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quinta-feira, 13 de março de 2014

Surpresa para Dª Lucilia

As perspectivas de um completo isolamento
Uma das maiores provações de Dª Lucilia, nessa avançada etapa de sua vida, foi o súbito agravamento de suas condições auditivas, ao mesmo tempo em que um aumento de catarata lhe diminuía um tanto a visão.
A perspectiva futura era confrangedora, pois, a progredirem mais essas deficiências, Dª Lucilia perderia quase inteiramente a possibilidade de se comunicar com o mundo exterior. Portanto, de ter com seu filho aquele elevado convívio tão alentador para ela. Constituía-lhe igualmente não pequeno sofrimento, dado seu modo de ser tão afeito a se interessar por seus semelhantes, o não poder lhes prodigalizar caridoso auxílio.
Diante dessa dolorosa possibilidade, ela não perdeu a serenidade nem a resignação. Sem embargo disso, transparecia em sua fisionomia uma tristeza mais acentuada, que bem se pode notar numa fotografia tirada por ocasião de um de seus últimos aniversários.
Se o Sagrado Coração de Jesus, nos seus insondáveis desígnios, permitia esse sofrimento para quem tão fielmente O adorava, concedia-lhe, de outro lado, em compensação, seu misericordioso amparo.
Assim, pouco tempo depois de se agravar a dificuldade de audição de Dª Lucilia, Dr. Plinio, ao ler um jornal, viu o anúncio de um aparelho que poderia suprir essa deficiência. E, como bom filho, não hesitou um instante em adquiri-lo, embora fosse elevado seu custo. Acertou com o vendedor uma ida deste ao “1º Andar” — numa hora que coincidisse com o término do almoço — a fim de proporcionar uma surpresa a Dª Lucilia. De fato o homem apareceu no momento combinado. Feito o teste, Dr. Plinio notou logo pela fisionomia dela a real eficácia do tal aparelho.

Ainda hoje é motivo de consolação para Dr. Plinio lembrar-se do contentamento de sua mãe, quando ela percebeu que poderia conversar normalmente. E, sobretudo, tornar a ouvir com nitidez o timbre da voz de seu querido “Pimbinchen”...

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Invariável paz de espírito

Em seus últimos anos de vida, Dª Lucilia faria brilhar, ainda mais, sua afabilidade e seu modo de ser respeitoso, em contraste com a vulgaridade crescente do mundo moderno. Embora sua existência tenha transcorrido em grande parte no século XX, era ela uma característica senhora do século XIX, tendo-o, por assim dizer, prolongado em torno de si, até o fim de seus dias. Tão séria e grave quanto afável, praticava uma delicadeza em nada parecida com a amabilidade comercial contemporânea. Muito pelo contrário, tinha perfeita noção de sua própria posição e tratava cada qual segundo o modo de gentileza que a este correspondia.
Por outro lado, era ela digna de veneração por uma certa grandeza, estável, segura e invulnerável às mudanças dos tempos, própria a realçar o caráter augusto de sua alma, que transparecia de modo especial nas circunstâncias mais difíceis.
Resignação ante a morte
Em meados de 1961, Dª Lucilia viu os deveres de apostolado levarem seu filho para um pouco mais longe... O incansável batalhador católico já não era solicitado apenas por seus discípulos de diversas cidades de nosso País, mas também de outras nações, posto que sua obra se irradiava pelos cinco continentes. Dessa feita, fora ele convidado a assistir a um congresso da revista Verbo, em Buenos Aires.
Para encerrar a promissora estadia na capital portenha, Dr. Plinio foi jantar com seus amigos mais próximos — argentinos e brasileiros — num restaurante francês, onde celebraram, em ameno convívio, os resultados obtidos. Mal podia ele, entretido nessa desanuviada comemoração, suspeitar que, em São Paulo, Dª Lucilia acabava de sofrer um súbito ataque cardíaco e estava às portas da morte.
De volta ao hotel, após o jantar, Dr. Plinio recebeu do recepcionista um telegrama. Abriu-o imediatamente. O horizonte que até há pouco lhe descortinava alvissareiras promessas ficou repentinamente toldado, pois tratava-se de uma mensagem, enviada por Dª Rosée, com esta terrível notícia: “Mamãe mal à morte, ataque de coração violentíssimo! Telefones interrompidos. Venha logo para alcançá-la ainda com vida.”
Bem podemos conceber a aflição que estas curtas frases causaram a tão dedicado filho. Seu desejo, naquele instante, foi o de vencer, de um só passo, a longa distância que o separava de sua mãe queridíssima, que talvez já estivesse transpondo os umbrais da eternidade. As tentativas de obter uma ligação telefônica para São Paulo revelaram-se infrutíferas, dificuldade que aumentou o sofrimento dele.
Permaneceu então, durante toda aquela noite, que passaria insone, no salão do City Hotel, onde estava hospedado. Aguardaria assim os primeiros lampejos da aurora rezando e — por que não dizê-lo? — chorando copiosamente, até o momento em que o clarear do dia lhe indicasse ter chegado a hora de ir para o aeroporto. Tendo se dirigido para lá, foi informado de que só haveria vôo de Buenos Aires a São Paulo muito mais tarde. Não querendo esperar mais, resolveu alugar um pequeno avião particular que partiu às 5h, levando-o até Porto Alegre, de onde embarcou em avião de carreira, ato contínuo, para a capital paulista.
Enquanto cruzava os ares, Dr. Plinio sentia tremenda opressão de alma e ia preparando o espírito para o momento em que, ao desembarcar, reencontrasse seus amigos. Pela atitude destes perceberia, num relance de olhos, qual o estado de sua mãe.
Assim, ao descer do avião, procurando avistar algum rosto conhecido entre as pessoas que aguardavam os passageiros, distinguiu um de seus mais antigos companheiros de luta, que logo lhe fez um grande aceno tranqüilizador.
Após os cumprimentos de boas-vindas, a primeira pergunta de Dr. Plinio foi obviamente sobre o estado de saúde de Dª Lucilia, recebendo do amigo esta consoladora resposta:
— Graças a Deus, ela está fora de perigo. Teve um fortíssimo ataque do coração, mas recuperou-se bem e já está sentada na cama, conversando normalmente. Os próprios médicos que a atenderam estão pasmos com a reação dela. Entretanto, é bom o senhor estar prevenido para uma estranha coincidência: na hora em que chegar à sua casa, estará partindo de uma residência vizinha um enterro. Portanto, não se assuste. Estávamos muito preocupados, pois o senhor poderia pensar que se tratasse do enterro de Dª Lucilia...
Transpondo afinal as portas do “1º Andar”, o último obstáculo que o separava de sua estremecida mãe, Dr. Plinio encontrou-a reclinada no leito, conversando calmamente com Dª Rosée e Dª Maria Alice. Aquela venerável fisionomia de anciã, emoldurada por cabelos prateados, externava tanta paz de alma, que absolutamente não se diria haver estado, poucas horas antes, a um passo da morte.
Logo após os primeiros cumprimentos, ela lhe perguntou como estava de saúde.
— Minha saúde está ótima! Mas o que eu quero saber é como está a da senhora!
Mesmo sentindo muito a falta de seu “filhão querido”, cuja presença naquele angustioso transe lhe seria de grande consolo, suportou mais essa provação com extrema serenidade.
A chegada de Dr. Plinio representou para ela novo alento. Embora ele não pudesse depositar em sua fronte o costumeiro ósculo, por estar fortemente resfriado, suas manifestações de carinho e afeto reconfortaram-na e incutiram ânimo naquele coração que por seu filho tanto pulsava!
Rápida foi a melhora de Dª Lucilia. Já no dia seguinte, seu médico, o Dr. Brickman, deu-lhe licença para se levantar e andar pela casa. Cerca de dez dias depois retornou ele para um controle de rotina. Tendo-a examinado com o estetoscópio, voltou-se surpreso para Dr. Plinio e exclamou:
— Mas, não é possível!
E como que não acreditando em seus próprios ouvidos, auscultou-a de novo, cuidadosamente, e disse:
— Olhe, o coração dela está tão bom que eu diria ser o de outra pessoa...

