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sábado, 25 de janeiro de 2014

Grande dama cristã

Ao lado de suas muitas e edificantes qualidades de alma, reluzia em Dª Lucilia uma firmeza irredutível na defesa dos princípios católicos. Com efeito, se alguém os ferisse de algum modo, ela se colocava numa posição mais ereta, parecendo até aumentar de estatura, e, sem perder a afabilidade, com tom de voz sempre calmo, logo atalhava:
— Não!... Isso não pode ser assim... — e punha os pingos nos “is”.
Dr. João Paulo
Dr. João Paulo, pernambucano dos mais genuínos, tinha um temperamento muito ameno. No dizer de Dr. Plinio, era o homem mais pacífico que conhecera. Seus longos anos de vida conjugal com DªLucilia transcorreram na mais perfeita harmonia. Quando presenciava uma atitude mais enérgica dela, dizia ao filho, a meia-voz, numa jocosa alusão a certo sangue herdado por ela de remotos antepassados:
— Ih!... Esta senhora espanhola!... No trato com a esposa, Dr. João Paulo era sempre muito atencioso. Tinha uma voz sonora, de timbre agradável, e seu riso saudável era ouvido à distância. O ambiente afrancesado à paulista que Dª Lucilia criava em torno de si, formava um conjunto harmônico com a nota pernambucana e portuguesa, contributo de seu esposo.
O vaso de cristal
Evidentemente, nos momentos de aflição de Dr. João Paulo, a bondade sem par de Dª Lucilia se voltava de modo especial para ele, com o desvelo de quem sabia penetrar no mais interno do sofrimento de uma pessoa e ali colocar uma gota de suavizante bálsamo.
Uma tarde, ao voltar do trabalho, Dr. Plinio encontrou seu pai sozinho no salão, com ar muito triste. Cumprimentou-o como sempre: — Boa tarde, papai, como vai o senhor? — Bem, obrigado — respondeu Dr. João Paulo melancolicamente. Seu filho, sem poder atinar com a razão de tal atitude, dirigiu-se ao quarto de Dª Lucilia, onde a encontrou recostada e rezando. Ao vê-lo entrar, ela lhe fez um sinal com o dedo para falar baixo e pediu que se sentasse perto dela. Em seguida lhe disse num tom compassivo: — Filhão... Você viu como o pobre de seu pai está aborrecido? Esbarrou, sem querer, no seu magnífico vaso de cristal da Boêmia1, que caiu no chão e se despedaçou.
— Meu bem, papai quebrou o vaso de cristal?! — perguntou Dr. Plinio entre surpreso e penalizado, pois apreciava muito aquele objeto.
— Sim, mas ele está sofrendo muito... Bastaria uma palavrinha sua para fazer cessar a aflição dele. Você faria isso por sua mãe?
Dr. Plinio, em qualquer circunstância, perdoaria de bom grado a seu pai, e um mero vaso de cristal, por melhor que fosse, era muito pouco para ser causa de tanto pesar. Diante da afetuosa súplica de Dª Lucilia, dirigiu-se imediatamente ao lugar onde estava Dr. João Paulo a fim de tranquilizá-lo e, sorrindo, disse-lhe que não se preocupasse, pois o acidente, aliás todo involuntário, não tinha importância. Suas palavras distenderam de imediato seu abatido pai, que recuperou o habitual bom humor.
Manifestações de afeto de Dª Lucilia, como esta, excediam de muito os limites do lar. Se até em relação a desconhecidos sua compaixão se fazia sentir tão viva quanto mais com os seus familiares, próximos ou até longínquos.
Visita inesperada
Certo dia estava Dª Lucilia à mesa, em meio a uma refeição, quando uma parente distante, a quem as provações da vida haviam desalentado a fundo, tocou a campainha do apartamento.
A empregada, tendo atendido à porta, veio pouco depois anunciar que estava ali Dª Fulana, querendo falar com Dª Lucilia. Esta, conhecendo as tribulações pelas quais passava aquela pessoa, interrompeu o almoço e foi solícita até o hall de entrada, acolhendo-a com grande afabilidade.
— Oh! Fulana, como vai? Entre por favor... Convidou-a a passar para a sala de jantar, ofereceu-lhe um lugar à mesa e colocou-a inteiramente à vontade. Era tal a confiança inspirada por Dª Lucilia que daí a pouco a visitante se animava a expor suas dificuldades e dores. Recebeu dela — como esperava — todo o consolo e estímulo para prosseguir, confiante na Providência Divina, pelas ásperas sendas da vida.

