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sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Afetuoso convívio epistolar

Durante a viagem de Dr. Plinio pela Europa, em 1952, Dª Lucilia não se satisfazia apenas com as cartas que ele lhe escrevia. Não perdia ocasião de ler e guardar outras, enviadas pelo “filhão querido” aos amigos do 6º andar. Vejamos como descreve Dr. João Paulo a atitude de gratidão de Dª Lucilia para com seu sobrinho Adolpho, por lhe haver proporcionado a oportunidade de degustar uma delas:
Foi com o maior prazer que recebemos, trazida ontem pelo Adolpho, a tua carta coletiva, endereçada aos rapazes do 6º andar. Lucilia a leu à noite, ao deitar-se, e amanheceu a transmitir-me com calor todas as emoções que sentira; na suposição de que a carta fora deixada no seu criado mudo pelo Adolpho, abriu a favor deste um crédito de beijos a ser satisfeito à vista do mesmo Adolpho...
Tendo a referida carta sido entregue depois da que ela Lucilia te manda, por isso nenhuma alusão fez nesta àquela.
Em seguida Dr. João Paulo comenta um jantar oferecido por Dª Lucilia a alguns parentes:
Lucilia esmerou-se no feitio do seu banquete; houve bastante alegria e ela própria se manifestava afinal verdadeiramente radiante. Todavia, notava a tua falta, o que restringia sua alegria.
“As palavras de Cristo não passam”
À medida que se escoam os dias, apesar das saudades, encontramos Dª Lucilia sempre em paz e senhora de si, como nos mostram suas cartas. Em sua equilibrada atitude vemos reluzir o sentimento materno profundo e amoroso, guiado pelas virtudes da Fé e da Temperança.
São Paulo, 22-7-52.
Filho querido de meu coração saudoso!
Esperava receber uma carta... e nada! Provavelmente terei uma amanhã, não é verdade? Elas me chegam às mãos de ordinário, às terças ou quartas-feiras. Já enviei-te uma na semana passada para Madrid, foi recebida? Receio que sejam muito longas e fastiosas, mas sabes querido? é este ainda um único meio de me iludir de que, de algum modo, estou um pouco contigo.
Não sei porquê, mas sinto com freqüência uma forte apreensão de coração ou espírito, de que não te sentes bem de saúde, nem de espírito. Não abuses dos pratos deliciosos, mas excessivamente requintados dos restaurants. Cuidado com o fígado que é o nosso mal de família. Quanto ao mais, “tenhamos fé”, os Sagrados Corações de Jesus e de Maria, hão de te velar e proteger por todas as formas. Rezo e peço tanto ao “Canal das Graças”! E as palavras de Cristo, não passam. Hás de ser muito feliz, e abençoado por “Deus”.
Com teu pai, Rosée e Antônio, jantei ontem em casa de Maria Alice.
Maria Alice é um encanto em sua casa. Está colecionando umas receitas para eu executar para você, fez um creme delicioso — de côco — para o avô, e mandou vir uma bela fita cinematográfica inglesa, em tamanho natural, para ser passada na máquina do Eduardo. Maria Alice e Rosée acabam de sair, e enviam-te muitos beijos. Já mandaste dizer a missa que te pedi, no altar de Nª Sª da Begoña. Insisto muito nesse sentido. Vê se me fazes isto; sim?
Nossa casa continua sempre deliciosa, esperando pelo querido dono e senhor. Já viste todos os teus amigos espanhóis? Quando, e para onde vais agora?
Escreva-me e logo! Com todo o carinho, abençoo-te, beijo-te e abraço-te até ao fundo do coração. De tua mãe extremosa,
Lucilia.
No mesmo envelope da carta acima seguia outra, de Dr. João Paulo, informando a Dr. Plinio que Dª Lucilia “se encontra em boa saúde, satisfeita. Só uma coisa lhe dói, a saudade do filho ausente, que lhe não sai da memória constantemente”.
Poucos dias depois, novidades de Roma vinham alegrar o coração de Dª Lucilia. Eram os frutos de suas confiantes e persistentes orações que, agradecida, ela depositaria aos pés do Sagrado Coração de Jesus.
Roma, 18-7-52
Luzinha, meu amor
Recebi sua carta ontem, que me deixou indignado com o correio. Tenho escrito várias vezes, e a minha Lú me diz que só recebeu uma carta minha! É um escândalo, pura e simplesmente. Mas espero que a Sra. neste interim já tenha recebido pelo menos a última que lhe enviei de Roma.
A viagem, como proveito, supera de muito a minha expectativa. Conto deixar Roma para Barcelona domingo cedo, cheio de alegria.
Será que Rosée também não recebeu minhas cartas?
Escrevam para Madrid contando notícias bem detalhadas, principalmente Fazenda Sta. Alice que me dá cuidado pelo frio.
Meu amor querido, milhões de beijos para a Sra, do filho que a quer inexprimivelmente, e lhe pede a bênção.
Plinio

