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quinta-feira, 16 de junho de 2016

Temperamento de Dona Lucilia

A análise do temperamento de Dona Lucilia descrita por seu filho, Plinio Correa de Oliveira:
O que caracterizava o espírito dela era uma retidão extraordinária, que consistia em ver sempre todas as coisas inteiramente de frente. Por mais dolorosas ou promissoras que fossem, ser inteiramente objetiva, vendo o sofrimento com toda a sequela de amarguras que ele pudesse trazer. Vendo também a alegria, sem exagerar as vantagens que trazia, e compreendendo bem como nesta terra tudo é aleatório e como, portanto, tudo de repente pode degringolar. De onde uma posição muito calma, muito estável em face da vida. Ela não tinha nem grandes torcidas, nem grandes ansiedades, nem grandes depressões, não sendo nem um pouco uma pessoa apática.
A minha mãe era o contrário do meu temperamento fleumático. Para usar uma expressão implicante de hoje, ela vivia profundamente todos os acontecimentos, mas com uma certa distância. Havia entra ela e os fatos uma camada que os ruídos destes não conseguiam transpor. E ela, para aquém dos fatos, conservava a calma, a distância psíquica, a estabilidade e a continuidade.
De maneira que ela era sacral, recolhida, tranquila, forte e meiga em todas as circunstâncias da vida. Por mais que estas mudassem, ela estava sempre na mesma posição.
Mas, por detrás desta atitude tão calma, havia um profundo senso do dever. Ela não entendia que a finalidade da vida fosse conquistar honras, prazeres, glórias, dinheiro para gozar o mais possível e depois morrer.
Para ela, a vida consistia num certo dever a cumprir e numa certa forma de alma a adquirir.
Ela considerava que a felicidade está em se ter uma alma elevada, piedosa e tranquila, e em gozar os prazeres simples, despretensiosos e normais da existência. A felicidade não está, portanto, nas grandes festas, nas grandes viagens e nas grandes fortunas, mas na boa ordenação da vida quotidiana, no bom aproveitamento dos lazeres comuns e em conferir um significado espiritual e moral ao gozo do que se tem. É uma felicidade, sobretudo, de alma, uma felicidade de situação temperante, tranquila, modesta, que se sente até no infortúnio, porque, desde que não tenhamos culpa pela derrocada, conserva-se o essencial: a consciência limpa diante de Deus e uma elevação de alma que torna a vida digna de ser vivida.
Ela possuía uma serenidade que a colocava acima de todas as vicissitudes e fazia dela uma pessoa constantemente igual a si mesma, mesmo quando os caminhos da vida se fechavam, às vezes de modo assustador.
E sempre com esta temperança, esta normalidade que era a perfeita proporção entre o acontecimento externo e a repercussão interna nela. De maneira que ela vibrava em face das coisas na proporção e na medida equilibrada, com uma ordem de valores em que o religioso estava acima de tudo. Abaixo do religioso vinha o metafísico, depois o moral, e em seguida os interesses contingentes da vida tratados com o devido cuidado.
Toda esta retidão ela possuía porque intuía que assim as coisas deveriam ser, e compreendia — com uma clareza cheia de verdades implícitas — estar conforme a Religião.
É preciso ver em Dona Lucilia, sobretudo, aquela elevação de alma por onde, com toda temperança, desde pequenina, ela soube ir cada vez mais colocando a Religião acima de tudo, os valores espirituais acima dos materiais, e a vida terrena como uma coisa que deve ser vivida, sobretudo, para um dever, fruindo das pequenas vantagens da vida apenas o necessário para o cumprimento do dever.
É a impostação sacral da alma que a preparou para contemplar a Deus face a face. Creio que por aí podemos entendê-la bem e nos unir a ela.

