante o dia, trabalhar num hospital de feridos de guerra.
Ela disse que os ferimentos eram atrozes. Por exemplo, um jovem que tinha ido para combater e voltou com um ferimento que de si não era mortal, mas ele não podia falar porque um projétil lhe arrancara o queixo. Quando ele precisava de alguma coisa, tocava uma sineta e escrevia, com letra trêmula de alguém que está gravemente doente, aquilo de que precisava. Às vezes não conseguia escrever por inteiro, deixava cair sobre a cama a caneta e o papel, e ficava esperando um momento em que um pouquinho mais de força lhe permitisse fazer o pedido.
Minha governanta contava que, pelo regulamento do hospital, as enfermeiras tinham horários determinados para descansar, porque se elas ficassem doentes também, o hospital tornava-se inoperante. As enfermeiras precisavam ter uma defesa contra a epidemia, então o hospital mandava-as repousar. Mas quando minha governanta estava descansando e se lembrava de que talvez o homem sem queixo precisasse de alguma coisa, ela se levantava às escondidas e ia verificar se ele queria algo. Quem censuraria uma atitude como essa? Só poderia aplaudir. Mas que condições de vida, que horrores, que monstruosidades!
Reflexão sobre o magnífico tema da dor
Tudo isso representava o sofrimento, e eu notava que Dona Lucilia tinha em face desses fatos uma atitude muito mais pensativa e mais séria do que as outras pessoas. Estas comentavam, como ela, as notícias que os jornais publicavam, por vezes com sensacionalismo que impressionava muito o público, é natural.
Por exemplo, acabava o almoço de domingo, todos se espalhavam pela sala de jantar e começavam a conversar sobre esses assuntos. Lembro-me até hoje de que quando um velho relógio de parede, com um bonito som, marcava duas horas da tarde, havia sempre um espírito mais leviano e superficial que dizia com uma voz que dominava a todos: “Meus caros, agora chegou a vez de nos divertirmos. Você vai para onde? E você? Vamos fazer os nossos programas.” Então, uns iam passear nos arredores da cidade, outros faziam visitas, enfim, essa vida leve dos domingos.
Eu percebia que Dona Lucilia acompanhava, mas que o espírito dela ia para a compaixão por aqueles que tinham sofrido, fazia oração por eles para Nossa Senhora aliviar ou até para evitar esse sofrimento. Mas, sobretudo, fazia a reflexão sobre o grande, o nobre, o magnífico tema da dor. E dentro deste tema, outro ainda mais bonito: o heroísmo, a coragem.
Isto ia formando a alma de um menino... 

Plinio Corrêa de Oliveira – Extraído de conferência de 26/7/1995

quarta-feira, 15 de março de 2017

Dor e seriedade II

Continuação do post anterior
Atitudes das pessoas perante a Primeira Guerra Mundial
Pouco tempo depois desses primeiros fatos da minha infância terem se passado, arrebentou a Guerra Mundial. Entendi mais ou menos o que era essa guerra, mas tinha a noção da distância enorme que havia entre o Brasil e a Europa. Portanto, era impossível que a guerra chegasse até aqui; enquanto a Europa passava por todo aquele sofrimento, no Brasil havia a boa vida tranquila e folgada; o Brasil não entraria em guerra, e por isso as pessoas aqui gostavam de celebrar a tranquilidade brasileira. Não só apreciavam isso os brasileiros, mas os estrangeiros oriundos de países que estavam na conflagração, mas que tinham vindo para o Brasil antes da guerra. Eles tinham pais, irmãos, filhos, netos, metidos na conflagração. Isso lhes interessava, mas, sobretudo, o que eles possuíam era um bem-estar de pessoalmente não participar da guerra.
Quando chegava a tardinha, era frequente verem-se nas ruas da São Paulinho rodas formadas na calçada por famílias de imigrantes. As donas de casa faziam pratos do tempo em que viviam em seus países de origem, os homens conversavam, davam risadas, as crianças brincavam, todos se preparando para comer e depois comendo valorosamente, comentando como era bom eles não estarem na guerra.

Comecei a observar isso e percebi que havia duas atitudes perante a conflagração: uma, a daqueles a quem era, sobretudo, agradável estar longe dela; a outra, a dos que admiravam a guerra, compreendiam sua beleza. Estes últimos não podiam ir à guerra porque tinham compromissos aqui no Brasil para manter a família; se eles fossem poderiam morrer, e a família ficava abandonada. Mas acompanhavam os jornais com o espírito de lutadores: seu país avançou ou recuou, os aliados deles avançaram ou recuaram, os meios de destruição se acentuaram. Aparece o aeroplano, então o grande perigo são os voos. Depois surgem os gases asfixiantes, os bombardeios em massa das grandes cidades. E no fim, coisa talvez pior do que tudo, as epidemias que contagiavam às vezes um país inteiro e que constituíam uma tristeza, uma coisa horrível.
Continua