A pronta recuperação de Dª Lucilia era o resultado de sua serena e católica resignação diante da morte. Ao longo de sua extensa caminhada por esta terra de exílio, foi se preparando, calma e resolutamente, com inteira confiança no Sagrado Coração de Jesus e no Imaculado Coração de Maria, para transpor os umbrais da eternidade. Vendo-se na iminência de comparecer perante o tribunal divino, conservou a paz que nunca a abandonou. Será talvez essa qualidade de alma uma das causas de sua longevidade. Viveria ela tranqüilamente, sem maiores preocupações de saúde, mais sete anos.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Os nobres deveres da viuvez

A partir de 27 de janeiro de 1961, o trato feito por Dª Lucilia com o esposo, de rezar uma Ave-Maria diante do pôr-do-sol, entraria em vigor. Alguns dias após um derrame cerebral, Dr. João Paulo, então com 87 anos de idade, rendeu sua alma a Deus.
Embora Dª Lucilia estivesse de há muito com seu espírito preparado para a eventualidade da morte do esposo, a rapidez do desfecho a abalou. Mas era tal a sua paz de espírito, e tão grande sua confiança na Providência que, sem deixar de demonstrar natural tristeza e dor, não perdeu a serenidade em nenhum momento, guardando um aplomb admirável. Aplomb, isto é, o estar de pé com aprumo, seguindo o excelso exemplo de Nossa Senhora aos pés da Cruz, era sua constante atitude diante da dor.
Uma vez falecido seu esposo, Dª Lucilia mudou alguns hábitos de acordo com sua nova situação. Guardou luto até o fim de seus dias, inclusive deixando de usar jóias. De início, Dr. Plinio achou tudo isso natural, mas, depois de certo tempo, perguntou-lhe:
— Mãezinha, a senhora deixou de usar seu colar de pérolas?
— Sim, meu filho, agora não usarei mais. Uma senhora só se adorna para seu esposo.
De fato nunca mais usou o colar, tão de seu gosto, por onde se vê com que despretensão e desapego, ao longo de toda sua vida, utilizara suas belas jóias.
Em agosto de 1961, tendo sido mudada a sede do grupo que ele dirigia para uma bela mansão situada na rua Pará, também no bairro de Higienópolis, Dr. Plinio convidou sua mãe a ir visitá-la, certo de que ela ficaria agradada e se distrairia um pouco. A resposta dela não deixou de surpreendê-lo, pela seriedade demonstrada no cumprimento dos deveres para com o falecido esposo.
— Eu vou — respondeu com sua firme mansidão — mas depois de ter visitado, uma vez pelo menos, a sepultura de seu pai. Antes disso, não irei a lugar nenhum.