Essas seriam as últimas linhas que Dª Lucilia receberia vindas da bela Itália, pois a esta altura seu filho já se havia dirigido à galharda Espanha, terra que lhe recordava alguns remotos ancestrais.
Continua no próximo post.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

“Onde vai meu coração, vai você dentro...”

A viagem de Dr. Plinio pela Europa, em 1952, deu ensejo a uma tocante correspondência entre ele e Dª Lucilia, na qual transparecem o entranhado afeto filial, de um lado, e o não menos intenso carinho materno, de outro. 
Uma dessas cartas de Dr. Plinio, escrita da Cidade Eterna, extraviou-se e só chegou às mãos de Dª Lucilia muito tempo depois de terminada a viagem. Guardou-a com cuidado junto às demais, para as ler em horas de solidão. Eis seu teor:
Roma, 27 de junho de 1952.
Luzinha querida de meu coração,
De acordo com meu telegrama, que a Sra. deve ter recebido ontem, cheguei de Paris no dia 26, chegando de avião a Roma depois de duas horas e pouco de viagem, durante a qual sobrevoamos a Suíça passando sobre o Lago de Genebra, os Alpes, e pois o imponentíssimo Monte Branco. No mesmo dia de nossa chegada, fomos à Basílica do Vaticano, onde tivemos a ocasião de rezar junto ao altar do Bem-aventurado Pio X, já agora exposto à veneração dos fiéis, junto ao altar de São Pedro, e junto ao de Nossa Senhora da Pietá, onde está exposta a famosíssima estátua de Michelangelo, representando Nossa Senhora com o Filho morto ao colo. Depois, ficamos na praça de São Pedro, vendo, medindo, examinando e comentando, até cair a noite. Finalmente, tomamos um carro puxado a cavalo, e pelas vielas sinuosas e pitorescas da Roma antiga chegamos até as avenidas mais modernas, e por elas até o hotel. Na manhã seguinte, fomos receber a Sagrada Comunhão na Basílica. E, depois, começamos a trabalhar. Ontem, ficamos pondo em ordem papéis, pois os que havíamos trazido de São Paulo precisavam de uma revisão. Hoje, comecei os primeiros contatos, e estou reservando umas horas para a correspondência, enquanto o resto da turma vai concluindo o serviço de ordenação dos papéis. Conto ficar em Roma até 15 de julho, de lá seguindo para a Espanha. Deixei recomendação para me mandarem de Paris as cartas que eventualmente venham a ter no Regina. A temperatura aqui está asfixiante, mas a italianada parece achar tudo normal. Como Paris, também Roma está muito mais animada do que em 1950. Vê-se que as cicatrizes da última guerra estão desaparecendo. Mas assim mesmo há aqui dois milhões de desempregados!
Saí muito satisfeito de Paris, não só pela cidade, superior a qualquer elogio, como ainda pelo resultado dos trabalhos que ali desenvolvi. Que Nossa Senhora me auxilie para que também aqui tudo corra bem.
Meu amor, gostei muito de sua carta, com a narração circunstanciada de tudo quanto faz. Mande-me outra, igualmente BEM METICULOSA, pois, como sabe, para mim no que me interessa, faço questão de pormenores. Mas há um pormenor sobre o qual quero precisão absoluta: quantas horas tem dormido por noite, Mme. la Marquise?
De Paris, enviei postais a toda a família.
É bom saber se receberam. Como tenho muitíssimo trabalho diante de mim, vou encerrar. Não preciso dizer-lhe, querida, quantas saudades tenho da Senhora..... São inexprimíveis! A todo momento, lembrome de minha Manguinha do coração. E, sempre que me lembro dela, faço a seguinte reflexão: a LÚ me quer bastante bem para entender que o que eu mais quero dela é que cuide de sua própria saúde.