Mais uma vez, um conselho saído dos lábios de quem seguia a lei de misericórdia do Divino Mestre, constituiu poderoso auxílio a uma pessoa atribulada pelos reveses da vida. Este modo de proceder, no conjunto das virtudes de Dª Lucilia, era mais um ponto de resistência em relação aos desvios morais de seu tempo. Pois o mito do sucesso levava muitos de seus contemporâneos a afastar-se com menosprezo de quem era atingido pelo infortúnio, como se este fosse uma lepra cuja mera proximidade pudesse contagiar... 
1) Uma fina peça, presente de Dr. Plinio a sua avó, Dª Gabriela
Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João S. Clá Dias

sábado, 14 de dezembro de 2013

Um amor quase religioso...

Continuação do post anterior. 
Devido aos atrasos do correio, passaram-se quase três semanas sem chegarem missivas de Dr. Plinio. Por fim, no dia 18 de julho, o carteiro trouxe o tão esperado envio. Assim que Dª Lucilia o recebeu, todas as cordas de sua alma vibraram de intensa alegria. Com seu passo ágil dirigiu-se à escrivaninha e com uma espátula abriu cuidadosamente o envelope. Depois procurou o lugar mais luminoso da sala, e lá sentou-se tranquila, a fim de ler a carta do “filhão” para a “querida manguinha”:
Roma, 10 de julho de 52.
Luzinha querida.
São 3,30 da manhã. Estive tão ocupado estes dias, que resolvi ficar trabalhando até agora, para escrever relatórios, notas de viagem, cartas, etc. E como o serviço ainda está pelo meio, deliberei passar a noite em claro, e ir comungar às 5 horas.
Tal seria que em meio a tanto trabalho não houvesse um pouco de tempo para escrever a minha Manguinha do coração, para lhe dizer que sinto umas saudades immmmmmmmmmmmmmmensas dela!
Devo partir para Barcelona entre 15 e 17. O Pessoal do 6º andar tem meu endereço na Espanha. A resposta a esta carta deverá ser enviada para lá.
Como de costume, minha querida, desejo saber tudo a seu respeito: saúde, rezas, horários, e quero também saber se a Sra. tem tido algumas saudades de mim.
Roma está de um calor canicular. Um dia destes fez 40 à sombra! À noite, a temperatura melhora. É a hora humana de Roma. Ainda hoje, terminado o jantar, fiz minhas orações todas... num carro puxado a cavalo, como no tempo em que a Lú era mocinha, e que me levou, sozinho, a passear pelo Pincio. Quando se passa o dia inteiro com gente, a solidão é uma deliciosa necessidade. Faz me lembrar a frase de São Bernardo: oh beata solitudo, oh sola beatitudo!
E como vai o maravilhoso apartamento, do qual sinto tantas saudades? O que é que a Rosa andou quebrando? Mande dizê-lo, porque fico apreensivo.
Minha querida, quero ainda dizer uma palavra a Papai. Para a Senhora, amor meu do fundo do coração, todo o afeto, todo o respeito, mil milhões de beijos e de saudades do filho que lhe pede a bênção
Plinio
Certamente penalizaram a Dª Lucilia as diversas dificuldades que seu filho vinha encontrando na capital italiana. Entretanto, com a alma inundada de gáudio por receber tão carinhosas palavras, ficou mais aliviada ao saber que ele passava bem de saúde. Após atenta leitura da carta, Dª Lucilia põe-se a escrever naquele mesmo dia uma resposta, cuja conclusão o cansaço da noite a obrigaria a protelar para o dia seguinte.
18-VII-1952
Filho querido de meu coração!
Passei dezesete dias sem receber cartas tuas, tendo tido algumas ligeiras notícias através dos rapazes do sexto, que teu pai ou Adolphinho me traziam. Graças a Deus, recebi afinal, com grande alegria, tua última do dia dez deste. Meu filho, que saudades, quantas saudades de ti querido! Rosée e Zili têm procurado distrair-me, levando-me a ballets, bons concertos, alguns cinemas; têm vindo com freqüência, Maria Alice também, mas como sabes, “como sempre”, onde vai meu coração, vai você dentro..... Como deves saber, tenho comungado e rezado muito para que o Divino Espírito Santo (a quem fiz uma promessa) te guie e inspire, e Nossa Senhora Auxiliadora te proteja e auxilie.
Fui com teu pai à novena no dia dezesseis na igreja do Carmo, rezar por ti, e lá estive com os teus amigos, que me fizeram muitas saudades.
Rosée, Antônio, Maria Alice e Eduardo jantaram ontem aqui. Foi muito sentida tua ausência. Fiz o que pude e penso que foi tudo bem; pelo menos, foi o que me disseram, mas é preciso descontar a amabilidade de praxe. Quanto ao estouvamento da Rosa, não passou felizmente, do arrebentamento dos cordões das venezianas das salas, desarranjos da enceradeira e electrolux, e quebra do vidro na parte traseira do quadro do hall; já está tudo arranjado, felizmente.
Peço-te mais uma vez para que não te esqueças de mandar dizer uma missa e acender uma vela por intenção de Rosée, no altar de Nossa Senhora da Begoña em “Valladolid”, penso.
Se fores a Portugal, toma algumas informações sobre os nossos parentes do Porto. Têm um título qualquer, e moram perto da igreja dos Salesianos, pelo menos foi o que me disse o Padre salesiano, Dr. Esteves dos Santos.
Quanto tempo te demoras aí na Espanha? Voltas ainda a Roma antes de ir a Paris? Escreva-me logo, e sempre que puderes. Leio, leio e releio tanto tuas cartas!
Bem... até a próxima carta! Que Deus te guarde, te abençoe, e te acompanhe.
Muitos e muitos beijos e abraços de tua mamãe tão saudosa e extremosa,
Lucilia.
“Onde vai meu coração, vai você dentro”... É essa atitude de amor, quase se diria religioso, uma constante em Dª Lucilia, pois mais do que um filho comum, ela via no conjunto das qualidades de Dr. Plinio as harmonias de um órgão, para cuja construção ela, com mãos de artista, havia contribuído.
(Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons.João S. Clá Dias)