Plinio Correa de Oliveira –Extraído de conferência de 24/6/1973

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Planos para um adeus menos dolorido

Abril de 1950.
Interesses da causa católica obrigaram Dr. Plinio a marcar uma viagem à Europa poucos dias antes do aniversário de Dona Lucilia. O intenso e elevado afeto — todo ele fundado em razões sobrenaturais — devotado por Dr. Plinio à sua mãe levou-o a arquitetar uma pia fraus1 para diminuir, tanto quanto possível, a dor e a preocupação causadas por sua ausência.
Combinou com seu pai, Dr. João Paulo, sua irmã, Dona Rosée, e com parentes mais próximos de dizer a Dona Lucilia que ele iria ao Rio de Janeiro. De fato, dali partiam os aviões para a Europa.
Quando desembarcasse na Espanha — primeira etapa da viagem — enviaria a Dona Zili, sua tia, um telegrama confirmando a chegada. Esta poderia então visitar Dona Lucilia para lhe revelar toda a verdade. Ao mesmo tempo, Dr. João Paulo entregar-lhe-ia, acompanhada de uma cesta de flores, a primeira de duas cartas que Dr. Plinio já deixaria redigidas.
Horas mais tarde, a campainha do apartamento soaria. Outro arranjo floral encomendado por Dr. Plinio representaria nova manifestação de filial carinho.
Em 22 de abril, dia do aniversário de Dona Lucilia, a segunda carta de felicitações, em poder de Dr. João Paulo, ser-lhe-ia entregue, juntamente com um bouquet de flores. Pequenas atenções, transbordantes de afeto, que a consolariam um pouco pela ausência do “filhão”. Depois de executado meticulosamente o carinhoso plano, Dona Lucilia manifestou a Dr. Plinio sua gratidão e benquerenDr. Plinio desembarca no ça em duas comovedoras cartas:
Filho querido de meu coração!
Acabo de receber tua carta e telegramma. Louvado seja Deus, chegaste são e salvo.
Não era em vão que eu dizia a teu pai, “meu coração procura o de Plinio e não o acha no Rio, e sim pelos ares”! Emfim, alegro-me de tudo o que Deus e a Virgem Santissima fazem por ti, que és o melhor dos filhos, e que abençôo de todo o meu coração, de todas as forças de minh’alma.
Muitos abraços, beijos e saudades, de tua velha “manguinha”.
                                                          ***
Plinio querido!
Com tanta cousa para escrever-te, e que me sahia aos borbotões, ia me escapando de dizer-te, o que me afligeria muito, o quanto apreciei a delicadeza de tua mentira generosa, que não enguli totalmente, pois, desconfiada e aflicta, repetia sempre, — qual, vocês não me enganam, meu filho está já em viagem,... meu coração não encontra o seu no Rio, e sim voando, nos ares! — Teu pai, e todos enfim, procuravam iludir-me a ponto de socegar-me e pôr-me de novo a esperar-te, mas só por umas horas. — Como tudo o que fazes, foi muito bom assim, e tudo bem feito, e reconhecida agradeço-te.
Vê se tens bem cuidado com tua saúde. Nada de imprudencias, e, recomendação para todos. (...)
Mais muitos beijos, bençans e abraços de tua mãe extremósa.
Lucilia
Quando vão a Fatima? Reze por nós, especialmente por tua afilhada e sobrinha.
Extraído da obra “Dona Lucilia”2
1) Fraude piedosa, isto é, feita com boa intenção.

2) Cf. CLÁ DIAS, João S. Dona Lucilia. São Paulo: Artpress, 1995. Vol. II, p. 224-227.

domingo, 13 de julho de 2014

“Coitada dessa moça...”

Observar os entretenimentos de Dª Lucilia, logo após o jantar, constituía um edificante passatempo para quem estivesse na residência dela.
Depois de retirada a mesa e acesas todas as lâmpadas do lustre, a empregada escolhia alguma revista da atualidade e a folheava diante de Dª Lucilia, chamando a atenção desta para certas peculiaridades que lhe escapavam às vistas já cansadas e um tanto prejudicadas pela catarata.
Certa noite, foi um verdadeiro encanto poder contemplar a profunda honestidade de alma de Dª Lucilia vendo-a folhear uma reportagem fotográfica da revista francesa Paris-Match sobre o “hippismo da flor”, ponta-de-lança da modernidade naqueles dias. Ao deparar com a reprodução, de página inteira, de uma jovem com uma margarida pintada em cada face, e outra na testa, não resistiu e exclamou:
— Ih! Mirene! Coitada dessa moça! Veja o que pintaram no rosto dela!
— Mas Dª Lucilia! Isso hoje em dia é moda!
— Moda?!
— Sim! Várias moças se pintam assim.
— Qual! Virando a página, apareceu uma jovem de mini-saia. Dª Lucilia se surpreendeu:
— Iiih! coitada dessa moça, tiraram uma fotografia dela quando ainda não estava inteiramente vestida! Deviam tê-la avisado!
Que comovedora a pureza de uma alma cândida!
A empregada disse:
— Não, ela está vestida. Hoje em dia é normal sair à rua assim.
— Mas, como?! Saiu à rua assim?
— Sim, Dª Lucilia, foi fotografada na rua.
Por suas reações, percebia-se perfeitamente que ela, devido a uma robusta e firme retidão de alma, rejeitava radicalmente aqueles desordenados costumes. E compreendia bem até que extremos de pecado pode chegar a natureza humana quando, sem freios, se entrega aos desmandos das paixões.
(Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João S. Clá Dias)