sábado, 4 de março de 2017

Dor e seriedade I

A seriedade causa dor, mas o pior sofrimento é o produzido pela falta de seriedade, a qual faz com que a pessoa se sinta vazia, sem ideias, sem ideais, sem vontade.
O sofrimento era algo tão ligado à vida de Dona Lucilia e a todo o ser dela, que eu em pequeno às vezes notava que ela estava sofrendo, porém não sabia por quê. Ficava olhando para ela e contemplando o sofrimento, mas sem compreender o que a fazia sofrer.
Pequenos sofrimentos que originavam um sofrimento global
Mais tarde, quando me tornei um pouco mais velho, fui compreendendo uma ou outra razão de um ou outro sofrimento. Depois, compreendi que os sofrimentos dela formavam um como que edifício. Era um conjunto de razões que a faziam sofrer e que constituíam um grande sofrimento global, o qual era o sofrimento geral da vida dela. Então comecei a ter uma ideia global do que era o sofrimento.
Quando pequeno, eu notava, sobretudo, que mamãe tinha restos de enfermidade devido àquela operação da vesícula, que ela fez na Alemanha em 1912, e percebia que tinha muita dificuldade em caminhar.
Eu notava que, às vezes, meu pai voltava cedo do escritório, passava por casa, pegava-a e saíam os dois a fazerem uma volta a pé. Ele, tendo terminado seu serviço durante o dia, contente com a tarefa, com saúde e vida, um homem muito feliz. Ela, uma pessoa na qual cada passo era uma dor, ao mesmo tempo entendia que não poderia irradiar seu sofrimento sobre o esposo, ser uma causa contínua de dores para ele. Ela deveria fingir que não estava sofrendo, ou contar sorrindo: “Hoje, como estão me doendo os pés!”, e continuar a andar, todos os dias, a extensão recomendada pelos médicos. Nunca terminar antes porque lhe estavam doendo muito, porque essa extensão era necessária para habituar os pés ao esforço adequado.
O sofrimento produz a seriedade
Então, eu percebia que mamãe tinha uma compreensão muito profunda dessa situação. Ela sentia esse sofrimento, e sentia na alma a dor que tem esta quando o corpo sofre dor física. Não é uma dor superficial, mas uma dor profunda. O corpo padece e a alma com isso sofre.
Quando voltava para casa, ela descansava, e nesse momento eu entendia tudo quanto sofrera durante o passeio, porque, sorrindo, mamãe se deitava numa espécie de divã e ficava com os pés imobilizados até que a dor passasse. Ela às vezes gemia sorrindo; então se formava uma roda de pessoas conversando coisas do dia, e por amabilidade perguntavam-lhe:
— Você está melhor, Lucilia?
— Sim, sim, estou melhorando.
Eu estava vendo que era todo o dia a mesma coisa, não acabava mais. E compreendia bem que aquilo trazia para seu espírito um reflexo, que era a seriedade, porque o sofrimento produz a seriedade.
A pior dor que o homem pode ter não é a causada pela seriedade, é a produzida pela falta de seriedade. Sentir-se não sério, vazio, sem ideias, sem ideais, sem querer nada, sem dizer algo que valha qualquer coisa, isto causa um sofrimento pior do que o pior dos sofrimentos.

Um dos melhores dons que Deus pode dar a uma criança é o sofrimento. Não nos queixemos, portanto, dos sofrimentos que tenhamos tido. Pelo contrário, agradeçamos a Nossa Senhora e compreendamos que Ela, assim, nos destinou para a seriedade.
Continua no próximo post.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Temperamento de Dona Lucilia

A análise do temperamento de Dona Lucilia descrita por seu filho, Plinio Correa de Oliveira:
O que caracterizava o espírito dela era uma retidão extraordinária, que consistia em ver sempre todas as coisas inteiramente de frente. Por mais dolorosas ou promissoras que fossem, ser inteiramente objetiva, vendo o sofrimento com toda a sequela de amarguras que ele pudesse trazer. Vendo também a alegria, sem exagerar as vantagens que trazia, e compreendendo bem como nesta terra tudo é aleatório e como, portanto, tudo de repente pode degringolar. De onde uma posição muito calma, muito estável em face da vida. Ela não tinha nem grandes torcidas, nem grandes ansiedades, nem grandes depressões, não sendo nem um pouco uma pessoa apática.
A minha mãe era o contrário do meu temperamento fleumático. Para usar uma expressão implicante de hoje, ela vivia profundamente todos os acontecimentos, mas com uma certa distância. Havia entra ela e os fatos uma camada que os ruídos destes não conseguiam transpor. E ela, para aquém dos fatos, conservava a calma, a distância psíquica, a estabilidade e a continuidade.
De maneira que ela era sacral, recolhida, tranquila, forte e meiga em todas as circunstâncias da vida. Por mais que estas mudassem, ela estava sempre na mesma posição.
Mas, por detrás desta atitude tão calma, havia um profundo senso do dever. Ela não entendia que a finalidade da vida fosse conquistar honras, prazeres, glórias, dinheiro para gozar o mais possível e depois morrer.
Para ela, a vida consistia num certo dever a cumprir e numa certa forma de alma a adquirir.
Ela considerava que a felicidade está em se ter uma alma elevada, piedosa e tranquila, e em gozar os prazeres simples, despretensiosos e normais da existência. A felicidade não está, portanto, nas grandes festas, nas grandes viagens e nas grandes fortunas, mas na boa ordenação da vida quotidiana, no bom aproveitamento dos lazeres comuns e em conferir um significado espiritual e moral ao gozo do que se tem. É uma felicidade, sobretudo, de alma, uma felicidade de situação temperante, tranquila, modesta, que se sente até no infortúnio, porque, desde que não tenhamos culpa pela derrocada, conserva-se o essencial: a consciência limpa diante de Deus e uma elevação de alma que torna a vida digna de ser vivida.
Ela possuía uma serenidade que a colocava acima de todas as vicissitudes e fazia dela uma pessoa constantemente igual a si mesma, mesmo quando os caminhos da vida se fechavam, às vezes de modo assustador.
E sempre com esta temperança, esta normalidade que era a perfeita proporção entre o acontecimento externo e a repercussão interna nela. De maneira que ela vibrava em face das coisas na proporção e na medida equilibrada, com uma ordem de valores em que o religioso estava acima de tudo. Abaixo do religioso vinha o metafísico, depois o moral, e em seguida os interesses contingentes da vida tratados com o devido cuidado.
Toda esta retidão ela possuía porque intuía que assim as coisas deveriam ser, e compreendia — com uma clareza cheia de verdades implícitas — estar conforme a Religião.
É preciso ver em Dona Lucilia, sobretudo, aquela elevação de alma por onde, com toda temperança, desde pequenina, ela soube ir cada vez mais colocando a Religião acima de tudo, os valores espirituais acima dos materiais, e a vida terrena como uma coisa que deve ser vivida, sobretudo, para um dever, fruindo das pequenas vantagens da vida apenas o necessário para o cumprimento do dever.
É a impostação sacral da alma que a preparou para contemplar a Deus face a face. Creio que por aí podemos entendê-la bem e nos unir a ela.

