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sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Devemos procurar os verdadeiros valores dos outros e celebrá-los como merecem

Conclusão dos posts anteriores
Resultado: habitualmente estamos em estado de injustiça em relação aos outros. Nós damos valor a quem não tem, e não a quem tem. E é muito bom sabermos procurar os valores onde estão e nos unir a eles, celebrá-los como merecem ser celebrados.
Eu fazia isto às torrentes com mamãe. Quando ela estava numa sala, quer em minha casa ou em outra, a primeira pessoa para mim era ela. Sendo outra residência, naturalmente, ao chegar, eu saudaria primeiro a dona da casa. Entretanto, logo depois me dirigiria à mamãe. E assim a punha em primeiríssimo lugar, com os primeiríssimos agrados, nas primeiríssimas manifestações de consideração, de respeito, etc.; o píncaro era ela. Com isso eu tinha também a intenção de fazer justiça a ela.
É recomendável que adquiramos o hábito de fazer o mesmo com as outras pessoas. Aprendamos a apreciar as pessoas isentas de egoísmos que encontremos em torno de nós. Saibamos imitá-las, lavando, assim, as nossas almas da influência da Revolução.
Sobretudo quando vier o Reino de Maria encontraremos muita gente assim.
Saibamos, então, ver tudo quanto há de nobre, virtuoso e santo no Reino de Maria, e dar graças a Nossa Senhora, compreendendo que depois desse reino virá outro: o Reino do Céu. Se pela misericórdia divina passarmos para lá, conviveremos por toda a eternidade, junto a Deus, a Maria Santíssima, aos Anjos e Santos. 

Plinio Corrêa de Oliveira – Extraído de conferência de 14/4/1991

domingo, 13 de novembro de 2016

A lembrança luminosa

Continuação dos posts anteriores
Quando ela morreu, eu já era um homem ultrafeito, tinha quase 60 anos e ela, 92. Em tão longo convívio, não me lembro de uma só viagem realizada por mim na qual, ao chegar, não tenha ido comungar em alguma igreja e, em seguida, dirigir-me diretamente para casa, a fim de vê-la. Ainda que fosse uma viagem pequena, dessas que não cansam e nas quais, chegando, vai-se diretamente tratar de negócios, antes mesmo de ir para casa.
Não me lembro de um só caso em que isso aconteceu, porque para mim, estar de volta a São Paulo era estar com mamãe, encontrar-me com ela, ver como ela estava, e — por que não? — ser visto por ela. Eu gostava de me sentir visto por ela, e de observar o olhar dela me querendo bem. Era um dos fatores de alegria de minha vida. Ainda hoje continua em mim essa lembrança luminosa que, se Deus quiser, me acompanhará até o fim. Aquilo fazia parte da inocência dela.

Devemos desejar encontrar muita gente assim em nossa vida, e, quando encontrarmos, saber reconhecê-las. Em geral, prestamos atenção nas pessoas pelas razões mais fúteis — porque riem ou fazem rir, são inteligentes, mil banalidades —, e não pelo verdadeiro valor que elas têm.
Continua

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Bondade inspirada no Sagrado Coração de Jesus

Continuação do post anterior
O egoísmo torna a pessoa desagradável. Notando que determinado indivíduo está pensando apenas em seus interesses, o tempo inteiro, e não cogita de outra coisa, e continuamente medindo as vantagens, as desvantagens, etc., sente-se um afastamento, um desagrado muito grande.
Mas vendo essa generosidade, essa bondade cristã no sentido próprio da palavra, quer dizer, inspirada no Sagrado Coração de Jesus, modelo inigualável dessa bondade e dessa generosidade, tinha-se uma impressão de retidão de alma e de abertura de coração, que não me lembro de ter experimentado ao tratar com qualquer outra pessoa.
Evidentemente, na idade em que estou, tenho tratado com um número enorme de pessoas, tenho conhecido tanto pessoas boas como ruins, mas nenhuma me deu essa impressão de generosidade e de afeto.