1 ) “Por via das dúvidas” 2 ) Estojo

domingo, 1 de setembro de 2013

Em meio às tormentas

A Segunda Guerra Mundial: fim de uma era
Ao longo dos anos que transcorreram entre as duas conflagrações mundiais, Dona Lucilia pôde observar, com tristeza, como a nova mentalidade liberal e igualitária, difundida por todo o mundo civilizado, não fazia senão se acentuar, arrastando a humanidade, em alegre farândola, para o abismo de tragédias das quais a Segunda Guerra Mundial seria apenas o prelúdio.
Enquanto, por um lado, o progresso material crescia de modo inebriante e oferecia aos homens a perspectiva ilusória de uma felicidade sem limites, à margem da Lei de Deus, por outro, o abandono dos sagrados preceitos dessa mesma Lei ia abrindo caminho para hecatombes de consequências incalculáveis, O que, aliás, Dr. Plinio — em inteira consonância com a mentalidade de sua mãe — previra em 1929, dez anos antes de eclodir a guerra. Naquela ocasião escrevia ele em carta a um amigo:
Meu caro [Fulano]
Cada vez mais se acentua em mim a impressão de que estamos no vestibulo de uma epocha cheia de sofrimmentos e lutas. For toda a parte o sofrimmento da Egreja se torna mais intenso, e a luta se aproxima mais. Tenho a impressão de que as nuvens do horizonte politico estão baixando. Não tarda a tempestade, que deverá ter uma guerra mundial como simples prefacio. Mas esta guerra espalhará pelo mundo inteiro uma tal confusão, que revoluções surgirão em todos os cantos, e a putrefação do triste “seculo XX” atingirá seu auge. Aí, então, surgirão as forças do mal que como os vermes, somente apparecem nos momentos em que a putrefacção culmina. Todo o “bas-fond”1 da sociedade subirá á tona, e a Igreja será perseguida por toda a parte. Mas... “Et ego dico tibi quia tu es Petrus,et super hanc petram aedificabo Ecclesiam meam, ET PORTAE INFERI NON PRAEVALEBUNTADVERSUS EAM”.2 Como consequência, ou teremos “un nouveau Moyen Age”3 ou teremos o fim do mundo.
Eis a nossa principal tarefa: prepararmo-nos para a luta, e prepara a Egreja, como o marinheiro que prepara o navio antes da tempestade.
De fato, após dez precisos anos, arrebenta a Segunda Guerra Mundial que levará, nos anos subsequentes, a um empenho das classes dirigentes, por todo o mundo, em impedir qualquer conflito de ideologias, receosas da eclosão de uma nova guerra, que seria certamente muito pior que a anterior. Esse estado de espírito abria as portas para a aceitação de todas as renúncias em questões doutrinárias, desde que com isso se evitem polêmicas e confrontos.
Tal renúncia à procura da verdade e à lógica, esteio da razão, a humanidade a fará, a fim de correr atrás da fugidia posição do meio-termo. O lumen rationis4 se apagará progressivamente, dando origem: à “civilização do instinto”, explicitada por completo, em seus princípios e formas de vida, pela Revolução da Sorbonne.5
Desnecessário será dizer o quanto Dona Lucilia se opunha a esse modo de ser, o qual, como um gás entorpecente, propagava-se por toda parte e contaminava as mentes, obnubilando-lhes a razão. Nessa íntegra dama, um perfeito equilíbrio hierárquico reinava entre as potências da alma. A inteligência, iluminada por ardente fé, governava por inteiro a vontade, e esta, a sensibilidade. Daí a firmeza de princípios que a levava a uma perfeita intransigência em relação ao mal, mantendo sempre serenidade de temperamento e benevolência em relação àqueles que conservavam algo de bom. E o que mais do que tudo podemos admirar em Dona Lucilia nessa quadra histórica.
A derrota da França e a tomada de Paris
O desenrolar dos acontecimentos e convulsões que abalavam o mundo naquela conturbada época era acompanhado passo a passo por Dona Lucilia, pois eia bem percebia a importância deles para o futuro da Igreja e da Civilização Cristã. Assim, durante a guerra, após o covarde esmagamento da Polônia pelos nazistas mancomunados com os comunistas, ante as indecisões das grandes potências européias, voltaram os exércitos germânicos seus canhões destruidores contra a França. Num ataque fulminante, a avassaladora onda de fogo e de aço dos nazistas fez recuar as tropas francesas em desordem, obrigando o governo a abandonar Paris. Estava a capital ameaçada de feroz e implacável bombardeio, que destruiria um grande número de relíquias da Cristandade, se é que não apagaria do mapa aquela jóia da civilização. Qual seria a sorte da Cidade Luz?