Plinio Correa de Oliveira –Extraído de conferência de 24/6/1973

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Equilíbrio comunicativo

Continuação do post anterior
Daí se perceber em mamãe um modo de ser pelo qual estava com a alma sempre franqueada para uma comunicação de equilíbrio emocional elevado. Ou seja, para aquelas pessoas que conviviam com ela, Dona Lucilia participava esse estado de espírito e lhes oferecia beneficiar-se do seu equilíbrio comunicativo.
Entendamos o que chamo aqui de equilíbrio. As últimas fotografias de mamãe nos falam muito dessa característica. Nelas se nota ressaltado, sobretudo, um estado afetivo, desejoso de se comunicar, de ser aceito pelo próximo. Esse estado afetivo, por sua vez, contém muitas disposições de alma. Por exemplo, vendo-a, sentimo-nos em presença da boa mãe de família. Noutra ordem de idéias, percebe-se que é uma pessoa para quem a vida transcorreu inteira, conforme os desígnios de Deus, sob o amparo de Maria Santíssima. É uma pessoa vivida, que considera o sacrifício da existência consumado. Está pronta para morrer.
Assim como o sacerdote, ao término da celebração eucarística, diz: Ite missae est, (“ide em paz, a Missa terminou”), assim mamãe, no fim de sua vida, podia afimar: Oblatio facta est. A oblação dela está feita. Não lhe resta mais o que viver.
É o oferecimento, repassado de serenidade, de quem sofreu tudo e, do outro lado do sacrifício, encontrou a paz.

Plinio Correa de Oliveira – Extraído de conferência em 21/4/1977

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

O carinho de Dona Lucilia evita um castigo

Continuação do post anterior
Qual foi a atitude de mamãe?
Sem dúvida aquela nota representou uma má surpresa para ela, pois não podia esperar um resultado tão desfavorável. Eu, por minha vez, receava um pito, uma censura mais veemente, levantando a hipótese de me mandar para o internato do Colégio Caraça, como ela já havia feito anteriormente, por ocasião de uma nota que eu modifiquei no meu boletim.
Mas, mamãe percebeu que aquele mau resultado se devia mais a um nervosismo de minha parte do que a qualquer outro fator. Ela me tinha visto estudar muito, sabia de minha boa vontade e a aplicação que eu deitara para me sair bem nas provas. Em virtude disso, a atitude dela foi inteiramente diferente daquela tomada quando alterei a nota baixa que me haviam dado no Colégio São Luís.
Para meu espanto, mamãe fez um comentário superficial, e em seguida me disse:
— À tarde, você chama seu primo e vão os dois tomar um sorvete e se distrair um pouco na cidade.
Dias depois era a festa do meu aniversário. Tudo transcorreu normalmente, sem nenhuma “sanção”. O mesmo se verificou no Natal, não havendo qualquer mudança na demonstração do afeto dela para comigo, por exemplo, dando-me presentes de valor menor aos do ano anterior ou coisa semelhante. Nada disso.
No próximo exame, eu passaria com nota bem regular. Ela manifestou seu contentamento, sem me fazer grandes elogios. Tudo terminou em boa paz. Era o carinho à moda brasileira que evitava um castigo, e, dessa forma, só contribuiu para me aproximar ainda mais de mamãe.
Compreendendo a infinita bondade do Coração de Jesus
Para concluir, reitero o que já tive oportunidade de dizer: a bondade e a compaixão de mamãe eram reflexos da infinita misericórdia do Sagrado Coração de Jesus, e me foram de grande auxílio para compreender essa divina clemência que se debruça sobre cada homem.
Eu costumava olhar para as imagens do Coração de Jesus e pensava: “Se Ele é infinitamente melhor do que mamãe, então como será a sua bondade?!” Era um ponto de partida para muitas meditações. Especialmente me comovia o considerar a transfixão do coração d’Ele pela lança de Longinos: “Depois de Ele ter feito pelos homens tudo quanto fez, ainda recebe no coração um golpe que Lhe tira todo o resto de sangue que podia ter dado. E, oh! maravilha, essa mistura de sangue e água ainda opera um último milagre aos pés da Cruz, pois curou a doença dos olhos do seu próprio algoz!”
Essa bondade extrema, manifestada no momento mesmo em que o beneficiado O feria, tocava-me profundamente a alma. E eu pensava: “Essa é uma misericórdia infinita, incalculável, e está disposta a favorecer a todos, inclusive a mim. Eu, portanto, com inteira confiança, apesar de meus defeitos, devo caminhar até Ele!”  