domingo, 11 de maio de 2014

Zelo pela conversão de um cunhado

Com certa frequência, eram convidados a almoçar ou jantar em casa de Dª Lucilia alguns dos mais antigos companheiros de ação e de luta de Dr. Plinio, aos quais ela concedia maior intimidade.
Durante a refeição, a conversa atingia freqüentemente elevados temas religiosos, políticos e outros. Dona Lucilia se mantinha em atitude de discreta atenção, a tal ponto que um amigo particularmente íntimo de Dr. Plinio lhe dizia por vezes num tom de voz imperceptível para ela:
— Preste atenção. Repare como ela está te olhando...
Dr. Plinio, sem deixar de conversar, observava discretamente Dª Lucilia, comprovando como ela sorvia enlevada cada uma de suas palavras.
Noutras ocasiões, em que estava presente algum eclesiástico, e a conversa enveredava por temas doutrinários ou teológicos, Dª Lucilia interrompia amavelmente e perguntava:
— Por que não contam isso para meu cunhado?

Dona Lucilia estimava muito esse parente, e acreditava que despertar o interesse dele para tais assuntos lhe faria bem à alma. Por seu turno, ele também gostava de visitá-la e de manter com ela longas prosas, atraído precisamente por certos reflexos de alma que nela notava e que nunca deixou de admirar. Conforme comentou em certa ocasião, impressionavam-no sobretudo a atitude dela perante o sofrimento, e a distância que ela sempre soube manter em relação aos dissabores da vida, sem deixar que seus nervos fossem abalados por eles.

domingo, 4 de maio de 2014

“Como ela é boazinha”

A saúde de Dª Lucilia, com o correr do tempo, ia cada vez mais inspirando preocupações. Tendo sofrido, em determinado momento, um agravamento súbito, foi necessário tirar uma radiografia. Por estar ela já com as forças debilitadas, seu filho contratou um técnico que realizasse esse exame no próprio apartamento.
Dr. Plinio ficou à espera dele, a fim de conduzi-lo ao quarto materno. Quando ele chegou, carregando todos os apetrechos radiológicos, entraram ambos no aposento. Era um homem de meia-idade, avantajada compleição, moreno, pele escurecida pelo sol, habituado a trabalhos pesados, e com uma certa insensibilidade às dores alheias. Este último aspecto não é de estranhar, pois sua profissão o punha em constante contato com as mais variadas formas de sofrimento humano causado pela enfermidade ou até pela iminência da morte.
Sem sequer olhar Dª Lucilia, o técnico a saudou com um banal “boa-noite”, e começou a preparar os aparelhos para efetuar “mais um serviço”, quiçá o último daquele dia. Porém, tais eram a ternura e o carinho com que Dr. Plinio tratava sua mãe, que o homem talvez se tenha surpreendido. Parou, então, de lidar com seus instrumentos, e quis ver quem era objeto de tanto afeto. Olhou detidamente para Dª Lucilia. Visivelmente comoveram-se as fibras mais sensíveis de sua alma. Aproximou-se da cama e, num gesto de carinho, passou seu enorme dedo por debaixo do queixo dela, dizendo ao mesmo tempo, enlevado:
— Como ela é boazinha!
Era a afetividade brasileira que falava no fundo da alma daquele robusto homem... Dona Lucilia permaneceu em silêncio, sem se mover, como se nada tivesse notado, apesar de tão inopinado gesto constituir involuntária falta de respeito para com a veneranda enferma.