De fato, fiel a esse seu propósito, ela acabou por não conhecer aquela casa, já que não pôde ir ao jazigo de seu esposo. Então não se permitia a entrada de automóveis no Cemitério da Consolação, o que obrigaria Dª Lucilia a percorrer considerável distância a pé, tornando impossível a realização de seu desejo.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Alegrias e tristezas

A par das não pequenas cruzes que Dª Lucilia pacientemente carregava, duas grandes alegrias a acompanharam até o fim de seus dias.
A primeira delas provinha da Fé, que lhe dava a segurança de estar no bom caminho — o da Igreja Católica Apostólica Romana — e ao mesmo tempo a esperança inquebrantável da salvação eterna. Essa confiança de, após as tristezas presentes, vir a alcançar o Céu, pelos infinitos méritos do Salvador, era a alegria fundamental que iluminava como um luar sua existência.
A segunda era a vida familiar, e no seio desta, de modo particular, o fato de ter um filho — um “filhão” — ao qual ela queria muitíssimo bem e que com indizível afeto lhe retribuía. Foi esta uma das causas mais patentes de sua longevidade, surpreendente, apesar da frágil saúde e dos sofrimentos que suportou durante toda a vida.
Tanto as grandes alegrias e tristezas quanto as menores, Dª Lucilia, seguindo o insuperável e sublime exemplo da Santíssima Virgem, conservava-as como preciosa lembrança, meditando-as em seu coração. Por sua seriedade de alma, considerava todo o alcance dos fatos, e ia passo a passo fazendo da vida um severo exame, pois para ela tudo tinha uma dimensão grandiosa. Com essa profundidade de espírito encarava ela o falecimento de seus familiares, como o de seu genro Antônio de Castro Magalhães, ocorrido após uma fria madrugada de inverno.
Na região onde se situava sua fazenda, no norte do Paraná, a baixa temperatura fazia prever uma forte geada que comprometeria toda a plantação. Antônio, diante de perspectiva tão ruinosa, passou a noite inteira a cavalo, orientando os empregados na insana tarefa de espalhar pelo cafezal certas bombas de fumaça, as quais, segundo os entendidos, preservariam do desastre a imensa cultura cafeeira. Com o amanhecer passou definitivamente o perigo de geada e Antônio recolheu-se à sua residência para descansar. Algumas horas mais tarde, aparentando inteira normalidade, dirigiu-se à casa do capataz para ordenar algumas providências. Mas o esforço daquela afanosa e gélida noite fora-lhe fatal: ao cruzar o limiar da porta, caiu fulminado por um ataque cardíaco. Era 6 de agosto de 1955.
A inesperada notícia provocou profunda consternação na família. Imediatamente Dr. Plinio viajou para Cornélio Procópio a fim de cuidar da transladação do cadáver.
Nessa ocasião, Dª Lucilia, apesar da tão avançada idade, manteve um perfeito domínio de si, procurando ao mesmo tempo consolar sua filha e sua neta com doces palavras de esperança, para o que ela, como ninguém, sabia encontrar os termos mais adequados. 

Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João S. Clá Dias

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Admirável equilíbrio de alma

As cogitações de Dª Lucilia atingiam o ápice nos momentos em que ela se dirigia ao Sagrado Coração de Jesus. No restante do dia ela mantinha os olhos postos em elevadas considerações, e precisamente por isso podia descer com facilidade aos pequenos assuntos domésticos, sem se deixar por eles absorver.
Vistos assim por Dª Lucilia, os fatos do acontecer quotidiano faziam da vida tranquila e miúda do lar uma espécie de despretensioso observatório do alto do qual se podiam ver as estrelas.
Sua atitude de alma nos traz à lembrança um singelo exemplo, que Nosso Senhor tornou sublime ao incluí-lo em suas belas e terríveis palavras sobre a infidelidade de Jerusalém: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados, quantas vezes eu quis juntar os teus filhos, como a galinha recolhe os seus pintainhos debaixo das asas, e tu não quiseste?” (Lc 13, 34-35).
Nosso Senhor, dando esse exemplo para exprobrar a infidelidade da Cidade Santa, teve entre outros intuitos o de mostrar que algo tão simples como a maternalidade de uma galinha em relação a seus pintainhos, deve servir aos homens de elemento para meditação sobre a grandeza do próprio Deus.
Elevação de alma nos episódios diários
Nas sendas do modelo divino, Dª Lucilia elevava a mente a altos pensamentos, impregnados de sobrenatural, a partir dos pequenos fatos do dia-a-dia. Exemplo disso era o encanto dela pelas manifestações de amor materno que sua empregada Olga tinha pela filha.
Olga servia dedicadamente Dª Lucilia havia já muitos anos. Trouxera consigo sua filha Carlota, em cuja educação se empenhava com todo o esmero. Na época em que a menina fazia seus estudos secundários, sua mãe matriculou-a num curso de datilografia, e era com grande alegria que seguia de perto, passo a passo, seus progressos.
Dona Lucilia observava comprazida o desvelo de Olga por Carlota. E, na primeira oportunidade, contava a Dr. Plinio alguns episódios que mais lhe haviam tocado o coração materno.
Um deles era o retorno diário de Carlota a casa, vinda do colégio. Dona Lucilia, pela porta da sala de jantar entreaberta, acompanhava discretamente o que se passava na copa, onde a doméstica trabalhava. À medida que a hora do regresso de Carlota se aproximava, Olga ia ficando inquieta, até mesmo um pouco agitada. Olhava repetidas vezes para o relógio de parede, parecendo querer apressar os ponteiros do mostrador, que ao ritmo do tic-tac prosseguiam seu lento caminhar, insensíveis à expectativa materna. Se ocorria algum atraso, ela passava para um estado de ligeiro nervosismo, indo até o terraço para ver se dali descortinava a menina na rua.
Quando finalmente Carlota despontava ao longe, as apreensões de Olga se desvaneciam como fumo. Ela corria alegremente até a entrada do prédio para esperar a chegada da filha; ambas se beijavam e se acariciavam efusivamente, como se Carlota estivesse voltando de uma longa viagem.
Depois a mãe recuava um pouco para melhor ver a filha e certificar-se de que ela estava perfeitamente bem. A menina, ao contentamento de ver a mãe, somava o comprazimento por se sentir objeto de tanta atenção. Quase sem dirigirem palavra uma à outra, iam para o quarto de Olga, no fundo do apartamento, onde esta ouvia o relato de como correra o dia, do que a filha aprendera de novo... Era a hora das confidências.
Dona Lucilia se encantava vendo tanto afeto e fazia o possível para que nada perturbasse esses momentos de convívio entre mãe e filha, chegando a atender, ela própria, ao telefone e à porta. Pouco depois, Olga voltava ao serviço e Carlota se entregava às suas obrigações escolares.
Dona Lucilia nunca tomava a iniciativa de interferir no modo de Olga conduzir a educação da filha, mas sempre que a empregada lhe pedia opinião sobre algum ponto, jamais recusava um bom conselho.