Plinio Correa de Oliveira – Extraído de conferência em 20/9/1994

domingo, 22 de junho de 2014

Voz flexível e ondulada

Não há quem, em pequeno, não se tenha interessado por um caleidoscópio. As múltiplas pedrinhas coloridas, depositadas no extremo oposto ao do visor, reagrupando-se de forma diversa a cada nova posição do tubo, sempre produzem em seu curioso observador uma inesperada e atraente perspectiva, que o reporta a um mundo maravilhoso. O prisma e as pedrinhas são invariavelmente os mesmos, mas as configurações que se vão sucedendo surpreendem a todo instante.
A ancianidade de uma alma justa e virtuosa é o caleidoscópio de suas qualidades quintessenciadas pelo correr dos anos. Nos últimos meses da existência terrena de Dª Lucilia, estavam visivelmente presentes nela aqueles dons com que a Providência prodigamente lhe ornara a infância, e que ela generosamente fizera desabrochar e frutificar ao longo da vida.
Era-nos fácil observar, em sua bela alma, o quanto a prática das virtudes se foi transformando numa como que segunda natureza, ou seja, num hábito quase instintivo. E o quanto nela sobressaía sua docilidade ao menor sopro do Espírito Santo.
Era a derradeira volta nesse caleidoscópio de uma vida que primou pela benquerença, pela bondade, pelo afeto, em síntese pelo amor a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesma.
Apesar da idade, o olhar, os gestos, a postura na cadeira de rodas, tudo em Dª Lucilia era encantador. Entretanto, algo sobremaneira atraía quem tivesse a graça de conversar com ela: sua voz. Na ancianidade não mais tocava seu bandolim, nem sequer piano, mas ambos os instrumentos não seriam capazes de exceder em beleza os sons emitidos por aquela laringe. Seu timbre de voz era inteiramente afim com sua nobre e delicada alma.
“Eu nunca me consolarei por não me ter ocorrido a idéia de gravar a voz dela”, disse uma vez Dr. Plinio, “pois tenho certeza de que faria muito bem a todos!”. Também a nenhum outro essa idéia ocorreu, infelizmente. Mas aquela voz tão meiga, calma e pacificadora ficou como que gravada nos ouvidos de vários dos que a escutaram. Era muito ondulada, com uma extraordinária capacidade de simbolizar os aspectos morais e psicológicos do que ela queria transmitir, de maneira que qualquer palavra dita por ela podia, conforme o caso, tomar uma inflexão muito rica em matizes. E era persuasiva, o que dava à sua conversa uma enorme comunicatividade, sobretudo quando tinha algo de mais sério a dizer.
Apesar de sua audição ter diminuído com a idade, a sonoridade da voz nenhuma modificação sofrera. Era edificante observar sua capacidade de se dirigir aos interlocutores e de lhes atender as preferências, contribuindo particularmente para isso esse timbre de voz aveludado, melodioso e cheio de variadas tonalidades.

Contudo, não menos significativo era seu silêncio, pelo qual ela tanto dizia àqueles que a podiam observar. Que saudades têm os felizes visitantes que, em incontáveis ocasiões, ao entrarem em seu apartamento, encontravam-na sozinha, sentada na cadeira de rodas, rezando longas orações! Nunca se esquecerão de como sua presença suave enchia a sala de uma silenciosa paz, enquanto passava as contas de seu Rosário à hora do pôr-do-sol. 

domingo, 15 de junho de 2014

Como um atraente caleidoscópio...

Em meados de fevereiro de 1968, um amigo de Dr. Plinio, argentino, de passagem por São Paulo teve também ocasião de conhecer Dª Lucilia de perto. Assim recorda ele o feliz encontro:
“Eu estava no hall de entrada do apartamento de Dr. Plinio, aguardando uma oportunidade para poder cumprimentá-lo. Percebi então que, na sala de jantar, estava Dª Lucilia em companhia de outro jovem.
“Passados poucos minutos, este veio me dizer que Dª Lucilia me chamava. Sentada à mesa, tomava seu costumeiro chá. Haviam-lhe dito que eu pertencia ao ‘Clubinho’ de Dr. Plinio em Buenos Aires, e que naquela cidade ele era muito admirado e querido. Dona Lucilia me recebeu com extrema bondade. Seu trato era de uma classe, de uma finura e de uma afabilidade extraordinárias.
“Que ele vá... e volte logo!”
“Dirigiu-me umas palavras amáveis:
“— Eu gosto muito de seu país — começou ela, para me pôr à vontade.
“Em seguida convidou-me a acompanhá-los no chá. Agradeci, respondendo que já havia tomado lanche. Ela, com muita suavidade, insistiu:
“— O senhor sabe? Um visitante sempre nos proporciona maior prazer quando aceita sentar-se conosco à mesa. Assim, espero que o senhor não me privará do gosto de sua companhia...
“Era impossível eximir-se de um convite feito com tão nobre benevolência. Ela chamou então a empregada, dizendo-lhe que trouxesse outra xícara e talheres para mim. Quando me ofereceu um pedaço de torta, novamente agradeci, e disse que apenas tomaria chá. Com sua afetuosa gentileza, Dª Lucilia me respondeu:
“— Ora, o senhor que é tão moço deve gostar muito de doces, como todos os de sua idade... É uma torta simples e caseira, mas o senhor me dará alegria servindo-se dela.
“O outro jovem, que estava sentado à esquerda de Dª Lucilia, disse-lhe que eu convidara Dr. Plinio para proferir uma série de conferências públicas em Buenos Aires, pois muitos de meus compatriotas desejavam ouvi-lo. Dr. Plinio, porém, respondera que, naquele momento, não lhe era possível atender ao meu pedido.
“Com muita finura, ela me agradeceu pelo convite, deixando transparecer o comprazimento que este lhe causava. A seguir, perguntou-nos por que seu filho dissera não lhe ser possível ir a Buenos Aires.
“Aquele mesmo jovem respondeu:
“— Ah! Certamente porque não quer deixar a senhora sozinha.
“Então Dª Lucilia se voltou para o rapaz, dizendo-lhe com muita ênfase:
“— Ora, se é para o bem da Religião, ele não deve se prender por minha causa. É melhor que ele vá...
“E, dirigindo-se a mim, mudando a entoação de voz, com um sorriso gracioso acrescentou:
“— E que volte logo!
“Pouco depois chegou Dr. Plinio, dirigindo a Dª Lucilia um daqueles seus gracejos cheios de carinho, que a deixavam visivelmente agradada. Era admirável o modo transbordantemente afetuoso e animador com que Dr. Plinio tratava sua mãe. Recordo-me que, em certa ocasião, ele lhe perguntou:
“— Como está a senhora?
“— Agora bem — respondeu Dª Lucilia, como que insinuando, com um timbre de voz especial: Agora que estou com você, estou bem...”.