Mamãe tinha isso em alto grau, o que tornava a presença dela deliciosa. É por esta razão que, por exemplo, quando eu voltava de alguma viagem, chegava a casa com uma espécie de sofreguidão de encontrá-la logo, de sentir o eflúvio da companhia dela, o seu agrado, etc.
Continua

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Inocência, generosidade e afeto

O espírito revolucionário inocula e exacerba nas almas o egoísmo. Quando encontramos pessoas não egoístas, devemos apreciá-las e imitá-las, lavando, assim, as nossas almas da influência da Revolução. A inocência de Dona Lucilia se caracterizava não só pela pureza, mas por uma total ausência de egoísmo, tornando-a plena de generosidade e bondade.
A inocência de Dona Lucilia consistia, antes de tudo, na pureza, nas virtudes próprias à boa católica, comuns nas senhoras daquele tempo, e que hoje se tornaram raras devido à decadência moral do mundo.
Ela possuía essa inocência em alto grau.
Desprendimento de si mesma
Entretanto, tinha outra forma de inocência que tornava o convívio com ela extraordinariamente agradável e consistia em um desprendimento de si mesma, pelo qual a última coisa em que ela pensava era na vantagem própria, nos seus direitos, no que ela queria ou no que lhe convinha. Ela pensava muito na vantagem dos filhos, mas nas vantagens dela, absolutamente não.
Por exemplo, se uma pessoa quisesse ou lhe pedisse algo, encontrava uma generosidade, um prazer em dar, um contentamento em conceder, que era extraordinário e feito sem pretensão. Não se portava como certas pessoas que, ao fazer algum obséquio, ficam com uma fisionomia e um ar de quem diz: “Olhe aqui, você receba isto e veja que colosso eu sou!”

Mamãe não era assim. Ela dava aquilo que lhe pediam como uma muito boa irmã concederia para outra irmã. E se ela se lembrasse, depois, que podia dar mais algo que a pessoa não tinha pedido, ela ia atrás e dizia: “Olhe, eu me lembrei de que ainda podia fazer por você tal coisa assim!”, e fazia. Isto tornava toda a presença dela muito agradável.
CONTINUA NO PRÓXIMO POST.

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Bondade, doçura e respeito aveludados IV ( conclusão)

Conclusão dos posts anteriores
Discernimento dos espíritos
Mamãe teve muitas decepções. E esperou até o fim da vida dela, mas sempre com paz, porque estava presente essa noção religiosa por detrás.
O que havia de característico no afeto de Dona Lucilia era algo de nativo, de superacrescentado pela graça e modelado pela vida. No trato com as pessoas, ela manifestava uma compreensão muito profunda daquele com quem ela tratava. Era um discernimento dos espíritos pelo qual ela compreendia perfeitamente o lado por onde a pessoa seria boa, e amava muito.
Depois, de outro lado, ela compreendia muito o por onde a pessoa sofria. Ainda que não parecesse uma pessoa sofredora, esse conhecimento do sofrimento dos outros era muito profundo nela, com um reservatório indefinido de disposições de alma aplicadas a cada sofrimento. E já de antemão acompanhado do perdão eventualmente necessário e ao longo de um caminho por onde não se sabe até onde ia.
Por detrás disso havia qualquer coisa de aveludado na alma dela; uma bondade e uma doçura aveludadas. Ao menos era minha impressão.
Então, uma pergunta qualquer: “Você quer água, meu filho?” Conforme a ocasião em que fosse dita, poderia trazer isso. E o timbre, a inflexão de voz, a impostação do olhar, a maneira do trato, etc., tinha isso às grosas. Acompanhado de uma coisa curiosa que é o seguinte: um respeito por todo mundo. Qualquer um que retamente quisesse olhá-la e analisá-la, se sentiria respeitado. Eu nunca a vi faltar com o respeito à criatura mais insignificante como à mais extraordinária.
Era, também, por sua vez, um respeito afetuoso, um respeito aveludado, que implicava num contentamento em que o outro tivesse tal coisa para se respeitar. A alegria de respeitar, de homenagear, ou de ter compaixão porque o outro não tinha nada, não era nada, tudo isso tinha uma espécie de “veludo” especial na alma dela que eu não encontro outra expressão para designar, e que a tornava imensamente atraente para mim. 