Reze por mim, querida, e dê sua bênção a este filho que lhe quer tanto quanto pode, e menos do que a Sra. merece, e que lhe manda milhões e milhões de beijos.
Plinio
Amor às tradições européias
Para uma saudosa e amorável mãe, as notícias do filho que se encontrava tão distante eram sempre poucas... Ela desejava mais, e não perdia oportunidade de aparesentar-lhe suave queixa nesse sentido, como o fez na carta que lhe escreveu no início de julho daquele ano.
São Paulo, 9-VII-952
Filho querido de meu coração!
Ansiosa, esperava desde alguns dias ser contemplada com uma dessas dádivas preciosas que é a carta de um filho que me enche o coração de saudades..... e entretanto, nada, nem mesmo um postal. Parece incrível, mas por vezes, ponho-me a pensar que talvez o meu caboclo querido não esteja suportando bem esta canícula inusitada em Roma. Todos riem quando falo, mas tudo é possível, pois és tão sensível ao calor!
“Pour un en cas”¹, como dizem os franceses tão teus amigos, escrevo-te esta, na esperança de que, não te alcançando em Roma, te seja esta enviada às terras de meus bisavós, Portugal e Espanha. (...)
Rosée ficou visivelmente satisfeita com o teu telegrama. Jantamos lá, com minhas duas irmãs — Nestor em viagem. Adolphinho, de acordo com Rosée, jantou com... o sexto andar! Antônio deu a Rosée mais dois fios de pérolas iguais ao que já lhe deu ultimamente — mais uma linda trousse² de ouro, bem trabalhada e toda cravejada de rubis. A filha e o genro deram-lhe um anel, desses modernos, que não aprecio, — cravejados de brilhantes, e que foi muito apreciado.
Com teu pai, tenho sofrido com o frio, que está duro de aturar. Durante o almoço ele abre as cortinas e o sol lhe banha em cheio as costas, e ele fica contente. E eu saudosa, procuro alguém e uma mão queridos que estão ausentes há um longo mês.
Como vais de estudos, visitas a esses “mil e um” museus, e viagens? Tudo bem a teu contento? Se possível, vocês devem fazer uma excursão, a bordo, no Loire, aos castelos “intactos” que ainda conservam às suas margens. Não vais desta vez a Lourdes, ou Paray-leMonial? Peço-te, não deixes de mandar dizer uma missa e acender uma vela a Nossa Senhora da Begoña, por intenção de Rosée; — sim; querido? Se não me engano, é em Valladolid.
Com meu coração, recebe muitas bênçãos, abraços e beijos. De tua mãe extremosa,
Lucilia
Uma vez mais, transparece aqui como para Dª Lucilia a Europa — e sobretudo a França — era um escrínio onde se conservavam restos preciosos da tradição que ela tanto amava. Na volta de Dr. Plinio, esperava poder ouvir as encantadoras descrições de tais maravilhas, e assim, através dos olhos dele, peregrinar por aquele mundo de fábula.
A 10 de julho, Dr. João Paulo transmite de passagem, numa carta, notícias de Dª Lucilia:
...em casa tudo corre normalmente. Tua mãe vai bem. Tem ela, uma vez por outra, crises de intensa saudade. Lê, então, tuas cartas e as relê, acabando por voltar-se para aquelas intermináveis orações que bem conheces. E volta o bom tempo.
Por meio de seu esposo, Dª Lucilia enviava um recado a seu filho:
A propósito, ao escrever esta, Lucilia me pediu para dizer-te que deves ter o maior cuidado com automóveis, em vista do recente rapto do advogado de Berlim, que muito a impressionou...