Bem sabemos quanto a França significava para Dona Lucilia. E, dentro da França, Paris, que ela havia conhecido em plena Belle Epoque, no luzimento de seu esplendor. Uma eventual destruição da cidade implicaria não só a liquidação de edifícios grandiosos por suas linhas arquitetônicas e por sua história, como também na perda das incomparáveis obras de arte neles contidas. Seria a extinção, no mundo, do farol do bom gosto e do charme. Dona Lucilia, que tudo considerava pelo seu aspecto mais elevado, pelo lado sobrenatural, estava certa de terem os valores da França, em última análise, sua origem no alto do Calvário onde o Divino Redentor sofreu e morreu por nós.
A ruína de tal maravilha constituía para ela um sacrilégio. Por isso, passou a ouvir pelo rádio as notícias da guerra, a fim de acompanhar de perto como se jogaria o destino de Paris.
Após um período de incertezas, a cidade foi afinal poupada, causando-lhe isto grande alegria. Porém, deixou-a entristecida o fato de ter a França caído sob a dominação nazista. A certa altura do desenrolar desses acontecimentos, Dona Lucilia foi passar alguns dias em Águas da Prata. Uma ironia de Dr. Plinio numa carta faz-nos ver como ela mantinha uma posição definida e categórica contra o nazismo:
São Paulo, 1 de junho de 40
Mãezinha de meu coração,
Finalmente, já está chegando a seu termo a longa temporada de “castigo ‘ em Prata, que a Sra. se impoz ou, antes, nós lhe impuzemos. Espero que na proxima Quinta-feira a Sra. já esteja de volta no ninho.
Meu pé está quasi bom, se bem que ainda não inteiramente restabelecido. Tenho uma certa desconfiança de que um musculo da parte de traz do joelho tambem sofreu uma torsão. Espero, entretanto, que quando eu a for abraçar na estação já esteja andando com passo lepido.
Tenho pensado na Sra., sempre que leio os desoladores successos alcançados por seu “amigo” Hitler.
A Katucha obteve cordão, e é a primeira em Francez.
Quanto ao mais, graças a Deus, tudo vae correndo satisfactoriamente.
Mande lembranças á D. Maria, e acceite, com mil e mil beijos affectuosissimos, todas as saudades do filho respeitoso, que lhe pede a benção.
Plinio
Noutra missiva, enquanto relata com luxo de pormenores seu dia-a-dia em Santos, para que Dona Lucilia o acompanhe em pensamento, Dr. Plinio uma vez mais alude de passagem à questão do nazismo.
Mãezinha do meu coração,
Dada a facilidade com que se telephona daqui para S. Paulo, tenho cedido á tentação de substituir as cartas por telephonemas. E esta, pois, a primeira carta que lhe escrevo.
A estadia tem sido excellente, O hotel, sendo embora fino como convem, tem o merito inapreciavel de,não ser granfino. A comida é boa, e o ar do mar abre muito meu apetite. A meia-noite, comemos sempre uma torta de maçã com chantilly.
Em materia de passeios, fui ao forte de Itaipus, á biquinha de S. Vicente, á ponte pensil, á ponta da praia, ao morro de Sta. Therezinha, ao Monte Serrat, á Bertioga, a Guarujá em fim, é impossivel aproveitar melhor.
Notei que o repouso me fez muito bem. E a Sra. como vae, meu amor? Como vae nosso “figadorio “? Ainda entumecido pelo Hitler?
Não sei bem quando voltarei: talvez Segunda e talvez na Quarta. Estou com mais saudades suas do que a Sra. pode imaginar.
Com mil e mil beijos inuitissimo affectuosos, pede-lhe a benção o filho respeitoso, que immensamente a quer.
Plinio
Intransigência na defesa dos princípios
Tal como na Primeira Guerra Mundial, também agora a opinião pública brasileira estava dividida, porém, não só por motivo de preferências culturais. Havia um fator ideológico do qual, em consciência, não se podia abstrair: sendo o nazismo uma doutrina condenada pela Igreja, era vedado a um católico dar-lhe qualquer tipo de apoio.
Certo dia, uma pessoa dos círculos familiares de Dona Lucilia, ao visitá-la, declarou-se favorável ao nazismo, enaltecendo seus sangrentos triunfos, além de manifestar o desejo de sua vitória em todo o mundo.
E,como se isso não bastasse, introduziu um tema de índole diversa, ao afirmar ser o divórcio medida indispensável para a solução dos casos extremos em que os cônjuges não conseguem mais levar vida em comum.
Essas afirmações contundiam de frente a doutrina católica. E Dona Lucilia, sempre tão afável, passou a defender com energia os bons princípios, dando origem a uma acalorada discussão. Ergueu a voz a ponto de ser ouvida na sala ao lado — onde Dr. Plinio preparava uma aula a ser dada na Faculdade Sedes Sapientiæ — sem no entanto perder o aprumo e a dignidade. Era sempre o mesmo amor de Deus que, de um lado, a movia aos maiores extremos de bondade e, de outro, a levava a uma não menor rejeição ao mal.
 1) Expressão francesa para designar a camada mais corrompida da sociedade.
2) “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16,18).
3) Uma nova Idade Média.
4) Luz da razão.