 Plinio Corrêa de Oliveira – Extraído de conferência de 30/4/1987

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Bondade, doçura e respeito aveludados III

Continuação dos posts anteriores
Luta de amor
Por causa disso, toda a nossa vida afetiva toma um caráter de salvação religiosa para efeito de conseguir que o outro se eleve, e nada mais do que isso. Donde o nosso convívio acaba sendo, em última análise, um contínuo convite para que o outro seja melhor.
Entretanto, isso não é uma coisa impessoal. Queremos bem a determinadas pessoas por causa da possibilidade que elas têm de se assemelharem de tal maneira ao Divino Salvador. São “rascunhos” de Nosso Senhor Jesus Cristo que amamos na medida em que o rascunho é melhorável, adaptável e que pode chegar a um certo resultado.
Pode acontecer encontrarmos uma pessoa que odeie isso. Há graus de ódio em que, embora não se possa dizer propriamente que a pessoa esteja condenada, segundo as vias normais da graça ela estaria perdida. E nela nada disso reluz. Aí nasce a incompatibilidade e a batalha inexorável — também levada por esse amor — contra quem está perdendo almas. Não só, nem principalmente, no sentido de que a pessoa está levando almas para as dores infinitas do Inferno, mas porque ela está extinguindo aquela luz na alma de outro. É uma espécie de deicídio que é feito. E esse “deicídio” leva-nos, então, à luta.
E daí esta luta ser, de algum modo, dulcíssima, porque é uma luta de amor. Porque mesmo quando ataca aquele que está se diferenciando, ela tem por efeito aproximá-lo. Investe contra o mal que está nele como o médico ataca o câncer que se encontra dentro do doente. Quer dizer, é para salvar o enfermo. E, debruçado sobre o doente, perguntando: “Você não sara?!” É este o sentido do combate.
O mais entranhado e generoso grau de amor
Há, às vezes, almas que fazem Nossa Senhora esperar. No Purgatório terá de haver acerto de contas sobre isso, mas para efeito da salvação Ela tolera, muitas vezes, a demora dessas almas. E quer que as resgatemos, obtenhamos-lhes o perdão, esperando, também nós, por elas. E se eu espero vinte anos que alguém se emende, estou ajudando-o a conseguir a emenda.
Daí nasce um afeto feito de alegria e de esperança, que contém em si um grau de amizade, de paciência, de perdão e, muito mais do que isso, um grau de intercompreensão, desde que a pessoa me compreenda também. Ela representa um aspecto de Nosso Senhor, e eu outro. É Jesus Se amando a Si próprio nos seus vários aspectos, no interior de nossas almas.
Uma pessoa que chegasse a amar os vários aspectos de si própria, refletidos em seres distintos, possuiria o grau mais entranhado e mais generoso de amor que há. Por exemplo, um pai que tem muitos filhos: ele se sente retratado por cada um deles em sua personalidade, de algum modo. Vendo-os em torno da mesa, comendo com ele, ele tem um amor a esses filhos que não pode ser descrito adequadamente nos graus diversos, pela linguagem comum. Eu nem sei se a linguagem sabe descrever isso. Porque as expressões muito legítimas, muito boas, no fundo não querem dizer isto inteiramente. E quando não está dito isto inteiramente, não está dito quase nada.
Por exemplo, “meus filhos queridos” é uma expressão boa. Mas pode designar tanta outra coisa inferior a isso de que estamos falando! Então, só mesmo formas de convívio de alma que se cifram nos imponderáveis, mas que são o mais real da vida, exprimem isso.

Tenho pena das pessoas que não têm isso dentro da  alma porque esta é um deserto na vida, uma tristeza, uma axiologia quebrada, da qual nem sei o que dizer. E que deve constituir horas de furor, de depressão, de suscetibilidades, enfim, equívocos e erros de todo tamanho, e que tiram o sossego da alma completamente.
Continua