Evidentemente Dr. Plinio levaria em conta a observação materna, pois comprovara, não poucas vezes, o acerto das intuições de Dª Lucilia em tudo o que a ele podia ser danoso. Porém, mais do que a própria advertência, agradava-lhe aquela incessante manifestação de solicitude.
Continua no próximo post

sábado, 11 de maio de 2013

Carinho e perfeição


Em janeiro de 1932, a fim de se recompor um tanto das intensas atividades como líder católico, Dr. Plinio deixa novamente o convívio com sua extremosa mãe e parte para o interior paulista. Desta vez por quinze longos dias, durante os quais Dona Lucilia rezou ainda mais intensamente por ele. As preces que habitualmente fazia, enquanto esperava seu regresso, estendiam-se até tarde da noite. O relógio ia batendo lenta e implacavelmente as horas, mas ao ouvir as doze badaladas, o filho querido de seu coração não estava a seu lado para a costumeira “prosinha”... Restava-lhe como única alternativa manter uma pequena conversa epistolar.
 São Paulo, 22-1-932
Filho querido!
De volta do Coração de Jesus, onde comunguei e rezei muito por ti, venho dar-te uma prosinha antes do almoço.
“Deves ter-me escrito”, mas por que será que ainda não tive o prazer de receber tua carta?
Espero em Deus que estejam todos gozando saúde, e que não façam nenhuma imprudência. O meu pesadelo aí, é o açude. Fico trêmula quando me lembro do que pode suceder. Lembra-te da promessa que me fizeste de não te meteres nele, e aconselha muita prudência aos teus afilhados.
Não esqueci-me de botar qualquer cousa tua na mala, não? Se precisares de qualquer cousa, manda-me dizer.
O empregado do “Século” 1 – a meu pedido – veio buscar o dinheiro, mas, nãotendo trazido recibo, ficou de pedi-lo ao Dr Ramos, e de levá-lo ao Pe. Pavesio.2(…)
Dei teu recado a tio Nestor. O teu cartão foi para o correio. Por enquanto, o Dr Costa não apareceu.
Teu escritório será limpo na terça-feira.
Se tiver por aí chovido como por aqui, vocês não poderão ter feito passeio algum!
Teu pai deve chegar amanhã.
Por enquanto não chegou nenhuma carta para você, mas logo que apareça alguma, será remetida para aí. Segue também hoje, o maço de “Figaros”¹, mas é bom que não leias demais, para descansares bem o espirito. Se houver por aí muitas mangas, convém que não abuses, para evitares algum furúnculo. (...)
Pela amostra destes dias, esta quinzena vai ser para mim interminável! Não posso, não sei estar bem quando você sai, e dou razão ao caipira, que canta, que “a saudade é mal sem cura”.
Bem, meu filho, saudosíssima te lanço minha bênção, e te envio muitos e muitos beijos e abraços.
De tua mãe extremosa,
Lucilia
“É por muito te amar que te quero aperfeiçoar”
Três dias depois Dona Lucilia volta a insistir com Dr. Plinio para não deixar de datar as cartas. O modo de corrigi-lo por essa pequena falha é tão afetuoso, que quase valeria a pena ele não colocar data, para ver a forma requintada de sua mãe lhe chamar a atenção.
São Paulo, 25-1º-932
Filho querido