5) Cfr. Plinio Corrêa de Oliveira, Revolução e Contra-Revolução, parte III.

domingo, 11 de agosto de 2013

Suavidade e firmeza

Em Dona Lucilia, o desejo de fazer o bem era tão amplo que abarcava até os seres mais miúdos.
Na casa da rua Itacolomy, a sala de jantar dava para uma entrada de automóvel que conduzia aos fundos da residência. Separando-a do terreno vizinho havia um muro, não muito alto, junto ao qual tinham sido plantadas umas heras, para dar um aspecto mais agradável à área.
Um dia, durante o almoço, Dr. Plinio notou na parte de cima do muro um movimento estranho debaixo da folhagem. Surpreso, disse a Dª Lucilia:
— Mamãe, veja que coisa esquisita aquele movimento lá.
Ela não disse nem sim, nem não, e esquivou-se à resposta. Mas seu filho queria saber o que era e voltou a insistir.
Dª Lucilia apenas disse:
— É, eu já tinha notado alguma coisa.
— Mas eu estou notando só agora — respondeu ele, mais categórico.
Dirigindo-se à empregada que servia à mesa, Dr. Plinio disse:
— Ana, vá olhar o que há naquele muro.
Dª Lucilia ficou silenciosa. A criada riu e disse com seu sotaque português:
— “Seu doutôire”, o senhor não percebeu o que é? Dª Lucilia está a esconder-lhe uma coisa.
— O que Dª Lucilia está escondendo de mim?
— É uma gata que tem uns filhotinhos ali.
A ideia de um muro cheio de gatinhos andando de um lado para o outro não foi das mais sorridentes para Dr. Plinio. Daí a pouco os gatos estariam crescidos e o quintal ficaria superpovoado desses simpáticos animais. Quando menos se esperasse, começariam a esgueirar-se para dentro de casa. Se fosse um ou dois ainda ia, mas uma ninhada inteira...
Imediatamente disse ele à criada, com decisão:
— Pegue uma vassoura, ou uma mangueira de regar o jardim, e ponha a gata com todos os gatinhos fora do terreno da casa.
Dª Lucilia, com pena da gata, voltou-se para o filho e ligeiramente aflita lhe disse:
— Ah! coitada! Não faça isso. Você não vê que ela pode perder um dos filhotes e nunca mais o encontrar?
Era o maternal coração de Dª Lucilia sentindo-se como que arranhado perante tal perspectiva. Porém seu filho tentou argumentar:
— Mamãe, ela não tem raciocínio. Ela perde um filhote como um de nós perde um fio de cabelo.
Mas Dª Lucilia queria, mais do que fazer um silogismo, tocar-lhe no sentimento:
— Coitada! Não faça isso.
    “Coitada” era dito com tanta bondade e tanta pena, que Dr. Plinio não resistiu e disse à criada:
— Ana, cuide dessa gata e leve todo dia leite para ela.