E assim, também para esse jovem argentino, foi Dª Lucilia “uma surpresa e um encanto de alma”...
Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João Clá Dias

sábado, 7 de junho de 2014

Angustiante tranquilidade

Continuação do post anterior
Enquanto os dias de hospital iam se escoando, no “1º andar” não faltaram motivos de aflição a Dª Lucilia. Fora-lhe ocultada a ida de Dr. Plinio para aquele centro médico. Ela percebia, pois, intrigada, que à intensa movimentação dos dias anteriores sucedia-se uma repentina e perplexitante tranqüilidade. Que teria acontecido a seu filho? Há muito não a visitava. Teria viajado? Ou uma grave doença se abatera sobre ele? Será que a morte o havia colhido?
Em razão de tais apreensões, suportadas no silêncio, cada vez mais a dor se ia tornando sua companheira, nos últimos lampejos de sua sofrida existência.
Felizmente, Dr. Plinio não demorou a voltar. A expressiva estampa da Mãe do Bom Conselho, que lhe fora oferecida no hospital, terá também despertado a atenção de Dª Lucilia. Não só pelo fato de seu filho a ter colocado em lugar de destaque no quarto dele, como sobretudo pela comunicatividade materna da fisionomia de Nossa Senhora e pela figura infinitamente régia e filial do Divino Infante.
O desvelo materno fê-la sonhar a realidade
Com vistas a minorar o sofrimento de sua mãe, Dr. Plinio continuou a ocultar-lhe o que se passara. Entretanto, era mister inventar uma história, a fim de responder às aflitas interrogações maternas, e explicar por que tinha ele o pé direito enfaixado, ficando tanto tempo recostado. Ocorreu a uma das empregadas, numa hora de aperto, dizer a Dª Lucilia que Dr. Plinio, passeando pelos caminhos pedregosos da fazenda de uns amigos, torcera o pé, e devia por prescrição médica permanecer em prolongado repouso.
Coração de mãe não se engana! Certa noite Dª Lucilia, em meio a um pesadelo a propósito da enfermidade de seu filho, viu o pé direito dele sofrer séria amputação. A partir desse momento se convenceu de que esta era a realidade. Portanto, algo muito mais grave do que o relato feito pela empregada. Quem encontraria argumentos para tranquilizá-la? Tarefa nada fácil... Inúmeras foram as ocasiões, até a hora da morte, nas quais Dª Lucilia se referiu às cenas daquele sonho como retratando algo que efetivamente acontecera. Embora tão idosa, o desvelo materno fê-la descobrir o que não lhe fora dito, apesar de os circunstantes continuarem a encobrir a realidade com véus otimistas...

Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João Clá Dias

domingo, 1 de junho de 2014

Se eu morrer, não o digam a mamãe

“Devo recomendar que, se eu morrer, não o digam a mamãe?”
Às apreensões com a saúde acrescentaram-se, para Dr. Plinio, perplexidades de alma: “O que dizer a mamãe se, por exemplo, eu tivesse que amputar uma parte de meu pé direito? Devo recomendar que, se eu morrer, não o digam a mamãe? Seria lícito nada dizerem a ela, a fim de lhe poupar um grande choque emocional?”
Mas, nesse caso, as pessoas que com ela tratavam ver-se-iam obrigadas a entrar pelas vias da mentira, para lhe ocultar a tragédia. Sofrendo Dª Lucilia de uma leve diminuição de lucidez, própria à ancianidade, teria direito de conhecer a verdade inteira? Por outro lado, se a Divina Providência quisesse prová-la, seria legítimo poupar-lhe essa borrasca?
Entre as inúmeras cogitações que então povoavam a alma de Dr. Plinio, constituíam estas últimas uma tremenda provação.
Por sua vez, aquela que era o objeto dessas preocupações estaria, provavelmente, passando por outras aflições. Em vista do inusitado movimento em sua residência, o maternal e afetuoso coração dela notava a situação anormal em que se achava Dr. Plinio. Por que tantas pessoas desconhecidas a frequentar o apartamento? Qual a razão das numerosas chamadas telefônicas? Eram perguntas que se iam acumulando nos horizontes já cansados e aflitos de Dª Lucilia. Tanto mais que, encontrando-se na contingência de fazer uso de uma cadeira de rodas, via-se coarctada em seu desejo de atender a todas as conveniências de seu querido filho.
De outro lado, não se podia exigir das empregadas de casa a perfeição da virtude da caridade. Elas ali estavam simplesmente para servir, pois para tal haviam sido contratadas. Assim, quando Dª Lucilia lhes pedia explicações a respeito do que se estava passando, cada uma dava a resposta que espontaneamente lhe vinha à mente, sem maiores cuidados.
Tais circunstâncias, acrescidas às intuições do coração de mãe, aumentavam o sofrimento de Dª Lucilia.
Deus qui ponit pondus...
Inicialmente, os médicos fizeram curativos no pé direito de Dr. Plinio no próprio “1º andar”. Depois julgaram que o melhor seria chamar um especialista, o qual, logo após examinar o enfermo, concluiu ser necessária uma urgente cirurgia para debelar a grave infecção. Naquela mesma noite, com os devidos cuidados, Dr. Plinio foi transladado ao Hospital Sírio-Libanês, onde o médico executou eximiamente a operação. O paciente ainda permaneceria alguns dias no hospital.
Às vezes, as graças mais insignes nos são dadas em meio aos males que, com a permissão da Providência, sobre nós se abatem: Deus qui ponit pondus, supponit manum — “Deus ampara com a mão a quem permite que seja provado”. Assim, em 16 de dezembro, Dr. Plinio recebeu de um amigo, vindo de Roma, um quadro de Nossa Senhora do Bom Conselho de Genazzano. Ele próprio descreveria depois, com palavras impregnadas de filial e amorosa gratidão à Santíssima Virgem, esse episódio de transcendente significado para sua vida espiritual.

Continua no próximo post

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Na extrema ancianidade, uma grande provação

Lucilia Correa de Oliveira aos 91 anos
A mais dura prova da existência de Dª Lucilia, a Providência a reservara para seus derradeiros meses de vida. A ancianidade acrisolara sua caridade, e a resignação em sua alma atingira o auge. Encontrava-se ela a cinco meses de seu juízo particular. Os sofrimentos, as lutas precedentes, em nada fizeram diminuir o alto equilíbrio que sua fidelidade à graça batismal generosamente lhe conferira. Muito pelo contrário, tornaram-na ainda mais unida a Deus. No ápice de sua vida espiritual, ela se convertera em um belo escrínio de tradições cristãs dos antigos tempos, provocando irresistível encanto nas almas daqueles que, nessa ocasião, tiveram a felicidade de a conhecer mais de perto.
As provações não conhecem idade, e se apresentam implacáveis até no fim de uma longa vida. Diz o Eclesiástico (40, 1): “Grande preocupação foi imposta a todos os homens, e um pesado jugo carrega sobre os filhos de Adão, desde o dia em que eles saem do ventre de sua mãe, até o dia da sua sepultura (em que eles entram) no seio da mãe comum de todos”. Assim o Espírito Santo, inspirando ao escritor sagrado tão belas palavras, deixa-nos entrever algo desse sublime mistério, ao qual não se subtraiu Dª Lucilia. Com efeito, já quase no limiar da eternidade, verse-ia ela exposta a uma penosa circunstância.
Um vendaval se abate sobre Dr. Plinio
Plinio Correa de Oliveira - 5 novembro 1967
Em fins de 1967 uma forte crise de diabetes acometeu Dr. Plinio. Apesar de terem procurado ocultar o fato a Dª Lucilia , esta teve clara idéia, por sua aguda intuição materna, de que algo de muito grave acontecia ao “filho querido de seu coração”.
No dia 5 de novembro daquele ano Dr. Plinio participou de uma solene celebração litúrgica na Catedral de São Paulo, comparecendo ao ato em posição de muito destaque. As cenas que então se desenrolaram, tanto no interior do templo quanto nas suas escadarias, foram filmadas pelo famoso cineasta Primo Carbonari, cujo noticiário era exibido em todos os cinemas do Brasil.
Poucos dias depois, Dr. Plinio foi convidado, com mais alguns amigos, a assistir à avant-première desse documentário. Ao ver-se a si mesmo na tela, teve uma reação de espanto por verificar — dado seu alto tino psicológico — quanto o próprio vigor físico estava minado por alguma grave enfermidade. No dia 1º de dezembro, cancelou sua costumeira conferência semanal, saindo de casa somente à tarde, para ir ao Santuário do Sagrado Coração de Jesus. Ao descer do automóvel, causou surpresa ao ser visto caminhar com o auxílio de bengala e calçando no pé direito um leve chinelo. Tinha a fisionomia muito abatida. Entretanto, com sua invariável finura, em nada deixava transparecer, aos que o cumprimentavam, seu mal-estar físico.
No dia seguinte não encontrou forças para sair de casa a fim de cumprir o preceito dominical, sendo-lhe levada a Sagrada Comunhão. Segundo o relato de uma pessoa que teve a oportunidade de estar com ele de manhã e à tarde, era impressionante notar, ao cumprimentá-lo, a elevada temperatura de sua mão. Nos dias subseqüentes, a febre ultrapassaria a casa dos trinta e nove graus. Apesar disto, Dr. Plinio mantinha inalterável amenidade, nobreza e distinção de trato, tal qual aprendera de Dª Lucilia.
Narrações feitas por ele próprio, tempos depois, revelaram a grande provação que enfrentava nessa ocasião:
“Quando me apareceu esta espécie de abscesso, imediatamente me lembrei do pensamento que tivera assistindo ao filme. Parecia-me que algo de absurdo se realizava. Vi-me obrigado a passar alguns dias em casa, envidando, porém, todos os esforços para que mamãe nada percebesse. Minha penosa deambulação era feita com o auxílio de alguns apoios. Lembro-me que uma vez mamãe estava sentada à mesa, à minha espera, e eu, ao passar pelo hall, escorreguei e caí. Minha febre já estava altíssima. Uma antiga empregada, não compreendendo que eu levasse meu desvelo por mamãe ao ponto de esconder minha doença, a fim de lhe poupar preocupações, disse-me num tom de acidez:
“— Qual é o problema? Por que o senhor não lhe conta de uma vez o que o senhor tem?
“Manifestando desagrado respondi:
“— Você não percebe que eu não quero aborrecê-la?
“— Mas até esse ponto?
“— Até esse ponto! Quem gradua isto sou eu — retruquei.
“Tendo-me levantado, dirigi-me à sala onde estava mamãe, enquanto pensava: O que eu pressentia se está realizando. Estou com uma grave enfermidade, serei obrigado a chamar médicos, que me apresentarão um terrível diagnóstico...”
De fato, no dia seguinte, segunda-feira, bem cedo, Dr. Plinio recorreu aos médicos e viu-se introduzido num túnel, à primeira vista, sem saída. Os resultados dos exames de laboratório revelaram uma forte crise de diabetes. Foi-lhe determinado repouso absoluto, regime alimentar restrito, remédios e controle glicêmico para rapidamente serem debelados os distúrbios orgânicos produzidos pela enfermidade. Entretanto, restava um problema não menos trágico: uma gangrena em seu pé direito.
Em face de tal quadro, Dr. Plinio pensou: “Minha previsão se confirmou. Um vendaval se abaterá sobre mim, e mamãe ainda vai morrer por estes dias...”
Se o coração de um filho pode às vezes ser acometido por intuições, o que se dirá do discernimento materno? É certo que Dª Lucilia percebeu estar-se passando algo de estranho com Dr. Plinio.