De volta da igreja, onde fui ouvir uma missa por intenção de teu pai, por ser hoje dia de seu aniversário, recebi tua carta, em que me fazes sentir, que ainda não havias recebido cartas minhas, o que muito me admirou, porque te mandei duas na sexta-feira, uma pela manhã, e outra à tarde, depois que recebi a tua. Espero que, mesmo com atraso, já te tenham chegado às mãos. E a propósito de cartas, meu filho, devo te fazer sentir que não deves deixar de datar as tuas, querido.... é tão esquisito, parece tão mal, tanto desleixo..... vê, filho, se de ora em diante fazes como toda pessoa que se preza de suas responsabilidades!
Parece-me estar a te ouvir dizer: esta mamãe.... sempre com as observações!
Mas meu filho, paciência, é por muito te amar, que te quero aperfeiçoar! Que saudades eu tenho de um beijo teu, e das nossas prosinhas.... vou para o quarto à noite sempre tão saudosa!
Descansa e cuida bem de tua saúde, para me ver recompensada!
Dona Lucilia continua a missiva comentando pequenos fatos da vida doméstica, e em dado momento exprime ainda uma vez as saudades do filho, dizendo-lhe parecer vê-lo entrar em casa a toda hora. E assim prossegue:
É hoje o dia do grande comício.  À noite, te falarei pelo telefone. Tive hoje um logro, e fiquei triste. Por causa de negócios teu pai não veio.
Fui ouvir uma missa em sua intenção. Até á noite, pelo telefone, meu filho? Abraços de tua avó, tua irmã, um beijinho de Maria Alice. Com minha bênção, envio-te muitos beijos e abraços.
De tua mamãe extremosa,
Lucilia
Na carta seguinte, de 27 de janeiro, Dona Lucilia dá a entender que tanto as saudades quanto o desejo de que seu filho tire todo o proveito da viagem não fizeram senão aumentar:
Filho querido!
Que saudades tuas, tive ao ouvir tua voz no telefone! Dou graças a Deus de que possas gozar desse bom clima e justo repouso, mas não obstante, ficarei muito contente quando te vir de volta. Imagino como devem ser agradáveis os passeios a cavalo, com os teus bons amigos. Quando era moça, gostava imenso de umas boas galopadas a cavalo, e é com saudades que guardo esta lembrança de meu passado, sobretudo, porque estes passeios eram sempre feitos em companhia do meu muito querido pai.
Espero que tenhas recebido os jornais que te mandei. Recebeste também o pacote de “Figaros” que te enviei? Segue hoje um número da “Ordem”. Fiz este borrão, porque estou experimentando escrever com uma caneta-tinteiro que comprei para você, e mexendo no deposito de tinta caíram estas gotas. (...)
Falando para a redacção do “Século” de lá me garantiram terem já sido enviados para aí os jornais, e que vão fazer segunda remessa.
Tei pai fez-me a boa surpresa de chegar inesperadamente ontem. Ele recebeu tua carta, e já levou cedo a resposta para o correio.
Maria Alice diz que te manda um beijo, nesse papelucho rabiscado por ela.
Tua avó ficou muito satisfeita com tua carta. Felizmente ela está de novo passando melhor.(…)
Não têm vindo cartas para você.
Não leias demais, descansa bastante, e tem muito cuidado com a saúde. Principalmente à noite, às horas de refeição, e à hora de vires do escritório, penso tanto em você, e com tantas saudades!
Muitissimo saudosa, abraça-te e beija carinhosamente tua mãe extremosa,
Lucilia.
Na última carta deste período, no dia 29 de janeiro, após dar notícias caseiras, Dona Lucilia informa seu filho:

Leste a Gazeta que te enviei?

O Ibrahin foi intimado a não prosseguir em artigos d’aquele teor, sob pena de prisão!
Pretendo ir co Helena à exposição no Trocadero. Dizem que está muita bonita e concorrida.

Em seguida se compraz em recordar:

Vou dar amanhã começo à fantasia de Maria Alice, me lembrando saudosa, de quando fazia para vocês dois.

Comenta ainda alguns fatos relacionados com a família, e encerra na esperança de receber aquilo que era sua única consolação durante a ausência do filho: as cartas dele.

Esperava hoje uma longa prosa tua,.... e nada!... Estás preguiçoso para escrever- me, meu filho? Estimarei que continuem a se divertir muito com as cavalgadas, bonitos passeios “a pé”, pela fazenda, outros á cidade, repouso na rede, leitura, gamão, muita prosa etc. Com tudo isso; estimo bem que esteja chegando a quarta-feira. Como você me faz ser egoísta! Abençôo-te, beijo-te, e abraço-te muitíssimo.

De tua mamãe extremosa,

Lucilia

Escreve-me.

Vésperas de tempos difíceis

Por essa época, há muito Dona Lucilia cessara a ação estritamente formadora de seus filhos. Dona Rosée, com 26 anos, tem família constituída e há algum tempo não mora mais com sua mãe. Dr. Plinio, com quase 24 anos, advogado, líder inconteste do Movimento Católico em São Paulo, vai se candidatar em breve a deputado federal constituinte pela Liga Eleitoral Católica, na Chapa Única por São Paulo Unido.

Apesar de tudo, por suas virtudes, por sua bondade, por sua determinação de sempre procurar a perfeição, por sua abnegação pelos filhos e por lhes querer todo o bem, a meiga e afetuosa solicitude de Dona Lucilia continuaria a fluir sobre eles como as águas de um rio caudaloso e límpido. O que seria um excelente apoio, especialmente para Dr. Plinio, pois este haveria de se lançar numa série de renhidas batalhas em defesa dos interesses da Igreja Católica e da Civilização Cristã.

Porém, a Dona Lucilia ainda esperavam inúmeros sofrimentos.

De fato, pouco depois, com a morte de Dona Gabriela, sua tão querida mãe, ela passaria por difíceis e inesperados reveses financeiros, somando-se assim à tão dolorosa perda a incerteza quanto ao futuro. De outro lado, as pugnas de Dr. Plinio trariam não só alegrias e triunfos, mas também muitas dificuldades e provações, às quais ela sempre permaneceria vinculada por seu zelo materno, como veremos nos próximos posts.

(Transcrito, com adaptações, da obra “Dona Lucilia”, de Mons. João S. Clá Dias)

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Tempo de apreensões e esperanças