Aquela gata, como ser irracional, não podia ter conhecimento da própria existência. Mas, uma vez que sobre ela tinha baixado a compaixão de Dª Lucilia... em vez de um esguicho, haveria leite para a gataria toda.
Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João S. Clá Dias

quarta-feira, 22 de maio de 2013

“Uma das maiores provações de minha vida”

Dona Lucilia viu, com sumo agrado, chegar o solene dia da graduação de seu filho Plinio.
Naquele tempo, em que sociedade estava menos corroída pelo igualitarismo do que hoje, as atividades intelectuais eram ainda cercadas de proporcionado prestígio. Para a estrutura social de então, ter um curso superior e passar a ser tratado por “doutor” era uma distinção que equivalia, longinquamente e a seu modo, a um título nobiliárquico, dado ser esta uma das poucas diferenciações de classe ainda reconhecidas pelo geral da sociedade. De outro lado, os cursos universitários exigiam dos estudantes real esforço e aplicação, sem o que não conseguiriam terminá-los. Assim, era pequeno, comparado com o restante da população, o número dos que chegavam a colar grau, ao contrário do que ocorre em nossos dias, em que o significado de tal é tão menor.
Por isso a cerimônia de entrega dos diplomas, que conservava ainda restos das antigas tradições das universidades medievais, se revestia de grande solenidade. Máxime em se tratando da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, uma das mais antigas do Brasil.
O ato se desenrolava na Aula Magna da Faculdade, em presença de todo o corpo docente, que comparecia revestido de beca — traje talar cuja origem remonta à Idade Média —, de autoridades do Estado e dos familiares dos formandos. Os alunos deviam trajar-se de gala, ou seja, com o tradicional fraque, resto mutilado e sóbrio das vistosas casacas do Ancien Régime. Era justo que num momento auge da vida de um homem, ele fosse honrado publicamente por seus méritos num ato ao qual o protocolo conferia a devida gravidade.
Desde a infância Plinio conservava um sistemático desinteresse pela freqüência ao alfaiate, devido ao sumo aborrecimento que era para ele provar roupas. E, malgrado as repetidas advertências de Dona Lucilia, mandou fazer com um pouco de atraso o fraque, sem o qual não podia comparecer à cerimônia de graduação. Chegado o dia da solenidade, a roupa encomendada não estava pronta. Dona Luci1ia ficou preocupada, pois conhecia a displicência de seu filho em relação a esses atos um tanto laicos, e tinha receio de que ele chegasse atrasado, ou até mesmo não comparecesse, o que podia ser interpretado como manifestação de pouco caso em relação ao importante evento.
Logo de manhã, ela o chamou e perguntou:
— Filhão, seu fraque não veio do alfaiate ainda?
— Não, mamãe, mas ele prometeu entregá-lo à 1 hora da tarde.
Ora, a cerimônia estava marcada para as 2 horas. Qualquer imprevisto que acontecesse impossibilitaria a presença de Plinio. Como era natural, Dona Lucilia começou a ficar angustiada pois, sempre previdente, não podia deixar de considerar provável a pior hipótese.
— Mas meu filho — disse ela — você não vê que, se o alfaiate se atrasar, você perderá  cerimônia?
Naquelas circunstâncias não havia outra coisa a fazer senão esperar, e ele procurou tranquilizá-la:
— Não, mãezinha, essas coisas costumam correr bem, porque o alfaiate tem muita experiência e provavelmente vai me entregar conforme prometeu.
Ela não disse mais nada. O tempo foi passando e... o alfaiate não aparecia. A hora de saírem para a Faculdade de Direito, Plinio não estava pronto. Ele então recomendou a Dona Lucilia e a Dona Rosée que fossem antes, para pegar um bom lugar; ele iria pouco depois.
Mais ou menos à hora marcada começa a cerimônia. Executa-se o hino nacional, o diretor da Faculdade declara aberta a sessão. Um dos alunos agradece em nome dos demais, e pronuncia seu discurso, ressaltando a gravidade da situação do país e a responsabilidade que assumiam os bacharéis de batalhar pelos interesses da Nação. Um jovem professor, paraninfo dos graduandos, diz eloquentes palavras de estímulo aos novos homens de leis, que iniciariam sua caminhada na vida profissional. Este último orador é homenageado. E assim vai transcorrendo o solene ato até que se inicia o tão esperado momento da entrega dos diplomas. Cuidadosamente enrolados, quais preciosos pergaminhos, de cada um pendia a fita com o lacre da Faculdade.