domingo, 2 de outubro de 2016

Contemplação do todo de Nosso Senhor IV

Conclusão dos posts anteriores
Visão profunda, límpida, serena, objetiva e bondosa da realidade
Nessa época as senhoras mudaram muito, tomando um ar mais moderno. O modo de elas conversarem, de dizerem alguma coisa de engraçado entre si, mudou muito, e mamãe ficou à margem. Não sei quanto tempo ela levou para perceber isso inteiramente.
A mãe dela era uma senhora que eu nunca vi fazer um gracejo com ninguém. E uma vez ou outra, quando ela procurava brincar com minha irmã ou comigo para nos distrair, quando éramos muito menininhos, ela fazia brincadeiras sem graça, mas por causa dessa seriedade dela.
E o fato de uma senhora habituada a abrir-se inteiramente, sem a menor reserva, para o americanismo que entrava, para Dona Lucilia era uma coisa inteiramente alheia aos padrões nos quais ela havia sido educada.
Entre as senhoras daquela época entrou o costume de darem risada, de brincarem uma com a outra, de falarem da vida das outras o tempo inteiro, a ponto dessa atitude tornar-se moda. Dona Lucilia não fazia nada disso. E quando diante dela se apresentava um assunto, ela entrava no tema com umas considerações longas, tão ajuizadas, criteriosas e diferentes do que as pessoas queriam ouvir, que ela ficava sem graça, permanecia só.
Essa postura séria e reflexiva diante da vida conferia a Dona Lucilia uma visão profunda, límpida, serena, objetiva e bondosa da realidade, que eu notava no olhar dela, mas notava também, naturalmente em grau infinitamente maior, no Sagrado Coração de Jesus e na Igreja Católica. E pensava: “Assim é a Igreja Católica, assim se é santo, assim se vê a realidade como deve ser vista, este é o caminho!”
Eu hauria dela essa mentalidade, muito mais pelo convívio do que por ensinamentos explícitos. Sua ação benfazeja auxiliou enormemente meu livre-arbítrio a se inclinar para o bem. E naquelas coisas a que ela se conservou fiel, eu, com a graça de Nossa Senhora, não só me mantive fiel, mas remontei até a Idade Média. Quer dizer, é o caminho da fidelidade subindo à fonte.
Tenho consciência de que sirvo de eco a uma tradição que me é muito anterior, mas um eco consentido pela minha alma, pelo meu feitio de espírito, pelo que recebi e quis guardar. 

Plinio Corrêa de Oliveira – Extraído de conferência de 17/3/1990

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Contemplação do todo de Nosso Senhor III

Continuação dos posts anteriores.
Fidelidade aos princípios até as últimas consequências
Mas os homens, na sua relação com Deus, precisam saber que Ele é assim. E que o Sagrado Coração de Jesus, na Humanidade santíssima de Nosso Senhor, sendo um reflexo do que é na Divindade, é a atitude de Deus diante dos pecados dos homens.
Daí frases que se pintavam, gravavam ou esculpiam junto a essas imagens, e que exprimiam isso. Por exemplo: “Filho, dá-me teu coração”; e Nosso Senhor com a mão indicando o Coração d’Ele. Era uma proposta de troca de corações, mas como quem diz: “Filho, tu não me deste teu coração. Eu sou Senhor do teu coração. Dá-me teu coração!” Isso de um lado.
De outro lado, uma frase que está pintada no teto da Igreja do Coração de Jesus1. Nosso Senhor Jesus Cristo, aparecendo a Santa Margarida Maria Alacoque, num convento da França, mostrando o Coração d’Ele e dizendo esta frase, que está na narração das visões que ela teve: “Minha filha, eis aqui o Coração que tanto amou os homens, e por eles foi tão pouco amado!”
Vê-se aí aquele equilíbrio absoluto, de um amor que chega a imolar-se na Cruz — não é preciso dizer mais nada — para salvar os homens, mas que toma inteiramente nota das ingratidões de que esse amor é objeto e se entristece com elas. Não é o Coração de Jesus enquanto cheio de espírito de justiça — por exemplo, maldizendo Corazim e Betsaida2 —, nem o Cristo gladífero de que fala o Apocalipse3; é o Cristo cheio de misericórdia, mas uma misericórdia cuja imensidade se calcula pela medida que Ele toma dos pecados dos homens.
É bem evidente que isto é o todo d’Ele. Não é apenas uma atitude afetiva, e todas as boas imagens do Coração de Jesus, no porte, no gesto, no modo de se apresentar, fazem ver Nosso Senhor Jesus Cristo numa atitude grave, tranquila, serena, mas numa decisão irrevogável: o que Ele decidiu, decidiu; e o que é, é; o que não é, não é. É assim que Ele deve ser interpretado.
Assim foi que Ele fez um bem enorme à minha alma. E eu notava que era essa consideração que concorria muito para modelar a alma de mamãe. E quando ela rezava a Ele, punha-se inteiramente nesse diapasão, nessa posição.
Cabe aí uma visão de um todo, porque isso é um todo. Na visão desse todo estava a alma de Dona Lucilia, quer dizer, ela era toda assim, e contemplava, apreciava, ponderava as coisas desse modo. Nosso Senhor é o exemplo, e ela era a discípula que seguia com muita fidelidade o exemplo.

