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quinta-feira, 6 de março de 2014

As despedidas

Dona Lucilia (à esquerda) e sua irmã, Dona Yayá
A fim de, no entardecer da existência de Dª Lucilia, amenizar-lhe em algo a paciente solidão, seu filho todos os dias a entretinha com uns 40 minutos de conversa após o jantar. Ao perspicaz e diligente olhar de Dr. Plinio não era difícil discernir as provações que afligiam a alma de sua mãe, cujo involuntário isolamento era, por certo, muito penoso. Para animá-la, costumava lhe repetir, num tom repassado de carinho:
— Mãezinha! força, energia, ênfase, resolução!
A tais palavras, Dª Lucilia respondia com um ligeiro sorriso de contentamento, sem nada dizer. A certa altura dessa prosinha, os inadiáveis deveres de apostolado de Dr. Plinio vinham pôr termo ao abençoado convívio. Embora com o coração partido por ter de deixar sua mãe apenas em companhia da boa Olga (e mais tarde na da Mirene, que a esta sucedeu), ele se levantava e, depois de se despedir dela com muito afeto, dirigia-se para o elevador. Não raras vezes Dª Lucilia o seguia até lá, querendo desfrutar até o último instante a doce companhia de seu filho. Ocasionalmente uma tocante cena podia ser observada no momento em que Dr. Plinio abria a porta do elevador. Com sua voz meiga e afável, esperançosa de ainda retê-lo, Dª Lucilia lhe dizia sorridente:
— Filhão, você não tem pena de deixar sua mãe tão sozinha?
Que esforço Dr. Plinio devia fazer sobre si mesmo, para resistir a tão suave apelo! Contudo, estavam à sua espera para assistir às reuniões feitas por ele todas as noites, aqueles que a Providência lhe destinara como seguidores na Contra-Revolução. Aliás, estes talvez ignorassem que as graças ali recebidas custavam o sacrifício da penosa solidão de Dª Lucilia, ainda mais penosa depois da morte de Dr. João Paulo.
Como explicar a Dª Lucilia tudo isso? Afinal, premido pelo dever, Dr. Plinio osculava a fronte de sua mãe e respondia:
— Meu bem, lamento muito, mas agora é minha obrigação ir ter com os meus companheiros de apostolado.
Depois de a oscular uma vez mais, entrava no elevador e partia. Em outras ocasiões essas despedidas davam lugar a uma encantadora manifestação de solicitude materna. Dª Lucilia procurava advertir seu filho — homem de mais de cinqüenta anos — como o fazia nos idos tempos em que ele ainda era jovem...
Segundo os antigos padrões, o ascensor subia e descia num ritmo lento, demorando a atingir o andar a que fora chamado. Ora, esta lentidão contrariava o resoluto modo de ser de Dr. Plinio — sempre disposto a agir calma mas prontamente — em especial nos momentos em que urgia atender a seus compromissos. Decidido a ganhar tempo, ele lhe dizia:
— Mãezinha, vou pela escada, pois estou com muita pressa!
E sem mais demora descia, enquanto ouvia ecoar o suave mas peremptório timbre de voz materno:

— Filhão, cuidado! Não corra, senão você cai! Era como se uma vigilante e carinhosa mão procurasse diminuir-lhe a cadência dos passos.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Invariável paz de espírito

Em seus últimos anos de vida, Dª Lucilia faria brilhar, ainda mais, sua afabilidade e seu modo de ser respeitoso, em contraste com a vulgaridade crescente do mundo moderno. Embora sua existência tenha transcorrido em grande parte no século XX, era ela uma característica senhora do século XIX, tendo-o, por assim dizer, prolongado em torno de si, até o fim de seus dias. Tão séria e grave quanto afável, praticava uma delicadeza em nada parecida com a amabilidade comercial contemporânea. Muito pelo contrário, tinha perfeita noção de sua própria posição e tratava cada qual segundo o modo de gentileza que a este correspondia.
Por outro lado, era ela digna de veneração por uma certa grandeza, estável, segura e invulnerável às mudanças dos tempos, própria a realçar o caráter augusto de sua alma, que transparecia de modo especial nas circunstâncias mais difíceis.
Resignação ante a morte
Em meados de 1961, Dª Lucilia viu os deveres de apostolado levarem seu filho para um pouco mais longe... O incansável batalhador católico já não era solicitado apenas por seus discípulos de diversas cidades de nosso País, mas também de outras nações, posto que sua obra se irradiava pelos cinco continentes. Dessa feita, fora ele convidado a assistir a um congresso da revista Verbo, em Buenos Aires.
Para encerrar a promissora estadia na capital portenha, Dr. Plinio foi jantar com seus amigos mais próximos — argentinos e brasileiros — num restaurante francês, onde celebraram, em ameno convívio, os resultados obtidos. Mal podia ele, entretido nessa desanuviada comemoração, suspeitar que, em São Paulo, Dª Lucilia acabava de sofrer um súbito ataque cardíaco e estava às portas da morte.
De volta ao hotel, após o jantar, Dr. Plinio recebeu do recepcionista um telegrama. Abriu-o imediatamente. O horizonte que até há pouco lhe descortinava alvissareiras promessas ficou repentinamente toldado, pois tratava-se de uma mensagem, enviada por Dª Rosée, com esta terrível notícia: “Mamãe mal à morte, ataque de coração violentíssimo! Telefones interrompidos. Venha logo para alcançá-la ainda com vida.”
Bem podemos conceber a aflição que estas curtas frases causaram a tão dedicado filho. Seu desejo, naquele instante, foi o de vencer, de um só passo, a longa distância que o separava de sua mãe queridíssima, que talvez já estivesse transpondo os umbrais da eternidade. As tentativas de obter uma ligação telefônica para São Paulo revelaram-se infrutíferas, dificuldade que aumentou o sofrimento dele.
Permaneceu então, durante toda aquela noite, que passaria insone, no salão do City Hotel, onde estava hospedado. Aguardaria assim os primeiros lampejos da aurora rezando e — por que não dizê-lo? — chorando copiosamente, até o momento em que o clarear do dia lhe indicasse ter chegado a hora de ir para o aeroporto. Tendo se dirigido para lá, foi informado de que só haveria vôo de Buenos Aires a São Paulo muito mais tarde. Não querendo esperar mais, resolveu alugar um pequeno avião particular que partiu às 5h, levando-o até Porto Alegre, de onde embarcou em avião de carreira, ato contínuo, para a capital paulista.
Enquanto cruzava os ares, Dr. Plinio sentia tremenda opressão de alma e ia preparando o espírito para o momento em que, ao desembarcar, reencontrasse seus amigos. Pela atitude destes perceberia, num relance de olhos, qual o estado de sua mãe.
Assim, ao descer do avião, procurando avistar algum rosto conhecido entre as pessoas que aguardavam os passageiros, distinguiu um de seus mais antigos companheiros de luta, que logo lhe fez um grande aceno tranqüilizador.
Após os cumprimentos de boas-vindas, a primeira pergunta de Dr. Plinio foi obviamente sobre o estado de saúde de Dª Lucilia, recebendo do amigo esta consoladora resposta:
— Graças a Deus, ela está fora de perigo. Teve um fortíssimo ataque do coração, mas recuperou-se bem e já está sentada na cama, conversando normalmente. Os próprios médicos que a atenderam estão pasmos com a reação dela. Entretanto, é bom o senhor estar prevenido para uma estranha coincidência: na hora em que chegar à sua casa, estará partindo de uma residência vizinha um enterro. Portanto, não se assuste. Estávamos muito preocupados, pois o senhor poderia pensar que se tratasse do enterro de Dª Lucilia...
Transpondo afinal as portas do “1º Andar”, o último obstáculo que o separava de sua estremecida mãe, Dr. Plinio encontrou-a reclinada no leito, conversando calmamente com Dª Rosée e Dª Maria Alice. Aquela venerável fisionomia de anciã, emoldurada por cabelos prateados, externava tanta paz de alma, que absolutamente não se diria haver estado, poucas horas antes, a um passo da morte.
Logo após os primeiros cumprimentos, ela lhe perguntou como estava de saúde.
— Minha saúde está ótima! Mas o que eu quero saber é como está a da senhora!
Mesmo sentindo muito a falta de seu “filhão querido”, cuja presença naquele angustioso transe lhe seria de grande consolo, suportou mais essa provação com extrema serenidade.
A chegada de Dr. Plinio representou para ela novo alento. Embora ele não pudesse depositar em sua fronte o costumeiro ósculo, por estar fortemente resfriado, suas manifestações de carinho e afeto reconfortaram-na e incutiram ânimo naquele coração que por seu filho tanto pulsava!
Rápida foi a melhora de Dª Lucilia. Já no dia seguinte, seu médico, o Dr. Brickman, deu-lhe licença para se levantar e andar pela casa. Cerca de dez dias depois retornou ele para um controle de rotina. Tendo-a examinado com o estetoscópio, voltou-se surpreso para Dr. Plinio e exclamou:
— Mas, não é possível!
E como que não acreditando em seus próprios ouvidos, auscultou-a de novo, cuidadosamente, e disse:
— Olhe, o coração dela está tão bom que eu diria ser o de outra pessoa...