À noite, muitas vezes Dr. Plinio iniciava a “prosinha” perguntando como fora a chegada de Carlota. Se havia algum detalhe a assinalar, Dª Lucilia o contava. Um dia, por exemplo, Carlota comprou um gorro, de modelo certamente sugerido pela própria mãe. Dona Lucilia descreveu todo o encantamento de Olga ao ver chegar a filha tão contente com seu novo adorno. 

sábado, 25 de janeiro de 2014

Grande dama cristã

Ao lado de suas muitas e edificantes qualidades de alma, reluzia em Dª Lucilia uma firmeza irredutível na defesa dos princípios católicos. Com efeito, se alguém os ferisse de algum modo, ela se colocava numa posição mais ereta, parecendo até aumentar de estatura, e, sem perder a afabilidade, com tom de voz sempre calmo, logo atalhava:
— Não!... Isso não pode ser assim... — e punha os pingos nos “is”.
Dr. João Paulo
Dr. João Paulo, pernambucano dos mais genuínos, tinha um temperamento muito ameno. No dizer de Dr. Plinio, era o homem mais pacífico que conhecera. Seus longos anos de vida conjugal com DªLucilia transcorreram na mais perfeita harmonia. Quando presenciava uma atitude mais enérgica dela, dizia ao filho, a meia-voz, numa jocosa alusão a certo sangue herdado por ela de remotos antepassados:
— Ih!... Esta senhora espanhola!... No trato com a esposa, Dr. João Paulo era sempre muito atencioso. Tinha uma voz sonora, de timbre agradável, e seu riso saudável era ouvido à distância. O ambiente afrancesado à paulista que Dª Lucilia criava em torno de si, formava um conjunto harmônico com a nota pernambucana e portuguesa, contributo de seu esposo.
O vaso de cristal
Evidentemente, nos momentos de aflição de Dr. João Paulo, a bondade sem par de Dª Lucilia se voltava de modo especial para ele, com o desvelo de quem sabia penetrar no mais interno do sofrimento de uma pessoa e ali colocar uma gota de suavizante bálsamo.
Uma tarde, ao voltar do trabalho, Dr. Plinio encontrou seu pai sozinho no salão, com ar muito triste. Cumprimentou-o como sempre: — Boa tarde, papai, como vai o senhor? — Bem, obrigado — respondeu Dr. João Paulo melancolicamente. Seu filho, sem poder atinar com a razão de tal atitude, dirigiu-se ao quarto de Dª Lucilia, onde a encontrou recostada e rezando. Ao vê-lo entrar, ela lhe fez um sinal com o dedo para falar baixo e pediu que se sentasse perto dela. Em seguida lhe disse num tom compassivo: — Filhão... Você viu como o pobre de seu pai está aborrecido? Esbarrou, sem querer, no seu magnífico vaso de cristal da Boêmia1, que caiu no chão e se despedaçou.
— Meu bem, papai quebrou o vaso de cristal?! — perguntou Dr. Plinio entre surpreso e penalizado, pois apreciava muito aquele objeto.
— Sim, mas ele está sofrendo muito... Bastaria uma palavrinha sua para fazer cessar a aflição dele. Você faria isso por sua mãe?
Dr. Plinio, em qualquer circunstância, perdoaria de bom grado a seu pai, e um mero vaso de cristal, por melhor que fosse, era muito pouco para ser causa de tanto pesar. Diante da afetuosa súplica de Dª Lucilia, dirigiu-se imediatamente ao lugar onde estava Dr. João Paulo a fim de tranquilizá-lo e, sorrindo, disse-lhe que não se preocupasse, pois o acidente, aliás todo involuntário, não tinha importância. Suas palavras distenderam de imediato seu abatido pai, que recuperou o habitual bom humor.
Manifestações de afeto de Dª Lucilia, como esta, excediam de muito os limites do lar. Se até em relação a desconhecidos sua compaixão se fazia sentir tão viva quanto mais com os seus familiares, próximos ou até longínquos.
Visita inesperada
Certo dia estava Dª Lucilia à mesa, em meio a uma refeição, quando uma parente distante, a quem as provações da vida haviam desalentado a fundo, tocou a campainha do apartamento.
A empregada, tendo atendido à porta, veio pouco depois anunciar que estava ali Dª Fulana, querendo falar com Dª Lucilia. Esta, conhecendo as tribulações pelas quais passava aquela pessoa, interrompeu o almoço e foi solícita até o hall de entrada, acolhendo-a com grande afabilidade.
— Oh! Fulana, como vai? Entre por favor... Convidou-a a passar para a sala de jantar, ofereceu-lhe um lugar à mesa e colocou-a inteiramente à vontade. Era tal a confiança inspirada por Dª Lucilia que daí a pouco a visitante se animava a expor suas dificuldades e dores. Recebeu dela — como esperava — todo o consolo e estímulo para prosseguir, confiante na Providência Divina, pelas ásperas sendas da vida.