Notava-se no olhar de mamãe uma resolução de ser fiel aos princípios até o fim, custasse o que custasse. Isso a tornava, por vezes, isolada, o que se acentuou muito no período posterior à Primeira Guerra Mundial, quando entrou no Brasil o americanismo, o espírito difundindo por Hollywood, e São Paulo se tornou muito cosmopolita.
Continua

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Contemplação do todo de Nosso Senhor II

Continuação do post anterior
Inteligência comum, mas vivificada pela sapiencialidade
Eu notava isso em todas as circunstâncias da vida: nas consequências que ela tirava dos fatos, nas aplicações, na severidade dela como mãe, numa série de coisas assim, tudo levado por ela até o fim. Este era o ponto de partida do relacionamento de alma entre ela e eu, que só cessou nesta Terra com a sua morte.
Alguém poderia perguntar sobre o papel da inteligência dentro disso, e se não se tratava de uma altíssima qualidade intelectual. Suponho ser algo mais ligado à virtude da sabedoria, a qual não é privativa dos inteligentes, mas é uma inteligência dada pela graça, aos inteligentes e aos não inteligentes, desde que a Providência queira beneficiá-los.
Mamãe tinha uma inteligência comum, vivificada por essa posição sapiencial de muita seriedade diante de todas as coisas.

A visão da totalidade que ela possuía do espírito da Igreja Católica e de Nosso Senhor Jesus Cristo, tanto quanto eu podia perceber no contato com ela, apresentava-se no culto ao Sagrado Coração de Jesus.
Imagens do Sagrado Coração de Jesus: transbordantes de afeto, mas nunca sorrindo
Via-se que ela reconhecia, admirava, adorava no Sagrado Coração de Jesus exatamente o que se encontra nessa devoção, tal como era apresentada no século XIX, durante o qual Dona Lucilia formou seu espírito.
Naquela época, o Sagrado Coração de Jesus era apresentado sempre como profundamente bondoso, misericordioso, disposto a perdoar, mas profundamente sério. Então, algumas atitudes d’Ele perante as almas eram simbolizadas pelas imagens transbordantes de afeto, mas nunca sorrindo, revelando sempre um fundo de tristeza, de quem media até a profundidade a maldade dos homens, e sofria por causa disso inteiramente.
Essa postura interior era representada fisicamente pelo coração cercado de uma coroa de espinhos e com uma laceração decorrente da lança de Longinus, que simbolizavam essa tristeza afetuosa e paciente do Sagrado Coração de Jesus, de uma profundidade não mensurável, infinita, mas ao mesmo tempo sem irritação, sem vindita. Uma bondade a perder de vista, mas que, diante das ofensas feitas, sabia serem ofensas, tomava-as em todo o seu valor e sofria por elas em toda a medida que era próprio a elas fazê-Lo padecer. Portanto, tudo quanto Ele sofreu na Paixão por causa dos nossos pecados, estava simbolizado nessas imagens muito adequadamente.
Isso supõe uma avaliação profundamente séria do que se passa na alma de cada homem, da gravidade moral de todo o pecado, e uma disposição prévia a ver no homem um pecador a quem se perdoa, muito mais do que um filho dileto que dá alegria.
De maneira que as imagens do Sagrado Coração de Jesus da boa escola não O apresentam gaudioso, embora o Coração d’Ele fosse cheio de gáudios; por exemplo, quando Ele via Nossa Senhora, ou cogitava sobre Ela, o gáudio d’Ele não tinha limites.
Continua