Seu filho, percebendo como a benquerença de Dª Lucilia tocara aquele coração, por sua vez nada disse. Apenas guardou do fato terna e saudosa recordação. 

terça-feira, 8 de abril de 2014

A visita de um “jornalista”

Continuação do post anterior
Se fosse obrigado a sair do País, Dr. Plinio pensava em levar depois sua mãe para junto de si. Era necessário, portanto, providenciar a emissão do passaporte dela. Pediu então a um de seus jovens amigos que fosse à sua casa e a fotografasse para esse fim.
Foi assim que, certo dia, bateu à porta do “1º Andar” uma pessoa dizendo-se mandada por Dr. Plinio para tirar algumas fotografias dela. Na atmosfera pesada que reinava no Brasil, logo desconfiou Dª Lucilia tratar-se de um repórter. Tal impressão se acentuou ainda mais quando o visitante, enquanto tirava as fotografias, certamente para ser agradável, começou a lhe fazer perguntas sobre sua vida e sua família.
Quando mais tarde Dr. Plinio chegou a casa, ela assim lhe contou o ocorrido:
— Filhão, na sua ausência esteve aqui um repórter. Queria me fazer também uma entrevista por ser eu uma velha dama paulista de 400 anos. Então me pediu que lhe contasse minhas recordações de São Paulo antiga. Mas eu disse que sem o consentimento do meu filho, Dr. Plinio Corrêa de Oliveira, eu não falaria com jornalista algum!
Dava especial sabor ao relato a frase “meu filho, Dr. Plinio Corrêa de Oliveira”, proferida por Dª Lucilia num tom de voz que procurava expressar todo o respeito devido a ele.
Diante dessa encantadora ingenuidade de Dª Lucilia, na qual transparecia uma vigilância que a extrema idade não fizera esmorecer, seu filho respondeu:
— Mamãe, a senhora fez muito bem!...  

(Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João Clá Dias)

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Um período conturbado e cheio de incertezas

A esperança de um longo e ininterrupto convívio com seu filho não esmorecia na alma de Dª Lucilia, porém, quanto mais ela o desejava, mais essa possibilidade parecia ficar distante.
Apenas chegado ao Brasil, Dr. Plinio retornaria às suas intensas atividades em prol da causa católica no País, então atravessando um conturbado período de sua história, cheio de incertezas nos âmbitos social e político. À medida que a situação se agravava, Dr. Plinio se via obrigado a tomar algumas precauções. Fazia o possível para escondê-las aos olhos de Dª Lucilia, a fim de não perturbar, com perspectivas assustadoras, sua respeitável ancianidade. No entanto, não havia como ocultar algumas delas. Que fazer nessa situação?
Optou ele pelo mal menor, e fez o que julgava necessário, sem explicar as razões a sua mãe. Eram novas provações permitidas pela Providência, que Dª Lucilia aceitava com a resignação e a mansidão costumeiras.
“Ah! a minha árvore!?”
No entardecer de sua vida, Dª Lucilia gostava de rezar e refletir, sentada na antiga cadeira de balanço de Dª Gabriela. Ali, serenamente acomodada, costumava passar horas e horas, entremeando suas longas orações com a contemplação de um rendilhado de luz e sombras, movediço e suave, que se projetava nas paredes internas do escritório de seu apartamento. Com efeito, na calçada da Rua Alagoas erguia-se frondosa árvore cujas ramagens tocavam a janela do aposento, oferecendo sobretudo à noite, devido à iluminação pública, esse singelo espetáculo.
Entretanto, essa árvore, tão estimada por Dª Lucilia, tornava o apartamento de Dr. Plinio alvo fácil para possíveis atentados. Obter da Prefeitura Municipal a derrubada imediata dela figurava entre as várias medidas de segurança que ele resolveu tomar. E o fez sem dilação. Mas, para não aumentar a preocupação de sua mãe, não quis pô-la ao corrente do perigo a que ambos estavam expostos e nada lhe disse. Assim, qual não foi a perplexidade dela quando, certa noite, ao olhar para as paredes do escritório, viu projetar-se nestas a banal iluminação da rua, sem nenhuma daquelas belas sombras. Surpresa, exclamou: “Ah! a árvore, minha árvore, onde é que foi?!”
Porém, logo depois, pela reação das outras pessoas, percebeu que a ordem de cortar a árvore partira de seu filho, por alguma razão que ele não lhe pudera revelar. E nunca mais fez qualquer comentário sobre o fato.
Contudo, a gravidade da situação obrigaria Dr. Plinio a medidas mais drásticas.
O porta-jóias de “maroquin” vermelho
“Eu fui ocasião de uma provação não pequena para mamãe”, contou ele certa vez, a propósito de outro episódio ocorrido nessa época.
Em meio aos objetos herdados por Dª Lucilia, encontravam-se belas jóias, algumas das quais podemos observar em suas fotografias. Entre as que ela mais apreciava estavam um broche cravejado de brilhantes, uns brincos de turquesa, um colar de pérolas, bem como outros adornos que as senhoras daquele tempo usavam com alguma freqüência. Para guardá-las, havia ela comprado em Paris uma maleta de maroquin 1.
Estando a situação política do Brasil tão instável, Dr. Plinio começou a se preparar para a eventualidade de ter de abandonar rapidamente o País, a fim de garantir a sua própria liberdade de ação. Para tal circunstância precisava ter em mãos uma quantidade suficiente de dinheiro que lhe garantisse a subsistência no Exterior, por um período que poderia ser mais ou menos longo. Como a venda de algum de seus imóveis poderia levar muito tempo, viu-se na contingência de lançar mão das jóias de Dª Lucilia, preciosas não só pelo valor material, mas sobretudo porque a elas se prendiam inúmeras recordações. Resolveu sacrificá-las nessa situação extrema, certo de que sua mãe cedê-las-ia de bom grado, caso ele lhe pedisse.
Tal como ocorrera com o corte da árvore, Dr. Plinio nada disse à sua mãe, a fim de não a sobressaltar. Seria para ela uma grande aflição saber dos perigos que corriam. Assim, um dia Dr. Plinio entregou a maleta de maroquin com as jóias a Dª Rosée, para que esta as vendesse.
Algum tempo depois, Dª Lucilia deu pela falta da pequena mala, mas, percebendo haver sido Dr. Plinio que a retirara, não o interrogou sobre esse assunto, nem fez qualquer referência ao fato, de tal modo confiava nele. No fundo do olhar de Dª Lucilia, seu filho notava a pergunta: “Por que o Plinio não me conta a razão de sua atitude? Se ele precisava das jóias, não bastava me pedir?”