Mais uma vez, um conselho saído dos lábios de quem seguia a lei de misericórdia do Divino Mestre, constituiu poderoso auxílio a uma pessoa atribulada pelos reveses da vida. Este modo de proceder, no conjunto das virtudes de Dª Lucilia, era mais um ponto de resistência em relação aos desvios morais de seu tempo. Pois o mito do sucesso levava muitos de seus contemporâneos a afastar-se com menosprezo de quem era atingido pelo infortúnio, como se este fosse uma lepra cuja mera proximidade pudesse contagiar... 
1) Uma fina peça, presente de Dr. Plinio a sua avó, Dª Gabriela
Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João S. Clá Dias

domingo, 29 de dezembro de 2013

Afetuoso convívio epistolar II

Continuação do post anterior
O “sanguinho” dos Rodrigues Camargo e dos Ortiz
“De tanto pensar em Itaici, tenho a impressão de já conhecê-la”, escreveu Dª Lucilia certa vez a seu filho, quando este passava uns dias naquela localidade do interior paulista. O mesmo se poderia dizer a propósito de cada lugar percorrido por ele em suas viagens. Desse modo, quer durante as fervorosas e tranqüilas orações da manhã, quer durante as refeições, nas horas de contemplação, ao receber visitas, nos afazeres domésticos ou na hora da “prosinha” noturna, por assim dizer, ela “voou” com seu filho da Itália à Espanha, “passeou” pelas ruas de Barcelona e, quiçá, tenha “assistido” a uma tourada em Madri...
No dia 30 de julho, Dª Lucilia recebeu a seguinte missiva de Dr. Plinio:
Luzinha, meu amor querido.
Pouco antes de deixar — muito satisfeito — a Itália, recebi uma carta sua, queixando-se de que eu só lhe havia enviado uma carta. Respondi logo por outra carta, e também no telegrama ao Adolphinho, dizendo-lhe que tenho escrito várias vezes.
Hoje, dia de minha chegada a Madrid, é festa de S.Tiago, padroeiro da Espanha, dia Santo com feriado nacional. Nossa embaixada e nosso consulado estão fechados. Amanhã, conto ir pegar cartas lá, pois, não sem surpresa, este hotel não tinha correspondência para mim.
Em Barcelona, passei dias agradabilíssimos. A comida regional catalã é um sonho, e “Los Caracoles” um dos melhores restaurants do mundo. Papai, lá, estaria no seu elemento: lagostas, lagostins, camarões, mariscos, ostras, calamaretes, frutos do mar em quantidade, variedade e sabor incríveis.
Aqui, cheguei cedo, dormi antes do almoço, dormi depois do almoço, fui a uma tourada, e passeei por um parque lindo, o Retiro. Gostei da tourada, e muito. Lembrou-me analogicamente muita estrategia que tenho usado em minha vida, fazendo às vezes o papel de touro, outras de toureiro. Durante a tourada, até tive uma surpresa: quando dei acordo de mim, estava aplaudindo sinceramente um toureiro, que realmente havia logrado o touro de modo exímio. Poucas vezes em minha vida me tem acontecido de bater palmas espontaneamente e com calor. Uma das coisas de que gostei foi o estilo dos toureiros: roupas bonitas, varonilidade feita de força e de saúde sem dúvida, mas sobretudo de vida, agilidade, inteligência. Devo passar uns dias aqui, indo depois a Sevilha. Dessa cidade, volto a Madrid, rumo a San Sebastian e Lourdes. Depois Paris. E, em Paris, começará a se pôr a perspectiva da volta como bem próxima.
Espero amanhã ter notícias suas. Continue a mandá-las para o Ritz, até que eu dê outro endereço, e comunique isto a todos.
Bem, minha flor, meu coração, meu bem: com milhões e milhões de saudades suas, pede sua bênção, e envia-lhe os beijos mais afetuosos do mundo o seu filhão,
Plinio
Alegrando-se em constatar o reviver, em seu filho, do sangue de remotos antepassados hispânicos, e consolada por notar que ele se encontrava forte e saudável, Dª Lucilia resolveu responder naquele mesmo dia. Na carta, cada notícia ou comentário — seja uma palavra de carinho ou uma ponta de ironia, uma expressão de preocupação ou mesmo de temor — trazia a inequívoca nota de serenidade e de elevação do seu modo de ser.
São Paulo, 30-VII-1952.
Filho querido de meu coração!
Com imenso prazer, recebi hoje tua carta de Madrid, datada de...?, e penalizou-me tua decepção, não encontrando cartas minhas e de Rosée já endereçadas para aí.
Não imaginava que, no fundo, tivesses esse “penchant”¹ pelas touradas, é o “sanguinho” dos Rodriguez Camargo, e Ortiz, que ainda fala!
Peço-te mais uma vez, como o tenho feito em todas as cartas, que mandes dizer uma missa no Altar de Nossa Senhora da Begoña, e acender uma vela por intenção de tua irmã, que tem sido boníssima para mim.
Certamente, causa-me grande prazer a antecipação de tua volta para cá, mas, ao mesmo tempo, avaliando o pesar muito natural, aliás, com que o fazes, parece incrível, mas insensivelmente ponho-me a lastimar que não possas demorar-te... “um pouquinho” mais.
Quanto ao frio no Paraná, por enquanto, não tem trazido geada, e eu mais do que nunca tenho atormentado o bom São Judas Tadeu.
Nossa casa tão bonita e “cosy”², está suspirando por você. O meu “toureador” está fazendo falta!
Deves estar cansado de ler tantas.... niaiseries³, mas é um meio de iludir as saudades, escrevendo.
Reza em Lourdes por mim, que rezo, comungo, e faço promessas por ti, meu filho querido! Com minhas bênçãos, envio-te os mais afetuosos beijos e abraços. De tua mãe extremosa,
Lucilia
O bem é eminentemente difusivo, ensina São Tomás. Tal princípio é comprovado até nas menores atitudes de Dª Lucilia. Sempre ciosa de partilhar com os outros suas alegrias, convidou Dª Zili a redigir umas palavras, à guisa de post scriptum, para que também ela pudesse conviver um pouco com o sobrinho:
Meu querido Plinio.
Vim jantar com teus Pais. Como sempre, trabalhando muito. Hoje tive um grande prazer, pois na “Semana dos menores” o diretor do Educandário foi solicitado a fazer uma conferência e saiu-se admiravelmente. Foi um sucesso e uma vitória para a Liga4. Já deixamos a casa grande e estamos muito bem instalados na provisória.
Egoisticamente, estou contando o tempo que falta para a tua chegada. Beija-te e abraça-te a tua tia, Zili

(Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João S. Clá Dias)

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

“Quantas saudades, meu filho!”