Feliz e pobre Dª Lucilia! Lucraria a companhia diária de seu filho até o dia 21 de abril seguinte, data em que ela compareceria diante de Deus para ser julgada. 

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Incansável afeto

Passados os dias de apreensão que vivera o País no início dos 60, momentos nos quais a confiança na proteção divina foi seu principal consolo, Dª Lucilia tomou aquela pena tantas vezes utilizada para transmitir palavras de afeto, que faziam os encantos do filho distante, para escrever uma missiva à sua cunhada, a madrinha de Dr. Plinio.
A última carta
Dona Lucilia não via Dª Teresa desde a viagem a Pernambuco, havia sessenta anos. No entanto, com ela mantivera sempre afetuosa correspondência.
Comovedoras são as linhas desta carta, a última escrita por Dª Lucilia antes de partir para a eternidade.
São Paulo, [abril de 1964]
Dona Tetê
Querida Tetê!
Penso que ainda não recebeste a carta que te escrevi dando notícias nossas. (...) Estava sofrendo muito com reumatismo nos pés, e nas pernas, e o fígado péssimo!... Só ando de braço com uma empregada, e uma bengala na outra [mão], e com dificuldade!...
Sinto bem que não possas vir ver como o teu afilhado trabalha pela nossa religião... Tem escrito diversos livros católicos, fala em toda parte, a convite de uns e outros, para falar nas recepções, etc., e não chega para tudo!!
Sinto-me tão enfraquecida, que penso que já não te escreverei mais!!
Recomenda-me com afeto a todos que ainda se lembrem de mim!
Com um afetuoso abraço, beija-te a cunhada que muito te quer,

Lucilia

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Inteiramente justa, extremamente bondosa…