A pronta recuperação de Dª Lucilia era o resultado de sua serena e católica resignação diante da morte. Ao longo de sua extensa caminhada por esta terra de exílio, foi se preparando, calma e resolutamente, com inteira confiança no Sagrado Coração de Jesus e no Imaculado Coração de Maria, para transpor os umbrais da eternidade. Vendo-se na iminência de comparecer perante o tribunal divino, conservou a paz que nunca a abandonou. Será talvez essa qualidade de alma uma das causas de sua longevidade. Viveria ela tranqüilamente, sem maiores preocupações de saúde, mais sete anos.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Alegrias e tristezas

A par das não pequenas cruzes que Dª Lucilia pacientemente carregava, duas grandes alegrias a acompanharam até o fim de seus dias.
A primeira delas provinha da Fé, que lhe dava a segurança de estar no bom caminho — o da Igreja Católica Apostólica Romana — e ao mesmo tempo a esperança inquebrantável da salvação eterna. Essa confiança de, após as tristezas presentes, vir a alcançar o Céu, pelos infinitos méritos do Salvador, era a alegria fundamental que iluminava como um luar sua existência.
A segunda era a vida familiar, e no seio desta, de modo particular, o fato de ter um filho — um “filhão” — ao qual ela queria muitíssimo bem e que com indizível afeto lhe retribuía. Foi esta uma das causas mais patentes de sua longevidade, surpreendente, apesar da frágil saúde e dos sofrimentos que suportou durante toda a vida.
Tanto as grandes alegrias e tristezas quanto as menores, Dª Lucilia, seguindo o insuperável e sublime exemplo da Santíssima Virgem, conservava-as como preciosa lembrança, meditando-as em seu coração. Por sua seriedade de alma, considerava todo o alcance dos fatos, e ia passo a passo fazendo da vida um severo exame, pois para ela tudo tinha uma dimensão grandiosa. Com essa profundidade de espírito encarava ela o falecimento de seus familiares, como o de seu genro Antônio de Castro Magalhães, ocorrido após uma fria madrugada de inverno.
Na região onde se situava sua fazenda, no norte do Paraná, a baixa temperatura fazia prever uma forte geada que comprometeria toda a plantação. Antônio, diante de perspectiva tão ruinosa, passou a noite inteira a cavalo, orientando os empregados na insana tarefa de espalhar pelo cafezal certas bombas de fumaça, as quais, segundo os entendidos, preservariam do desastre a imensa cultura cafeeira. Com o amanhecer passou definitivamente o perigo de geada e Antônio recolheu-se à sua residência para descansar. Algumas horas mais tarde, aparentando inteira normalidade, dirigiu-se à casa do capataz para ordenar algumas providências. Mas o esforço daquela afanosa e gélida noite fora-lhe fatal: ao cruzar o limiar da porta, caiu fulminado por um ataque cardíaco. Era 6 de agosto de 1955.
A inesperada notícia provocou profunda consternação na família. Imediatamente Dr. Plinio viajou para Cornélio Procópio a fim de cuidar da transladação do cadáver.
Nessa ocasião, Dª Lucilia, apesar da tão avançada idade, manteve um perfeito domínio de si, procurando ao mesmo tempo consolar sua filha e sua neta com doces palavras de esperança, para o que ela, como ninguém, sabia encontrar os termos mais adequados. 

Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João S. Clá Dias

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Admirável equilíbrio de alma

As cogitações de Dª Lucilia atingiam o ápice nos momentos em que ela se dirigia ao Sagrado Coração de Jesus. No restante do dia ela mantinha os olhos postos em elevadas considerações, e precisamente por isso podia descer com facilidade aos pequenos assuntos domésticos, sem se deixar por eles absorver.
Vistos assim por Dª Lucilia, os fatos do acontecer quotidiano faziam da vida tranquila e miúda do lar uma espécie de despretensioso observatório do alto do qual se podiam ver as estrelas.
Sua atitude de alma nos traz à lembrança um singelo exemplo, que Nosso Senhor tornou sublime ao incluí-lo em suas belas e terríveis palavras sobre a infidelidade de Jerusalém: “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados, quantas vezes eu quis juntar os teus filhos, como a galinha recolhe os seus pintainhos debaixo das asas, e tu não quiseste?” (Lc 13, 34-35).
Nosso Senhor, dando esse exemplo para exprobrar a infidelidade da Cidade Santa, teve entre outros intuitos o de mostrar que algo tão simples como a maternalidade de uma galinha em relação a seus pintainhos, deve servir aos homens de elemento para meditação sobre a grandeza do próprio Deus.
Elevação de alma nos episódios diários
Nas sendas do modelo divino, Dª Lucilia elevava a mente a altos pensamentos, impregnados de sobrenatural, a partir dos pequenos fatos do dia-a-dia. Exemplo disso era o encanto dela pelas manifestações de amor materno que sua empregada Olga tinha pela filha.
Olga servia dedicadamente Dª Lucilia havia já muitos anos. Trouxera consigo sua filha Carlota, em cuja educação se empenhava com todo o esmero. Na época em que a menina fazia seus estudos secundários, sua mãe matriculou-a num curso de datilografia, e era com grande alegria que seguia de perto, passo a passo, seus progressos.
Dona Lucilia observava comprazida o desvelo de Olga por Carlota. E, na primeira oportunidade, contava a Dr. Plinio alguns episódios que mais lhe haviam tocado o coração materno.
Um deles era o retorno diário de Carlota a casa, vinda do colégio. Dona Lucilia, pela porta da sala de jantar entreaberta, acompanhava discretamente o que se passava na copa, onde a doméstica trabalhava. À medida que a hora do regresso de Carlota se aproximava, Olga ia ficando inquieta, até mesmo um pouco agitada. Olhava repetidas vezes para o relógio de parede, parecendo querer apressar os ponteiros do mostrador, que ao ritmo do tic-tac prosseguiam seu lento caminhar, insensíveis à expectativa materna. Se ocorria algum atraso, ela passava para um estado de ligeiro nervosismo, indo até o terraço para ver se dali descortinava a menina na rua.
Quando finalmente Carlota despontava ao longe, as apreensões de Olga se desvaneciam como fumo. Ela corria alegremente até a entrada do prédio para esperar a chegada da filha; ambas se beijavam e se acariciavam efusivamente, como se Carlota estivesse voltando de uma longa viagem.
Depois a mãe recuava um pouco para melhor ver a filha e certificar-se de que ela estava perfeitamente bem. A menina, ao contentamento de ver a mãe, somava o comprazimento por se sentir objeto de tanta atenção. Quase sem dirigirem palavra uma à outra, iam para o quarto de Olga, no fundo do apartamento, onde esta ouvia o relato de como correra o dia, do que a filha aprendera de novo... Era a hora das confidências.
Dona Lucilia se encantava vendo tanto afeto e fazia o possível para que nada perturbasse esses momentos de convívio entre mãe e filha, chegando a atender, ela própria, ao telefone e à porta. Pouco depois, Olga voltava ao serviço e Carlota se entregava às suas obrigações escolares.
Dona Lucilia nunca tomava a iniciativa de interferir no modo de Olga conduzir a educação da filha, mas sempre que a empregada lhe pedia opinião sobre algum ponto, jamais recusava um bom conselho.

À noite, muitas vezes Dr. Plinio iniciava a “prosinha” perguntando como fora a chegada de Carlota. Se havia algum detalhe a assinalar, Dª Lucilia o contava. Um dia, por exemplo, Carlota comprou um gorro, de modelo certamente sugerido pela própria mãe. Dona Lucilia descreveu todo o encantamento de Olga ao ver chegar a filha tão contente com seu novo adorno. 