Era um mistério para Dª Lucilia, que, por respeito para com seu filho, nunca quis desvendar. Serenamente, suportou essa provação até morrer, poucos anos depois.
Continua no próximo post

sexta-feira, 28 de março de 2014

Um sonho premonitório

Certo dia Dª Lucilia contou a Dr. Plinio um sonho que a deixara um tanto intrigada. Seria talvez mais uma expressão de seu incomum discernimento das pessoas e das situações atinentes a seu filho.
Nesse sonho, ela se via no “1º Andar”. Em determinado momento, alguém tocou a campainha da porta, e como não havia quem atendesse, foi ela mesma abrir. Para sua surpresa, estava ali seu falecido pai, Dr. Antônio, que vinha visitá-la.
Exultante de alegria, ela o acompanhou pelas diversas dependências do apartamento, explicando-lhe a origem dos móveis, quem havia feito a decoração, e um sem-número de outros detalhes. Dr. Antônio, com a mesma afeição que sempre devotara à filha, comentava tudo, dando sua aprovação. Por fim, chegaram ao fundo do corredor, onde estava localizado o quarto dela. Abriram a porta e, atônitos, depararam com um dos amigos de Dr. Plinio, deitado de través na cama, numa atitude vulgar e com um sorriso malévolo estampado no rosto.
Ante essa desagradável cena, Dr. Antônio censurou paternalmente a filha, dizendo:
— Em sua casa está tudo muito bem. Mas que você admita aqui tipinhos destes, eu não posso aprovar.
Nesse instante ela acordou. Ora, a mencionada pessoa daria grandes dissabores a Dr. Plinio, muitos anos após a morte de Dª Lucilia, o que na época em que se deu o sonho narrado ninguém poderia sequer suspeitar.
Esse discernimento que Dª Lucilia tinha do mal — animado em boa medida por seu grande afeto materno, mas sobretudo por sua retidão de alma — dificilmente era desmentido pela realidade, e nunca a abandonou até o fim de sua vida.