Como vimos no post anterior, em meados de 1952 Dr. Plinio deixara uma vez mais a companhia de Dª Lucilia para fazer uma viagem à Europa, onde trataria de importantes assuntos da causa católica. Dez dias haviam se passado desde o último encontro, no momento da despedida, sem ela saber que o destino do “filhão” seria novamente as distantes terras européias. As saudades cresciam, amenizadas apenas pela correspondência que trocavam.
Assim, na manhã de 17 de junho, com grande alegria recebeu ela um cartão de Dr. Plinio, vindo de Madri. Aproveitando uma escala do avião na capital espanhola, ele não perdeu a oportunidade de enviar à sua mãe algumas palavras de carinho. Com seu transbordante afeto, Dª Lucilia não demorou em lhe responder por meio de uma extensa carta.
São Paulo, 18-6-952
Filho querido do meu coração!
Tivemos no dia quinze — “graças a Deus” — excelentes notícias tuas por Helena Alves de Lima, que telefonou para Rosée. Recebi ontem teu postal de Madrid.
Estou ansiosa por receber uma longa carta tua, e bem pormenorizada!....
É hoje dia de anos de tua tia Yayá. Ela fez saber aos Lindenbergs, que iria para Santos e veio almoçar em casa com o filho e Rosée, e pretende ir jantar com a filha. Está hoje fazendo tanto, tanto frio, que estamos temendo geada, do que, peço a Deus e a São Judas Tadeu, queiram livrar-nos! amém!...
Escreve-me sempre e contando-me tudo que te for possivel, para amenizar as saudades! Já te chegaram às mãos as cartas que escrevemos, Rosée, Zili, teu pai e eu? Quando sento-me para escrever-te, parece-me ouvir os nossos bonitos negrinhos¹ me perguntarem — quando volta Dr. Plinio? Rosée tem sido ótima; seguindo à risca tuas instruções, levou-me e a Maria Alice dar uma longa volta de automóvel, levou-me de automóvel até a Pça Patriarca para incorporar-me à procissão, e depois, mandou-me buscar. Fez-me ir ao concerto do Gulda, maior pianista da época, que apreciei muitíssimo, tem jantado algumas vezes, e quando possível vem duas vezes por dia, e trazendo sempre uma porção de cousas gostosas do Gerbaux². Quanto ao dormir cedo..... “piano, pianino”, vou entrando nos eixos.
Como vais de saúde? Se te fosse possível passar uns quinze dias em Monte Cattini, para substituir o famoso São Lourenço, te seria de muito proveito.
De volta de um chá que ela foi tomar em companhia de Maria Helena Ramos, Rosée passou por aqui um instante para ver-me outra vez, e mostrar-me sua linda toilette de inverno, e sua bela écharpe moderníssima de pele. Ela estava tão chic, tão elegante, que poderia rivalizar com qualquer parisiense, não importa qual!
Porque não levaste teu frack; está tão bonito, e não vai fazer-te falta? Preciso saber se te sentes bem, e se estás te sentindo satisfeito. Que passeios já fizeram? Recomendame a teus amigos.
Bem, meu querido, que o Divino Espírito Santo te guie e te inspire, e que o Sagrado Coração e a Virgem Santíssima e teu bom anjo da guarda te abençoem e te protejam! Com o coração cheio de saudades envio-te minhas bênçãos, muitos abraços e muitos beijos.
De tua velha manguinha,
Lú.
 “A Paris falta só uma coisa...”
Depois dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, dois eram os principais pontos de referência de Dª Lucilia: antes de tudo, seu “filhão” querido; e, no mundo da cultura, Paris. Assim, apesar do imenso desejo de tê-lo junto a si, consolava-se com o fato de o saber na “Cidade Luz”.
Envolta em cogitações que por essa razão lhe traziam um misto de tristeza e contentamento, abriu um envelope chegado naquele instante da capital do charme.
Paris, 12-6-1952
Manguinha querida do meu coração.
Com um milhão de beijos, e mil milhões de saudades (parece-me que desta vez tenho ainda mais saudades suas!), espero a todo o momento um minuto para lhe escrever, que só agora encontro.
Mande-me dizer COM URGÊNCIA como vai a senhora, se está com juízo em materia de orações e horários, se tem procurado distrair-se, se tem tomado água Prata, e... se se tem lembrado de mim! Quero um relato minucioso.
De minha parte vou muito bem, e achando Paris muito mais movimentada e convalescente do que da outra vez, em que estava mortiça e ainda sangrando da guerra. E quanto mais aqui estou, tanto mais vejo e sinto que este é o povorei, eleito e preferido de Deus.
A Paris falta só uma coisa: a Lú.
Com muitas saudades, pede-lhe a bênção, e beija-a com afeto imenso o filho respeitoso
Plinio.
Essa missiva — como outras que Dr. Plinio ia enviando ao longo de sua ausência — davam a Dª Lucilia quase o gosto de um encontro com seu filho querido. Já ao ler as palavras iniciais “Manguinha querida do meu coração”, parecia-lhe vê-lo sentado no sofá de jacarandá, pronto a iniciar com ela uma prosinha. Supérfluo dizer que esse convívio à distância se estabelecia não apenas por meio de cartas. De modo mais intenso e profundo, dava-se espiritualmente no Sagrado Coração de Jesus.
Embora Dª Lucilia prezasse tanto o estar junto de seu filho, seu desprendimento a fazia ter ainda maior empenho em que ele conseguisse atingir os objetivos da viagem.
S.Paulo, 24-6-1952
Filho querido do meu coração!
Com quanta alegria e saudades recebi tua carta... ou por outra, recebemos todos quatro, tuas cartas! só entregues no dia vinte e um!
Chegou hoje o teu postal para Yayá, que vai ficar muito satisfeita, quando lhe for entregue.