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Retorno ao lar

Na derradeira etapa de sua viagem pela Europa em 1952, Dr. Plinio deixou a França em direção à Inglaterra, tão querida de Dª Lucilia, onde se encantou com a famosa Casa do Parlamento — vasto edifício em estilo neo-gótico, construído no século passado de acordo com o projeto de um arquiteto católico — cujas torres se refletem belamente no Tâmisa.
Partindo do Reino Unido em 29 de agosto, Dr. Plinio passou rapidamente por Paris, e no dia 30 desembarcava no avoengo Portugal, não menos amado de Dª Lucilia. Neste último país, ao visitar a histórica e célebre cidade de Coimbra, esteve com a Irmã Lúcia, a quem Nossa Senhora aparecera em Fátima.
Finalmente, uma fotografia dele, tirada no aeroporto de Madri, trazia no verso expressivas palavras, e prenunciava seu breve regresso a São Paulo, dando a Dª Lucilia um antegozo do reatamento do convívio com seu filho.
Lú, querida minha
Antes de descer no Pernambuco tão caro ao Dr. João Paulo, envio-lhe um milhão de beijos, e a ele muitos abraços. E, para consolar a Senhora destes dias de atraso em minha chegada, aí vai esta fotografia que tirei no aeroporto de Madrid, vindo de Lisboa. Beijos e beijos a Rosée e Maria Alice, e abraços para as tias, Antônio, Eduardo.
Espero que meu banquete de chegada esteja à altura da viagem que foi ótima, e a respeito da qual muito terei que lhe dizer. Pede sua bênção com o carinho e respeito de sempre,
Plinio
Visita aos parentes pernambucanos
Certa manhã, nos primeiros dias de setembro, Dª Lucilia, radiante, pôde abraçar e beijar seu “pigeon” querido, não só “espiritualmente”, mas de verdade. Agora sim, para ela a casa tomava vida, pois o “dono e senhor” chegara. Que alegria pensar na possibilidade de, talvez naquela mesma noite, ser restaurada a “prosinha”. Três meses de viagens de seu “filhão” pela Europa, em contato com pessoas de origem e mentalidade tão diferentes, prometiam temas para longas e entretidas conversas, se bem que ainda mais atraente fosse a presença dele.
Seguindo a sugestão de seu pai, Dr. Plinio de fato interrompera sua viagem, descendo em Pernambuco, a fim de estar com os Corrêa de Oliveira. Dª Lucilia se interessou desde logo por saber como estava a família de seu esposo, a qual conhecera após o casamento, havia mais de 40 anos. Teria conservado o Engenho Uruaé sua antiga aparência? Estaria tudo como antigamente, a capela, a casa, os móveis, e até mesmo os vestígios das construções de épocas passadas? Quiçá ruínas a recordar o tempo em que os ancestrais da família haviam desbravado aquelas vastidões?
O tio de Dr. Plinio, Antônio Corrêa de Oliveira — morgado da família — recebeu seu sobrinho com toda a solicitude. Era um homem imponente, que encarnava as melhores tradições do Brasil Imperial. Na fazenda, trajava-se da maneira mais despretensiosa possível, à moda do Nordeste: uma simples roupa de linho branco, que lhe realçava o ar senhorial.
Fiéis aos antigos costumes, serviram ao visitante um lauto e magnífico almoço, bem animado por agradável prosa. Terminada a refeição, todos passaram ao terraço onde o senhor-de-engenho se deitou na rede — só ele — enquanto os outros se sentavam por perto em cômodas cadeiras, prolongando a conversa. Contemplando seus domínios como um pequeno soberano, com uma vara ele fazia vagarosamente balançar a rede para lá e para cá.
Dr. Plinio guardou também grata lembrança do almoço que lhe ofereceram sua prima Luzia — filha do tio Antônio — e o esposo, Nelson Rabello, em sua residência de Recife. A prole do casal era simpática e numerosa. Porém, a atenção de Dr. Plinio voltou-se mais especialmente para sua tia e madrinha, Teresa, solteira, residente em Goiana e pessoa de uma piedade ardente e modelar.
Depois dessa breve escala na terra de seus ancestrais nordestinos, Dr. Plinio finalmente embarcou para o almejado reencontro com sua querida mãe, em São Paulo.
Requinte de qualidades
São inúmeras as recordações do abençoado convívio de Dª Lucilia com seu filho e com outras pessoas, nos últimos anos de vida dessa inesquecível dama paulista. Seria nesse período, durante o qual se entregaria de modo especial à oração e à reflexão, que ela mais requintaria suas virtudes, tal como uma rosa cuja fragrância é melhor sentida ao ser destacada da roseira e colocada numa bela jarra de cristal, para servir de adorno num salão.
Assim, no convívio com Dª Lucilia, a afabilidade não fez senão acrisolar-se no volver dos tempos. Sua elevação de espírito se foi tornando cada vez mais penetrada pelo sobrenatural, suas maneiras e sua presença passaram a ser, em grau ainda maior, atraentes fatores de bem-estar e de respeitabilidade.
Imbuída de profunda confiança na infinita bondade do Sagrado Coração de Jesus, Dª Lucilia continuará a dar alento a todos os que dela se aproximarem necessitados de consolação, aplicando com eficácia o lenitivo da caridade cristã.
Se a essa altura Dª Lucilia tivesse entregado a alma a Deus, bela já teria sido sua existência. Entretanto, ao longo do último período de sua vida, no recolhido ambiente de sua residência na Rua Alagoas, ela externará de forma mais alcandorada a plenitude de seu afeto e benquerença.
O apartamento se conserva hoje tal qual era, primorosamente montado pelo bom gosto e pelo amor filial de Dª Rosée e de Dr. Plinio. Suas paredes e os objetos que ali estão muito teriam a narrar, se tivessem o dom da palavra. Sobremaneira interessante seria poder ouvir o que a imagem do Sagrado Coração de Jesus teria a contar sobre as inúmeras orações de Dª Lucilia. Nunca se soube o que ela tratava com Nosso Senhor naqueles silenciosos diálogos. Nem a seu filho chegou ela a confidenciar algo a tal respeito.

Entretanto, se essa piedosa intimidade permaneceu num inviolável sigilo, alguns pequenos fatos da vida serena e caseira de Dª Lucilia ultrapassaram as paredes desse abençoado lar.
Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João S. Clá Dias

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

“Quantas saudades, meu filho!”