Dona Lucilia aos 92 anos de idade
A vida de Dona Lucilia se passava mais numa sucessão de estados de espírito do que num conjunto de ações. Ela levou, única e exclusivamente, a vida de uma dona de casa de seu tempo: pequenas obrigações sociais e domésticas.
Embora possuísse uma constituição física forte, dona Lucilia era muito achacada de doenças, indisposições. Ela viveu 92 anos, mas sempre enferma e obrigada, portanto, aos cuidados, limitações e regimes de uma pessoa doente. É dentro disso que a alma dela se manifestava.
Lógica e bondade
Ela era uma pessoa que realizava, com precisão, exatidão, a aparente contradição de ser, ao mesmo tempo, muito bondosa e muito lógica. Em geral, se entende como bondade algo que entra, não no antilógico, mas, pelo menos, no não lógico.
Por exemplo, a oração em favor do adversário, à primeira vista, não parece lógica. Uma pessoa “ploc-ploc”1 poderia fazer o seguinte raciocínio: “Tal indivíduo é meu inimigo, quer liquidar-me, e está passando mal à morte. Se eu pedir a Deus para ele sarar, ele fica curado e depois me mete uma porretada na cabeça. Que sentido tem isso? Não digo que vá pedir para ele morrer — é o impulso de muitos —, mas não rasgarei minha túnica devido à tristeza, se ele falecer; tampouco vou rezar para ele viver.”
Esse é um pensamento que Dona Lucilia não aprovaria.
O fio do pensamento parece muito lógico, mas poderíamos perguntar a essa suposta pessoa: Por que você coloca limites à bondade de Deus? Ele não pode sarar de alma e corpo seu inimigo? Ou permitir, por exemplo, que ele venha em cima de você, para lhe fazer sofrer um tanto por amor a Deus? Assim você não acabaria conquistando uma alma para Nosso Senhor? No balanço estreito e vulgar de seus interesses pessoais, sua atitude é bem lógica, porém a premissa não está errada? Existe só você? Nas relações entre você e seu inimigo, não existe Deus? Ou é o Criador que existe principalmente, e ele e você são duas meras criaturas? Sendo assim, procure o interesse de Deus!
Senso de observação
A lógica de Dona Lucilia coincidia com um senso de observação curioso, o qual não fazia dela um Sherlock Holmes2. Mamãe muitas vezes se iludia a respeito das pessoas. Mas, às vezes ela pegava o lado ruim de um indivíduo com um discernimento espantoso, quando ele não tinha dado nenhuma manifestação disso.
Lembro-me de um amigo a respeito do qual ela me desaconselhou. Perguntei-lhe: “Mas, por quê?” Ela disse: “Pelo jeito de ele pegar no garfo...”
Eu não dizia nem sim, nem não, porque não queria que ela ficasse alarmada. Mas havia necessidade de apostolado com essa pessoa chegada a mim, e eu, portanto, a suportava de olho vivo. E percebia na prática de todos os dias como mamãe tinha razão.
Essa pessoa tem quase minha idade, passou a vida no teatro, ou seja, “teatrando” para o mundo, e já vai saindo para o outro lado do palco; egoísta, egoísta...
...não só para perceber defeitos, mas também qualidades
Dona Lucilia revelava seu senso, não só em pegar defeitos, mas também, às vezes nas pessoas mais censuráveis, algumas qualidades e se transformava em advogada delas.
Não eram qualidades comuns, que se alega comumente, “Ele é bonzinho”, mas do seguinte gênero:
Eu, por exemplo, “truculentizava” contra os defeitos de alguém. Raras vezes ela me dizia: “Você tem razão!”
Mas, quando havia cabimento, ela afirmava: “Filhão, é verdade! Mas, você note tal lado: apesar de tudo, ele é, por exemplo, muito franco. Muita gente, que não tem esses defeitos, é mais falsa do que ele. E essa franqueza tem seu valor. Você, quando falar de todos os defeitos dele, lembre-se de dizer também que é muito franco.”
E nisso ela manifestava seu senso de justiça. Nunca tomava uma atitude apaixonada, por onde se pudesse dizer que ela foi injusta com outrem. Absolutamente não. Sempre justa, justa, justa.
E a bondade vinha como acréscimo. Quer dizer, ainda que uma pessoa não prestasse para nada, fosse muito à toa, mamãe rezava por ela, suportava-a, enfim, fazia o bem que coubesse. Esse é o papel da misericórdia.
 Plinio Correa de Oliveira - Extraído de conferência de 4/2/1981
1) Expressão onomatopeica criada por Dr. Plinio para designar o defeito de certas pessoas que, desprovidas de intuição, minoram a importância dos símbolos e negam o valor da ação de presença. Querem tudo explicar por raciocínios desenvolvidos de modo lento e pesado, à maneira de um paralelepípedo que, ao ser girado sobre o solo, emite o ruído “ploc-ploc”.

2) Sherlock Holmes: Detetive fictício, famoso por seu astuto raciocínio lógico, sua capacidade de assumir qualquer disfarce, e seu uso da ciência forense com habilidades para resolver casos difíceis.

terça-feira, 8 de abril de 2014

A visita de um “jornalista”

Continuação do post anterior
Se fosse obrigado a sair do País, Dr. Plinio pensava em levar depois sua mãe para junto de si. Era necessário, portanto, providenciar a emissão do passaporte dela. Pediu então a um de seus jovens amigos que fosse à sua casa e a fotografasse para esse fim.
Foi assim que, certo dia, bateu à porta do “1º Andar” uma pessoa dizendo-se mandada por Dr. Plinio para tirar algumas fotografias dela. Na atmosfera pesada que reinava no Brasil, logo desconfiou Dª Lucilia tratar-se de um repórter. Tal impressão se acentuou ainda mais quando o visitante, enquanto tirava as fotografias, certamente para ser agradável, começou a lhe fazer perguntas sobre sua vida e sua família.
Quando mais tarde Dr. Plinio chegou a casa, ela assim lhe contou o ocorrido:
— Filhão, na sua ausência esteve aqui um repórter. Queria me fazer também uma entrevista por ser eu uma velha dama paulista de 400 anos. Então me pediu que lhe contasse minhas recordações de São Paulo antiga. Mas eu disse que sem o consentimento do meu filho, Dr. Plinio Corrêa de Oliveira, eu não falaria com jornalista algum!
Dava especial sabor ao relato a frase “meu filho, Dr. Plinio Corrêa de Oliveira”, proferida por Dª Lucilia num tom de voz que procurava expressar todo o respeito devido a ele.
Diante dessa encantadora ingenuidade de Dª Lucilia, na qual transparecia uma vigilância que a extrema idade não fizera esmorecer, seu filho respondeu:
— Mamãe, a senhora fez muito bem!...  

(Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João Clá Dias)