Plinio ainda não havia chegado. E Dona Lucilia, naturalmente, preocupadíssima pelo fato de ele não estar ali a tempo.
A entrega dos diplomas era feita por ordem alfabética, O reitor pessoalmente cumprimentava os formandos e dizia umas palavras de felicitações aos que em especial se tinham destacado, o que tornava a cerimônia bastante demorada. E da letra A até a P ainda havia uma certa margem de tempo. Mas à medida que os nomes iam sendo declinados e a vez do P de Plinio se aproximava, Dona Lucilia ia ficando mais preocupada, lançando olhares discretos e perscrutadores para a porta de entrada, na esperança de ver seu filho chegar. Rosée, que tinha muita vivacidade, ainda se lembrou de levantar a hipótese de ter ocorrido algum acidente de automóvel com Plinio, pois, devido ao atraso, deveria ter obrigado o chauffeur a correr muito. A simples hipótese aumentou ainda mais a aflição de Dona Lucilia.
Quando estavam aplaudindo o bacharel cujo nome antecedia o de Plinio, este último entrou na sala e tomou assento em seu lugar. O alívio de Dona Lucilia foi imenso, O nome dele foi proclamado: Plinio Corrêa de Oliveira, Ele se levantou, foi receber o diploma, cumprimentou o reitor, os professores e depois, sendo costume os neo-advogados saudarem os pais e familiares presentes, dirigiu-se até onde estava Dona Lucilia e demais parentes. Apesar da angústia pela qual passara, ela nada deixou transparecer, nem lhe fez a mínima observação, pelo que seu filho não pôde imaginar que ela tivesse tomado aquilo ao trágico.
Terminada a solenidade, voltaram juntos à casa, onde estava preparada uma festa para ele e para um de seus primos, com o qual havia feito os estudos e que também se formara naquele dia. Quando a efusividade dos cumprimentos e das felicitações do primeiro momento baixou, o velho copeiro Luís aproximou-se de Dr. Plinio e lhe disse, com sua voz cantante:
— Seu Plinio, Dona Lucilia quer falar com o senhor. Ela está no quarto dela.
Dr. Plinio dirigiu-se imediatamente para lá, e enquanto caminhava pensava no que poderia ser: “Estará ela doente? Não parece. O que será? Algum aborrecimento?”
Quando entrou no quarto, Dona Lucilia, para pasmo do filho, fechou a porta e se ajoelhou diante dele. Imediatamente, com palavras de afeto, procurou em vão soerguê-la. Por fim, ela lhe disse com muita gravidade:
— Eu sofri hoje uma das maiores provações de minha vida, e quero te pedir, pelo amor de Deus, nunca mais faças isto com tua mãe, nunca mais repitas um corre-corre destes e te atrases em atos solenes. Onde é que se viu!... Estavam presentes teus professores, estavam presentes teus colegas, estava presente a Faculdade inteira e só tu chegaste atrasado? O que é que vão dizer?
A hipótese levantada por Dona Rosée de ter havido um acidente no caminho não lhe saiu da mente e, quiçá pressentindo o futuro desastre de automóvel que seu filho sofreria,1 ela prossegue:
— Vais me prometer que jamais assumirás o risco de correr tanto de automóvel, para que não sofras um desastre, coisa da qual tenho muitíssimo medo. Meu filho, tu me prometes isto?
Dr. Plinio, para tranquilizá-la, gracejou um pouco, riu, mas ela se manteve irredutível e insistiu:
— Não estou brincando, isto é muito sério. E tu hás de me fazer essa promessa de nunca correr de automóvel, para não haver nenhum desastre. Tu me prometes?
Dr. Plinio, já conhecedor daquelas serenas intransigências, viu-se obrigado a ceder para poder tranquilizá-la, e o fez de bom grado. Só após isso é que ela acabou se levantando. Assim ela sossegou, abençoou-o, beijou-o e foram normalmente participar da festa, que transcorria com alegria. Muitos anos mais tarde, ao recordar aquele dia da formatura de seu filho, ela ainda comentava:
— Ah! Que agonia passei naquela tarde...
Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João S. Clá Dias,EP