Como vimos no post anterior, em meados de 1952 Dr. Plinio deixara uma vez mais a companhia de Dª Lucilia para fazer uma viagem à Europa, onde trataria de importantes assuntos da causa católica. Dez dias haviam se passado desde o último encontro, no momento da despedida, sem ela saber que o destino do “filhão” seria novamente as distantes terras européias. As saudades cresciam, amenizadas apenas pela correspondência que trocavam.
Assim, na manhã de 17 de junho, com grande alegria recebeu ela um cartão de Dr. Plinio, vindo de Madri. Aproveitando uma escala do avião na capital espanhola, ele não perdeu a oportunidade de enviar à sua mãe algumas palavras de carinho. Com seu transbordante afeto, Dª Lucilia não demorou em lhe responder por meio de uma extensa carta.
São Paulo, 18-6-952
Filho querido do meu coração!
Tivemos no dia quinze — “graças a Deus” — excelentes notícias tuas por Helena Alves de Lima, que telefonou para Rosée. Recebi ontem teu postal de Madrid.
Estou ansiosa por receber uma longa carta tua, e bem pormenorizada!....
É hoje dia de anos de tua tia Yayá. Ela fez saber aos Lindenbergs, que iria para Santos e veio almoçar em casa com o filho e Rosée, e pretende ir jantar com a filha. Está hoje fazendo tanto, tanto frio, que estamos temendo geada, do que, peço a Deus e a São Judas Tadeu, queiram livrar-nos! amém!...
Escreve-me sempre e contando-me tudo que te for possivel, para amenizar as saudades! Já te chegaram às mãos as cartas que escrevemos, Rosée, Zili, teu pai e eu? Quando sento-me para escrever-te, parece-me ouvir os nossos bonitos negrinhos¹ me perguntarem — quando volta Dr. Plinio? Rosée tem sido ótima; seguindo à risca tuas instruções, levou-me e a Maria Alice dar uma longa volta de automóvel, levou-me de automóvel até a Pça Patriarca para incorporar-me à procissão, e depois, mandou-me buscar. Fez-me ir ao concerto do Gulda, maior pianista da época, que apreciei muitíssimo, tem jantado algumas vezes, e quando possível vem duas vezes por dia, e trazendo sempre uma porção de cousas gostosas do Gerbaux². Quanto ao dormir cedo..... “piano, pianino”, vou entrando nos eixos.
Como vais de saúde? Se te fosse possível passar uns quinze dias em Monte Cattini, para substituir o famoso São Lourenço, te seria de muito proveito.
De volta de um chá que ela foi tomar em companhia de Maria Helena Ramos, Rosée passou por aqui um instante para ver-me outra vez, e mostrar-me sua linda toilette de inverno, e sua bela écharpe moderníssima de pele. Ela estava tão chic, tão elegante, que poderia rivalizar com qualquer parisiense, não importa qual!
Porque não levaste teu frack; está tão bonito, e não vai fazer-te falta? Preciso saber se te sentes bem, e se estás te sentindo satisfeito. Que passeios já fizeram? Recomendame a teus amigos.
Bem, meu querido, que o Divino Espírito Santo te guie e te inspire, e que o Sagrado Coração e a Virgem Santíssima e teu bom anjo da guarda te abençoem e te protejam! Com o coração cheio de saudades envio-te minhas bênçãos, muitos abraços e muitos beijos.
De tua velha manguinha,
Lú.
 “A Paris falta só uma coisa...”
Depois dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, dois eram os principais pontos de referência de Dª Lucilia: antes de tudo, seu “filhão” querido; e, no mundo da cultura, Paris. Assim, apesar do imenso desejo de tê-lo junto a si, consolava-se com o fato de o saber na “Cidade Luz”.
Envolta em cogitações que por essa razão lhe traziam um misto de tristeza e contentamento, abriu um envelope chegado naquele instante da capital do charme.
Paris, 12-6-1952
Manguinha querida do meu coração.
Com um milhão de beijos, e mil milhões de saudades (parece-me que desta vez tenho ainda mais saudades suas!), espero a todo o momento um minuto para lhe escrever, que só agora encontro.
Mande-me dizer COM URGÊNCIA como vai a senhora, se está com juízo em materia de orações e horários, se tem procurado distrair-se, se tem tomado água Prata, e... se se tem lembrado de mim! Quero um relato minucioso.
De minha parte vou muito bem, e achando Paris muito mais movimentada e convalescente do que da outra vez, em que estava mortiça e ainda sangrando da guerra. E quanto mais aqui estou, tanto mais vejo e sinto que este é o povorei, eleito e preferido de Deus.
A Paris falta só uma coisa: a Lú.
Com muitas saudades, pede-lhe a bênção, e beija-a com afeto imenso o filho respeitoso
Plinio.
Essa missiva — como outras que Dr. Plinio ia enviando ao longo de sua ausência — davam a Dª Lucilia quase o gosto de um encontro com seu filho querido. Já ao ler as palavras iniciais “Manguinha querida do meu coração”, parecia-lhe vê-lo sentado no sofá de jacarandá, pronto a iniciar com ela uma prosinha. Supérfluo dizer que esse convívio à distância se estabelecia não apenas por meio de cartas. De modo mais intenso e profundo, dava-se espiritualmente no Sagrado Coração de Jesus.
Embora Dª Lucilia prezasse tanto o estar junto de seu filho, seu desprendimento a fazia ter ainda maior empenho em que ele conseguisse atingir os objetivos da viagem.
S.Paulo, 24-6-1952
Filho querido do meu coração!
Com quanta alegria e saudades recebi tua carta... ou por outra, recebemos todos quatro, tuas cartas! só entregues no dia vinte e um!
Chegou hoje o teu postal para Yayá, que vai ficar muito satisfeita, quando lhe for entregue.
Dora vai passar um mês em Campos do Jordão e no dia sete, pouco mais ou menos, de Agosto, seguirá para aí.
Rosée tem vindo todos os dias, e tem mesmo com freqüência jantado aqui. Levou-me anteontem ao ballet do Marquês de Cuevas, que é, no gênero, tudo o que já tenho visto de mais bonito. Nas peças de Ignez de Castro, e do prisioneiro do Caucaso, lembrei-me demais de você. Antônio ainda não voltou da fazenda!... Os pobres fazendeiros passaram uns maus bocados, temendo a geada, pois o frio foi intenso, tendo em Santa Catarina a temperatura caído a dez abaixo de zero! Felizmente, graças a Deus, na Santa Alice³, tudo vai bem.
E você, querido meu, o que tem feito? Já se sabe.... sempre a trabalhar...e mais trabalhar... Mas pela minha fé, amor, orações e comunhões, tenho fé, os Sagrados Corações de Jesus e da Virgem Mãe Santíssima, e mais do Divino Espírito Santo, hás de ser muito, muito feliz, poderás de novo receber a bênção e proteção do Santo Papa, e voltarás feliz para os braços da mãe que tem o filho melhor e mais querido do mundo!
Fui hoje, dia de São João, comungar por tua intenção, na [Igreja de] Santa Terezinha. Quando penso que de Paris partirás de avião para Lourdes, Roma, Espanha e sei mais para onde...! sempre de avião, fico sem respiração!
Tenho interrompido tantas vezes esta carta, que até já não tenho bem noção do que tenho escrito. Uma destas interrupções foi feita por Rosée e Maria Alice que me levaram para dar uma volta enorme por Pacaembu, Jardim América, Indianópolis, e caminho do aeroporto. Cheguei um pouco tonta e cansada.
Peço-te filho querido que me escrevas sempre. As que me escreveste de São Lourenço e a daí, são lidas todos os dias, “para enganar o tempo”. Consola-me o ver que todos os que têm vindo aqui acham muita falta em ti, e falam com saudades. Acabam de entrar para jantar Yayá e Adolphinho e Rosée já está, mas falta você, meu filho.
Que sejas muito feliz, que te divirtas muito nesta bela terra de Lourdes e de Paray-le-Monial. Como se vê, é privilegiada e abençoada.... ...e, maravilhosa!
Aproveita o melhor possível e volta, permita-o Deus, descansado, forte e satisfeito.
Com muitas bênçãos e abraços, beija-te afetuosamente, tua manguinha,
Lucilia.
Para apaziguar as saudades, prosinhas por escrito
São Paulo, uma fria tarde de julho de 1952. Os últimos raios de sol, após brincarem com a ramagem das árvores da Praça Buenos Aires, acabam de se retirar, cedendo lugar a uma espessa neblina que vai lentamente ocupando as ruas do bairro de Higienópolis. Em seu apartamento, uma distinta dama reza seu rosário e pensa no “filhão” que está do outro lado do oceano. Concluídas as orações, toca a sineta e pede à empregada que lhe traga um xale lilás. Após tê-lo colocado sobre os ombros, resolve escrever a seu filho. Calmamente se dirige ao “Salão Azul”, abre o tampo da escrivaninha, toma a pena e inicia:
S.Paulo, II - VII - 952
Filho querido de meu coração!
Quantas saudades meu filho! É para apaziguá-las um pouco que venho dar-te uma prosa por escrito. Releio com freqüência a única carta que me escreveste, bem como as de Rosée e Maria Alice que retive comigo. Li também a que foi recebida com grande regozijo no sexto andar. (...)
Rosée tem sido muito dedicada e atenciosa. Tem vindo todos os dias ver-me, e jantado com freqüência. Maria Alice também tem aparecido, me trazendo sempre alguma cousa. Depois de tua partida, já me levou Rosée a dois espetáculos de ballet, e a um concerto de piano, para me distrairem um pouco.
Não sei quando, nem onde, receberás esta carta, se ainda na Itália, ou se já na Espanha... fico tão apreensiva com estas viagens de avião, e.... com tudo mais que te possa suceder ou aborrecer! Vê se podes falar-me um pouco mais em ti, e em tudo que te diz respeito. Quanto a restaurants, é bom que não te excedas. Deste modo adoecerás, e perderás este prazer da mesa por farto, ou por privações, o que é por vezes penoso, que o diga eu!
Estamos passando por nova onda fria, e com teu pai, estamos os dois agasalhadinhos na nossa “casa gostosa” que o filho querido preparou para consolo de nossa velhice.
Tenho rezado, comungado e assistido missas por tua intensão, e creio em Deus, Nossa Senhora e o Divino Espírito Santo, que não te deixarão um momento, e te protegerão sempre, fazendo-te muito feliz em tudo, como tanto mereces.
Zili recebeu teu cartão no dia 30, e mostrou-se muito emocionada e satisfeita. “Mille grazie”!
Já te caceteei demais? Cansada, termino enviando-te com minhas bênçãos, muitos e muitos beijos e abraços.
De tua mamãe extremosa,
Lucilia.
Peço-te não esqueceres de satisfazer o meu pedido na última carta, de mandar dizer uma missa e acender uma vela, no altar de Nossa Senhora da Begoña, por intenção de Rosée; sim? Mais um beijo, e “uma cruzinha”, de mamãe.
Essas últimas palavras de Dª Lucilia, mais uma vez exprimem aquele incomparável desvelo de uma mãe católica, que nunca deixava de ter como preocupação primordial seus próprios filhos. Era especialmente para eles que vivia, rezava e se sacrificava, sem descurar o dever de incluir em suas orações todos os familiares.
(Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de João S. Clá Dias)
 1 ) Os dois “abat-jours” de porcelana que ficavam em cima da escrivaninha do “Salão Azul”. 2 ) Casa de doces de muita reputação em São Paulo. 3 ) Fazenda do genro, Sr. Antônio de Castro Magalhães, no município de Cambará, no norte do Paraná.