sábado, 17 de setembro de 2016

Contemplação do todo de Nosso Senhor

Algumas imagens do Sagrado Coração de Jesus exprimem a bondade, a atitude grave, tranquila, serena, as decisões irrevogáveis do Homem-Deus; em suma, mostram a totalidade de suas perfeições. E era justamente a consideração desse todo que enlevava e modelava a alma de Dona Lucilia, fazendo-a fiel aos princípios por ela amados. Vejamos a descrição de seu filho, Plinio Corrêa de Oliveira.
Lembro-me de como o afeto de Dona Lucilia se manifestava em relação a mim, desde minha mais tenra infância. Eu não tinha ainda idade para perceber como era a relação dela com os outros, inclusive com minha irmã — essa noção viria depois —, porém, em relação a mim esse afeto se realizava sob a forma que passarei a descrever.
Seriedade e bondade
Esse afeto era uma espécie de globalidade e uma seriedade completa que estava no fundo da sua alma. Eu notava que ela entendia perfeitamente qual é o afeto que uma mãe deve ter a seu filho, até onde isso podia ir, que sacrifícios traz e, mais profundamente, o que é ser mãe.
Por outro lado, isso não ficava em tese, mas repousava em mim como filho dela. Quer dizer, ela não queria bem a uma abstração, a uma doutrina, mas àquele filho dela, em cuja pessoa ela procurava encontrar traços e aspectos que prenunciassem o filho o qual ela gostaria que fosse, quando se tornasse homem feito.
Daí, um querer bem a jorros, como se fosse um facho de luz muito poderoso assestado sobre mim, envolvendo-me, satisfazendo-me e tranquilizando-me por inteiro, acompanhado de um afeto tal que despertava em mim a potencialidade para ter um amor correspondente a esse. De onde o nascimento em mim de um afeto correlato, tanto quanto uma criança possa ter.
Na medida em que fui amadurecendo — não sei bem em que idade, mas na minha primeira infância —, eu percebia bem que essa globalidade, essa totalidade não era apenas o afeto, mas todo um modo de ver a vida, as coisas, as pessoas, de modo muito sério, embora com muita bondade.

Essa seriedade, absoluta, por assim dizer, era o traço donde emanavam as outras qualidades morais dela. Era uma espécie de alto-falante ou de lente de aumento posta em todas as suas qualidades morais. Se ela não tivesse essa tão profunda seriedade, as outras qualidades nela existentes não teriam o valor que de fato possuíam.
Continua.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

A devoção de Dona Lucilia ao Sagrado Coração de Jesus (cont)

Conclusão do post anterior
Bondade que não conduz ao relaxamento moral, mas à suma compunção
E aqui entra uma coisa que estava profundamente no espírito de Dona Lucilia, e se encontra no âmago dessa devoção: mostrar a imensidade do amor de Nosso Senhor para com o homem, de um lado, dizendo: “Veja como você tem razões para confiar! Peça porque será atendido! As portas da misericórdia estão abertas para você.”
Mas de outro lado afirmava: “Veja o que representa todo o pecado, e o abismo de pecados em que a humanidade está se precipitando! Tu fazes parte da coorte dos que Me ofendem. E qual é o homem que, ao menos venialmente, não me ofendeu?”
Então, bater no peito, pedir perdão, humilhar-se e compreender a gravidade do pecado. É, portanto, uma bondade que não leva ao relaxamento moral, mas a uma suma compunção, suma compenetração, e, portanto, muito reta, santa, direita. O equilíbrio católico, apostólico, romano está nisso.
Tudo isto envolvia a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, ainda quando eu era menino. Mas notei que essa devoção foi se retraindo com o tempo, ficando cada vez mais formal. Em quase todas as igrejas havia uma imagem do Sagrado Coração de Jesus, porém a devoção foi perdendo densidade e as pessoas que rezavam para Ele já não viam bem isso. As imagens perderam também muito dessa expressão, e aquela atmosfera de seriedade cheia de tristeza, de gravidade, de nobreza da Igreja do Coração de Jesus, em torno das imagens do Coração de Jesus foi se dissipando.
Fazendo perguntas análogas às do Sagrado Coração de Jesus
Mamãe vivia dentro daquela atmosfera; ela rezava muito ao Sagrado Coração de Jesus, e toda a devoção, a piedade dela se exercia em função de Nosso
Senhor visto assim. E, como o bom discípulo em algo se parece ao mestre, devo dizer que inúmeras vezes eu a vi interiormente lamentar, deplorar, sofrer e fazer perguntas análogas às do Sagrado Coração de Jesus.
O que me tocava na conduta dela e me atraía tanto era notar essa semelhança. Eu pensava: “Mas a Igreja Católica é isto! Ela está na linha do espírito da Igreja Católica, portanto, da verdade certa na qual se pode crer; este é o modelo, esta é a via.” E isto me fez um bem sem conta.
Se o que expliquei pode fazer um pouco de bem aos que estão neste auditório, dou o tempo por muito bem empregado. Aliás, há uma devoção muito bonita: “Nossa Senhora do Sagrado Coração”, que é Maria Santíssima considerada enquanto adorando o Sagrado Coração de Jesus, e, portanto, toda voltada para Ele; se nós vemos isso n’Ele, podemos imaginar o que Ela via!
Plinio Correa de Oliveira – Extraído de conferência de 18 de junho de 1982