sábado, 27 de abril de 2013

Cumprimento das obrigações

Plinio Correa de Oliveira aos 22 anos

DªLucilia cuidou especialmente para que seu filho não se desviasse do cumprimento das obrigações familiares ou de cortesia, fosse qual fosse o modo de pensar daqueles a quem se devia deferência. Dr. Plinio tinha em sua mãe o melhor exemplo a seguir, posto ser ela exímia observadora dessas normas.
Um dia, durante o almoço, um dos parentes mais chegados de Dª Lucilia anunciou que iria fazer uma conferência sobre matéria científica, ligada à sua profissão. A simpática comunicação significava discreto convite aos presentes, mais concretamente aos homens, visto não se interessarem as senhoras por esse tipo de temas.
Dª Lucilia desejou-lhe bom sucesso na exposição e permaneceu meio distante do assunto, mas seu filho logo percebeu que não escaparia com facilidade do incômodo evento. O tema da conferência, para quem dele não entendia, parecia extremamente árido e aborrecido. Dr. Plinio achou melhor nada dizer. “Quem sabe — pensou com seus botões — mamãe se esquece e não pede que eu vá...”
No entanto, em se tratando de fazer amabilidade a alguém, não havia perigo; esse lapso de memória ela não teria. Poucos dias depois, com toda a suavidade, lembrou a Dr. Plinio:
— Filhão, você se recorda da conferência de seu parente hoje?
Percebendo ser impossível furtar-se da “tortura” intelectual, ele respondeu com toda a submissão:
— Sim, senhora, lembro-me.
Ela continuou:
— Você sabe, filhão, que deve comparecer, não é?
Dr. Plinio tentou um último recurso para conseguir escapar:
— Mas, meu bem, não entendo do tema, não faz sentido eu ir...
Não houve remédio. Os argumentos, envoltos em doçura e jeitosamente apresentados por ela, eram irresistíveis. A palestra se realizou numa pequena sala do edifício Martinelli, no centro de São Paulo. O conferencista mostrou-se uma verdadeira revelação, conseguindo transformar um assunto, de si monótono, em algo atraente e interessante para um auditório de leigos naquela especialidade.
De volta a casa, Dr. Plinio elogiou muito o expositor. A princípio, Dª Lucilia pensou estar ele ironizando, mas ao notar que falava seriamente, ficou contente, pois dali havia resultado um bem, tanto para aquele seu parente, que se sentira satisfeito com a presença de Dr. Plinio, como para este, que havia gostado de ouvi-lo.
A passagem de ano de Dª Lucilia
Dada a profunda seriedade de espírito de Dª Lucilia, possuía ela um modo próprio de comemorar a passagem de ano. Ao chegar o último dia de dezembro, rememorava tudo quanto havia ocorrido em sua vida particular, como também no âmbito de sua família. Era quase um exame de consciência: “Como foi o ano? Foi pior ou melhor que o anterior? Quais as graças que nos foram concedidas pela Santíssima Virgem? Como correspondemos a esses benefícios?...”
Se, como afirma o Divino Mestre, “até os próprios cabelos da vossa cabeça estão todos contados (Mt 10, 30), quanta importância deve ter aos olhos de Deus a existência de qualquer criatura humana? Esta consideração era suficiente para atrair a atenção de Dª Lucilia sobre os acontecimentos do ano que se findava.
Depois de agradecer ao Sagrado Coração de Jesus e a Nossa Senhora todas os dons recebidos, implorava proteção para o novo ano.
À noite, Dr. Plinio ia à igreja, onde os Congregados Marianos, em conjunto, assistiam ao cântico do Te Deum, que naquela ocasião se revestia de especial solenidade. Despedia-se de Dª Lucilia ao sair, e ela o abraçava pela última vez no ano, com todo o afeto, abençoava-o e lhe fazia inúmeras cruzinhas na fronte.
Ao voltar da igreja, já bem depois da meia-noite, ele encontrava Dª Lucilia terminando de preparar uma pequena ceia, sempre mais simples que a da noite de Natal. Ela o recebia com todo o carinho, reservando as primeiras felicitações de Ano Novo ao seu “filhão”. Depois sentavam-se à mesa, Dr. Plinio contava como tinha sido a cerimônia religiosa e ficavam conversando até altas horas, sem se preocuparem com o relógio. Era a primeira “prosinha” do ano...