As separações iam se tornando mais frequentes, à medida que aumentavam os compromissos apostólicos de seu filho Dr. Plinio, o qual ia se destacando como jovem e ardoroso líder mariano em todo o País. Essa projeção acontecia numa importante conjuntura histórica, nacional e internacional.
Com efeito, às profundas transformações nas mentalidades e nos costumes que abalavam o mundo nas primeiras décadas do século XX, seguiram-se revoluções políticas. Contudo, em nosso imenso e pacato Brasil a vontade de não lutar sobrepujou quase sempre a vontade de vencer. Na maioria dos casos, hábeis manobras evitaram confrontos cujas consequências poderiam ter sido trágicas.
Até 1930 o Brasil viveu sob um regime conservador, de base rural e com traços aristocráticos, que afirmava sua adesão doutrinária a uma democracia liberal. A história qualificou este regime de República Velha.
A situação internacional, a partir de 1918, exerceu efeitos desestabilizadores em nosso país. Três grandes impérios — Áustria-Hungria, Alemanha e Rússia — vistos como bastiões do conservadorismo, haviam desaparecido. Subia ao zênite o sistema político norte-americano, sustentáculo do apogeu econômico daquela nação e da irradiação de seu way of life.
No Brasil teve início uma onda de protestos em vários setores, exigindo a coerência da prática política com a inspiração doutrinária. No sulco da exacerbação de ânimos, a revolução de 1930 ia derrubar a República Velha.
Era natural que Dª Lucilia visse com desassossego as sublevações que marcavam o fim de um Brasil e o início de outro.
“Se fosse uma cruzada...”
Dr. Gabriel, seu irmão, que havia pouco fora Secretário da Agricultura, chegou à casa de Dª Gabriela explicavelmente alarmado por graves notícias, vindas de vários pontos do País. À hora do almoço, ocorreu um revelador diálogo entre ele e Dª Lucilia. Conhecendo-a bem, disse-lhe em tom de afetuosa provocação que Plinio devia ir se preparando para a mobilização militar, pois o governo estava para convocar todos os moços.
Se de um lado Dª Lucilia estava disposta a sacrificar seu filho pela Igreja, de outro jamais concordaria em que o enviassem para uma guerra civil na qual estavam envolvidos meramente, pelo menos na aparência, interesses políticopartidários. Por isso, sem perder a afabilidade, replicou a seu irmão com aquela firmeza toda sua:
— O Plinio não vai!
Para ver até que ponto chegava o ardor religioso da irmã, Dr. Gabriel comentou em tom de crítica:
— Para isso você não o deixa ir, mas se se tratasse de uma guerra de religião, de uma Cruzada, você o mandaria para a primeira fileira...
Ao que ela retrucou com vivacidade:
— É verdade! Se fosse para uma Cruzada, eu seria a primeira a mandar o Plinio para a batalha. E ele seria o primeiro a enfrentar os inimigos.
“Daqueles a quem Deus dá Fé, Ele próprio exige Esperança”
O levante armado de 1930 apanhou o jovem Plinio numa fazenda em Campos do Jordão, onde estava com primos seus a passar alguns dias. Evidentemente, a preocupação de Dª Lucilia pela integridade de seu filho foi enorme, sobretudo porque tornavam-se insistentes os rumores sobre uma mobilização geral dos moços em idade militar para combater as tropas revoltosas.
Plinio, logo que pôde, enviou-lhe uma carta, transbordante de amor filial, em que descrevia a esplêndida fazenda, onde estava recebendo excelente acolhida. Sua mãe não precisava se preocupar com o bem-estar nem com a saúde dele.
“Minha queridíssima Mãezinha
Não fossem as imensas saudades que sinto de todos e particularissimamente da Senhora, e também o receio de que seu pessimismo esteja arruinando sua saúde, e eu me sentiria perfeitamente bem nesta belíssima e confortável fazenda.
Os panoramas são lindos. Tem-se a impressão perfeita de estar vendo uma vista tiroleza. Aquela amenidade européia da natureza é aqui encontrada em todas as paisagens. Nunca pensei que isto aqui fosse tão estupendo. A casa é uma habitação em estilo brasileiro antigo e conta mais de 100 anos. Tem umas fechaduras enormes, com chaves colossais, o que é muito interessante. Está a habitação perfeitamente “amenagée” [bem-arranjada], com luz elétrica, água corrente e encanada e todo o conforto possível. Tomamos até banhos quentes!!!
Não lhe escrevi há mais tempo, porque as comunicações com a vila são muito difíceis. Dista a Vila de Capivari uma hora daqui. O mato aqui é muito denso e temos feito de manhã alguns passeios. Por isto, só lhe escreverei uma ou duas vezes por semana.
André tem sido para conosco de uma amabilidade perfeita. Tem nos tratado com uma solicitude extrema e com a maior gentileza. A mesa é excelente, e temos comido com um apetite extraordinário. Já entrei em um leitão e em um cabrito. Ando mais corado do que nunca!! O clima tem sido excelente, e muito temperado. Para maior tranquilidade sua, tenho a declarar que tenho sido de uma prudência absoluta, no resguardo de minha saúde. Tenho tomado toda a cautela no observar o intervalo entre os banhos e as refeições (diga-o a Rosée), e também me tenho resguardado de ventos encanados, etc, etc, inclusive de balançar em cadeiras que não são de balanço. (...)