1) Cf. Ap 1, 16. 2) Sala de visitas do apartamento de Dona Lucilia. 3) Termo utilizado na Teologia para indicar, em Cristo, a união das duas naturezas – divina e humana – na Pessoa do Verbo. 4) Jo 13, 1.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

A devoção de Dona Lucilia ao Sagrado Coração de Jesus (cont)

Continuação do post anterior
Coração com uma chama ardente e circundado por uma coroa de espinhos
O Sagrado Coração é apresentado com uma chama ardente, uma cruz, coroado com espinhos e transpassado por uma lança. O Sagrado Coração é um símbolo; a Igreja é muito sóbria e não sobrecarregaria um símbolo com tantos outros símbolos se não fosse a intenção de fazer sentir aos homens o amor de Nosso Senhor para conosco, um amor excepcional, único. Ele abre o peito e mostra o Coração. Algumas imagens O apresentam com as duas mãos como se tivessem aberto o peito para fazer ver o Coração, num ato de bondade extrema: “O que Eu tenho no tabernáculo do meu peito, abro para que tu vejas!”
De outro lado, o Coração tem uma chama. É o amor da humanidade d’Ele a Deus Nosso Senhor, mas também o amor pelos homens. Jesus quer dizer: “Meu filho, meu Coração arde por ti; e padeceu a cruz por ti e te carrega com teus defeitos, teus pecados, como uma cruz.”
E está circundado da coroa de espinhos para dizer: “Lembre te de como a Paixão foi terrível. E meu Coração foi transpassado por amor a ti.” Depois de tudo quanto foi feito contra Jesus, restava-Lhe verter as últimas gotas de Sangue misturadas com linfa. E Ele quis que Seu Sangue fosse vertido inteiro, embora uma só gota fosse infinitamente preciosa e pudesse redimir o gênero humano largamente. Ele quis que o resto de Seu Sangue fosse vertido, em confirmação daquela palavra do Evangelho, que eu acho muito bonita: “...cum dilexisset suos, qui erant in mundo, in finem dilexit eos.” Quer dizer: “...como amasse os seus que estavam no mundo, até o extremo os amou.”4 Por amor, Nosso Senhor derramou até a última gota de seu Sangue.
Esse último dom teria que resultar da última brutalidade feita pelos homens. Para se certificarem de que Ele tinha morrido, meteram-Lhe uma lança que Lhe abriu o Coração. Depois de ter feito tudo, era preciso levar a selvageria até lá... Podemos imaginar o sobressalto de Nossa Senhora, pois Ela talvez julgasse que estava tudo concluído quando Ele disse: “Consummatum est — Está tudo acabado” e expirou. Entretanto, houve mais isso. E, suavemente, aquele Sangue e água começam a correr, e Maria Santíssima naturalmente compreendeu: Até isto Nosso Senhor quis sofrer! Quer dizer, é a bondade levada a um grau inimaginável.
Segundo a tradição católica, o soldado que perfurou o Coração de Jesus era um homem de vista muito ruim, quase cego. E com aquele Sangue e água caindo sobre a face dele, sua visão ficou perfeita e ele se converteu. Chamava-se Longinus e passou a ser São Longinus. Quer dizer, ao homem que fazia isto Nosso Senhor deu a vista, converteu a fim de levá-lo para o Céu.

Bondade que não conduz ao relaxamento moral, mas à suma compunção
Continua no próximo post