sábado, 19 de outubro de 2013

Rezando pela alma de um generoso amigo

A casa na Ilhabela, deixada pelo amigo 
José Gustavo de Souza Queirós
Era José Gustavo membro dedicado do “Grupo do Legionário”. Tratava-se daquele amigo íntimo de Dr. Plinio que, em 1937, a bordo do navio Neptunia, a caminho da Europa, oferecendo generosamente o sacrifício de sua vida pelas batalhas de Dr. Plinio em prol da Santa Igreja. Em seu testamento, deixou aos companheiros de luta alguns terrenos na ilha de São Sebastião, que foram trocados pelo sétimo andar de um edifício na rua Vieira de Carvalho. Mais tarde seu pai, Antoni de Souza Queiroz, doaria aos mesmos amigos o sexto andar desse prédio onde Dr. Plinio instalará, em 1948, a nova sede de seu grupo. Dada a boa localização do imóvel, quase no centro de São Paulo, Dr. Plinio alugou para sua própria moradia o quarto andar, para onde se mudou com seus pais. Aí Dª Lucilia viveria por seis anos, dos quais seu filho guardou sempre inesquecíveis recordações.
As providências referentes aos terrenos deixados por seu amigo levaram Dr. Plinio, em junho de 1946, à ilha de São Sebastião. De Ilhabela escreveu a Dª Lucilia, explicando- lhe o motivo de sua demora ali:
Manguinha do coração,
Como a Sra. saberá por Adolphinho, minha estadia aqui se prolonga por motivos bem justos. Tivemos delongas na assinatura da escritura, porque foi preciso pôr em ordem papéis que o nosso José Gustavo deixara algum tanto embrulhados. Mesmo depois de ter sido assinada a escritura, ainda ficaram questões a serem reguladas com a Marinha Nacional, para o que apenas ontem conseguimos dar os passos convenientes. Ainda assim, não ficou tudo elucidado. Com efeito, apareceu agora a possibilidade de serem as terras do José Gustavo consideravelmente mais extensas do que nos disse o Antoni e está muito difícil de tirar a limpo a questão. Penso mesmo que não o conseguiremos. Por fim, é preciso que nos inteiremos com vagar das condições de aproveitabilidade do local, preços por que podemos vender as tais casas, etc., etc. Em uma palavra, trata-se da traslação de um patrimônio não pequeno, aplicado em imóveis diferentes, e exigindo cuidado e atenção.
Aqui tudo se faz devagar: ninguém tem pressa, preciso esperar por todos. Assim, tenho aproveitado para descansar muito, o que tenho verificado ser muito mais necessário do que eu supunha. Descansando, é que verifiquei o quanto eu estava cansado. O clima aqui é excelente, panoramas lindíssimos, convento altamente pitoresco e interessante, passadio bem sofrível, companhia excelente. Tudo, enfim, concorre para me tornar a estadia aqui a mais proveitosa e atraente que se possa desejar. Falta-me alguém, em quem penso muitas vezes, sempre que vejo um bonito panorama, uma bonita flor, algum objeto bem artístico. Preciso dizer que é a Manguinha do meu coração?
Como vai a Sra., meu amor? O fígado se comporta bem? E os resfriados? E o coração.... muito cheio de saudades? Suponho que, às vezes, quando a Sra. está só, surpreende-se a dizer “oooh Pliiiinio!”
Minha volta está condicionada às noticias que receba do corretor. De qualquer maneira, segunda-feira eu devo estar aí impreterivelmente.
Bem, meu amor, mil abraços, mil beijos, todos os agrados, agradões (às vezes um pouco rústicos) e agradinhos possíveis, do filho que lhe quer imensamente e lhe pede a bênção.
Plinio
Na resposta a essa carta, Dª Lucilia se mostrava resignada com a demora do regresso de seu filho a São Paulo, pois sabia estar ele aproveitando para descansar um pouco. E não seria ela mesma se não lembrasse a Dr. Plinio de rezar pelo eterno descanso do saudoso José Gustavo, cuja morte prematura tanto a penalizara.
S. Paulo, 26-6-946
Plinion querido!
Quando vi o Adolphinho entrar só, fiquei deveras desapontada, pois as saudades são muitas, mas, refletindo bem, estimei que tivesses ficado. Precisas realmente de um bom repouso com mais freqüência, para não chegares ao estado de cansaço em que te achas. É pena que este novo “El Dorado” (...) seja tão distante, de tão difícil acesso, e baldo de recursos!
Vê se não fazes imprudências e se voltas mais repousado, mais forte e.... sempre querido! Acho uma falta enorme em você, mas acho preciso que te demores mais um pouco. Pelo que vejo, este negócio de S. Sebastião vai ser um dos tais intermináveis, que leva anos!
Vou tentar enviar-te pelo ônibus, umas latas de bolachas, língua e sardinhas. Coitados, que saudades de um pãozinho, mesmo de fubá, não? Estimarei que mesmo assim, aproveitem todos muito a estadia aí, recomendando-me a todos.
Imagino como devem ter todos sempre presente a memória do bom amigo José Gustavo! Rezem e comunguem por ele!
E dando a notícia de sua participação na novena ao Sagrado Coração de Jesus e na procissão de Corpus Christi, mencionada acima, Dª Lucilia encerrava mais uma de suas cartas ao “filhão querido”, repassada de carinho e saudades.
Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João S. Clá Dias