Este repouso, para minha cabeça, será ótimo. Não tenho ainda começado a ler, para aproveitar a oportunidade de descansar bem.”
Após dizer que havia comungado por Dª Lucilia em Pindamonhangaba e pedir notícias da família, Plinio lhe dá um filial conselho naquele tão convulsionado período.
“Vamos, agora, à Senhora. Espero que tenha a suficiente dose de espírito religioso requerida pelas circunstâncias. A Esperança é uma virtude que decorre da Fé.
Daqueles a quem Deus dá Fé, Ele próprio exige Esperança. Espere, portanto, em Deus, porque nenhum fio de cabelo cai de nossa cabeça sem que Ele consinta. E, sendo assim, que temos nós a recear, quando somos protegidos por um Deus de Poder e Misericórdia infinitos? A Senhora, que gosta tanto de se orientar pelos princípios de Vovô Ribeiro, deve lembrar-se da grande confiança que ele tinha em Deus, a ponto de dar seus últimos 2$000 a um pobre, certo de que nada lhe faltaria, enquanto não lhe faltava a graça de Deus! E a Senhora, que, ao contrário dele, frequenta os Sacramentos, deve ter em Deus uma confiança ainda muito maior.
Comungue assiduamente, mas sem sacrifício para sua saúde, e reze muito a Nossa Senhora. O resto se arranjará.
Mande afetuosíssimos abraços e beijos a Papai, Rosée, Vovó e Maria Alice. A Antônio, um apertadíssimo e fraternal abraço. À tia Yayá, Tio Adolpho, Dora, e Adolphinho, muitos abraços e saudades. A todos os demais da família, o mesmo.
Para a Senhora, finalmente, todo o meu coração, todo o meu afeto, todo o meu carinho e todo o meu respeito. Abençoe o filho que tanto a quer.”
Pouco depois, Plinio escrevia novamente a sua mãe, renovando com o respeito de filho as recomendações da anterior missiva:
“Minha querida Mãezinha
Escrevo-lhe esta, para lhe enviar um afetuosíssimo beijo, e lhe pedir que se lembre de que é católica, e de que a proteção de Deus nunca lhe faltará. Comunguei hoje aqui, e rezei muito pela Senhora e por todos os nossos. Jesus me atenderá.
Muito cuidado com o fígado. Envie a Papai e a Rosée afetuosíssimos beijos. Outro tanto para Vovó, Maria Alice. Para a Senhora, meu bem, todo o meu coração. Até breve. Abençoe o seu
Filho”
Quem lê, noutra carta da mesma época — desta vez escrita por Dª Lucilia a Plinio — a referência às incontáveis orações feitas na intenção dele, para que Deus o preservasse dos perigos, bem pode notar a aflição em que ela se encontrava.
“São Paulo, 13-10-930
Filho querido!
Espero em Deus, que estejas com saúde, e por Ele, te peço, que com o máximo cuidado e prudência, evites toda e qualquer moléstia ou acidente.
O meu fígado vai melhor do que supunha, e, quanto à minha saúde, não te preocupes, pois vou passando regularmente. Tua avó está em franca convalescença, felizmente. Maria Alice ainda tosse um pouco, mas já está boazinha, e reza todos os dias por tua intenção. Eu o faço o dia todo.... são terços, coroas, ladainhas, novenas, etc.... já mandei pedir orações às freiras da Luz, que me mandaram umas quatro ou seis pedrinhas do túmulo de Frei Galvão, que desejaria poder mandar-te para [que] as tragas sempre junto a ti, para te curar ou preservar de moléstias e perigos. Vou mandar pedir orações também às freiras das Perdizes, e mando acender todos os dias uma vela a Santo Expedito. Fiz promessas ao Sagrado Coração de Jesus, a Nossa Senhora Auxiliadora, Santa Teresinha do Menino Jesus, e a São Luís, teu protetor. Deus permita que a paz volte logo! Nós ficaremos na Capital, pois creio que nada haverá por aqui. Teu pai, irmãos, e o pessoal de teu tio, mandam abraços.
 “Doida” de saudades, te abraço, te beijo muito, e muito, e te cubro de bênçãos.
De tua mãe muito extremosa,
Lú”
“Não cesso de pedir por ti!”
Talvez por dificuldade de comunicação naqueles convulsionados dias, Dª Lucilia não pôde enviar a seu filho a carta acima. Nesse meio tempo, tendo recebido por um portador a primeira missiva que Plinio lhe escrevera da fazenda, ela, com o coração apertado de saudades, acrescentou às linhas anteriores, em 16 de outubro, estas palavras cheias de unção:
“Não me tendo sido possível enviar-te esta no dia em que te escrevi, a seguir escrevo-te de novo. Com grande prazer e comoção, li tua carta, que conservo sempre á mão, para a reler todas as vezes que apertam as saudades, que são imensas!
Meu filho, peço-te mais uma vez, que te esforces por andar bastante, pois nesta época, receio que te vejas obrigado a grandes caminhadas, sem training algum, o que te será duplamente penoso. Não cesso de pedir por ti, e só me sinto tranquila, quando o faço, e muito! (...)”