Dora vai passar um mês em Campos do Jordão e no dia sete, pouco mais ou menos, de Agosto, seguirá para aí.
Rosée tem vindo todos os dias, e tem mesmo com freqüência jantado aqui. Levou-me anteontem ao ballet do Marquês de Cuevas, que é, no gênero, tudo o que já tenho visto de mais bonito. Nas peças de Ignez de Castro, e do prisioneiro do Caucaso, lembrei-me demais de você. Antônio ainda não voltou da fazenda!... Os pobres fazendeiros passaram uns maus bocados, temendo a geada, pois o frio foi intenso, tendo em Santa Catarina a temperatura caído a dez abaixo de zero! Felizmente, graças a Deus, na Santa Alice³, tudo vai bem.
E você, querido meu, o que tem feito? Já se sabe.... sempre a trabalhar...e mais trabalhar... Mas pela minha fé, amor, orações e comunhões, tenho fé, os Sagrados Corações de Jesus e da Virgem Mãe Santíssima, e mais do Divino Espírito Santo, hás de ser muito, muito feliz, poderás de novo receber a bênção e proteção do Santo Papa, e voltarás feliz para os braços da mãe que tem o filho melhor e mais querido do mundo!
Fui hoje, dia de São João, comungar por tua intenção, na [Igreja de] Santa Terezinha. Quando penso que de Paris partirás de avião para Lourdes, Roma, Espanha e sei mais para onde...! sempre de avião, fico sem respiração!
Tenho interrompido tantas vezes esta carta, que até já não tenho bem noção do que tenho escrito. Uma destas interrupções foi feita por Rosée e Maria Alice que me levaram para dar uma volta enorme por Pacaembu, Jardim América, Indianópolis, e caminho do aeroporto. Cheguei um pouco tonta e cansada.
Peço-te filho querido que me escrevas sempre. As que me escreveste de São Lourenço e a daí, são lidas todos os dias, “para enganar o tempo”. Consola-me o ver que todos os que têm vindo aqui acham muita falta em ti, e falam com saudades. Acabam de entrar para jantar Yayá e Adolphinho e Rosée já está, mas falta você, meu filho.
Que sejas muito feliz, que te divirtas muito nesta bela terra de Lourdes e de Paray-le-Monial. Como se vê, é privilegiada e abençoada.... ...e, maravilhosa!
Aproveita o melhor possível e volta, permita-o Deus, descansado, forte e satisfeito.
Com muitas bênçãos e abraços, beija-te afetuosamente, tua manguinha,
Lucilia.
Para apaziguar as saudades, prosinhas por escrito
São Paulo, uma fria tarde de julho de 1952. Os últimos raios de sol, após brincarem com a ramagem das árvores da Praça Buenos Aires, acabam de se retirar, cedendo lugar a uma espessa neblina que vai lentamente ocupando as ruas do bairro de Higienópolis. Em seu apartamento, uma distinta dama reza seu rosário e pensa no “filhão” que está do outro lado do oceano. Concluídas as orações, toca a sineta e pede à empregada que lhe traga um xale lilás. Após tê-lo colocado sobre os ombros, resolve escrever a seu filho. Calmamente se dirige ao “Salão Azul”, abre o tampo da escrivaninha, toma a pena e inicia:
S.Paulo, II - VII - 952
Filho querido de meu coração!
Quantas saudades meu filho! É para apaziguá-las um pouco que venho dar-te uma prosa por escrito. Releio com freqüência a única carta que me escreveste, bem como as de Rosée e Maria Alice que retive comigo. Li também a que foi recebida com grande regozijo no sexto andar. (...)
Rosée tem sido muito dedicada e atenciosa. Tem vindo todos os dias ver-me, e jantado com freqüência. Maria Alice também tem aparecido, me trazendo sempre alguma cousa. Depois de tua partida, já me levou Rosée a dois espetáculos de ballet, e a um concerto de piano, para me distrairem um pouco.
Não sei quando, nem onde, receberás esta carta, se ainda na Itália, ou se já na Espanha... fico tão apreensiva com estas viagens de avião, e.... com tudo mais que te possa suceder ou aborrecer! Vê se podes falar-me um pouco mais em ti, e em tudo que te diz respeito. Quanto a restaurants, é bom que não te excedas. Deste modo adoecerás, e perderás este prazer da mesa por farto, ou por privações, o que é por vezes penoso, que o diga eu!
Estamos passando por nova onda fria, e com teu pai, estamos os dois agasalhadinhos na nossa “casa gostosa” que o filho querido preparou para consolo de nossa velhice.
Tenho rezado, comungado e assistido missas por tua intensão, e creio em Deus, Nossa Senhora e o Divino Espírito Santo, que não te deixarão um momento, e te protegerão sempre, fazendo-te muito feliz em tudo, como tanto mereces.
Zili recebeu teu cartão no dia 30, e mostrou-se muito emocionada e satisfeita. “Mille grazie”!
Já te caceteei demais? Cansada, termino enviando-te com minhas bênçãos, muitos e muitos beijos e abraços.
De tua mamãe extremosa,
Lucilia.
Peço-te não esqueceres de satisfazer o meu pedido na última carta, de mandar dizer uma missa e acender uma vela, no altar de Nossa Senhora da Begoña, por intenção de Rosée; sim? Mais um beijo, e “uma cruzinha”, de mamãe.
Essas últimas palavras de Dª Lucilia, mais uma vez exprimem aquele incomparável desvelo de uma mãe católica, que nunca deixava de ter como preocupação primordial seus próprios filhos. Era especialmente para eles que vivia, rezava e se sacrificava, sem descurar o dever de incluir em suas orações todos os familiares.
(Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de João S. Clá Dias)
 1 ) Os dois “abat-jours” de porcelana que ficavam em cima da escrivaninha do “Salão Azul”. 2 ) Casa de doces de muita reputação em São Paulo. 3 ) Fazenda do genro, Sr. Antônio de Castro Magalhães, no município de Cambará, no norte do Paraná.