sábado, 12 de outubro de 2013

No Pórtico da Ancianidade

Em 22 de abril de 1946, Dª Lucilia completava 70 anos...
Na vida humana, 70 anos constituem um marco. Aí aparecem, como que cristalizadas, todas aquelas preferências e modos de ser que nortearam o desenrolar de uma existência. Naqueles que procuraram trilhar a via da virtude reluz então, como nunca — na fisionomia, nas palavras, nos gestos, nos atos, na ação de presença — a “soma das idades”: a inocência batismal, os sonhos da infância, as esperanças da adolescência, o vigor da juventude, a força e a estabilidade da idade madura, o magnífico reluzimento de uma velhice florida a que agora se acresceriam os reflexos de prata da ancianidade, tudo temperado pelos sofrimentos que ao longo da vida lhe lapidaram a alma, transformando-a num como que diamante aos olhos de Deus.
Nessa lapidação — é o caso de lembrar — não faltou nem mesmo aquele tipo de sofrimento que sua antiga situação nunca faria prever: as dificuldades financeiras, após a morte de Dª Gabriela. No entanto, se Dª Lucilia fosse uma pessoa bem sucedida, talvez não alcançasse o patamar espiritual que atingiu. Por exemplo, se a família tivesse sido muito feliz nos negócios, e Dª Lucilia se encontrasse, portanto, na plenitude da fortuna, teria faltado algo em sua vida: o valor da posição que herdara de seus maiores, sustentada com grande categoria em meio às dificuldades.
De outro lado, requintara-se em Dª Lucilia aquela afetividade brasileira, sempre educada, distinta e nobre, qualquer que fosse a situação. Temperada por um certo ar de gravidade senhorial, próprio de dama paulista dos antigos tempos, que transparecia em todas as suas atitudes, mesmo quando andava dentro de casa, indo a uma sala, por exemplo, para apanhar uma costurinha. Este aspecto de sua personalidade formava um oposto harmônico com a meiguice, que em sua vida ocupava lugar preeminente.
Usava uma cadeira de balanço trazida dos Estados Unidos por um tio dela. Quando se levantava, preferia não ser ajudada. Fazia-o por si mesma, como um monumento. Andava com seu passo característico, em geral ágil e discreto, por vezes vagaroso e solene, e sumia nos aposentos dela...
Insigne piedade
Durante aqueles 70 anos nunca esmoreceu em Dª Lucilia o amor a Nossa Senhora, cuja onipotente intercessão junto ao Sagrado Coração de Jesus ela tão bem compreendia. Desde sua meninice, Maria Santíssima velava por ela, pois sua mãe, Dª Gabriela, lhe escolhera para madrinha a Virgem da Penha.
Desde aqueles tempos conservava em seu quarto, no mesmo oratório da imagem do Sagrado Coração de Jesus, outra menor, de Nossa Senhora das Graças. No lado esquerdo da cama, suspenso à parede, mais um oratório de madeira abriga a imagem de Nossa Senhora da Conceição. Como era de esperar em se tratando de pessoa tão devota da Santíssima Virgem, tinha lugar de destaque em sua piedade — já na mais remota mocidade — a recitação do Santo Rosário. Sua devoção mariana reluzia sobretudo durante o mês de maio, ocasião em que floria algumas imagens de Nossa Senhora que havia na casa.
Dona Lucilia pertencia à Associação das Mães Cristãs e participou de alguns retiros — bem podemos imaginar com que recolhimento, seriedade e amor — promovidos pela entidade. Outro testemunho de suas constantes orações nos é dado pelos muitos devocionários que, com cuidado, guardava numa gaveta em seu quarto para tê-los à mão quando desejasse.
O avançar dos anos não lhe fizera diminuir o desejo de comparecer às solenidades religiosas, onde pudesse satisfazer os melhores anelos de sua insigne piedade, apesar do esforço que o peso de seus sofridos 70 anos lhe exigiam.
Numa carta escrita a Dr. Plinio, em 26 de junho de 1946, terminava dizendo:
Fui agora à noite à novena do Sagrado Coração de Jesus na Igreja de Santa Cecília, e desejo repetir amanhã, e, se Deus me ajudar, como todos os anos, irei à missa, comungarei, e acompanharei a procissão no dia vinte oito, depois de amanhã à tarde. Acompanhei também parte da de Corpus Christi, que esteve concorridíssima, e no largo da Sé, recebemos a bênção. Quando de volta, exausta, meti-me na cama até o dia seguinte.
Bem, muito querido, cansada e com sono, despeço-me, enviando-te com minhas mais afetuosas bênçãos, muitos beijos abraços e saudades.
De tua mamãe extremosa
Lucilia
Quando Dª Lucilia lhe enviou esta missiva, Dr. Plinio se encontrava em São Sebastião, no litoral paulista, para tratar da execução testamentária de seu amigo José Gustavo, falecido pouco tempo antes.
Continua no próximo post


quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Autoridade e senso de justiça