 (Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João Clá Dias)

sábado, 22 de março de 2014

Equilíbrio entre justiça e misericórdia

O admirável desapego que Dª Lucilia tinha de si própria lhe conferia o perfeito equilíbrio entre duas virtudes harmonicamente opostas, como eram seu senso de justiça e sua misericórdia. A idade não fez senão acrisolar essas virtudes. Por exemplo, sempre que em sua presença se apontava, por qualquer motivo, os defeitos de alguém, ela logo chamava a si a defesa da vítima. Não para proteger lados censuráveis, mas para impedir um juízo parcial sobre a pessoa em causa, pois devia-se considerar também os aspectos bons que realmente tivesse.
Dessa forma comentava ela a respeito de um conhecido, alvo das invectivas de espíritos menos conciliadores:
— É verdade... Mas, note que, por exemplo, ele é sempre franco. Muitos, que não possuem o defeito dele, entretanto são falsos. Esta franqueza tem seu valor. Ao se lhe apontarem os defeitos, é preciso recordar tal qualidade.
Virtude da vigilância
Quando Deus quer implantar uma obra, nunca falta com os meios, tanto sobrenaturais como naturais, para a sua realização. Assim, por exemplo, ao suscitar uma nova ordem religiosa. A fim de que ela se desenvolva e floresça, Deus favorece seu fundador com todos os dons e carismas necessários que lhe possibilitem cumprir integralmente a vocação à qual foi chamado. O mesmo se dá com a condição materna, magnífico símbolo da Providência de Deus. Não raras vezes costumam ser as mães assistidas pelo Espírito Santo com um certo discernimento dos espíritos, não só com vistas a educar os filhos, mas também a guiá-los pelo caminho do bem ao longo da vida.
Esse dom — que em Dª Lucilia se manifestou repetidamente sob a forma de alertas a seu filho para os perigos desta ou daquela situação — foi de novo posto em realce por um pequeno episódio. Estando ela a conversar em sua casa com alguns parentes e conhecidos, fez-se referência à então recente nomeação de certo personagem para um cargo de importância. Teceram-se alguns comentários sobre o caráter dele e, como Dª Lucilia ainda não o conhecia, mostraram-lhe uma fotografia publicada naqueles dias pela imprensa. Tinha ele relação com as atividades desenvolvidas por Dr. Plinio, e por isso ela se interessou mais especialmente pelo assunto. Tomou o jornal nas mãos, observou em silêncio por alguns instantes aquela fisionomia, e comentou com tristeza:
— Ele não é boa pessoa, não...
Essas palavras, naqueles lábios repletos de benquerença, surpreenderam os presentes, mas, como das vezes anteriores, em breve os fatos viriam a lhe dar razão.

Continua no próximo post

domingo, 16 de março de 2014

“Que belo olhar”

Foi ainda na tranquilidade de sua alma que Dª Lucilia enfrentou a crescente dificuldade de visão. Quando o incômodo aumentou, seu filho a levou a um bom oculista. Tendo-a examinado, o médico disse baixinho a Dr. Plinio:
— Ela está com catarata muito adiantada nos dois olhos — dando a entender que poderia operá-la.
Após rápida e judiciosa reflexão, Dr. Plinio optou por não submeter sua mãe àquela cirurgia, que poderia impressioná-la muito e infligir-lhe um sofrimento desnecessário, estando ela já tão idosa. Algum tempo depois, cessou o progresso da enfermidade, permitindo a Dª Lucilia conservar, até o fim de seus dias, suficiente clareza de visão para levar uma vida normal, em meio às condições de sua veneranda idade. Esses consoladores auxílios da Providência muito contribuíram para atenuar aquela sombra de tristeza, o que bem podemos notar em fotografias posteriores.
Curiosa foi a reação de um oculista, em outra consulta, ao assestar os aparelhos a fim de examinar os olhos de Dª Lucilia. O médico, que além de exímio profissional tinha alma de artista, antes de proceder ao exame não conteve uma exclamação:
— Que belo olhar!
Foi para ele inesquecível o privilégio de contemplar aqueles olhos castanho-escuros. De fato, nestes se encontravam serenidade, afeto, veracidade, em síntese, uma garantia de proteção própria a tocar profundamente as almas que sabiam admirá-los.

(Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João S. Clá Dias)