sábado, 9 de novembro de 2013

Solicitude para com o sofrimento alheio

Numa atitude oposta à da cultuada pelo otimismo cego de certas épocas, Dona Lucilia tomava o sofrimento como um componente inelutável deste “vale de lágrimas”, a ser aceito com resignação e confiança na misericórdia divina. Conforme salienta Dr. Plinio, essa postura serena diante da dor a inclinava constantemente para a compaixão e a caridade em relação ao próximo abatido pelos reveses e infortúnios da vida.
Em sua existência quotidiana, mamãe se relacionava com os outros tendo como fundo de quadro o pressuposto de que a vida humana traz necessariamente, para todo homem, grandes sofrimentos. Em última análise, depois do pecado original, cada criatura humana está sujeita a sofrer e, portanto, não existem os grandes gozadores. O bon vivant é, na realidade, um sofredor que disfarça seu padecimento.
Pena de quem não sofresse
De outro lado, Dona Lucilia estabelecia suas relações no fato de ir à procura — com a discrição e o bom senso convenientes — do sofrimento do próximo para o ajudar. Quer dizer, evitava esse sistema infelizmente comum dos contatos de egoísmo com egoísmo, que acabam gerando mágoas mútuas.
Por causa disso, ela tinha também como pressuposto que minha vida era muito semeada de sofrimentos, e via nessa circunstância uma condição para a elevação da minha alma, assim como a de qualquer pessoa. Donde, acredito que ela teria muita pena de quem não sofresse, julgando-o de certo modo menos querido por Deus. Ou seja, segundo a visão dela, a principal solicitude da Providência Divina para com os homens não é, como sói se considerar, evitar-lhes toda dor, mas permitir-lhes um certo sofrimento proporcionado e equilibrado que os santifica.
Preocupação com as dificuldades do filho
Nesse sentido, mamãe percebia que eu me achava imerso num conjunto de lides apostólicas. Talvez não notasse até que ponto essas lutas eram simultâneas e como constituíam um verdadeiro bloqueio de provações, ameaçando soçobro completo de nossa obra, de um momento para outro. Ou, se percebia, era de maneira não muito nítida. O certo é que rezava assiduamente por mim, e por essa sua atitude temos ideia do quanto se preocupava com minha situação. Mais especialmente, o que menos ela poderia calcular eram as dificuldades financeiras, entretanto cruciantes. Disto mamãe — pessoa de um tempo em que a vida, do ponto de vista econômico, era mais fácil — não teve sequer vislumbre, pois, com o favor de Nossa Senhora, foi-me possível manter a inteira regularidade de situação para ela, sustentando o teor de existência material a que estava afeita.
Quanto ao mais, ela percebia uma imensidade de sofrimentos e batalhas que eu enfrentava. E nisso ficávamos.
Apoio e entendimentos recíprocos
Referindo a esse relacionamento de Dona Lucilia, gostaria de salientar este aspecto: uma vez que ela pretendia estabelecer seus contatos sob uma base séria, achava que o trato não devia ser carrancudo, mas feito de confiança mútua, expressa, senão verbalmente, ao menos por gestos, com apoio e entendimento recíprocos, em tom de seriedade com um fundo de melancolia.
Talvez as gerações mais novas não façam idéia de como essa postura era, para muitos, fora de propósito nos últimos anos da vida de mamãe, que corresponderam a um certo período de progresso econômico no Brasil. Muitos viviam na alegria pela alegria, não querendo encarar de frente o lado penoso do dia-a-dia. Daí certa incompatibilidade com Dona Lucilia. Por exemplo, acontecendo algo triste com algum conhecido, mamãe se julgava no dever de contar para outros amigos comuns. A reação deste e daquele: “Se eu não posso remediar, não me conte nada, porque já bastam as coisas que me aborrecem”. Noutras palavras, “transmita apenas as boas notícias”...
Saudades: ornato da vida
Ainda nessa consideração do sofrimento, é interessante ponderar que, para ela, as saudades eram um ornato da vida. Lembrar das pessoas antigas, já falecidas, dos costumes que houve, do tempo que passou, dos lances difíceis e alegres da vida dos que já foram, constituía habitualmente — sem se transformar em idéia fixa — um modo de povoar a cabeça dela. Como é natural, essa peculiaridade projetava um fundo de nostalgia e de tristeza no convívio com ela, além de ser estritamente contrário aos estilos do período favorável à economia nacional, a que me referi. Para os adeptos da felicidade sem névoas, não se devia aludir à morte de algum parente, nem comentar a respeito, a não ser para inventário, pois tratava-se de esquecer qualquer elemento de tristeza.
Ora, para Dona Lucilia era o contrário. Com frequência lembrava tal pessoa, tal outra, figuras que às vezes os próprios circunstantes não tinham alcançado e ela lhes fazia conhecer através da recordação deste ou daquele fato, etc. Hábito este completamente afastado pelo mundo de então. Cumpria falar do futuro, das invenções mais recentes, dos avanços da técnica, da medicina, das últimas excentricidades da moda, das músicas mais saltitantes. A História era um tanto o necrotério da vida dos homens, e em vez de se cuidar do passado, importava tratar do momento presente.
Não será difícil compreender como essa mentalidade moderna era em tudo diferente da do mundo em que Dona Lucilia viveu e formou seu espírito, tão compassivo e solícito para com a tristeza e o sofrimento do próximo.
Plinio Correa de Oliveira - Extraído de conferência em 17/6/1982