terça-feira, 24 de novembro de 2015

A devoção de Dona Lucilia ao Sagrado Coração de Jesus

As imagens de Nosso Senhor, junto às quais Dona Lucilia rezava constantemente, tinham como modelo o Santo Sudário de Turim. Eram profundamente sérias, tristes, plenas de grandeza e, no olhar, exprimiam a imensidade do amor do Redentor para com os homens. A piedade dela se exercia em função de Nosso Senhor visto dessa forma.
Plinio Correa de Oliveira explica qual era a noção, a ideia, que sua mãe tinha a respeito do Sagrado Coração de Jesus, e o que Este representou para ela.
O Santo Sudário, padrão perfeito das imagens do Sagrado Coração de Jesus
No tempo de Pio IX, a Igreja chegou a ter um movimento bem desenvolvido no que diz respeito à devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Esse movimento continuou em algo na época de Leão XIII, e depois reviveu ainda mais no tempo de São Pio X.
Essa devoção era incrementada, sobretudo, pelo Apostolado da Oração, grande organização dos padres jesuítas, que abarcava o mundo inteiro. E a ideia que o Apostolado da Oração apresentava do Sagrado Coração de Jesus era expressa, até certo ponto, pelas estampas e imagens daquele tempo, as quais naturalmente tinham diferenças fisionômicas — porque não há um modelo oficial, e cada artista concebe a figura de Jesus mais ou menos como entende. Mas as imagens de Nosso Senhor do século XVIII e épocas anteriores são menos parecidas com as do final do século XIX, que tomaram como modelo o Santo Sudário, o padrão ideal, perfeito, objetivo.
Estas últimas eram inteiramente coerentes com o que seria Nosso Senhor gladífero1. Quer dizer, um homem em luta contínua contra o mal, nas suas horas de bondade, seria bondoso sem diminuir o seu espírito combativo; e um homem verdadeiramente afável, nas horas de luta seria gladífero. De maneira que, embora não apresentassem diretamente Jesus enquanto gladífero, as imagens davam, por assim dizer, uma pista de voo para se chegar até o gladífero.
Recusa à mentalidade do século XX
Dona Lucilia formou seu espírito segundo essa concepção. Ela era do tempo de Santa Teresinha do Menino Jesus, portanto século XIX largamente; e morreu, graças a Deus, bastante idosa, mas quase não entrou no século XX. Vamos dizer que o século XX, depois de aproximadamente 1930, ela não acompanhou; e antes disso ela entrou para recusar. É claro que o fato de ela não ter acompanhado, após 1930, é uma forma de recusa também.
Dessa forma, sendo Nosso Senhor bem simbolizado, mamãe tinha uma boa ideia d’Ele. E a imagem que está no oratório dela exprime adequadamente o que o conjunto das imagens católicas, no fluxo da devoção ao Sagrado Coração de Jesus no século XIX, apresentava. Dona Lucilia tinha grande devoção por aquela imagem; e também pela que está no salão azul 2, feita de alabastro, a qual é inteiramente da escola da imagem que se encontra no oratório de mamãe. Então a ideia de Nosso Senhor era representada por essas imagens, muito parecidas com o Santo Sudário.
Imagens sérias, repletas de doçura
Essas imagens apresentam Nosso Senhor enormemente sério, enormemente triste e enormemente grande. A atitude do Redentor é de uma seriedade triste, perto da qual o pecador se sente pequenino. E Ele imenso, não pela estatura física, mas pelo porte moral, perto do qual qualquer um se sentiria pequeno. Porte moral feito de altíssimas cogitações. Realmente Ele era uma só Pessoa, mas na qual havia União Hipostática 3, e as imagens representam a humanidade d’Ele. Quais são as cogitações de uma natureza humana que está em União Hipostática com Deus?!
Quer dizer, todos os místicos que houve — há e haverá — não tiveram uma união com Deus parecida com a União Hipostática. Acrescentemos a isso a santidade perfeita da humanidade d’Ele, e compreendemos que é insondável a grandeza de sua humanidade; e na humanidade d’Ele não se vê só humanidade, mas também a divindade, que transparece por causa da União Hipostática.
Então a grandeza de Nosso Senhor é uma grandeza muito triste. Em geral as imagens desse tempo são sérias, de um olhar doce, mas que envolve e penetra na pessoa. E há uma pergunta implícita n’Aquele que olha para o pecador com bondade, com afeto, para uma criatura, mais ainda para um filho: “Mas, em troca de tão pouco você fez tudo isto pelo qual Eu estou sofrendo? Veja bem, você fez e Eu o amo, até o perdoo, mas quero que você pense!”

Existe uma censura dentro disso. Não uma censura gladífera e iracunda, mas nobremente interrogativa, que pergunta, no fundo, o seguinte: “Será que você levará a sua torpeza e sua maldade a tal ponto que, vendo-Me nessa doçura e nessa atitude de perdão, você ainda continua endurecido?”
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1) Cf. Ap 1, 16. 
2) Sala de visitas do apartamento de Dona Lucilia. 
3) Termo utilizado na Teologia para indicar, em Cristo, a união das duas naturezas – divina e humana – na Pessoa do Verbo.