A bondade de Dª Lucilia não tinha limites para com o faltoso arrependido. Entretanto, se discernisse que o melhor remédio para erradicar o mal era impor sua autoridade, ainda que esta pudesse ser desagradável, não hesitava em exercê-la. As características dela nos fazem lembrar o belo ensinamento de São Boaventura: Se eu te amo e te dou dignidade ou liberdade, e tu hás de usar mal dela, se eu ta der, não seria benigno, mas sim maligno.1
Às vezes tornava-se indispensável tomar atitudes enérgicas, sobretudo no tocante ao governo da casa. Por exemplo, em relação às criadas. Para Dª Lucilia, em primeiro plano, estava o cumprimento do dever, e ela sabia fazer valer sua posição com a naturalidade de quem exerce um senhorio, sem ter necessidade de humilhar ou de pisar seus subordinados.
Quando se tratava de censurar uma empregada por algum serviço mal feito, ou grave omissão, fazia-o sempre com suas maneiras brandas e nunca diante de outros, para que a admoestação não ferisse a sensibilidade da faltosa. Um bom conselho, uma palavra de estímulo, davam por encerrado o assunto.
Porém as circunstâncias exigiam, noutras ocasiões, medidas mais drásticas. Difíceis situações em que a bondade parece entrar em conflito com o senso de justiça. Nada disso perturbava sua paz interior. Após refletir, tomava serenamente a decisão: era imperioso despedir a empregada. Então fazia as contas e verificava quanto lhe devia pelos dias de trabalho. Escrevia o total, a lápis, numa notinha e prendia o dinheiro à tira de papel com um alfinete ornamental. Depois mandava chamar a empregada e, de modo amável, lhe dizia:
— Fulana, é melhor você sair...
Explicava-lhe então com toda a calma os motivos que a levavam a demiti-la. Era um pequeno julgamento. Porém, nunca faltava uma palavra de consolo, um gesto de caridade, que movessem a culpada ao arrependimento e lhe deixassem uma profunda saudade na alma.
Concluído o acerto, dizia com igual benevolência:
— Vamos nos despedir agora. Eu desejo que você seja feliz, e que Deus a acompanhe.
A criada partia para continuar sua existência por outros caminhos. Nesse dia, certamente, Dª Lucilia haveria de fazer por ela especiais orações, para que o Sagrado Coração de Jesus a amparasse nas incertezas da vida...
1 Obra de San Buenaventura, 3ª ed., Madrid, BAC, 1972, vol.III, p.262

Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João S. Clá Dias

quinta-feira, 6 de junho de 2013

A eleição de Dr. Plinio

O ano de 1933 se abriu na expectativa da Constituinte, que fixaria os rumos do Brasil novo. A 3 de maio realizaram-se as eleições para a escolha dos futuros parlamentares. Muitos dos nomes indicados pela LEC, em numerosos estados, ascenderam à Magna Assembléia.
Um sucesso inesperado encheu de gáudio o eleitorado católico: Plinio Corrêa de Oliveira, de 24 anos, o mais jovem dos candidatos, surpreendeu seus partidários mais otimistas ao se tornar o mais votado em todo o país, obtendo o dobro de sufrágios do segundo colocado, apesar de ser este um homem célebre e experimentado nas lides políticas.
A espetacular eleição de Dr. Plinio representava um triunfo do Movimento Católico, dado ter ele feito propaganda apenas nas paróquias ou entre as associações religiosas, e apresentado como programa a defesa dos princípios da Igreja.
Causara a Dona Lucilia especial apreensão o fato de ver seu filho candidatar-se ainda muito jovem, e sem eleitorado fixo, ao contrário dos políticos mais antigos. Sob esse aspecto, ele estava em franca desvantagem face a seus opositores. Receosa de que o Movimento Católico não conseguisse votos suficientes para elegê-lo, telefonou a todas assuas amigas, pedindo que não deixassem de votar nele. Chegou mesmo a ligar para o diretor do Hotel Parque Balneário, em Santos, onde costumava hospedar-se com a famfiia, a fim de obter que ele garantisse os votos dos funcionários do estabelecimento a favor de Dr. Plinio.
Mas, o espantoso resultado da eleição revelou ser a força da opinião pública católica muito maior do que as aparências deixavam notar, dando a Dona Lucilia redobrada alegria, sobretudo por se tratar de uma vitória da Igreja.
Porém, o sucesso de Dr. Plinio custou-lhe não pequenas preocupações e sacrifícios. O maior deles foi a prolongada ausência de seu “filhão querido”, durante a qual ela passou incontáveis horas rezando diante da imagem do Sagrado Coração de Jesus pelo bom êxito dele em suas pugnas. Apreensões e contentamento, preces ardorosas e lágrimas maternais, tudo Dona Lucilia depositava confiante aos pés do Divino Redentor, certa de que Ele haveria de ouvir aquela insistente súplica. E suas fervorosas orações foram largamente atendidas.
O convívio fundamentado na Caridade torna ainda mais perspicazes, em relação aos riscos e perigos, aqueles que se amam. O episódio a seguir nos dará uma certa idéia da subtileza com que o coração de mãe de Dona Lucilia penetrou uma situação dificilmente perceptível.
Em artigo de jornal, Dona Lucilia discerne ameaça às Congregações Marianas
Após as eleições, Dr. Plinio teve de ir ao Rio de Janeiro para algumas tratativas referentes ao exercício de seu mandato. Em plena ascensão do Movimento Mariano, quando nada fazia prever que este haveria de decair, a intuição materna de Dona Lucilia discerniu a primeira ameaça a essa obra a que seu filho se entregara com toda a alma.
Uma curta notícia, publicada num diário paulista, anunciava a passagem de um professor da Sorbonne pelo Brasil, com o objetivo de propor a implantação, em nosso país, de um movimento que promovia, não o convívio harmônico, mas a promiscuidade das classes sociais em nome do bom entendimento entre elas. Sem falar propriamente nas Congregações Marianas, a notícia dava a entender que o apostolado por estas exercido ter-se-ia tornado anacrônico em comparação com a novidade trazida da França pelo tal professor.
Ora, Dr. Plinio era líder do Movimento Mariano em São Paulo. Esse eventual golpe contra as Congregações Marianas implicitamente o atingiria. Foi esta malévola intenção que o lúcido olhar de Dona Lucilia percebeu naquelas poucas linhas de jornal.
Seu coração teve por certo um sobressalto, mas, com tranquilidade e sem perda de tempo, tratou logo de alertar seu filho. Escreveu-lhe uma carta em que contava suas impressões e temores sobre o assunto, aconselhando-o a tomar cuidado, pois — dizia ela — aquelas “novidades” vindas da Europa bem poderiam ser uma tentativa para acabar com as Congregações Marianas. Ao terminar de escrever, prendeu no papel, com um discreto alfinete, a notícia que havia recortado com uma tesourinha e enviou a seu filho.

Anos mais tarde, os fatos confirmariam o acerto desses pressentimentos maternos.